Causos & Cousas

Elza do Val Gomes, a querida “Tia Elza”

18 de Julho de 2018, por Rosalvo 0

Tia Elza - uma vida dedicada ao canto coral (Foto revista O Trem)

A Associação Artística Coral Júlia Pardini, de Belo Horizonte, teve uma curiosa história: nasceu de uma formatura de medicina da Universidade Federal de Uberaba, em 1959. O formando, Arlindo Gomes Pardini Júnior, quis um coro para abrilhantar suas festas. Os parentes, sob a batuta da senhora Elza do Val Gomes, deslocaram-se de BH para Uberaba. Os componentes do coral, empolgados com o sucesso da festa, já voltaram a Belo Horizonte pensando em manter o grupo. E deu certo. O mais interessado, o pai da senhora Elza, sempre sonhara em criar um coral. Já até tinha um lema na ponta da língua: “Cantar para a todos alegrar”. A estreia do coral veio em 06/01/1960. E o nome? Foi uma homenagem à família: Coral Júlia Pardini.

Meu primeiro contato com o Júlia Pardini aconteceu em 1972. Eu estava fazendo o curso de Regência de Coral no fantástico “VI Festival de Inverno” da UFMG, em Ouro Preto, com o saudoso amigo Carlos Alberto Pinto da Fonseca. Fizemos parte do curso em Ouro Preto e, em janeiro, em Belo Horizonte.  Ao fim do curso, tivemos que reger um coral escolhido pelo professor. A mim coube o Coral Júlia Pardini, do qual me tornei, desde aquela data, um grande admirador em função do magnífico trabalho desenvolvido pela incansável Maestrina Tia Elza, que dedicou grande parte de sua vida ao canto coral.

Morando em Governador Valadares, dediquei-me a trabalhar com o coral da Universidade. Promovi em Valadares a vinda do Ars Nova (da UFMG) e a do Júlia Pardini. Ambos foram bem recebidos. Tempos depois, o Júlia Pardini conheceu nossa Resende Costa e nos brindou com um belo concerto à noite no sábado no Salão Paroquial (CPP) e a tradicional Missa Dominical.

Iniciadas as atividades do coral, veio a ideia de se criar um jornalzinho. E, de novo: “E o nome?” Foram buscar em uma expressão popular do México, algo em “Arruia”, qualquer coisa correspondendo ao “Oba” no Brasil!

Tia Elza teve a feliz ideia de criar um jornal com o objetivo de unir e estimular os corais no Brasil. Que se saiba, não se conhece um periódico semelhante. Com pouco tempo se espalhou pelo Brasil e atingiu a América Latina e a Europa. Hoje, o Júlia Pardini se orgulha de ter apresentado, ininterruptamente, suas 638 edições (50 anos!), no Brasil e no exterior!

Depois dos 13 anos de suas atividades, foi possível construir sua sede independente, bem adequada ao funcionamento das atividades de um coral, no 2º andar do prédio da “Tia Elza”.

O nº 638 do Arruia de Novembro passado trouxe a triste notícia do seu fechamento, para tantos que estavam acostumados a recebê-lo religiosamente, em BH, no Brasil, na América e na Europa.

 

Informações e características do Júlia Pardini

No auge de suas atividades, o coral trabalhava com cinco categorias de grupos:  Coralito (crianças de 3 a 6), Infantil, Juvenil, Adulto e até um Coral dos Pais!.

O Júlia Pardini exerceu uma importante atividade: em seus 58 anos, prestou um belo trabalho, acolhendo em BH muitos corais que por aqui vinham para se apresentar. Recebeu, entre muitos, corais do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Pernambuco.

Ao longo de sua vida, o Pardini sempre participou de eventos vários, tais como o do Natal, promovido pela Assembleia Legislativa, o “Coral na Praça”, na Praça da Liberdade (BDMG), o “Coral das mil vozes”, etc.

A partir da década de 70 o coral trabalhou com entidades e instituições variadas: Igrejas, Instituições Educacionais, Igreja Metodista Central, Instituto de Educação de Minas Gerais, Rádio Itatiaia, Bancos, entre outros. Outro cuidado do coral foi a dedicação a doentes e portadores de necessidades especiais.

