Carnaval: Família do bairro Senhor dos Montes forma ala da Escola de Samba Bate Paus

Desde 2015, Jussara Marcelino, que é membro da família, tornou-se a compositora oficial do samba da escola.


Cultura

José Venâncio de Resende0

Jussara e a filha Yasmin, na Praça do Senhor dos Montes onde a escola ensaia.

Atualizado em 13/01/2018

"Ôh bate forte tambor, êh Maues auá
Que a verde e rosa vem de longe pra provar
tão doce sabor, fruto tropical
delícia dos Deuses, gostoso guaraná,
“tá” na boca do povo
Eu vou deitar e rolar
dessa energia também vou desfrutar
e pra ficar legal...vem com Bate Paus
que essa lenda hoje é carnaval.
Amazônia..." (trecho inicial do samba enredo da Bate Paus de 2018) 

Família que samba unida no carnaval permanece unida. Pelo menos este é o caso da família de Jussara Marcelino de Paula. “Desde criança, a gente desfila no (Grêmio Recreativo Escola de Samba) Bate Paus” - do bairro Senhor dos Montes. “A família de minha mãe já desfilava na Escola de Samba Depois eu Digo. Minha mãe foi rainha em 1963 nesta escola.”

Jussara refere-se a sua mãe, Linda Marcelina de Paula; ao seu pai, Valdeci Teixeira de Paula; a sua irmã mais velha, Yara Marcelino de Paula; e às irmãs Romana Toussaint de Paula, Taiana Toussaint de Paula e Franciana Toussaint de Paula. Ah, sim, maridos e namorados.

A família sempre desfilou junta na mesma ala, conta Jussara. “A gente escolhia um figurino adequado a homens e mulheres.” Cada ano era uma ala diferente, que mudava de acordo com o enredo.

Até 2007, a família de Jussara confeccionava e custeava a própria fantasia. “A escola tinha uma verba pequena. Como a minha família formava uma ala muito grande, a escola não tinha despesa com aquela ala.”

Havia uma certa liberdade para criar desde que dentro do enredo, lembra Jussara. “A gente tinha uma costureira e a montagem de arranjos de costa, cabeça, braço, mão etc. era eu mesma que fazia com o apoio das meninas e de amigos. A gente fazia um minibarracão lá em casa.”

A partir de 2007, a Bate Paus avançou na maneira de preparar o desfile, lembra Jussara. “O carnavalesco desenhava o figurino, a escola fornecia o material necessário e a gente pagava o valor da fantasia.”

As fantasias da ala da família continuavam a ser feitas no minibarracão da casa de Jussara. “Lembro-me que, apenas nos anos dos enredos água, festas populares e Cartola, eu não confeccionei em casa. Nós compramos prontas direto do carnavalesco. Cada carnavalesco trabalha de uma forma e isso muda bastante de acordo com o tema, verba etc.”

Concurso

Quando nasceu o filho Bruno em 1992, Jussara parou de desfilar na Bate Paus, voltando apenas entre 2006. Neste período, as irmãs, tias e amigas continuaram desfilando na ala da família.

Um dia em 2008, Jussara sugeriu ao diretor da escola, Fernando da Barbearia, que promovesse um concurso de samba. “Eu disse: `De repente, tem algum compositor de samba escondido na comunidade´. Então, ele perguntou: ´Você conhece alguém?´ Eu respondi: ´Eu conheço, sim. Eu mesma´.”

Algum tempo depois, os diretores da Bate Paus, Fernando da Barbearia e Paulinho do Táxi, e o Bosco Carnavalesco apareceram na loja onde Jussara trabalha com uma sinopse de enredo e fizeram um desafio: “A sinopse está aí, agora é só você trabalhar nela”, disseram.
O enredo falava sobre “As mil e uma noites”, e Jussara saiu a campo para pesquisar o tema. “Comecei a estudar o tema e a escrever. Enquanto eu fazia a letra, uma melodia ia soprando no meu ouvido.”

Quando terminou o samba, Jussara procurou Bosco para mostrar o resultado. Na casa dele, encontrou por acaso um casal de diretores da Escola de Samba Unidos de São Geraldo. “Eu disse ao Bosco: ´Eu trouxe o samba pra você dar uma olhada´. Então, ele pediu para eu cantar. Ele gostou e disse que eu tinha condição de participar do concurso.”

Então, o diretor da São Geraldo comentou que o samba lembrava o Hélio Alex que fora compositor da sua escola. Ele já havia falecido. “Eu disse que o Hélio era meu tio”, lembra Jussara. “E saí de lá animada para concorrer no concurso.”

Jussara procurou um intérprete para cantar o seu samba, mas não encontrou ninguém disponível. “Então, resolvi eu mesma cantar. Chamei minha irmã Fran para ir comigo. Ela aceitou e fomos com a cara e a coragem.”

