Causos & Cousas

Uma noite de festa no Palmital

18 de Maio de 2017, por Rosalvo 0

A manhã do Sábado do dia 6 de maio amanheceu embaçada e morrinhenta na Pimenta e no Palmital. Abri a janela e pensei: adeus Reza, adeus festa! Chuviscava. Na Sexta havia chovido um pouco. Lá pelo meio-dia alguém chegou a informar pela rádio que a festa iria gorar. Mas, talvez, São João tenha ajudado e o sol mostrou sua cara.

Essa “reza” se realiza no Palmital, à noite, com o objetivo de angariar grana para a grande e tradicional festa de São João no “Povoado dos Pinto”. Essa é a sua 4ª. edição no Palmital, comandada pelos anfitriões Tânia e Lourenço e contando com a ajuda do Valdinei Ribeiro (Jacaré) para preparar o local.

Enfim, desceu a noitinha, cobrindo um clima agradável. Começaram a chegar os carros pelos dois acessos ao Palmital. De longe podia-se ver um rosário de lâmpadas e, chegando-se ao pátio coberto de bandeirolas, prenunciava-se uma alegre noitada. As barracas iluminadas já estavam abertas, ostentando a canjica, os churrasquinhos, o caldo de feijão com torresmo, os choconhaques, as cervejinhas e as cachacinhas.

150 ou 160 pessoas já aguardavam o início da Reza, que foi puxada pela Ana do Galo. Terminada a Reza, a “Banda do Chá Preto” já começava a afinar seus instrumentos: os 3 violões, do Chá Preto, do Leonel e o do Lourenço, o anfitrião; o acordeon do Geraldo de Ritápolis; o contrabaixo do Tilu e, preparando a sua garganta, o cantor/solista da banda, o Claudinei do Dativo.

De repente, saindo da sala da casa dos anfitriões, começou um frenético leilão, com cerca de 60 prendas que rodaram pelo pátio: doces, salgados, bebidas, prendas do artesanato de Resende Costa etc. Chamou a atenção dos presentes uma interessante prenda: um grande e pesado galo, branquinho, marchetado de preto. Por R$ 40,00 o nosso amigo Guilherme Cascão o arrematou. Também pudera: fanático atleticano como ele é, saiu satisfeito com sua preciosa prenda.

E a Banda do Chá Preto entrou em ação. Uma beleza! Começou por um longo cardápio de peças sertanejas, bem escolhidas, que durou uma hora e meia. Sem perder o fôlego, passou para um animado forró. Aí a turma caiu num frenético arrasta-pé. Brilhou no “palco” do pátio o José Mateus, lá da vizinha Restinga. Deve ter dado um show para as moçoilas presentes, jogando os pés para trás com um elegante “coicinho”. Fiquei observando a performance da banda, típica do interior. E como é gostoso ouvir essas bandas! Ali por perto eu olhava, entre os outros, a classe e a beleza do baixista. Levantei-me e me aproximei dele por um bom tempo. Mas também, era o nosso Tilu! Não precisava dizer mais nada sobre o ex-maestro da banda de música do Exército 11º BI de São João del-Rei.

Aproximando-se a meia-noite, a banda fechou a festa com uns três belos boleros e os participantes foram se retirando. Como é gostoso uma festa na roça, entre árvores, sapos, grilos e corujas, tendo, além do colorido das bandeirinhas, a cobertura de um céu límpido e estrelado, longe do barulho infernal de nossas cidades. E vamos aguardar a Festa de São João. Que tal a banda do Chá Preto?

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P.S. – No Sábado anterior pude apreciar a Banda do Chá Preto. Hoje, Quinta, pude saborear algo semelhante, aqui em Belo Horizonte. Pena que não foi numa roça. Trata-se de um evento, “Festival Internacional de Acordeon”, que se iniciou ontem e vai até o Domingo, no Sesc Palladium. O evento de hoje chamou-se “Toninho 8 Baixos”. Essa banda tem, como líder, o senhor Antônio Fortunato, conhecido por “Toninho dos 8 Baixos”, acompanhado por um violão, uma guitarra, um contrabaixo e a sanfona (isso mesmo, não um acordeon!). A legítima sanfona, que tem apenas 8 baixos, é construída pelo próprio Toninho. Uma beleza. Ele exibiu também uma outra sanfona, esta mais sofisticada, também construída por ele. Além de fabricar, o Toninho dos 8 Baixos é um exímio técnico: conserta e regula sanfona e acordeon. Muita gente parou na rua para ver e ouvir o show. E eu pensava na nossa banda do Chá Preto lá na roça, tão bonita quanto a sanfona do Toninho dos 8 baixos...

