A última “catequese” de Francisco
27 de Maio de 2026, por Mauro Luiz do Nascimento Júnior 0
No dia 28 de abril (2026), consegui visitar a lápide do saudoso Papa Francisco. Posso dizer, sem exagero, que a minha fé se divide em dois tempos: antes e depois de Francisco e de seu admirável pontificado.
A fé, assim como a própria vida, exige amadurecimento. E, quando amadurece, nos obriga a enxergar o mundo por outras frestas. Foi exatamente isso que aconteceu comigo através do magistério de Francisco. Desde a infância, a opulência me causava incômodo; havia algo nela que me parecia distante do Evangelho. Então surgiu Francisco, com sua simplicidade desarmante, para consolidar um caminho que eu buscava sem sequer perceber: uma fé concreta, encarnada na vida, uma fé que recoloca Cristo no centro não como discurso, mas como prática cotidiana.
Mas não apenas isso. Francisco nos ensinou uma fé capaz de olhar para as periferias existenciais, de tocar as feridas humanas sem medo, de escancarar aquilo que deveria ser evidente desde sempre: uma Igreja para todos, todos e todos...
Foi um homem que viveu aquilo que pregou. Sua sepultura traduz isso de maneira quase silenciosa. Pela televisão, eu não imaginava que fosse tão simples; diante dela, a simplicidade impressiona ainda mais. Não há grandiosidade ornamental, apenas a sobriedade de quem compreendeu que a força do Evangelho não habita no excesso, mas na entrega.
Francisco, o “Papa da Igreja em saída”, deixou também em seu descanso eterno uma última catequese: escolheu repousar fora da sede oficial da Igreja Católica. Até na morte permaneceu fiel ao caminho que anunciou durante toda a vida.
Não consegui encontrá-lo fisicamente em vida, mas, de algum modo, hoje o encontro em um lugar mais caro: no coração. Há presenças que o tempo encerra e há outras que permanecem caminhando dentro de nós. Francisco pertence a essas últimas.
A semente foi novamente lançada à terra. Agora, cabe a nós decidir se teremos coragem de continuar o caminho que o Senhor nos indicou através dele.
Muito obrigado, Francisco!
Dominar ou servir? O dilema do conhecimento como poder
29 de Abril de 2026, por Mauro Luiz do Nascimento Júnior 0
Francis Bacon, um dos grandes expoentes do pensamento moderno, cunhou a frase célebre “conhecimento é poder” (knowledge is power). Essa afirmação, à primeira vista, parece encapsular uma simples relação de causa e efeito: quanto mais sabemos, mais somos capazes de exercer controle sobre o mundo ao nosso redor. Entretanto, por trás dessas palavras, encontra-se uma gama de possibilidades interpretativas que nos convidam a refletir sobre os verdadeiros propósitos do conhecimento e o tipo de poder que ele proporciona.
Quando pensamos em poder, frequentemente associamos o conceito à ideia de dominação e controle. E, de fato, o projeto baconiano da ciência moderna nasceu do desejo de submeter a natureza à vontade humana, libertando-nos das limitações impostas pela ignorância e pela superstição. Sob essa perspectiva, o conhecimento se torna uma ferramenta para a ampliação da liberdade humana, um meio de transcender a condição natural e os infortúnios que ela impõe.
No entanto, se pararmos para refletir, precisamos questionar: o que exatamente queremos com esse poder? Usá-lo apenas para dominar e explorar, seja a natureza, outros seres humanos, ou mesmo a nós mesmos, pode acabar por alienar-nos das mais profundas dimensões éticas e espirituais da vida. Como apontou Michel Foucault, o poder não é apenas uma força externa que subjuga; ele penetra nas mais íntimas fibras do tecido social, moldando nossa compreensão do mundo e nossa relação com os outros. Assim, o poder que advém do conhecimento não é moralmente neutro; ele pode tanto oprimir quanto libertar, dependendo de como e por quem é exercido.
Nesse sentido, o conhecimento também pode ser visto como um instrumento de serviço. Quando utilizado para promover o bem-estar, aliviar o sofrimento e fomentar a compreensão mútua, o poder do conhecimento torna-se uma força benéfica, capaz de gerar transformações positivas. Talvez aqui resida a chave para reinterpretar a frase de Bacon: o poder que o conhecimento oferece pode ser utilizado não para a dominação, mas para o serviço ao próximo.
Além da dimensão de poder sobre o mundo externo, o conhecimento possui um valor intrínseco que transcende a mera utilidade prática. Ele pode ser um tesouro para as futuras gerações, um atestado do que fomos capazes de compreender e realizar. Nesse contexto, o conhecimento é também uma forma de perpetuar o sentido e os valores de uma civilização, um ato de responsabilidade intergeracional. A construção do conhecimento, assim, pode ser vista não apenas como um exercício de poder, mas como um compromisso com o futuro.
Ademais, o conhecimento possui um aspecto reflexivo que nos conduz ao autoconhecimento. O poder que se ganha ao conhecer o mundo exterior é incompleto se não é acompanhado por uma exploração do mundo interior. Sócrates, o filósofo que se tornou símbolo do “conhece-te a ti mesmo”, nos lembra de que o verdadeiro poder não reside na capacidade de dominar os outros, mas na habilidade de compreender a si próprio, reconhecer os próprios limites e aspirar à virtude.