Elas chegaram e sentaram-se num cantinho, no chão da garagem onde seriam as apresentações. Havia cinco sambas concorrentes. “O primeiro intérprete cantou, eu não gostei. O segundo cantou, eu não gostei. Aí o terceiro cantou, eu achei legal. Então, eu e a Fran cantamos. Aí o último cantou e eu gostei.”

Vencedora

Na avaliação de Jussara, sobrariam os três últimos candidatos. “Aí a gente ficou apreensiva. Então, fizeram um intervalo para a avaliação dos jurados.”

No retorno do intervalo, os jurados pediram que Jussara e Franciana, bem como seus concorrentes, cantassem de novo. “A esta altura, já tinha até torcida feminina. Algumas amigas e outras pessoas da comunidade estavam empolgadas lá fora da garagem.”
Os jurados foram eliminando os candidatos um por um, sobrando no final o intérprete da Bate Paus (ele concorria com seu samba) e a dupla Jussara-Franciana. “E eu venci com o melhor samba.”

Assim, em 2009, ao mesmo tempo em que a Bate Paus desfilava pela primeira vez com o samba de Jussara, sua mãe, Linda, desfilava pela última vez, devido a problemas de saúde.” Neste ano, o enredo foi “As mil e uma noites, de Bosco Carnavalesco.

No concurso do samba para o carnaval de 2010, cujo enredo era o Centenário de Tancredo Neves, Jussara perdeu. “E coincidiu que eu não desfilei naquele ano porque estava de resguardo da minha filha Yasmin Laura.”

Intérprete

Jussara voltaria no final de 2011. Na escolha do samba para o carnaval de 2012, ela solicitou à direção da escola que promovesse mudanças no regulamento “porque eu me senti prejudicada no concurso anterior. Eu pedi para colocar no regulamento capela (música cantada sem instrumento), voz e cavaquinho e depois voz-cavaquinho-bateria”.

Com isso, Jussara conseguiu um intérprete para o seu samba, que é o João Miguel Cavaquinista. “Aí ele passou a cantar pra mim nas apresentações.” Com João Miguel, ela ganhou o concurso do samba para o carnaval de 2012, cujo enredo foi “Literatura de cordel”. “E aí a gente não parou mais.”

Campeã duas vezes

No carnaval de 2013, o enredo da Bate Paus foi “Água como essência da vida”, com o samba de Jussara. Em 2014, a Bate Paus foi a grande vencedora do carnaval, com o enredo “Festas populares”, do carnavalesco Rodrigo Pomarola, e mais uma vez o samba de Jussara.
Embalada pela vitória, a Bate Paus aboliu o concurso de samba e Jussara foi oficializada como compositora da escola.

Em 2015, ano em que Jussara estreou como compositora oficial da escola, a Bate Paus desfilou com o enredo “Cartola”, cujo carnavalesco foi Mauro Lovatto.

Em 2016, não houve desfile das escolas de samba. A Bate Paus voltaria a ser campeã em 2017, com o enredo “Saga cigana no Brasil”, de Rodrigo Pomarola, e o samba de Jussara.

Nos dois últimos carnavais (2015 e 2017), a família de Jussara já formava duas alas na Bate Paus, com a adesão de amigos e pessoas da comunidade do Senhor dos Montes.

O tema do enredo de 2018 é “A lenda do guaraná”. Este ano, a Bate Paus decidiu seguir um roteiro inverso; ou seja, a viabilização do enredo que vai para a avenida a partir do samba criado por Jussara.

Este será um grande desafio para a Bate Paus, onde desfila a família de Jussara. Pela primeira vez, o carnavalesco é substituído por uma comissão de carnaval formada por componentes da escola e por artistas convidados.

Íntegra de "A lenda do guaraná", samba enredo da Bate Paus de 2018: 

Ôh bate forte tambor, êh Maues auá
Que a verde e rosa vem de longe pra provar
tão doce sabor, fruto tropical
delícia dos Deuses, gostoso guaraná,
“tá” na boca do povo
Eu vou deitar e rolar
dessa energia também vou desfrutar
e pra ficar legal...vem com Bate Paus
que essa lenda hoje é carnaval.
Amazônia...
Amazônia é o cenário!
Maué e uma lenda imortal,
Um casal e um desejo da maternidade
Rituais a Tupã...Salve a divindade,
O milagre veio do céu
é luz, é vida e fertilidade.
Nasceu Curumim, Aguiry guerreiro valente
Índio de bravura e coragem
Defendia sua gente,
Carregava nos olhos a felicidade a sorri
Iluminado pela lua de jaci.
Mas não venceu o mal
Em forma de serpente
Que adentrou aquelas matas
Correu rios e cascatas
Fez da vingança a sua missão
Destilou o seu veneno
e a vida do guerreiro foi ao chão.
Eu vi chover, eu vi relampejar
Mas mesmo assim o céu estava azul,
A ira e a paz, o bem e o mal
A Tsunamy faz o carnaval
Na terra sagrada o índio chorou
Dos olhos do filho a natureza brotou,
Um fruto nasceu a vida vingou
E o milagre se multiplicou...

 

 

 

 

 

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