A Assembleia de Deus em Resende Costa

13 de Abril de 2017, por Rosalvo 0

A Assembleia de Deus chegou ao Brasil por intermédio dos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, que aportaram em Belém, capital do Estado do Pará, em 19 de novembro de 1910, vindos dos Estados Unidos. A princípio, frequentaram a Igreja Batista, denominação a que ambos pertenciam na Suécia. Eles traziam a doutrina do batismo no Espírito Santo, com a glossolalia — o falar em línguas espirituais — como a evidência inicial da manifestação para os adeptos do movimento. A manifestação do fenômeno já vinha ocorrendo em várias reuniões de oração nos Estados Unidos (e também de forma isolada em outros países), principalmente naquelas que eram conduzidas por Charles Fox Parham, mas teve seu apogeu inicial através de um de seus principais discípulos, um pastor leigo negro, chamado William Joseph Seymour, na rua Azusa, Los Angeles, em 1906. 

A nova doutrina trouxe muita divergência. Enquanto um grupo aderiu, outro rejeitou. Assim, em duas assembleias distintas, conforme relatam as atas das sessões, os adeptos do pentecostalismo foram desligados e, em 18 de junho de 1911, juntamente com os missionários estrangeiros, fundaram uma nova igreja e adotaram o nome de Missão de Fé Apostólica, que já era empregado pelo movimento de Los Angeles, mas sem qualquer vínculo administrativo com William Joseph Seymour. A partir de então, passaram a reunir-se na casa de Celina de Albuquerque. Mais tarde, em 18 de Janeiro de 1918 a nova igreja, por sugestão de Gunnar Vingren, passou a chamar-se Assembleia de Deus, em virtude da fundação das Assembleias de Deus nos Estados Unidos, em 1914 em Hot Springs, Arkansas, mas, outra vez, sem qualquer ligação institucional entre ambas as igrejas.

A Assembleia de Deus é uma igreja cristã protestante, sendo a maior denominação protestante e pentecostal no Brasil e no mundo, contabilizando mais de 66 milhões de membros. Seu caráter histórico descentralizado permite a existência de diversas convenções sob o nome de "Assembleia de Deus". No Brasil o presidente nacional é o Pastor José Wellington Bezerra da Costa, pela CGADB, o bispo Manoel Ferreira pela CONAMAD, entre outros líderes de convenções em âmbito nacional.

As Assembleias surgiram simultaneamente no Brasil (1911) e nos Estados Unidos (1914), se unindo por meio da Associação Mundial da Assembleia de Deus na década de 80 de forma autônoma e independente, e ligadas pela história e pelas crenças expostas na Declaração de Verdades Fundamentais das Assembleias de Deus. Como uma Igreja Pentecostal, as Assembleias de Deus acreditam no batismo por meio do Espírito Santo, evidenciado por meio do falar em línguas; no arrebatamento da Igreja por Cristo e na doutrina da Santa Trindade.

Sua expansão pelo mundo se deu por meio de um forte trabalho missionário, enfatizado pela organização como meio eficaz da pregação do Evangelho e para a expansão do Reino de Deus no mundo.

A Assembleia de Deus em Resende Costa teve seu inicio no dia 22 de agosto de 1982, quando chegou enviado pelo ministério de Caratinga (MG) o pastor Onofre Ferreira da Silva, juntamente com sua esposa Silvia Passos de Godoi Silva e dois filhos, trazendo para a cidade de Resende Costa não uma religião, mas as boas novas do evangelho do Senhor Jesus Cristo.