O Júlia Pardini tem uma rica história e experiência fora do Brasil.  Na América do Sul, visitou a Argentina (quatro vezes), o Paraguai, o Peru, o Equador, o Chile (La Serena: Festival Internacional, 2002) e o México. Na Europa: 1986; em 2000, Alemanha (Munique: Festival Internacional); Itália (Vicenza, Assis, Roma: Rádio do Vaticano e Igreja de Santo Antônio de Lisboa, em Roma); 2010, Portugal, Espanha (Barcelona: Festival Internacional); França (Grenoble). Nessa última viagem à Europa, comemoramos os 80 anos da Tia Elza na famosa Cervejaria da Trindade, em Portugal! O autor desse texto teve o prazer de ajudar, acompanhar e participar dessas saudosas viagens, sob a batuta, não só mais da regência musical, mas da batuta do carinho, da organização e da responsabilidade.

E assim foi e fez-se sempre: uma vida dedicada à música. Convicta de que ela é uma das mais importantes para a construção de nossas vidas. É assim, Tia Elza!

Biblioteca Centenária de Resende Costa

15 de Maio de 2018, por Rosalvo 0

Sabe-se que os gregos, com sua reconhecida sabedoria, já tinham seus livros e, naturalmente, os depositavam em suas casas, bem como em seus ambientes de estudos sociais. Vejam-se os dois termos “biblion” (livro) e “theca” (lugar). Daí as nossas “bibliotecas”, termo difundido no Ocidente. E por isso mesmo vê-se a importância do termo e, sobretudo, o que ele representa.

Pois bem, é mais do que justo comemorar em nossa Resende Costa os 100 anos da biblioteca. Todos os países mais desenvolvidos do mundo têm suas grandes bibliotecas. Tive as oportunidades de visitar as duas maiores bibliotecas do mundo, a dos EUA (sediada em Washington) e a da Inglaterra, em Londres. Para minha alegria, em ambas pude encontrar o meu modesto livrinho, referente aos nossos Inconfidentes José de Resende Costa (Pai e Filho). A França e a Alemanha têm também bibliotecas colossais. Aqui no Brasil são poucas as grandes e boas bibliotecas. As maiores estão no Centro-Sul.

No mundo atual, embora os meios gigantescos de comunicação e a rapidez das novas descobertas, dois setores do mundo ainda sobrevivem: a imprensa e o livro. Logo, as bibliotecas estarão certamente à disposição dos povos ainda por muitos anos. Vejamos como a nossa cidade se portou em relação à nossa biblioteca. 

Resende Costa teve uma sorte: pouco depois de sua emancipação (1912), seis anos depois, recebeu um precioso presente de um de seus conterrâneos, o Antônio Gonçalves Pinto. Transferindo-se de Resende Costa há muito tempo para Belém (PA), ele doou de lá todos os seus livros para sua terra natal. Uma preciosidade: os livros, aproximadamente 300, com grande parte vindo da Europa (sobretudo de Portugal, França e Itália). 

Os livros foram encaminhados à Prefeitura, que assumiu por muito tempo o cuidado dos mesmos. Porém, posteriormente, esse acervo foi gradativamente deteriorando-se.             

 No governo do prefeito Luiz Antônio Pinto (1993/1996) o acervo, já bem crescido, foi acondicionado no imóvel anexo ao Teatro Municipal. Grande parte desse acervo, sobretudos as obras, algumas raras, doadas por Gonçalves Pinto, ficou espalhada no camarote do Teatro Municipal.

 Foi quando entrou em cena a amiRCo (Associação de Amigos da Cultura de Resende Costa). Os associados começaram suas atividades pelos livros danificados. Apresentamos ao FEC (Fundo Estadual de Cultura), um projeto de recuperação dos livros. Fomos aprovados. Os livros foram para Belo Horizonte para a sua recuperação.

 No terceiro mandato do prefeito Gilberto José Pinto andei sugerindo (melhor, “azucrinando” ...), construir uma biblioteca moderna. E, muito satisfeito, acompanhei a obra. A inauguração aconteceu em 2008.

 A sonhada biblioteca embelezou mais o nosso “Mirante das Lajes”. Ali estão, além da beleza da altitude de nossa terra, o casarão que foi sede da Prefeitura Municipal e hoje, Casa do Legislativo Municipal, a nossa gloriosa Rádio Inconfidentes, a Imagem de Nossa Senhora de Fátima, o “Passinho” da Semana Santa e a imensidade da laje...

