O meu apego ilimitado à vida não me vem do conhecimento e da reflexão. Ao contrário, ele vem do lado que não tem objetivo e nem um projeto racional. Como diria o filósofo Voltaire (1694-1778) ''On aime la vie, mais le néant ne laisse pas d' ávoir du bon'' . Eu reafirmo esta frase do filósofo Voltaire, pois parece ridículo à minha racionalidade inquietar com a vida em tão curto espaço e em tão escasso tempo que dispomos na dimensão racional. Porém, mesmo que isto possa parecer pessimismo, sinto a necessidade em esclarecer que não se trata deste tipo de julgamento que tenho sobre a vida e nem uma demonstração pela vontade de morrer.
A vida é, apenas, uma atividade lúdica que constitui o elemento essencial que unifica os desejos e a razão como orientação para percorrer o caminho incerto e inseguro que dispomos. No entanto, meu esforço é demonstrar que não há espaço para um homem lúdico que valorize o homem constituído puramente da razão. É neste estranho confronto entre o ''homem sério'' e o ''homem brincalhão'', que tento qualificar na vida, me traz o cuidado das generalizações e as conclusões precipitadas que afastam a precaução e as conseqüências de qualquer ação.
Uma vez me disseram que ''a maior musa inspiradora da filosofia e das religiões é a morte''. Em todo caso, a vida deve realmente ter seu fim - que é a morte - mas abordar este fim é uma conclusão precipitada e correríamos o risco de cair dum precipício e, sem perecer, continuar caindo numa dúvida interminável, invejável inclusive ao mais perspicaz dos céticos. Então, como devemos abordar a vida sem o medo da morte? Aliás, esta questão é uma das que considero mais profundas, pois para solucioná-la teríamos que discutir a morte e depois a vida, separadamente, para enfim compreendermos a cultura da morte num espaço e num tempo determinado e situado numa circunstância.
Não é nada fácil separar, conceitualmente, a vida e a morte. Então, eis a dificuldade em compreender como seguiríamos nosso desafio de viver, sem ter que morrer. Porém, em minha trajetória e experiência considerei apenas o lúdico como uma categoria que poderia separar estes estados de espírito e suas condições reais. O lúdico, o jogo, o entretenimento é a forma que podemos compreender, sem confusão, a vida e a morte. O lúdico estabelece os limites dos dois extremos que marcam nosso breve intervalo vital e é por isto que o considero fundamental para tornar-se presente à existência humana.
A vida cede ao jogo e à competição. Daí surge a alegria e a felicidade que impedem que pessoas angustiadas tenham a ousadia em interromper sua orientação aventureira. Ao abordar a vida, como um jogo, nós começamos a nos sentir com a vitalidade infantil, que não seria de todo ruim, mas que poderia ser considerado imaturo, quando não se verifica nenhuma possibilidade de renascimento. Eliminaríamos a apatia e incentivamos a expectativa através dos deslumbres com o mundo, e não mais com o espanto, como queriam alguns filósofos racionais. No jogo, também, há o desejo pela vitória; o saborear dos momentos; e o sentir dos carinhos de suas peças vitais, como os amantes. Mas também há derrotas, que podem nos levar à maturidade e à experimentação da vida ou a preferência pela morte. Assim, a vida é um emaranhado de desejos que estariam livres de julgamentos ou rótulos, mas não das regras e normas naturais, impostas pelas leis biológicas. O viver, que sai das leis biológicas, tem que encontrar uma perspectiva ou um significado que fascina a vontade e o desejo, para que se faça valer à pena e que não seja redutível às classificações enciclopédicas.
A morte surge quando pensamos. E o pensamento vem com a preocupação sobre a não-existência - o Nada. A morte é o vazio que, por carência, tentamos preencher com critérios, também culturais, quando não sentimos mais a sede de jogar. O medo de morrer não pode ser ocasionado pelo simples fato de não-existir, pois não existíamos também antes de sermos concebidos no ventre materno. O medo de morrer vem da preocupação em não poder viver mais o nosso lado lúdico ao lado da pessoa amada.
Assim, a vida é sempre a mais desejada e a mais conservada atividade que possuímos, porém conseguimos pensar que às vezes ela possa não valer a pena. A morte, ao contrário, é o nosso lado obscuro que, assim como Voltaire condiciona: ''que ela não deixa de ter seu lado bom'', mas que se pudermos separar da vida, o fazemos com ideias de salvação, bem-aventurança e paraíso. Eis o resultado da razão e da preocupação em preencher o nada com entidades que já não dominam os pensamentos. Eu não admito qualquer preenchimento da morte com tais entidades culturais. Eu admito que a morte seja o final. É difícil admitir que a morte seja o fim da vida. Mas, o caminho da vida será sempre a morte.
''Amar-se a vida; mas o nada não deixa de ter o seu lado bom'' (Voltaire). |