Crianças da era digital

A internet cria novos perfis da garotada e muitos pais se sentem perdidos na hora de aconselhar


Vanuza Resende


Iasmim Coelho conta com o incentivo de sua mãe, a enfermeira Lussara, que administra a página da filha no Instagram

Ainda que não exista uma pesquisa feita com todas as crianças do país, não é difícil falar sobre as preferências da garotada. A maioria das matérias que abordam o tema aponta para o queridinho pela maioria: produtos eletrônicos, em especial celulares com acesso à internet.

Uma das explicações para bonecas, bicicletas e carrinhos estarem perdendo seu posto de número 1 é o fato de estarmos falando de crianças que nasceram na era digital. Antes delas começarem a escolher os presentes, já se acostumaram com vídeos e joguinhos nos celulares dos seus responsáveis.

A psicóloga especializada em crianças e adolescentes, Tatiane Maria Silva, fala sobre o controle que os adultos devem ter em relação a exposição da criança frente a esses entretenimentos virtuais: “É importante que os pais criem tempo e limite para a utilização do mundo digital, independente da fase em que a criança se encontra. Mas isso não significa abolir o contato das crianças com a era digital”.

Os adultos não precisam necessariamente se sentir culpados pelo entretenimento cotidiano da criançada, mas, assim como em outras situações, a introdução das crianças no universo digital precisa ser organizada e planejada. É o que explica Tatiane Maria: “É preciso que se tenha um limite organizacional desse tempo do uso do eletrônico, porque isso organiza o mundo interno da criança. O mundo digital precisa ser introduzido baseado em regras, assim como outros contatos que a criança venha a ter. O recomendado é que esse tempo seja estabelecido durante o dia, não próximo da noite que é o momento em que a criança está abaixando as energias para se preparar para o sono”.

A psicóloga orienta os pais que pensem se é realmente necessário que o filho tenha um aparelho eletrônico na infância. “A gente precisa pensar na necessidade da fase de desenvolvimento da criança e não no que os pais acreditam que são necessidades. Em situações como: ‘Meu filho poderia ter um celular, as outras crianças têm’, é preciso pensar que essa situação pode favorecer o contato com o ambiente oferecido pelos pais. Então, os responsáveis devem pensar se a fase demanda, porque se a fase não demanda não faz sentido a criança ter um celular que vai favorecer a entrada em redes sociais, por exemplo. É preciso controlar esse acesso de forma inteligente, não vertical”, explica Tatiane.

 

Conexão

Se ganhar celulares e tabletes é o desejo principal da garotada, algumas vão além disso. Sonham em em ser Youtubers, ou seja, pessoas que usam o canal de vídeos Youtube para mostrar o cotidiano ou partilhar algum tipo de conhecimento.

Maiara Maia, 11 anos, começou a fazer um papel parecido com os Youtubers há três anos com sua página no Facebook. “Quando criei a página, eu não fazia vídeos, era mais comentários como: ‘Bom dia, pessoal’, mas em 2014 fiz um vídeo sobre o Dia das Crianças, com vários erros de português, mas fiz. E como todo mundo falou que tinha gostado, comecei a fazer vídeos para a página. Sabe quando você vê alguma coisa e quer fazer igual? Então. Eu via vários canais no Youtube e comecei a fazer também”, conta Maiara.

Hoje a página da Maiara tem quase mil seguidores e o seu vídeo mais visto atinge quase 5 mil visualizações. Ela conta sobre as técnicas que já aprendeu a usar, o assunto favorito para falar em seu canal e o público que a assiste. “Gosto de comédia, porque você faz os outros rir e você ri também. Eu uso o iMovie, porque é um editor bem fácil e não é preciso técnicas para usar o programa. Edito o vídeo e o deixo guardado, quando tem um tempo que não coloco nada na página, eu vou lá e posto. Eu tenho público de Resende Costa e das cidades da região, além de pessoas de São Paulo”.

Para Maria Eustaque, a Tatá, mãe da Maiara, é uma situação que exige muito cuidado. “Gostar a gente não gosta, né? Porque é meio complicado, mas quando a gente vai ver, já foi. A gente procura ter um controle, e para isso, se necessário, até castigo tem. Se não tiver limites, não tem como. Mas é assim, quando vai ver ela já postou, já fez e nós já rimos juntos”.

Diferente de Tatá, que acredita que Maiara vive uma fase, ainda que já dure três anos, e espera que a filha arrume outra ocupação para ser seu passa tempo, a enfermeira Lussara Coelho, mãe de Iasmim, pretende continuar seguindo com a filha nas redes sociais. Ela administra um perfil para sua filha no Instagram que tem quase a população de Resende Costa como seguidores, são 11 mil perfis seguindo a pequena. Lussara conta como surgiu a ideia há um ano e meio: “Sempre gostei de tirar fotos dela e eu vi que ela também gostava, fazia poses e pedia para tirar fotos. Então, resolvi a tirar fotos dela e postar”.

A enfermeira conta como foi conseguindo cada vez mais pessoas interessadas em seguir o perfil da Iasmim: “Comecei comprando peças de lojas. Eu comprava, postava as fotos e as marcava. As lojas faziam um repost da minha publicação e marcava meu Instagram. Foi então que eu comecei a ganhar vários seguidores”. Hoje em dia, algumas lojas já enviam produtos para que possam ser publicados e divulgar aquela marca, prática muito comum nas redes sociais.

Lussara fala que recebe algumas críticas por ter esse perfil e até chegou a desativar por um tempo o Instagram, mas resolveu voltar porque segundo ela a Iasmim gosta de registrar os momentos. “Tem críticas, ‘ah, querendo aparecer’, mas não é. Ela gosta de fazer poses e enquanto ela estiver gostando eu vou fazer, porque não é uma coisa que faz mal para ela. Tudo que ela vê, ela já pede: ‘Mamãe, vamos tirar uma foto aqui?’ Ela coloca a mão na cintura e levanta o pezinho esperando a foto”.

Para a psicóloga Tatiane Maria, o comportamento requer regras, mas não significa necessariamente impedir que as crianças se insiram no mundo virtual: “Hoje em dia, a gente tem cada vez mais crianças novas atuando nesse cenário, e o componente internet faz parte da realidade delas. A gente não pode retirar esse componente, mas temos condições de orientar e fazer com que elas reflitam sobre esse uso. O que eu costumo dizer é que a negação incita a criança a querer praticar aquilo com mais desejo. Então, a orientação e educação é o mais importante”.

Tatiane apresenta questões que devem ser levadas em consideração para que, tanto os pais quanto as crianças, aproveitem os benefícios que a era digital oferece: “Nascer na era digital tem vantagens e desvantagens. E nós temos que saber lidar com essas situações. É importante que os pais escutem os filhos em suas demandas, observem o que eles fazem. A atenção voltada para o cotidiano potencializa muito a relação real, mais do que a virtual. A juventude ensina muito. Eles são dinâmicos na apresentação de diversas ideias que nos permitem, de alguma maneira, aprender com esse dinamismo. A internet é um item revolucionário em nosso cotidiano, mas não é responsável pelo que vai acontecer com os nossos filhos. Os pais são os principais responsáveis, no sentido de criação de espaço e de conexão. A internet pode perder forças no momento em que as relações reais for de boa qualidade”, conclui a psicóloga Tatiane.

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