Tendo início da pregação do evangelho em uma residência situada na Rua Sete de Setembro, depois o pastor Onofre entrou em contato com o Sr. Antônio Marcos de Sousa Melo (o Pituca), onde nos foi alugado um salão na Praça dom Lara. Lá continuou a pregação do evangelho e as primeiras conversões de pessoas a Cristo. Ao lado do salão havia um bar no qual algumas pessoas alcoólatras perturbavam bastante os trabalhos da igreja mas, graças a Deus, muitos deles que zombavam hoje se converteram ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Houve um tempo em que o pastor Onofre pensou em regressar a Caratinga, devido a muitas perseguições diretas e indiretas. Chegou a escrever uma carta ao pastor-presidente Ari Ferreira Coelho pedindo seu retorno, quando chegou no salão da igreja em Resende Costa um casal de irmãos da Assembleia que ele não conhecia. Ambos eram da cidade de São Paulo.

Quando o casal estava no culto, Deus, através do Espírito Santo e por meio da esposa daquele irmão, em profecia, disse ao pastor Onofre que não era o tempo de sair da cidade. E mais, a profecia dizia que Deus iria fazer uma grande obra através de suas vidas e que, de longe, veriam a obra que Deus ia fazer, congregando mais cooperadores para sua obra. Essa profecia, que hoje o pastor Onofre tem visto cumprir, o trabalho se estendeu aos povoados do Barracão, Floresta e Ribeirão e no ano de 1984 foi realizado o primeiro batismo em águas na cidade de Resende Costa.

O pastor Onofre permaneceu na cidade de Resende Costa até o ano de 1988, quando comprou um lote na Rua das Flores, 119, Bairro Jardim, para a construção do templo da Assembleia.

Tendo o pastor Onofre se mudado para a cidade de São Tiago, ficou como pastor em Resende Costa o Sr. Teodosio Veloso, o qual iniciou a construção do templo.

São os seguintes os pastores que se sucederam ao pastor Teodosio: José Eduardo de Matos, Onofre Vicente Machado, Luiz Alberto Schirme (também missionário na Ucrânia), José Carlos Felipe (também missionário na Índia e hoje em Portugal), Miguel Coronel, Oziel, Exéquias Veloso, João Carlos, Leonardo Mendes e, atualmente, o pastor Carlos Vieira Teixeira, filho do senhor Juscelino José Teixeira Neto, conhecido como “Tino do Barracão”.

E assim cresce a igreja ASSEMBLEIA DE DEUS em Resende Costa, com o objetivo de levar o amor de Deus aos corações de todos.

*Pastor Carlos Vieira Teixeira - Colaboração especial nesta edição do Jornal das Lajes

As igrejas evangélicas em Resende Costa

16 de Marco de 2017, por Rosalvo 0

O Jornal das Lajes se propõe a acompanhar o movimento dos religiosos evangélicos em nossa cidade, uma vez que há uma predominância muito grande sobre o movimento histórico da Igreja Católica. Resende Costa é uma comunidade única, na qual todos os habitantes convivem em harmonia. Com orgulho, não é por nada que somos o município, entre os 853 de Minas Gerais, considerado ter o menor índice de crimes violentos. Se somos assim, uma comunidade unida, por que também não seria de bom alvitre nos unirmos nos movimentos religiosos? Como veremos mais abaixo, a própria Igreja Católica, por decisão do Concílio Vaticano II, se abriu para uma convivência ecumênica: que bonito, a busca da unidade entre todas as igrejas cristãs! (Ecumênica: termo do grego, que significa mundo habitado, terra universal).

Pode-se considerar que a religião Cristã Católica nasceu em Resende Costa em 1749, a partir da construção da “Capela de Nossa Senhora da Penha de França”. Pode-se, também, presumir que este movimento ocorreu por iniciativa do José de Rezende Costa (o pai), provavelmente ajudado pelo padre Carlos Correia de Toledo Melo. Era o vigário da paróquia de São José (atual Tiradentes), mas ele tinha também uma casa no “Arraial da Lage”, ao lado do seu amigo Rezende Costa.

Somente cem anos depois, 1840, o movimento religioso da igrejinha da Senhora da Penha desmembrou-se da paróquia de Santo Antônio de Lagoa Dourada para a criação da paróquia do arraial, tendo como primeiro pároco o neto do inconfidente José de Rezende Costa, o padre Joaquim Carlos de Rezende Alvim.