 Agora... só faltaria retirar a caixa d’água da COPASA que escondeu o nosso Mirante... quem sabe?

Chegou o menino “Jornal das Lajes” de Resende Costa

17 de Abril de 2018, por Rosalvo 0

Num dia feliz de Abril de 2003, de repente, desceu a esperada cegonha na cidade.  Dia de alvoroço, pois outras antigas cegonhas tentaram em vão e não conseguiram baixar sobre a cidade. O menino Jornal já chegou e, já muito “metido”, veio já esbanjando inglês, com as primeiras palavras da primeira página: “Home Page”!

Os resende-costenses André M. de Oliveira, Cássio Jônatas, Pe. Claudir P. Trindade, Denilson M. Daher, Ednanda D. Coelho, Márcia A. Resende, Paulo E. de Andrade, Rômulo E. de Sousa, Sérgio Ricardo, Tatiane S. de Resende e Wanessa de Paula esperavam com ansiedade a chegada da cegonha: são os pioneiros do jornal. E o bebê chegou, “com muito suor”, mas robusto. O Editorial se abre com “O Despertar do Jornal”.

E começou “Soltando o Verbo”, sob a batuta do Denilson: “As dificuldades e as barreiras não foram poucas: construir um jornal para circular em toda a cidade é uma tarefa árdua, que exige de nossa parte uma dose enorme de compromisso com a sociedade resende-costense”.

Os temas da 2ª. folha trazem três textos. O primeiro, o “Jogo Aberto”, traz a figura do Prefeito Municipal, Sr. Gilberto Pinto (2ª. mandato), estreando a entrevista jornalística. Bem colocada, pois trata-se da autoridade maior do município. Entre suas respostas, vale ressaltar, entre outros: “Um jornal é muito importante para Resende Costa, mas é bastante preocupante, porque o jornal não pode ser político.” No “Vivenciando o Passado” o tema, inspirado, acena que a história do jornal é fundamental para a cidade. As escritoras ensinam que “História: conhecer o passado para entender o presente e projetar o futuro”. (Márcia A. Resende & Ednanda D. Coelho). Neste 3º tema, o Padre Claudir P. Trindade, pároco, apresenta o lema: “Vida, dignidade e esperança” (Campanha da Fraternidade 2003). Quem sabe “o menino Jornal das Lajes “seja o prenúncio de uma Resende Costa feliz...                                                                 

A página três mostra os tópicos da “Cultura” (religiosa, por André Eustáquio M. Oliveira), a “Arte e Artesanato” (Cláudio Reis/Manoel Feliciano) e a “Havana” (Educação, na escola Estadual Assis Resende) “Atualização, Paulo Eduardo de Andrade e a “Atualizando-se” (Problemas referentes à administração Municipal).

Na 4ª. página, o “Giro Esportivo”, mostrando os problemas do Estádio dos Eucaliptos (Denilson Daher), as “Piadas do Zezinho” e, finalmente, o “Para Curtir”, eventos programados na cidade.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                

 

Publicidades/propagandas

Doze resende-costenses, de início, reconhecendo a necessidade de um instrumento social (que permanece ainda firme em todo o globo...), se dispuseram a colaborar para sustentar a viabilidade da ideia de sua criação. Vejam abaixo os 12 primeiros patrocinadores: Contabilidade SDS Ltda. – Supermercado Resende Costa – Farmácia Nossa Senhora da Penha – Supermercado Bom Preço – Jolu Armarinho -  Loja Estylo – D’ Corações Artesanato – Supermercado Sobrado – Pé & Companhia – Casa da    Terra – Supermercado, Mercadinho e Açougue – Drogaria São Geraldo. 

À primeira edição, incrível, seguiu-se a segunda: de quatro páginas passou-se para oito e as 12 publicidades, passaram para 24. E assim continuou o crescimento do nosso Jornal.

Ao se ler a primeira edição, vê-se que os fundadores do jornal de imediato se dão conta dos pontos fundamentais para levar adiante esta empreitada.

Padre Tiago de Almeida, o saudoso “Padre Tiaguinho”

16 de Fevereiro de 2018, por Rosalvo 0

A 36 km de nossa Resende Costa, é conhecida no âmbito da Região do Campo das Vertentes pelo nome de São Tiago. Assim como nossa cidade é a Lagartixa, também São Tiago é conhecida por Cidade dos Biscoitos. Cidade simpática, mas que vim a conhecer tardiamente, pois, com meus 11 anos, já estava enclausurado no seminário dos salesianos de São João del-Rei. Se nem era permitido voltar à minha casa em Resende Costa, nem sonhar em conhecer São Tiago.

