Há muito que a corrupção endêmica tornou-se notícia exclusiva na imprensa brasileira. Para não ir tão longe, desde o escândalo do mensalão que só ouvimos falar de subornos, favorecimentos, abusos de poder, entre outros “temas” que estão maculando gravemente a ética e a instituição política brasileira. Diante deste cenário político perverso é incrível observar quanto nós brasileiros estamos indefesos e ao mesmo tempo nas mãos de larápios e oportunistas que, pior, nós mesmos elegemos.
O Congresso brasileiro encontra-se atolado num lodaçal de denúncias atrás de denúncias. É deputado dono de castelo milionário, parlamentar que está se lixando para a opinião pública, farra com as cotas de passagens aéreas, nepotismo às claras etc., etc., até surgirem novas denúncias. Enquanto isso, projetos importantes e temas relevantes ao interesse público e necessários ao desenvolvimento do país são sufocados pelas inúmeras e ineficazes CPIs. Atualmente, o que está em foco no nosso Congresso Nacional não são os bons projetos, mas os já desacreditados Conselhos de Ética.
Como é bonito pronunciar Conselho de Ética! Temos a sensação de que neste dileto grupo encontram-se somente homens públicos imaculados, idôneos e eficazes escribas no conhecimento e na aplicação da ética. Quanta inocência! O tal Conselho de Ética tem-se revelado em nada mais do que um mecanismo perfeito para barganhas (i)morais.
E a imprensa? Tantas denúncias, tantas descobertas e tantos furos de reportagens com o intuito de despertar a opinião pública parecem não lograr êxito. Após o furor das publicações, o fato, ou os fatos, são encobertos ou jogados ao limbo do esquecimento através de inúmeros mecanismos que a atual legislação brasileira oferece. Ou será que é devido à memória de nós brasileiros, que alguns malvados dizem ser curta? Creio que a imprensa tem cumprido o seu papel, mesmo a contragosto de inúmeros políticos que enxergam proselitismo e outras tendências escusas nos veículos de comunicação. Certamente, tal julgamento nada mais é do que uma forma desesperada de encontrar desculpas, mesmo sabendo que para seus atos não as há. Se existe uma instituição no estado brasileiro de direito que ainda goza de respeito e prestígio é a imprensa, mesmo com suas reconhecidas falhas. É preciso valorizarmos a nossa livre imprensa e rechaçarmos toda e qualquer proposta, velada ou explícita, que vise a amordaçar jornalistas.
Porém, o que todos nós realmente desejamos da imprensa é vê-la noticiar fatos deveras relevantes para a promoção de um Brasil sério, desenvolvido e, acima de tudo, maduro. Como falar de um país que desenvolve e que postula um status entre os grandes se a base política não tem reputação ilibada? Como reconhecer respeitosamente uma nação se os seus próprios representantes públicos não a reconhecem? Como falar de Brasil se a nossa voz é calada por sucessivos escândalos?
Apesar desta triste realidade, somos brasileiros e como tal não desistimos nunca. Apesar também da momentânea inércia ideológica que nos acomete, estamos conscientes de que o país precisa mudar. Para além da badalada crise econômica que ocupa as atenções de todos, existe uma crise moral, ideológica e de autoestima. Sim, quando desacreditamos na política e a abominamos, reconhecemos que a nossa autoestima, enquanto cidadãos essencialmente políticos, tal como postulou Aristóteles (sec. IV a.C.) e para quem a política é a realização da ética do bem comum, está perigosamente em baixa. Isso sim é preocupante.
É necessário que recuperemos o nosso poder de decisão e a nossa voz enquanto partícipes de uma sociedade democrática. Enquanto virarmos as costas aos nossos “ilustres representantes” e suas peripécias no picadeiro infame e sem graça que se tornou o Planalto Central, o Brasil continuará sendo somente uma nação dos sonhos, o país do romantismo e das praias, do carnaval e das alegorias.
Urge retomarmos os trilhos de uma nação que pretende ser reconhecida, não só pelo futebol, mas pela moral, pela seriedade e pelo objetivo de ser de fato uma nação, aonde todos se respeitam, a começar pelos homens que zelam pela res (coisa) pública.
Não há outro meio de alcançarmos isso senão pela... política. Comecemos a valorizar as nossas opiniões e, consequentemente, o nosso voto. Somente pela força e maturidade das urnas que conseguiremos espantar a demagogia e assim começar a construir uma nação composta por cidadãos comprometidos com ela, ao invés de pessoas que vislumbrem tão somente o poder e seus encantos. 2010 vêm aí!
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