As denúncias feitas no ano passado por dezenas de vítimas de abusos sexuais e pedofilia praticados por membros do clero irlandês nas décadas de 1970 e 1980 desencadearam uma sucessão pública de escândalos semelhantes pelo mundo afora. Diante de mais uma situação crítica em sua história, o Vaticano se pronunciou, afastou sacerdotes, pediu penitência aos católicos e clamou por perdão. Apesar do grande esforço da Igreja para tentar aplainar a crise, os casos não param de surgir.
Em Minas Gerais, o ex-seminarista Francisco José Gomes Filho, 27, em entrevista ao jornal “O TEMPO”, diz ter sido "assediado sexualmente, perseguido, ameaçado e intimidado", segundo a petição proposta na comarca, por três padres, em 2004 e 2005. Seus advogados entraram com uma ação indenizatória de R$ 1,3 milhão no Fórum de Juiz de Fora, na Zona da Mata, em março deste ano, por danos morais. A matéria foi divulgada pelo jornal “O TEMPO” em 18 de abril de 2010. (Anexo 1).
O episódio do suposto assédio sexual teria ocorrido em 2004 durante um encontro espiritual na capital mineira, enquanto Francisco tinha 21 anos e era estudante do extinto seminário Pré-Juvenato São Geraldo - em Barbacena, no Campo das Vertentes -, que pertencia à Congregação do Verbo Divino. De volta ao seminário Francisco afirma ter relatado o suposto assédio a seus companheiros de curso. Foi quando descobriu que o padre havia assediado outros seminaristas. A partir daí Francisco e outros seminaristas começaram a ser perseguidos e acabaram sendo transferidos para o seminário da congregação em Juiz de Fora.
Na época dos supostos assédios, o ex-seminarista chegou apenas a depor no Tribunal Eclesiástico da Arquidiocese de Juiz de Fora. O tribunal considerou improcedente a denúncia. Depois dessa série de acontecimentos, Francisco diz que passou a ser perseguido, chantageado e ameaçado. Hoje, o ex-seminarista mora com o padrinho, dono de um hotel em Ponte Nova, onde trabalha como recepcionista. Um dos três padres acusados estaria atuando hoje em uma paróquia de Barra Mansa (RJ) e os outros dois em um colégio com sede na capital mineira, que pertence à congregação.
Após alguns dias da divulgação dessa notícia pelo jornal “O TEMPO”, foi divulgada uma nota de esclarecimento (Anexo 2), em um jornal de Juiz de Fora, que também havia publicado a notícia sobre o suposto abuso ao ex-seminarista. Na nota, o Jornal Leopoldinense, de Juiz de Fora, deu espaço aos representantes legais da Arquidiocese de Juiz de Fora e da Congregação do Verbo Divino, que esclareciam ser improcedentes as denúncias de Francisco e que o objetivo do mesmo é enriquecer-se ilicitamente às custas de instituições sérias, renomadas, honestas e sólidas, bem como, concretizar eventuais retaliações contra terceiros. Após esta ocorrência não foi dado mais nenhum esclarecimento sobre o assunto.
Outro caso de pedofilia chama a atenção, agora na cidade de Itabira, que se localiza a aproximadamente 287 km do Campo das Vertentes. De acordo com notícia divulgada no Jornal “O TEMPO” (Anexo 3), um boletim de ocorrência foi aberto contra o Padre Márcio Soares da Paróquia Nossa Senhora da Piedade em Itabira. Ele é acusado de abusar sexualmente de um garoto de 11 anos com problemas mentais. A petição foi realizada pelo pai da criança, que afirma que seu filho teria relatado momentos íntimos com o suspeito. Vizinhos do menino também disseram que a criança relatava para todo mundo os momentos ao lado do padre e que muitas vezes já teria sido visto dentro do carro do religioso.
Em entrevista concedida à imprensa no dia 24 de maio as advogadas Carla Alexandra Silvana Silva e Cristina Guerra, relataram o posicionamento do religioso que não compareceu a coletiva. Segundo as advogadas ele negou qualquer envolvimento com a criança e disse que nunca teria tido contatos com a mesma. “Padre Márcio nem mesmo conhece essa criança. Ele nos garantiu que isso tudo não passa de um mal entendido e reiterou várias vezes que tudo deve ser esclarecido, ressaltando uma velha máxima; quem não deve não teme”, disse Carla Silva. Também participaram da entrevista o assessor pessoal do padre Lúcio Barbosa e o Vigário geral da Diocese Itabira/Coronel Fabriciano Padre Francisco Guerra representando a Igreja. Para o Vigário ainda é cedo para condenar o pároco, já que as investigações estão sendo iniciadas e os fatos precisam ser apurados. Enquanto nada é comprovado o padre continuará exercendo suas atividades sacerdotais normalmente.