Curiosamente, mais 100 anos depois, em 1944, vem para a paróquia o padre Nélson Rodrigues Ferreira e pouco depois os movimentos evangélicos, - os “protestantes”, como intitulavam os católicos, - começaram a chegar à região e a Resende Costa. Provenientes de Volta Redonda (RJ), já realizavam cultos em casas particulares da cidade. Os pastores João Manoel Pereira e Joaquim Alves da Silva foram convidados por “um tal de José Barbosa”, como escreveu o padre Nélson Rodrigues Ferreira, no primeiro volume do Livro do Tombo da paróquia.

Em 1948 os católicos se preocupavam com o crescimento do movimento em Resende Costa. O padre Nélson pediu prudência sobre o fato “a várias pessoas ponderadas” e disse que gostaria que se fizesse apenas uma manifestação pública, de fé católica”. Mas os fieis católicos exageraram. Por iniciativa deles acabaram expulsando os recém chegados.  

Um deles, dos mais convictos, se chamava João Batista. Naquela época eu era coroinha da igreja e me lembro de presenciar o padre Nélson discutir com ele, na porta da sacristia. Era conhecido por “João Batista da Estrada”, pois acabou saindo do município e passou a morar à beira da estrada de Resende Costa a São João del-Rei, perto da cidade atual, Coronel Xavier Chaves.  

Nas circunstâncias daqueles tempos, não é justo simplesmente condenar as precauções e o verdadeiro medo do padre Nélson e de seus fiéis. Na sua formação, ele certamente terá sido instruído para tomar tais atitudes. Eram tempos em que as pequenas cidades do interior, pelo menos na nossa região, nem sequer conheciam os evangélicos. E era também, em se tratando da Igreja Católica, tempos de extremo conservadorismo. Tempos depois, o Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII, propiciou essa abertura da Igreja Católica. Fato que não só se deu para com os evangélicos, mas também para com as outras religiões do mundo.

Em fins da década de 1950, os seguidores da Congregação Cristã já celebravam seus cultos, inicialmente em suas casas. Logo depois, a partir do Ribeirão de Santo Antônio, vieram para o bairro “Tejuco”, (atualmente “Vargem”). Seu templo foi erguido em 1983. Posteriormente, foi construído outro, no povoado “Micaela”. Assim cresce a Congregação, sempre com sua tradicional simplicidade, característica sua, cumprindo e cultivando o seu cristianismo.

Outras denominações religiosas foram chegando aos poucos e hoje pode-se perceber que estão se espalhando por vários bairros da cidade, como se pode ver na lista abaixo.

 

Igrejas evangélicas de Resende Costa:

  1. Igreja Catedral Universal da Fé Cristã (Rua Exp. F. B. Rios, 64)
  1. Igreja Messiânica Mundial do Brasil – IMMB(Praça do Caxias)
  1. Igreja Evangélica Filadélfia (Rua São João del-Rei, 12)
  1. Igreja Evangélica Assembleia de Deus (Rua Sete, 175)
  1. Comunidade Evangélica de Resende Costa  (Início da rua da “Vargem” – perto da Rodoviária)
  1. Igreja Batista.CON.Shalom  (Idem, início da “Vargem”)
  1. Assembleia de Deus (Rua das Rosas, s/n)
  1. Testemunhas de Jeová (Bairro Bela Vista, Rua Pedro Olímpio, 36)
  1. Igreja Mundial do Poder de Deus  (Rua Dr. Abeilard/Av. Prefeito Ocacyr de Andrade)
  1. Igreja Pentecostal Deus é Amor (Rua Vicente Penido, 36, Bairro Dois de Junho (Boca Júnior)

O Brasil não conhece o Brasil...

16 de Fevereiro de 2017, por Rosalvo 0

“Polícia mata e fez caçada”. Está no caderno “Gerais” do Estado de Minas do dia 3 passado, pg. 14. Uma quadrilha de 10 pretendeu explodir o Banco do Brasil no centro da cidade de Mata Verde (2.600 habitantes), no Norte de Minas. Desta vez os bandidos quebraram a cara, ou melhor, foram fuzilados pela polícia. Três escapuliram. Foram recebidos por 40 policiais. Agora as quadrilhas – com bandidos do Paraná, São Paulo e Minas – não querem apenas as caixas eletrônicas. Já sabem explodir os cofres internos. Cidade pacata, no interior de Minas, um absurdo.

