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Cidades
José Venâncio de Resende
Jornal das Lajes > Cidades
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APADEQ se profissionaliza para atender demanda crescente na luta contra drogas
 

Diariamente, cerca de sete a dez pessoas batem na porta da Associação dos Parentes e Amigos dos Dependentes Químicos (APADEQ), pedindo ajuda para tratar um filho, o marido, um irmão ou algum outro parente. Em dez anos, a entidade já fez 2.300 internações e este número só tem crescido a cada ano. “Nós não damos conta”, diz o vice-presidente da APADEC, Rogério Godoy.
 
Além disso, a APADEQ tem um serviço de ambulatório em São João del-Rei e em Barbacena que já atendeu, nos últimos dois anos, cerca de 500 pessoas, das quais  quase metade são familiares de dependentes químicos. “A gente chama de co-dependência”, diz Godoy, que é físico com pós-graduação em geofísica e professor aposentado da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
 
A APADEQ, com sede em São João del-Rei, surgiu em 1988, por pessoas que tinham problema de droga na família e fizeram o tratamento dos filhos no CREDEC (Centro de Recuperação de Dependência Química) do Rio de Janeiro. Seu Oliveira e seu Luiz Balbino procuraram o dr. Tidinho – dr. Euclides – e fundaram a APADEQ. Com o apoio de dona Risoleta, conseguiram doação do Bradesco para a construção das instalações da APADEQ, inauguradas dez anos depois com o nome de Vila Esperança.
 
Há dois ou três anos, o professor de psicologia Geraldo Resende, já falecido, abraçou a causa da dependência química na UFSJ. Em parceria com o departamento de psicologia da Universidade, vários alunos de psicologia passaram a fazer estágio na APADEQ. E com o apoio desses estagiários foi criado um serviço de ambulatório para atender pessoas que têm comprometimento mais leve. “O comprometimento de crack, por exemplo, é internação mesmo”, diz Godoy. 
 
Segundo pesquisa nacional do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), da USP, em 2007, 12% da população do Sudeste é dependente químico, dos quais 10% são de álcool. “Mas outras drogas estão começando a crescer, principalmente o crack. O crack está entrando de maneira horrorosa, principalmente na juventude”, alerta o dirigente da APADEQ.
 
Otratamento na APADEQ é basicamente psicológico, mas tem também o lado espiritual “porque a base do nosso tratamento são os doze passos do AA (Alcoólicos Anônimos)”, conta Godoy. É chamado de método Minnesota, criado nos Estados Unidos em paralelo ao surgimento do AA, numa clínica chamada Hazelden (Minneapolis). Esse método mistura o AA com instrumentos da psicologia comportamental e cognitiva.
 
O dependente químico é tirado de circulação de 40 a 45 dias, o tempo de internação na APADEQ. O conselheiro em dependência química, Ronaldo Lara Tanus, resume a vivência dos 12 passos da recuperação. “Esses passos são vivenciados em AA, NA e outros grupos anônimos. O primeiro passo da recuperação consiste em o dependente químico admitir e aceitar sua derrota, ou seja, é o passo da humildade, da confiança. O segundo é o passo da fé. O terceiro é o passo de ação, de atitude. O primeiro, o segundo e o terceiro passos são o oxigênio que esse residente vai adquirir para dar um mergulho dentro de si mesmo. É um trabalho de auto-conhecimento, da auto-aceitação. Então, ele vai escrever sobre a sua vida quando entrará em contato com o seu sentimento, o seu passado. No quinto passo, depois que ele escreveu o inventário, ele vai compartilhar as suas experiências do passado com um ex-residente de Vila Esperança.”
 
Depois do tratamento, começa o período do pós-tratamento, de acompanhamento, “onde ele irá participar de grupos de terapia, dinâmicas de grupo, palestras etc. com o objetivo de fortalecer, de manter essa chama da recuperação acesa. Também frequenta paralelamente os grupos do AA e do NA. Na realidade, os doze passos são uma nova maneira de viver. Existe vida após as drogas”.
  
Doações e convênios - A maior parte dos recursos da APADEQ vem de doações de 10 a 20 reais da população das cidades da região, revela Godoy. “Nós temos um sistema de telemarketing e quem sustenta a APADEQ são as pessoas do povo. Eu aproveito para agradecer o apoio da população de São João del-Rei, de Resende Costa, de Prados, das cidades da região...” 
 
Além disso, a APADEQ recebe verba da prefeitura são-joanense e está articulando convênios com outros municípios. “Nós já temos convênio com a prefeitura de Santa Cruz de Minas, estamos fechando um convênio com São Tiago e existe um interesse grande das prefeituras da região”, conta o vice-presidente da entidade.
 
A APADEQ aposta também nos convênios com empresas para ter uma receita mais estável, acrescenta Godoy. “Geralmente, quando chega a época, como dezembro – que a gente precisa mais por causa, por exemplo, do décimo-terceiro dos funcionários – o telemarketing cai”.
 
A APADEQ já assinou convênios com a Vale, a Petrobrás, os Correios e a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) para tratar seus dependentes químicos. “A nossa esperança é que esses convênios nos deem um lucro que possa ser revertido para o tratamento de quem não pode pagar. Para se ter ideia, 80 % do pessoal que entrou na APADEQ é gratuito. Se não é totalmente gratuito, dá uma cesta básica”.
 
