Qual o resende-costense que não conhece as lendas e os casos do Buraco do Inferno? Para o leitor que não sabe sobre que buraco estou falando, revelo agora. Trata-se de uma caverna localizada na base das Lajes de Cima, nas proximidades da Granja Resende. É um lugar sinistro pelo nome e não muito bonito, porém marcado por lendas e estórias que perpassaram diversas gerações da cidade das lajes.
As lendas do Buraco do Inferno foram se multiplicando proporcionalmente às inúmeras dificuldades encontradas pelos leigos exploradores ao longo dos anos. O local é de difícil acesso, devido às lajes íngremes e à formação rochosa. Mas tais dificuldades nunca impediram as visitas ao local, mesmo para quem se limitou a ficar apenas nas redondezas da caverna, pois, afinal, desafiar o túnel que se abre perpendicularmente ao precipício das lajes sempre foi aventura para poucos corajosos.
O maior desafio para adentrar a caverna era vencer primeiramente o medo do desconhecido. Por detrás das muitas pedras que abrigam a escuridão da gruta surgiram, há muitos anos, várias estórias, entre elas a de um padre que se dispôs a desvendar os mistérios da caverna das lajes e de lá jamais saiu. Há também aqueles que dizem existir lá dentro uma imagem de Nossa Senhora guardada por uma enorme serpente, que impede quem quer que seja de se aproximar. Porém, a dúvida maior sempre foi saber a extensão da misteriosa caverna. Será que, como muitos antigamente diziam, o Buraco do Inferno termina mesmo embaixo da igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha? Essa curiosidade movimentou muitos corajosos que se embrenharam escuridão adentro para, quem sabe, bater às portas de uma pequena entrada sob as escadas do coro da igreja. Todavia, o que se sabe é que ninguém conseguiu ralizar tal façanha, permanecendo, até hoje, mais este mistério. A escada do coro ainda permanece e a entrada também, mas o acesso do Buraco do Inferno à igreja é mesmo um mistério. Será que ele existe? Não é interessante imaginar que um lugar que leva o nome medonho e pavoroso de “inferno” desemboque justamente numa igreja, local sagrado que evoca o contrário da escuridão do inferno, ou seja, a limpidez e candura do céu? Pelo visto, existe mais este mistério escatológico a desvendar sobre o “Buraco do Inferno”.
Nem mesmo os quatro praticantes de caving (termo em inglês que designa os praticantes de um esporte radical parecido com a espeleologia – ciência que utiliza técnicas para explorar cavernas) vindos de Belo Horizonte, em setembro de 2003, conseguiram explorar com sucesso o Buraco do Inferno. Cássio, Luciano, Rui e Ferreira que, a convite do então presidente da Câmara de Resende Costa, Toninho Ribeiro, vieram de Belo Horizonte e se dispuseram a tentar desvendar o que há por detrás da escuridão da sinistra caverna.
O Jornal das Lajes cobriu a expedição e, em reportagem assinada por Denílson Daher (ed. 7 – outubro de 2003, p.10, para maiores detalhes da expedição), relatou as constatações dos exploradores. “O grupo de caving explorou oito entradas do ‘Buraco do Inferno’, cada uma com condutos que variavam de 10 a 25 metros. Infelizmente não foi possível ir mais adiante, pois chegaram a um local de difícil acesso e que não proporcionava nenhuma segurança, porque o ar era muito rarefeito e a umidade elevada. Também não foi encontrado nenhum tipo de espeleotemas (estalactite, estalagmite e pinturas rupestres)...”.
Mato, sujeira e urubus
Com o passar dos anos o Buraco do Inferno deixou de despertar curiosidade nas crianças e nos adolescentes. Suas lendas não mais instigam a imaginação e com isso o abandono foi impiedosamente chegando. Sem os visitantes, os espinhos e o mato avançaram sobre as pedras impedindo até mesmo o acesso ao lugar. Soma-se a isso a quantidade absurda de lixo espalhado nos arredores da caverna (sacos plásticos, cacos de vidro, latas vazias...) e os urubus que, ao que tudo indica, utilizam o local para procriarem e fazer suas refeições.
A curiosidade de saber o que há dentro da caverna foi cedendo lugar a outras brincadeiras e curiosidades infantis que, diga-se, certamente não possuem o mesmo charme, bravura e coragem de se deslizar pelas lajes em busca do desconhecido e temido Buraco do Inferno. Mas cada geração produz os seus ídolos, mitos e divertimentos. Sempre foi e será assim, o que não justifica o abandono total de um lugar que para muitos significa memória de bons tempos e para Resende Costa bem que poderia ser um significante e curioso ponto turístico.
Embora a caverna não apresente uma bela formação rochosa e espeleotemas - típicos de lugares com alta concentração de calcário - vale a pena explorá-la, desvendar sua extensão. É importante também manter o lugar limpo, acessível aos visitantes. Muitos turistas que chegam a Resende Costa já ouviram falar sobre o famoso buraco e desejam conhecê-lo, sobretudo, quando ouvem algumas estórias e mitos, como o caso dos tesouros escondidos pelos Inconfidentes, a fim de salvá-los do confisco da Coroa Portuguesa.
Preservação
Quando enfim acontecer a tão esperada e necessária revitalização das Lajes de Cima e seus arredores (promessa de todos os candidatos a prefeito nas últimas eleições municipais), poderiam ser instaladas placas indicativas do Buraco do Inferno, revelando a sua formação rochosa, extensão, curiosidades, como também alertando aos visitantes sobre os devidos cuidados a serem tomados.Vale a pena, contudo, relembrar que Resende Costa ainda está carente de projetos políticos que explorem com responsabilidade e competência o seu já conhecido potencial turístico.
No entanto, enquanto isso não acontece, o Buraco do Inferno, com seus mitos, lendas e causos esconde-se atrás dos espinhos, do mato e de muita sujeira. Atualmente, os seus únicos visitantes são os urubus e os morcegos. E se nada for feito para salvar e preservar o lugar da degradação em que se encontra, futuramente ficará apenas na memória de poucos que nas Lajes de Cima um dia existiu um lugar chamado Buraco do Inferno. Poderá figurar também nos casos dos mais idosos e nas estórias de ninar como um prólogo: “Era uma vez, em Resende Costa, um lugar chamado Buraco do Inferno...”.
Era uma vez um lugar chamado “Buraco do Inferno”...
Lendas Urbanas
André Eustáquio 12/09/20090
