Córrego da Cruz*


Cidades

Alair Coêlho de Resende**0

A poucos metros das ruínas da histórica Fazenda da Lage, em Resende Costa (antiga Lage), uma pequena cruz abandonada sob o mato espesso esconde um episódio que ficou marcado no tempo e na memória de muitos resende-costenses. Muitos anos se passaram desde o dramático fato ocorrido no local, porém ainda hoje algumas pessoas que passam por lá perguntam sobre o porquê daquela cruz. Perguntam também por que o córrego que corre próximo se chama Córrego da Cruz. Neste artigo o advogado e escritor resende-costense Alair Coêlho de Resende conta essa história – mistura de drama e romance – que o tempo ainda não apagou. (André Eustáquio)

Em fins do século XIX, ou princípio do século XX, morava e clinicava em Resende Costa o médico doutor Gervásio Pinto Cândido, grande pesquisador no campo das ciências médicas e talentoso escritor, sobretudo na qualidade de poeta, que, segundo consta, foi o primeiro médico mineiro formado no Brasil. Doutor Gervásio morava numa bela chácara aos pés da Laje de Cima, onde tinha seu consultório. Era casado com uma bela e jovem mulher, mas veio a se apaixonar por uma de suas clientes, fazendeira rica e também bela, que morava a poucos quilômetros da Lage. O amor entre os dois atingiu limites incontroláveis. Sempre se encontravam nas frequentes “consultas” que ela utilizava como pretexto para se entregar ao seu amante.

Esse amor, com fortes apelos sexuais, como sempre ocorre nos amores adulterinos, cresceu a ponto de eles combinarem que se livrariam, via de homicídios, de seus respectivos cônjuges.

Acertaram que a bela fazendeira mandaria matar seu marido, em determinado dia à tardinha, quando este iria consertar um tapume à beira da estrada, às margens do córrego da Lage. Para consumar o homicídio, foi contratado conhecido pistoleiro morador da Lage, onde esta espécie de “profissional” era abundante.

Para assassiná-lo, o matador usaria um bacamarte, arma muito usada naquela época e cujo estampido, muito forte, era ouvido a enorme distância. Tinha ficado acertado entre os amantes que, quando o médico ouvisse o estrondo emitido pela arma, ele cumpriria sua parte no trato envenenando sua esposa.

No dia aprazado, à tardinha, o fazendeiro traído foi consertar o tal tapume à beira do Córrego da Lage quando o pistoleiro contratado pela esposa infiel o alvejou. Foi um tiro só. O marido traído tombou sem vida.

Doutor Gervásio, que estava na varanda em frente a sua moradia, atento, como fora combinado com sua amante, quando ouviu o forte estampido do tiro de bacamarte, não teve dúvidas: foi para o aposento onde se encontrava sua inocente esposa e a obrigou a beber uma dose de veneno. Tudo como estava combinado.

Acontece que, quando o doutor viu sua mulher agonizante, com dores atrozes, ele se arrependeu e lhe aplicou um poderoso antídoto e a salvou.

Mas a jovem e bela fazendeira ficara viúva, pensando que estava livre para assumir seu relacionamento com seu amante, sem nenhum empecilho.

 Quando ela soube que doutor Gervásio não cumprira seu trato e que tivera um gesto de arrependimento eficaz, salvando a esposa, entrou em pânico.

Não sabemos de coisa alguma quanto às medidas policiais e judiciais, que naquela época eram sempre “armadas” com o intuito de alcançar a condenação ou a absolvição, dependendo da posição socioeconômica do indiciado. No caso que aqui abordamos, certamente o inquérito foi levado a efeito com a deliberada intenção de absolver os envolvidos, eis que pertenciam à fina flor da hipócrita sociedade daqueles tempos.

Sabemos apenas que doutor Gervásio e a bela viúva não foram condenados e ela, se vendo publicamente rejeitada pela sociedade, que não a perdoava, e por seu amante, vendeu todo seu patrimônio e mudou-se para uma localidade bem longe, no sul de Minas Gerais, e nunca mais voltou à Lage e nunca deu notícias, nem mesmo às pessoas de sua intimidade, quiçá a ela ligadas por laços de parentesco.

A única prova concreta que restou dessa história de amor adulterino que abalou os alicerces dos bons costumes, em que estava edificada a sociedade da Lage, foi a existência de uma rústica cruz de madeira afixada, conforme o costume da época, no local do homicídio, perto da Fazenda da Lage – onde ainda pode ser vista – e que deu nome ao pequeno curso d’água que corre ali: Córrego da Cruz.

*Releitura de Capítulo do Livro – “A Flor das Vertentes” – obra ainda inédita escrita em parceria por ALAIR COÊLHO DE RESENDE e STELA VALE LARA.

**Membro da Academia de Letras de São João del-Rei.

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