Segundo Godoy, o custo de internação está em torno de R$ 3 mil a R$ 3.500, para um período de 30 a 40 dias.A APADEQ está calculando o custo de um paciente em bases mais realistas (refeição, procedimento terapêutico durante o tratamento etc). “Com uma planilha dessas, vamos ter um instrumento para negociar com as empresas, com a Secretaria Antidrogas...” O custo da diária de um paciente na APADEQ é estimado em R$ 108,00.
 
Outra medida é acriação de um formulário sócio-econômico, com o apoio da UFSJ, para identificar o perfil das pessoas, conta Godoy, “porque vemos gente lá com carro do ano e que quer ter tratamento gratuito”. O formulário, que conterá informações sobre a situação social do candidato, vai ajudar a convencer o paciente de maior renda a contribuir para manter pacientes que não podem pagar. “Também vai trazer dados da situação social que mais tarde podem servir para pesquisas, por exemplo, sobre a incidência de drogas na classe A ou na classe B...”
 
Profissionalização - A reforma no estatuto da APADEQ, na assembléia do dia 29 de março, abriu caminho para a profissionalização da gestão da entidade. Uma das mudanças é a criação do cargo de diretor-executivo, que é um funcionário qualificado. “Nós lidamos com telemarketing, uma quantidade razoável de dinheiro, temos que fazer projetos, entrar com esses projetos nos fundos atrás de verbas... Isso tem que ser uma atividade mais profissional”, diz Godoy.
 
O passo seguinte é o planejamento estratégico da APADEQ, para identificar os desafios, as ameaças e as oportunidades. São metas a capacitação cada vez maior dos funcionários, inclusive em termos de titulação, numa parceria com a UFSJ e o crescimento da área de pesquisa. “O meu sonho é que a APADEQ daqui a algum tempo possa ter uma boa parte da sua manutenção feita pelo próprio trabalho. E que os lucros dessa manutenção se revertam para o tratamento daqueles que não podem pagar. Que a gente possa fazer convênios com empresas sem diminuir o número de internações gratuitas – ou talvez até ampliar a APADEQ”, revela Godoy.
 
A APADEQ tem um quadro de 54 funcionários, dos quais dois psicólogos no ambulatório, além dos estudantes de psicologia da UFSJ, e quatro psicólogos e seis conselheiros de dependência química (com nível médio e geralmente ex-residentes) no tratamento residencial (internação), que é o mais pesado. Além disso, tem o pessoal de administração, secretárias, telemarketing, cozinha, monitoria, vigilância, limpeza e jardinagem.
 
Na formação de mão-de-obra no setor, Godoy cita o curso de aperfeiçoamento (pós-graduação latu-sensu) na área de dependência química, fruto de parceria com a UFSJ e a Secretaria Antidrogas. Também está previsto curso de técnicos e conselheiros para pessoal de nível médio, com carga de 1600 horas. “Eu acho que essa rede está crescendo, e esse ano já devem sair alguns resultados práticos.”
 
Ações preventivas - Godoy admite que não existem ações preventivas na região, além dotrabalho da Polícia Militar com os alunos de primeiro grau. A APADEQ está iniciando projeto - inicialmente com um colégio – de criar uma metodologia, com o apoio da Secretaria Antidrogas do Estado. “Nós vamos tentar trabalhar principalmente com pais e mestres, para a pessoa conhecer o que é dependência química, diminuir um pouco o preconceito, aprender a lidar com ela e prevenir também”.
 
Ele defende o trabalho integrado e cita contatos com a diretoria da Associação Comercial e Industrial de São João del-Rei, com o comandante da Polícia Militar, o subcomandante do Exército e a UFSJ. A APADEQ sozinha não tem condições de lidar com o problema do adolescente... Se a comunidade não assumir isso, nós vamos ter problema muito sério, aliás já estamos tendo problema muito sério com o crack”.
 
Mas Godoy critica a ausência dos médicos no problema da droga. “Eles não se envolvem, não querem se meter... Tem alguns heróis, como o dr. Tidinho e o dr. Tanus (que é nosso médico na APADEQ), mas a classe médica como um todo não se envolve”. Ele também acha estranho que os planos de saúde não financiem internação, o tratamento. A dependência química hoje é considerada pela Organização Mundial da Saúde como uma doença.”
 
Também reclama da falta de assistência médica sistemática por parte do setor público. “Dentro da área de saúde, você não tem uma política bem determinada para as drogas. Quem segura as pontas no tratamento de drogas é o pessoal da área de psicologia e o pessoal religioso: a Igreja Católica, as Igrejas Evangélicas...”
 
Por fim, Godoy diz que a APADEQ parou de tratar de adolescentes. “Se tivesse que atender ao estatuto da criança e do adolescente, a APADEQ fechava as portas.” Além de mudar o estatuto da criança e do adolescente, ele defende que as pessoas precisam acordar para a chegada do crack. “O traficante está começando a entregar droga para o menino de 11 anos. A gente precisa começar a repensar este estatuto da criança e do adolescente, que tem dois problemas sérios: angelifica o adolescente e demoniza o trabalho, como se criança trabalhar fosse uma coisa horrível.”
 
Contato com a APADEQ pode ser feito pelos telefones (32) 3371-9832 e 3371-6299 ou pelo e-mail apadeq@city10.com.br
     
 
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