Mas por que falar do “Padre Tiaguinho”? Porque ele era um santiaguense que se tornou, inesperadamente, meu grande amigo. Ao consultar minha lista de aniversariantes, constatei que no dia 4 de Fevereiro ele estaria completando 89 anos. Mas eu sei que está. Sempre.

O menino Tiago foi batizado pelo vigário José Duque Siqueira (ex-vigário em Resende Costa) no mesmo mês (29/02/1929). Fez o antigo primário de 1936 a 1941. Em 1942 entrou no seminário salesiano em Lorena/SP para fazer o ginásio e o colegial (1946). Em Pindamonhangaba/SP fez o noviciado, onde recebeu a batina. Os estudos filosóficos foram feitos em Lorena/SP (1947/1950). Depois vieram os três anos de Assistência e professorado aos alunos do Colégio de Araxá (1950/1953).  Após os quatro anos dos estudos teológicos no Instituto Pio XI (Lapa/SP, 1953/1956), recebeu as ordens sacerdotais. Dadas suas capacidades intelectuais, de imediato os salesianos o encaminharam para licenciar-se em História Eclesiástica na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (1956/1958).

E assim, voltando da Europa, o Padre Tiaguinho iniciou seus trabalhos em São João del-Rei, assumindo a cátedra de História e Sociologia e várias outras atividades religiosas externas.

Entrei no Seminário Salesiano (Aspirantado) em São João del-Rei em 1953, mas conheci o Padre Tiaguinho somente a partir de 1959, quando, ao terminar o noviciado em Barbacena, comecei o meu curso de Filosofia e curso de Letras na recém-nascente Faculdade Dom Bosco em São João del-Rei. Ele professor e eu aluno, tínhamos um pequeno contato, pois não lecionava no meu curso (Letras anglo-germânicas). Lembro-me de que ele, em razão da pobreza de sua família em São Tiago, por um período trouxe para o Colégio São João seu pai, para ajudar nas lides das hortas e pomares, como auxiliar do Irmão Ludovino Lima.

Quando terminei meu curso filosófico e de Letras, aguardava ansioso pelo meu destino: a “Assistência”, para onde iria?”. Veio logo a informação: os seminaristas (aspirantes) do Colégio seriam deslocados de São João para a cidade de Pará de Minas, pois o Colégio Dom Bosco seria aberto à comunidade de São João del-Rei. E, para a minha alegria, foi nomeado diretor do Colégio o Padre Tiaguinho e eu, assistente. Daí surgiu uma amizade que não teve fim. Ah, ia me esquecendo, ele foi meu professor de acordeão...Tempos depois, quantas viagens como motorista do seu “Fusca” para o seu trabalho incansável, os gostosos encontros com as mocinhas e mocinhos de São Tiago... E, para coroar, o casamento com minha noiva Beth...

Sua vida foi dedicada ao sacerdócio, à educação, à juventude, aos pobres, à História e à música. Como educador, dedicou-se à alfabetização dos mais pobres, com o método SDB (“Método Sistema Dom Bosco de Educação de Base para Alfabetização de Adultos”) por ele mesmo criado - um método simples, para ganhar uma rápida eficiência. 

O Padre Tiaguinho nos deixou no dia 14 de maio de 1985, por volta de meio-dia, na Avenida do Contorno, em Belo Horizonte, vítima de um atropelamento.

Tomo a liberdade de encerrar esta minha homenagem ao Padre Tiaguinho transcrevendo o texto de sua amiga Maria de Lourdes Rezende (Cairu), lido no dia 15 de Maio de 1985, durante o seu velório em São Tiago: “Morreu o Padre Tiaguinho. Morreu o poeta, o escritor, o artista, o seresteiro. Morreu o sacerdote humilde, pobre que deu sua vida à Igreja amando, ajudando, perdoando. Morreu o grande orador sacro! Seus sermões, Padre Tiago, a sua voz eloquente e firme, sua mensagem de sacerdote e de amigo não se calarão aos nossos ouvidos. Você parte e deixa o seu exemplo de dignidade, de pobreza e de fé. Morreu o Padre. Morreu o poeta e cantor, o artista de nossos teatros, o sanfoneiro de nossas festas, o padre – o padre e grande padre...”.