A Delegada responsável pelo caso já ouviu o padre e afirmou que ele nega as acusações. Ela abriu um inquérito para apurar as denúncias contra o religioso, mas aguarda o laudo dos exames do Instituto Médico Legal (IML) para finalizar as investigações. A criança já teria sido examinada por um médico-legista e a expectativa é o resultado dos exames que sairiam em 30 dias, porém ainda não houve nenhum pronunciamento sobre o caso. Quem também acompanha o caso é o Conselho Tutelar que manteve assistência a criança e aconselhou o responsável a procurar a polícia.
Caso semelhante é o do padre polonês Marcin Michal Strachanowski, 44, suspeito de transformar a casa paroquial da Igreja Divino Espírito Santo, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, numa espécie de "masmorra erótica". O padre, que tantas vezes negou o envolvimento com menores e as denúncias de abuso e assédio sexual, agora é procurado pela polícia. A Justiça do Rio enviou à Polícia Civil o decreto de prisão preventiva, Policiais da 33ª DP (Realengo) fazem buscas para tentar localizar o sacerdote. Segundo A Folha (Anexo 4), a denúncia foi realizada em 2006 pelo Ministério Público Estadual, segundo o qual, o religioso teria algemado um jovem, na época com 16 anos, a uma cama e feito sexo oral nele, na casa paroquial. A vítima afirmou que o sacerdote chegou a oferecer dinheiro com a exigência de "silêncio" e o ameaçou, dizendo que "já sabia as flores que colocaria em seu caixão".
"As provas colhidas durante a investigação apontam o indiciado como uma pessoa compulsivamente ligada a sexo com adolescentes. O acusado arregimentava esse rebanho de inocentes jovens para levá-los a sua casa paroquial, subestimando sua alta relevância espiritual para transformá-la numa espécie de 'masmorra erótica' onde submetia estes jovens, inclusive com emprego de algemas, as orgias descritas entre risos nas 'conversinhas' mantidas com seus amigos na internet", escreveu o juiz na decisão. Durante a investigação, o padre negou todas as acusações e se dizia injustiçado, por ser incapaz de cometer tamanha atrocidade. Após o decreto de prisão o pároco desapareceu, o que põe em dúvida sua integridade e suas declarações de inocência.
Em abril deste ano também foi aceito, pelo juiz da 2ª Vara Criminal de Franca, no interior de São Paulo, o pedido de denúncia contra um padre de uma paróquia da cidade, pela prática de crimes sexuais contra oito adolescentes que atuavam como coroinhas. De acordo com notícia divulgada pelo G1(Anexo 5), a Justiça de Franca, a 400 km de São Paulo, aceitou a denúncia de pedofilia feita pelo Ministério Público contra o padre José Afonso Dé, de 74 anos. O sacerdote passa a ser considerado réu no processo e deverá ser julgado pelas acusações dos crimes de estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude que teria cometido contra adolescentes. A informação é da assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça do estado. O pároco, que está afastado de suas funções na Igreja Católica, é acusado de abusar sexualmente de garotos em Franca e em Carpinópolis, interior de Minas Gerais, em 2010, 2009, 2001 e 1995. As supostas vítimas são oito coroinhas e ex-seminaristas que tinham idades entre 12 e 16 anos quando teriam sido molestados. O pároco, também, nega os crimes.
A Igreja Católica tem passado por momentos conflitantes. A imprensa tem ressuscitado fatos que ocorreram ao longo do tempo de padres pedófilos como também trazido à tona a omissão do alto clero que, segundo a imprensa, acobertaram tais pedófilos. Ainda no pontificado de João Paulo II, que se deu o inicio do escândalo da pedofilia na Igreja, porém o então papa com muita rapidez tomou medidas rígidas aos padres pedófilos que se acabou esgotando o assunto e a Igreja passou pela crise. Porém, novamente o tema vem à tona e a Igreja volta a ser o centro da atenção sobre a pedofilia.
No último dia 11 de maio, o papa usou palavras duras para falar dos casos de pedofilia na Igreja Católica e disse que o "perdão não substitui à justiça" e que estes escândalos evidenciam que a "maior ameaça para a Igreja não vem de fora, de inimigos externos, mas de seu interior". Ratzinger, que declarou "tolerância zero" contra a pedofilia, acrescentou que "a maior perseguição" da Igreja não vem de inimigos de fora, "nasce do pecado da Igreja". "A Igreja tem uma profunda necessidade de voltar a aprender a penitência, de aceitar a purificação, de aprender o perdão, mas também a necessidade de justiça, já que o perdão não substitui à justiça", assegurou.
