“Passar um recibo em branco” ou “passar o país a limpo”


Política

Guilherme Rezende*0

fotoGuilherme Jorge

Vive-se um momento de acirramento de adversidades. Poucas vezes na história do país, os embates ideológicos foram tão intensos e radicais.  Toda essa conjuntura controversa gera uma sensação de tantas incertezas, que qualquer perspectiva de conciliação em torno de uma saída consensual parece improvável. O pessimismo se espalha pela sociedade ainda mais, ao se constatar a falência ética e moral de lideranças políticas e empresariais, comprometidas com infindáveis casos de corrupção.

Paradoxalmente, o Brasil atravessa um dos períodos mais alvissareiros, graças às investigações que visam a identificar, elucidar e punir tramóias e negociatas entre políticos e empresários responsáveis pela incalculável espoliação dos recursos públicos. A atuação do Ministério Público e da Polícia Federal, em sintonia com segmentos da Justiça Federal e Estadual, propicia uma oportunidade única e imperdível de transparência nas relações de bastidores da cena política nacional.

Assim descrito a um espectador isento de paixões partidárias, talvez não pareça difícil encontrar soluções para superar os impasses que fragmentam a reação popular diante da crise. Por que não apoiar e, mais do que isso, participar dessa mobilização nacional em prol da restauração da dignidade nacional? Por que um numeroso contingente da população ainda critica e desqualifica o trabalho da Lava-jato, se entre os suspeitos denunciados figuram políticos de renome das principais agremiações partidárias e não apenas de uma determinada ala?

“Quando a intransigência atinge o limite da incomunicação, leva ao desentendimento e à impossibilidade de diálogo

A esse espectador isento de paixões soa estranho o tom de lamentação, quando não de fúria, reclamando que as investigações são mais brandas com os partidos adversários. Mas não estão quase todos os representantes mais expressivos do cenário político brasileiro contemporâneo no rol dos investigados? Então, por que essa postura persistente de procurar vilões só entre “eles”, e de relevar comportamentos inadmissíveis dos que estão do nosso lado, dos que fazem parte do nosso grupo político?

Chega ser muito doloroso experimentar manifestações de desconfiança e ressentimento entre amigos e parentes próximos em razão do acirramento de adversidades ideológicas.  Tem-se a sensação de que a fidelidade a determinados dirigentes muito admirados - grande parte deles com o nome presente na lista dos denunciados– produz uma espécie de miopia política, que se traduz, grosso modo, em juízos como: “Os meus representantes são honestos, incorruptíveis e as denúncias com que o acusam meros artifícios para uma perseguição injusta”.

É surpreendente como algumas pessoas bem formadas e de elevado nível de consciência política apóiam irrestritamente determinados políticos. Conforme o dito popular, não hesitam em “por a mão no fogo” por lideranças sobre as quais recaem fortes indícios de atitudes inconvenientes, até mesmo criminosas. Será que não passa pela cabeça dessas pessoas sequer uma dúvida acerca das atividades suspeitas dessas lideranças tão admiradas? Vale mesmo a pena afastar-se de quem pensa diferente, seja ele amigo ou parente, para defender alguém cujas ações da vida particular contrariam o interesse público? Não seria o mesmo do que “passar um recibo em branco”?

Quando a intransigência atinge o limite da incomunicação, leva ao desentendimento e à impossibilidade de diálogo. A sociedade corre, então, riscos iminentes de desestruturação, porque a livre expressão e debate de ideias e opiniões é condição indispensável para a solidez da democracia.  Cabe, portanto, a cada um de nós, independente e acima de filiação ou preferência partidária, a iniciativa pela retomada da busca do entendimento.  Certamente, vamos descobrir que princípios e valores comuns são referências fundamentais para o exercício da cidadania, resguardada a diversidade ideológica que nos distingue.

Deve ser nossa, da população em geral, a responsabilidade pelo enfrentamento da terrível crise que atormenta o Brasil. Não podemos esperar passivamente que lideranças que se proclamam nossos representantes continuem a agir desconectadas dos anseios do eleitorado e de uma fiscalização permanentemente rigorosa. Não podemos delegar, a nenhuma instância do poder, plena liberdade de atuação. Em vez da intensa troca de provocações e insultos pelas redes sociais, por que não se dedicar à prática da vigilância e controle dos que nos representam, principalmente daqueles a quem ajudamos a eleger?   

O momento é de diálogo para “passar o país a limpo”, doa em quem doer. Nunca foi tão necessário questionar nossas elites dirigentes, à direita, à esquerda, ao centro, seja de que natureza ou coloração for. Urge que a sociedade se reconcilie consigo mesma para discutir a razão e as extensões de reformas – política, tributária, trabalhista, previdenciária e outras quaisquer – que proporcionem a recuperação da economia e o fortalecimento democrático. Não dá mais para aguardar comodamente que esse processo dependa de lideranças sem credibilidade, nem deixar a nação sucumbir no caldeirão explosivo das paixões partidárias.

 

*Jornalista, professor aposentado da UFSJ.

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