“A esta hora, exactamente, hay un niño en la calle...”

16 de Janeiro de 2018, por Rosalvo 0

Percorrendo as ruas de Belo Horizonte (que não é mais bela...), a cada canto vejo homens, mulheres e crianças perambulando dia e noite pelas ruas, calçadas, viadutos e por vezes pelas praças e parques. Geralmente descalços e agasalhados com imundos cobertores, ali constituem as suas casas. Informações da Prefeitura indicam que entre os 2.500.000 habitantes, 6.600 estão espalhados pelas ruas da cidade. Só no ano passado a presença de “pessoas em situação de rua” cresceu cerca de 40% em Belo Horizonte. Um horror. E leve-se em conta que estamos na região mais rica do Brasil, a região Sudeste!

Dias atrás, ao ligar a TV, dei de cara com três cantores em ação: o Chico Buarque, o Caetano Veloso e, imaginem, uma cantora considerada das mais importantes da América do Sul, nada mais, nada menos do que a Mercedes Sosa! E, para coroar, eles cantaram o “A esta hora, exactamente, hay un niño en la calle...” (A esta hora, exatamente, há um menino na rua...”).

Sou fã da Mercedes. Ela nasceu na Argentina, em San Miguel (Província de Tucumán), em 1935. Nesta década a Argentina, outrora muito rica, já começava a sua decadência na economia e na política. Na década de 60 já começam a aparecer as “Villa Miseria” (Favelas) e Mercedes, de ascendência ameríndia, assume o caminho da sua peregrinação musical direcionada para os pobres. Essa direção a levou a ganhar o nome de “La Negra”. Além de abraçar a música folclórica, ela praticou um forte ativismo político. Passou a ser a “Cantora da América Latina”. E rodou pelo mundo.

Tive o privilégio de ouvi-la, primeiramente, nos dois anos dos meus estudos teológicos, na cidade de Córdoba (1968/1969). Depois, no Brasil, em São Paulo, 1982. De passagem por São Paulo, aproveitei para ouvi-la. E fui premiado. A apresentação foi no Teatro da PUCSP (onde, no dia fatídico de 22 de setembro de 1977, o famoso Coronel Erasmo Dias, chefe da repressão militar, encurralava e massacrava os 900 alunos presentes...). Como previa, tratei de chegar bem cedo para, se possível, assentar-me na primeira fila e no centro da plateia. Veio Mercedes, nas sua simplicidade e sempre aplaudida. Terminou o show, mas a plateia não parava suas palmas. Eu já previa algo inesperado:  levava uma folha de papel e lápis. Pensei: se ela não cantar a “A esta hora...”, vou imediatamente escrever um pedido. Não deu outra: ela fez uma pausa. Um silêncio absoluto e... “A esta hora, exatamente, hay um niño en la calle...”. Naquela noite custei dormir... Finalmente, muito tempo depois, pude revê-la no Palácio das Artes de BH.

Mercedes (Haydée Mercedes Sosa) veio a falecer em Buenos Aires, em 2009. Deixou uma vasta herança musical, gravada nos belos 51 CDs.

E vamos de volta ao nosso Brasil. Ver nas ruas os niños e os adultos andando o dia inteiro e pedindo qualquer miséria para sobreviver dói-nos o coração.  E agora, com o Brasil se afundando nesse mar de desordem e de incompetência dos governos, da praga da desigualdade social, de roubalheiras de todos os cantos, o que fazer?

Para que o barco não acabe de se afundar, tornam-se necessárias várias mudanças no sistema político em todos os níveis e a promoção de dois sistemas fundamentais, o do educacional e o da saúde, sistemas que jamais funcionaram neste país. Para atingir esses objetivos, é indispensável que os incompetentes e ladrões agarrados por anos nos poderes executivo, legislativo e judiciário sejam substituídos. Só assim, depois de muitos anos, poderemos ter um Brasil sadio.

Volto-me, agora, para minha terra. Sinto-me aliviado: não me lembro, há tempos, de ouvir falar de alguém dormindo na rua. Em décadas passadas encontravam-se pessoas perambulando pelas ruas, sim, mas tinham sempre um cantinho para dormir.

Que a Santa Mercedes, a cantora dos pobres da América Latina, de onde esteja, proteja os nossos niños!