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) divulgou, em maio, as principais medidas que tomará nos casos de pedofilia e outros abusos sexuais que envolvam membros da Igreja Católica. A entidade elaborou uma lista de orientações aos bispos, de como agir diante de denúncias. Uma das principais recomendações é a "garantia de uma rápida e eficaz resposta frente às acusações de abuso sexual", com a suspensão do padre de suas funções na paróquia e também com a ajuda às investigações civis. Em relação à formação dos novos padres, a CNBB indicou que deverá ser feita uma "acurada seleção dos candidatos" ao seminário, com testes que permitam a admissão de pessoas "com indispensável saúde física e mental, somada aos atributos de equilíbrio moral, psicológico e espiritual". Em abril o Vaticano já havia disponibilizado um Guia para a compreensão dos procedimentos de base da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) relativa às acusações de abusos sexuais (Anexo 6).
As denúncias de abusos sexuais recairam sobre a Igreja Católica em países como Itália, Reino Unido, França, Estados Unidos, Noruega, África do Sul, Irlanda, Dinamarca, Canadá, Áustria, Espanha, Alemanha, e outros da América Latina. O Pontífice, em algumas ocasiões, lamentou os possíveis crimes de pedofilia e ressaltou como eles prejudicam a imagem e a função da Igreja Católica. Desde o início do ano, quando inúmeras denúncias contra religiosos foram divulgadas pelos veículos de comunicação de diversos países, Bento XVI tem se mostrado bastante abalado.
No início deste mês, ao encerrar o Ano Sacerdotal, Bento XVI voltou a pedir desculpas "a Deus e às vítimas" de tais crimes. Esta não é a primeira vez que o Papa fala sobre as denúncias. Em março, em uma carta pastoral aos católicos irlandeses, ele se disse "envergonhado" pelos episódios de abusos cometidos por religiosos do país. Em abril, ao se reunir com vítimas de pedofilia em Malta, ele expressou "consternação" e "dor" por aquilo que elas sofreram.
As primeiras acusações tiveram origem na Irlanda e se espalharam por outros países. Depois de anos de petições das vítimas de violações para que a Igreja tomasse medidas e o governo julgasse os responsáveis e, depois de uma série de atos censórios nos media irlandeses, o governo de Dublin encomendou um estudo que demorou nove anos a fazer. Em 20 de Maio de 2009 a Comissão publicou um relatório de 2.600 páginas.
Este relatório incluía testemunhos de milhares de antigos internos e de responsáveis por mais de 250 instituições controladas pela Igreja. A Comissão constatou que quer sacerdotes quer freiras católicas tinham aterrorizado milhares de meninos e meninas ao longo de décadas e que os inspetores do governo tinham fracassado na hora de cortar radicalmente com as tareias, as violações e as humilhações crônicas e diárias. O relatório qualificou as violações e os abusos sexuais de endêmicos nas escolas e nos orfanatos católicos dirigidos pela Igreja da Irlanda.
Em função disso, o Papa iniciou uma reforma gradual da Igreja com a substituição de quatro bispos na Irlanda e tomou medida para nomear um delegado especial para controlar diretamente a congregação de Legionários de Cristo, cujo fundador, o mexicano Marcial Maciel, foi acusado de abusos sexuais, enfatiza um comunicado oficial da Santa Sé.
A investigação se estenderá para outras dioceses, indicou o Vaticano, que decidiu tal medida a fim de "assistir aos bispos, ao clero, aos religiosos e aos fieis", afirma ainda o comunicado. A "visita apostólica" foi anunciada pelo próprio Papa em 20 de março passado na carta pastoral dirigida aos católicos irlandeses. Até agora, sete bispos e auxiliares irlandeses envolvidos nas investigações apresentaram renúncia a seus cargos, dos quais cinco já foram aceitas pelo Papa.
O Pontífice alemão, que também foi acusado de pessoalmente ter acobertado um caso quando era arcebispo na Alemanha, optou pela tolerância zero contra os padres pedófilos depois da explosão, no início do ano, de uma série de escândalos na Irlanda. O cardeal arcebispo de Viena, Christoph Schönborn, disse que o papa Bento XVI não investigou um caso grave de pedofilia na Igreja austríaca, quando ainda era responsável pela Congregação da Doutrina da Fé, porque teria sido impedido pelo então papa João Paulo II.
