Gastronomia de Resende Costa – II
Notícia
12/05/20100
Café com biscoito ainda são indispensáveis na mesa mineira
Continuando a falar da comida da nossa terra, começamos pelas festas de casamento, dos bons tempos que já se foram.
“Casamentos de café com biscoito” deram lugar aos casamentos de salgadinhos e churrascos. Eram bonito de se ver. Geralmente se armava uma grande mesa no terreiro, os noivos sentados à cabeceira e os convidados se revezando para tomar café, saborear os biscoitos e reparar na beleza e na arte das quitandeiras. Eram pratos de balas de quende, forrados de guardanapo de papel de seda, todos rendados em bicos. “Quende” era o nome da bala delícia. Não seria candy, balas de açúcar, em inglês? Roscas e rosquinhas, biscoito quebrador pintadinho de gemas, bolos. Eram meses juntando ovos e dias mais dias com as amigas e comadres forneando, brincando com os noivos e fortalecendo os laços entre as famílias.
As festas ou banquetes são também um capítulo à parte. Era só chegar à cidade um bispo, uma autoridade política ou militar que um batalhão de cozinheiras chefiadas por alguma senhora de experiência comprovada na arte de receber, era mobilizado para servir, em belas mesas e toalhas, em meio a infindáveis discursos, as mais requintadas iguarias. Não faltavam: a macarronada, a leitoinha com olhos de azeitona e um pão na boca, o lombo, o pernil e o glorioso tutu de feijão guarnecido de ovos cozidos, molho de cebola e pedaços de linguiça. Na sobremesa, ao lado das compoteiras de doces em calda: o arroz doce decorado com pó de canela, o doce de leite, a cocada de colher, os pudins e os cremes reinavam absolutos. Estes eram realmente doces de casas abastadas, no famoso ajantarado de domingo e nos banquetes. O padre também era tão bem tratado, inclusive nas roças, que havia um curioso dito popular: barriga de padre, cemitério de frangos. E o frango era quase sempre feito com macarrão, algo que eu, moradora da cidade, não provei e nem descobri como se faz, pelo menos até hoje...
Já falamos de usos e quitandas, mas é preciso lembrar da regra de ouro da cozinha mineira, repetindo o que afirma Dona Lucinha, proprietária de restaurante em Belo Horizonte e expert no assunto: “Nossa culinária tradicional não usa absolutamente nada que saia de latas, nenhum produto industrializado. Tudo o que se comia era colhido ao redor da casa, na horta de couve, no pomar, no galinheiro e até mesmo no mato”. Nossa cidade não fugia à regra. Entre os refogados, os nossos legumes cultivados e algumas excentricidades. Entre elas estava o “ora pro nobis”, que urbano, sobreviveu ao seu primo da roça, que ninguém mais conhece, o muxoco. Este trata-se de uma plantinha amarga, espinhenta, que se colhe nos brejos, em agosto, e, como seu parente da cidade, também gosta de babar. Mas, com frango ou com linguiça é muito bom. Por falar em baba, também era frequente nas nossas panelas, ao lado da carne de porco ou linguiça, o broto de samambaia. Os famosos umbigos de banana não escapavam à sanha das cozinheiras, sempre à procura de algo para variar o trivial. O resultado é que de uma cozinha pobre surgiu uma comida saborosa, farta, sempre cozida em panelas de ferro ou de pedra, borbulhantes no fogo de lenha. Sempre predominavam os caldos, fartos e generosos: o frango ao molho pardo, o ensopado de suã e couve cozida, a canjiquinha com costelinha etc, etc. Isto sem falar na sopa de galinha feita com farinha de milho, que era servida não só às parturientes, como a toda a meninada, durante uma semana, quando a família aumentava. Quanta coisa simples e gostosa!
Os doces eram feitos nos tachos, cuidadosamente areados com limão de moça, como se chamava o limão capeta. Colhidas as frutas, armava-se uma trempe e era goiabada, pessegada, bananada espirrando pra todo lado. A criançada não arredava o pé, comendo o “ponto” e raspando os tachos. O doce de leite sempre comandava o espetáculo, ora mole para se comer de colher ou rechear os saborosos canudos, ora cortado em losangos para alegria dos pequenos que eram solícitos em fazer um mandado para ganhá-los em troca. Como posso me esquecer dos docinhos que ganhava da Dona Zezé do Sr. Alcides, para mim os melhores que já provei na vida! E como me esquecer dos tachos de goiabada de Dona Messias, mãe de Dona Maria Augusta? Depois de degustar a nossa parte, eu sempre junto com seus netos, íamos à casa paroquial levando ao Padre Nelson, em limpíssimo prato, um peixe de goiabada! Era uma forma linda aos nossos olhos de criança, um peixe de olhos, guelras e escamas, reluzindo e cheirando a goiaba...
O modo de armazenar e conservar os doces e outros alimentos também era muito interessante. No lugar do freezer e geladeira havia a despensa e o guarda-comida. Doces de frutas do quintal eram conservados em calda e guardados em compoteiras ou tigelas no tal do guarda-comida, um armário com porta de tela para manter os alimentos arejados. Os doces de corte eram colocados em caixetas de madeira e tinham longa durabilidade. As carnes iam para a gordura, bem fritas, e se tornavam mais macias e suculentas a cada dia. Ainda bem que nem se falava em colesterol naqueles tempos! Havia também a fumaça, um pau lustroso de tanto uso, amarrado bem acima do fogão, onde se conservavam as linguiças e as peles do porco. E ainda a tábua de queijo, suspensa na despensa, a salvo dos gulosos camundongos. Tudo era muito natural e muito bem cuidado.
Lá se foram os quintais com seus pés de café, de frutas, os galinheiros cacarejantes e o chiqueiro do porquinho... Foram atropelados pelo progresso que trouxe o supermercado com suas latarias e comodidades, o asfalto, a televisão, a geladeira, o freezer, o microondas e com eles os costumes de outras terras, outros sabores. Muitas das nossas receitas e comidas se perderam irremediavelmente na névoa do tempo. Mas, o que causou dor de verdade foi ver o fogão a gás, prático e limpo, banir das cozinhas o velho e querido fogão de lenha. Mas, ele não se deu por vencido. Timidamente, foi renascendo nas cozinhas da horta. Hoje, orgulhoso e reluzente, azulejado e colorido, parece ter voltado para ficar. Vez por outra, alguém resgata do baú dos avós um antigo caderno de receitas, como se fosse um elo perdido do passado e tenta recriar alguma delas. E quando quer reunir os amigos, acende o fogo. As panelas borbulham e o velho fogão, antes instrumento indispensável, mas pesado e sofrido, aquece a cozinha, o coração e se torna um poderoso símbolo da nossa fartura e da nossa hospitalidade. Incrivelmente, cozinhar vira uma festa!...