(Estou hoje deixando de lado nossa Resende Costa, o sempre e querido Arraial da Laje dos “causos e cousas”. Volto-me para o Brasil. Sei lá se poderia dizer que é querido, mas... vamos lá.

Dois anos atrás foi a vez da cidade de Itamonte, agora no Sul, 14.200 habitantes. Foram 10 mortos, 9 bandidos e um professor da cidade. São tantos os problemas, as misérias, as doenças, as ladroagens (entre pessoas e no âmbito do próprio governo), a carnificina das rodovias, as sujeiras das cidade todas pichadas. Enfim, nem damos conta de enumerar e enxergar. Quem se lembrava da chacina de Itamonte? Por esses muitos anos, há muitas novidades (tristes, claro). Porém nada funciona neste país, até as praias. A Folha de São Paulo fez, no ano passado, um levantamento das praias do Brasil. Um desastre, acreditem se quiserem. Resultado: “3 em 10 praias brasileiras são impróprias para banho”, (Folha, 05/02/2017, caderno “Cotidiano”, pg. 1). E imaginem: é nas regiões metropolitanas que estão a maioria das piores praias. Nem precisa dizer qual a pior: aquela que se dizia ser o cartão de visitas do Brasil...

Esse é o retrato minúsculo e vergonhoso do Brasil, que não conhece o Brasil. Estou tomando o título e a frase do presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Jessé Souza. Estava iluminado quando proferiu essa sentença: “O Brasil não conhece o Brasil, só faz de conta que conhece, o que é muito pior”,

Como já não bastava, este ano começou com o problema dos presídios. Parece que foi programado. Um horror!. Pior para o Brasil, que se espalhou essa vergonhosa carnificina pelo mundo todo. Enquanto isso, a Holanda tinha 7 presídios e foram todos fechados. Um deles até virou hotel de luxo de 5 estrelas... Dizem, melhor, cantamos que o Brasil está eternamente em berço esplêndido. Parece piada. Outros dizem que o Brasil dá um passo adiante e dois atrás. É uma realidade. Enquanto estou escrevendo estou vendo um estado que, de repente, deixou de ser um estado bonito, tranquilo e laborioso. De repente, mais de 100 assassinados em seis dias, enquanto há uma depredação por todos os lados, ou melhor, uma guerra civil, a ponto de ser necessária a convocação do Exército Federal.

Como sair deste inferno, fome, miséria, ladrões de todos os tipos, falta de dinheiro para tudo (escolas, hospitais, infra-estrutura)? Sabemos que a raiz de tudo isso é a desigualdade social. Não adianta somente colocar a comida na boca do pobre, porque ele vai continuar pobre. A única solução é aquela que é decantada por todos os governantes, mas jamais cumprida, desde o dia no qual o Brasil tornou-se uma República. O pior é que se um governo decidisse resolver este problema, a sociedade brasileira só vai ver os resultados uns 20 ou 30 anos depois. A nossa geração já está perdida.

Já nos dizia o saudoso Darcy Ribeiro (que bem podíamos chamar de “O arauto da educação”): “Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”. É o que já estamos vendo hoje.

Fico por aqui. Sempre fui professor, mas infelizmente sou daqueles que, tal como São João Batista, ando por aí pregando no deserto. Entretanto, se algum governante decidir abraçar para valer um projeto de educação, não se esqueça de antes promover uma ampla estruturação do nosso falido e vergonhoso sistema político.

A batina

15 de Dezembro de 2016, por Rosalvo 0

Na última edição do JL apresentamos a família Ramiro/Ninfa, nossos conterrâneos. Aproveitamos a oportunidade para explorar um pouco daquele ofício que constituiu o ganha-pão do Ramiro: o alfaiate. E como alfaiate, um trabalho muito especial: a famosa “batina”. Se ele foi um craque na alfaiataria em geral, na batina ele foi insuperável. Em São João del-Rei, para onde ele se mudou, talvez seria o maior.