A Igreja Católica tem como tradição tratar com discrição as denúncias de abusos sexuais em suas fileiras. Como recurso para proteger a imagem da instituição, os casos geralmente são encerrados com reprimendas simbólicas, como a transferência para outra paróquia, o tratamento psicológico em clínica especializada, ou o pagamento de indenizações pelo silêncio absoluto das vítimas ou a retirada de queixas. Foi dessa forma que em 2002, ainda no pontificado de João Paulo II, a Santa Sé tentou lidar com a série de escândalos envolvendo padres que atacam sexualmente meninos nos Estados Unidos. O silêncio na alta hierarquia romana passava a mensagem de que o problema era visto como uma excentricidade americana e acabaria por sumir. No entanto, surgiu uma grande quantidade de casos similares em toda parte do mundo e a pedofilia de batina se tornou o epicentro de uma das maiores crises da Igreja nos tempos modernos. Na época, os escândalos surgiram nos EUA, Alemanha, França, Irlanda, Inglaterra, Polônia, Austrália e Canadá.
Em 2002, as denúncias contra sacerdotes americanos foram um golpe para o catolicismo. Durante décadas, a Igreja Católica manteve-se discreta em relação a denúncias de abusos sexuais envolvendo padres e praticados quase que exclusivamente contra meninos. Cada caso era tratado com extrema cautela, e só diante de evidências irrefutáveis o religioso acusado recebia algum tipo de punição – na maioria das vezes, uma transferência de paróquia. Em 2002 o papa João Paulo II acuado por uma sucessão de escândalos de padres que atacam meninos, se viu obrigado a abordar o assunto publicamente.
O pivô do escândalo foi Bernard Law, cardeal de Boston. Em janeiro de 2002, quando um certo padre John Geoghan foi levado a julgamento, tornou-se público que o cardeal de Boston o tinha transferido de uma paróquia para outra, sempre que ele se envolvia em novo caso de pedofilia. Geoghan, acusado de estuprar mais de 130 crianças em trinta anos, foi sentenciado a dez anos de cadeia pelo crime de ter abusado de um menino de 10 anos. Ele ainda responde a processo por “assalto indecente” e agressão a outro garoto, em 1990.
Segundo o atual arcebispo de Viena, atualmente a política da Igreja está mudada e sacerdotes que cometem abusos sexuais são imediatamente suspensos e destituídos do sacerdócio. "Infelizmente, no passado preferiu-se, injustamente, proteger os carrascos e não as vitimas, enquanto que a preocupação com estas deve estar em primeiro lugar", disse Schönborn em entrevista à televisão austríaca no começo de março, logo após a reunião da Conferência Episcopal da Áustria.
Na última semana um novo escândalo abalou o Vaticano, desta vez sobre suspeitas de corrupção na gestão do valioso patrimônio da Santa Sé, e tudo parece indicar que o papado irá optar, novamente, pela "tolerância zero".
De acordo com notícia divulgada pela AFP (Anexo 7), no Portal R7 Notícias, o Ministério Público investiga a venda, em 2005, de um palácio do Vaticano de 960 metros quadrados na região central da Via dei Prefetti ao ex-ministro dos Transportes de Silvio Berlusconi, Pietro Lunardi, a um preço inferior ao valor de mercado (4,1 milhões de euros, cerca de 5 milhões de dólares).
Os agentes suspeitam de que o cardeal italiano e arcebispo de Nápoles, Crescenzio Sepe recebeu por esse "favor" a soma de 2,5 milhões de euros para financiar um projeto de restauração dos museus vaticanos - que nunca saiu do papel. Crescenzio Sepe, está sendo investigado pela má gestão do enorme patrimônio imobiliário da Santa Sé, com um orçamento autonomo de cerca de 9 bilhões de euros (por volta de 11 bilhões de dólares).
Segundo os especialistas, a reação oficial do Vaticano limita-se a manifestar "estima e solidariedade" a Sepe e deixa a entender que, como nos casos de religiosos pedófilos, as autoridades eclesiásticas vão autorizar que a justiça comum siga seu curso e realize as investigações. O cardeal, que goza de imunidade diplomática, segundo a Concordata entre a Itália e o Vaticano, anunciou no domingo que colaborará com a justiça italiana durante os interrogatórios das próximas semanas pelos procuradores de Perugia. "Depois dos escândalos de pedofilia, a Igreja decidiu tomar atitudes claras e transparentes em todos os aspectos", destacou o vaticanista Bruno Bartoloni, ao ressaltar a linha de "tolerância zero" ante aos abusos cometidos no mundo.
Questionar e exigir punição pela atitude de alguns dos membros da Igreja se faz necessário, porém, deve-se ter cautela para não denegrir a imagem cristã e tirar a credibilidade de uma instituição sagrada. Os casos de pedofilia não são pecados da Igreja Católica, são crimes de seres humanos, independente da instituição ou da função que ocupam.