Papo de Esportes

Virada de jogo? Futebol feminino e suas importantes conquistas em 2020

22 de Janeiro de 2021, por Vanuza Resende 0

Aquele padrão estabelecido no mundo machista do futebol parece que finalmente começou a cair por terra. Dando lugar ao que realmente importa: capacidade e competência. Em um dia desses, ainda no final de 2020, noticiei no programa de esportes que comando na Rádio Emboabas, de São João del-Rei, a exigência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) sobre carteira assinada para jogadoras de futebol.  De acordo com reportagem da jornalista Cíntia Barlem, do Globoesporte.com, a CBF vai exigir que os clubes assinem a carteira das atletas neste ano. Além disso, a temporada 2021 terá outras novidades, como a criação de campeonatos regionais.

Exigência que vem após a conquista de 2019 determina que todos os 20 participantes da Série A do Brasileiro precisam se enquadrar no Licenciamento de Clubes da CBF e, por obrigação, mantenham um time de futebol feminino – adulto e de base. Na época da decisão, 65% dos clubes precisaram se adaptar para atender às regras. A medida, no entanto, ainda não remetia à profissionalização da modalidade no país. No ano, somente quatro equipes confirmaram que iriam pagar efetivamente salários às jogadoras. Corinthians, Santos, Grêmio e Internacional – com valores que, de forma oficial, variavam de R$1.500 a R$4 mil.

As exigências e as conquistas começaram a entrar em jogo depois de quatro décadas, em que a prática do futebol feminino foi liberada por lei no Brasil (1979). Isso porque, desde 1941, o Decreto-Lei 3.199, do governo de Getúlio Vargas, proibia a “prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina”.

Assistindo à final do Campeonato Mineiro Feminino de 2020, Vanessinha, Joyce, Pires, Marcela e todas as demais atletas conseguiram provar, em um jogão de bola, totalmente o contrário do que dizia a estúpida lei de 1941. Vitória merecida do Atlético, que fez a melhor campanha ao longo da competição disputada por América, Atlético, Cruzeiro e Ideal/Ipatinga. Nos pênaltis, após empate no tempo normal em 2x2, as vingadoras comemoraram o título no gramado do Mineirão.

Outra grande conquista, desta vez sem depender de leis e determinações, foi o grande aumento de telespectadores acompanhando a partida. No grupo de WhatsApp, os cruzeirenses lamentando que 2020 não foi mesmo o ano da Raposa.  No Twitter, a torcida atleticana colocando a vitória do Galo como os assuntos mais comentados no Brasil. Apesar disso, ainda escutei durante a transmissão que “hoje em dia, as mulheres jogam o mesmo tanto que os homens”. A frase até parece inocente, mas carrega consigo um preconceito muito grande. Afinal, as mulheres só querem jogar como elas mesmas.

Apesar de 2020 ter sido um período complicado no mundo todo e no futebol não ter sido diferente, talvez o setor que mais sofreu nesse período foi o futebol feminino. Com os clubes precisando enxugar gastos, por conta da pandemia, o investimento na categoria, que já não era dos melhores, foi quase zero. 

Por isso, assistir a Cruzeiro e Atlético no Mineirão, ainda que o estádio tenha sido confirmado apenas nas vésperas do jogo, depois de reivindicação dos clubes, foi uma conquista e tanto para o final do ano. 2021 chegou e com ele a promessa de um ano melhor no futebol feminino, com a garantia da carteira assinada das atletas.

2021 parece que vai ser mesmo um ano de conquista no mundo esportivo feminino: Edina Alves, paranaense de Goioerê, vai comandar o trio de arbitragem durante o Mundial de Clubes de 2020, que será disputado em fevereiro deste ano, no Qatar. A lista oficial foi divulgada no dia 4 de janeiro pela Fifa, a cujo quadro Edina pertence desde 2016. Além de Edina, outras duas mulheres atuarão como assistentes: a também brasileira Neuza Back e a argentina Mariana de Almeida. Ao todo, a lista é composta por sete árbitros de campo, 11 assistentes e outros sete árbitros de vídeo que comandarão uma das maiores decisões do futebol masculino. Apesar da responsabilidade, Edina tem tudo para fazer um bom trabalho, afinal ela já está acostumada com decisões. Em 2019, foi ela que apitou a semifinal da Copa do Mundo.

Só para reforçar, em 2019 tivemos Copa do Mundo, sim: a FEMININA!