Vamos conhecer uma historinha sobre a batina. Ela é conhecida também como “sotaina”, nome italiano e pouco usado. As batinas atuais são uma herança dos romanos os quais, posteriormente, passaram para os cristãos. Eram vestes “talares”, roupas que descem até o calcanhar. Atualmente ainda usam batinas, além dos sacerdotes católicos, os anglicanos, os ortodoxos e outros. Os católicos tendem a deixá-las, exceto os membros do Vaticano.

Na hierarquia da Igreja Católica usam batinas os clérigos: diáconos, padres, bispos, cardeais e, obviamente, o Papa. Interessante são as cores: o preto (a mais usada), o branco (obrigatório para o Papa) e a vermelha (bispos e cardeais).

A batina guarda algumas curiosidades que pouca gente conhece. Vejamos. Veste-se a batina por sobre a camisa e a calça comprida. Na frente há uma fileira de 33 botões, a partir do pescoço até a barra, no pé: representam os 33 anos da vida de Jesus Cristo. Nos dois punhos estão 5 botões cada, representando as suas 5 chagas. Ao pé do pescoço há um colarinho branco de plástico, que era chamado “voltinha”. Em algumas congregações usa-se uma faixa larga na altura da barriga, representando a castidade, pois antigamente acreditava-se que o desejo sexual estaria ligado aos rins e a faixa seria, então, uma proteção da castidade. Finalmente, a batina tem dois bolsos grandes, abertos e superpostos, ao lado do bolso da calça comprida: logo, o padre tem 4 bolsos grandes.

Bem, fazer uma batina é que era o difícil, não era para qualquer alfaiate. Em princípio, gasta-se muito pano e ele devia ser de casimira resistente. Tudo isso caro! Que eu saiba, houve em Resende Costa três deles: os irmãos Aquim do Lauro e Ramiro Resende e o Antônio Roman. Destaco os dois últimos, os quais fizeram batinas para mim, nos 10 anos em que eu “sofri” com elas durante o tempo no qual estive no seminário. O Antônio Roman está por aí, era caprichoso, se precisar ele ainda faz uma batina. Mas diante do Ramiro, tinha-se que tirar o chapéu. Era tão caprichoso que, ao fazer as muitas medidas, a gente saía com as pernas doendo. Ele tinha um arsenal de equipamentos de madeira e outras bugigangas (réguas, esquadros, fitas, alfinetes, gizes, agulhas diferentes) que a gente ficava parecendo um porco-espinho. Aí chegava o dia de fazer as provas. Mais sofrimento. Mas, valia a pena. Sobretudo para mim, de que ele não me cobrava!

Nas primeiras décadas do século passado, a batina era rigidamente obrigatória para os que queriam ser padres. Quem viu fotos do Caraça ou do Seminário de Mariana se espanta: meninos de 10 anos já tinham que usar a batina. Entre os salesianos e outras congregações religiosas os seminaristas recebiam a batina a partir dos 15 ou 16 anos. Naquele tempo, esperávamos ansiosos para receber a batina, numa cerimônia chamada
“vestidura”, celebrada com festa e padrinhos... Além da batina, os seminaristas recebiam ainda um chapéu meio quadrado chamado “barrete”, para as funções religiosas e outro, redondo, para sair nas ruas e nas viagens.

Com o advento do Concílio Vaticano II (1962/1965), promulgado pelo Papa João XXIII, muita coisa da Igreja mudou. Pode-se dizer que a batina foi, aos poucos, desaparecendo. Os salesianos sempre foram uma congregação religiosa mais conservadora. Imaginem que para a prática de esportes (futebol, basquete, vôlei, ginástica etc.) não se podia tirar a batina. Em 1968, os estudantes de Filosofia em São João del-Rei acharam um caminho para se livrar, de uma vez, da batina. Na calada da noite, um grupinho deles recolheram as batinas de todo mundo do dormitório em um banheiro antigo e trancado, com aviso e que estava fechado a tempos. Só muito tempo depois foram descobertas e... adeus batinas.

Ultimamente, depois do Concílio, apareceu o famoso clergyman: não é nada mais nada menos do que um colarinho do tipo da “voltinha”.