Há, no entanto, um lado sombrio nessa busca por conhecimento. Tal como qualquer forma de poder, o saber também pode viciar. Assim como uma droga poderosa, ele pode intoxicar a mente daqueles que o detêm, levando-os a acreditar que estão acima do bem e do mal. O conhecimento, se não for guiado por princípios éticos, pode se tornar um instrumento de tirania, como a história nos ensina em diversos exemplos de regimes que usaram ciência e tecnologia para oprimir em vez de libertar.
A sedução do poder pode corromper mesmo os mais bem-intencionados. Para que o conhecimento seja verdadeiramente emancipador, é preciso que ele seja guiado por uma disposição humilde e uma consciência crítica de seus próprios limites. Um conhecimento que não é temperado pela prudência pode se transformar em um novo tipo de servidão, pois, ao tentar dominar tudo o que nos cerca, corremos o risco de sermos dominados pela ilusão de onipotência.
Queremos o poder para dominar ou para servir? Para enriquecer a nós mesmos ou para beneficiar os outros? Para conquistar o mundo ou para conhecer a nós mesmos? Essas perguntas não têm respostas simples, mas nos desafiam a reconsiderar o valor que atribuímos ao conhecimento em nossa sociedade.
Se o poder do conhecimento deve ser buscado, é preciso que ele seja orientado por uma ética do cuidado, pelo serviço ao bem comum e pela busca de uma sabedoria que não seja apenas técnica, mas também moral. Apenas assim poderemos transformar o conhecimento em um poder verdadeiramente libertador, que não apenas expanda nossa capacidade de agir no mundo, mas também nos ensine a agir com responsabilidade, empatia e humanidade.
Neste sentido, o que deixamos como seres humanos deve ser mais do que uma coleção de feitos científicos e tecnológicos. Deve ser a marca de uma existência vivida em busca não apenas de controle, mas de compreensão, de um poder que não destrua, mas que edifique; não que subjuga, mas que liberta. Afinal, o maior poder que o conhecimento pode nos oferecer é o poder de nos tornarmos verdadeiramente humanos.
Referência:
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2019.
A mosca no cálice e o elefante na sacristia: reflexões sobre o novo farisaísmo litúrgico
25 de Fevereiro de 2026, por Mauro Luiz do Nascimento Júnior 1
Vivemos um tempo paradoxal na vida da Igreja. Enquanto as portas se abrem para um mundo sedento de sentido, um vento gélido de fundamentalismo sopra de dentro, muitas vezes disfarçado de zelo pela tradição. Uma prática emergente, impulsionada por influenciadores digitais e um clima de “guerra espiritual”, tomou forma: a caça ao abuso litúrgico. Sob a bandeira de uma suposta ortodoxia, neocatólicos - alguns recém-chegados do protestantismo, outros formados por algoritmos - erguem tribunais virtuais para “ensinar o padre a rezar a missa”. No processo, trocam a correção fraterna pelo escândalo, e a unidade pela beligerância.
O epicentro de muitas dessas batalhas é a forma de receber a Sagrada Comunhão. Para este novo zelo, a comunhão na mão é um ultraje, um sinal de frouxidão e desrespeito. Exige-se o retorno à comunhão na boca e de joelhos como única forma verdadeiramente piedosa e “tradicional”. Contudo, a honestidade intelectual nos obriga a voltar à fonte de toda a Tradição: a Última Ceia. Os evangelhos são unânimes ao descrever Jesus que “tomou o pão, deu graças, partiu-o e o deu a seus discípulos” (Mateus 26, 26; Marcos 14, 22; Lucas 22, 19). Nesse gesto fundador, Cristo, o Sumo Sacerdote, partiu o pão com Suas próprias mãos e o distribuiu diretamente nas mãos dos apóstolos, no contexto íntimo de uma ceia. Foi esse o ato que a Igreja primitiva procurou imitar. A prática dos primeiros cristãos, testemunhada de forma inequívoca pelos Padres da Igreja, confirma esta Tradição original. São Cirilo de Jerusalém, no século IV, ensina com clareza poética: “Quando te aproximares, não caminhes com as mãos estendidas ou os dedos separados, mas faze com a esquerda um trono para a direita, que está para receber o Rei; e logo, com a palma da mão, forma um recipiente; recolhe o Corpo do Senhor, e dize 'Amém'” (Catequeses Mistagógicas V, 21).
O gesto de receber o Senhor diretamente na boca é posterior, um desenvolvimento devocional que, embora legítimo e belo, nasceu em um contexto específico: como uma resposta catequética a movimentos que negavam a Presença Real de Cristo na Eucaristia. É, portanto, um costume acidental e contextual, não uma norma essencial da Tradição Apostólica. Afirmar que as mãos são “impuras” para tocar a Hóstia Consagrada levanta uma questão inevitável: seria a língua, que tantas vezes profere juízos e palavras vãs, mais pura que as mãos que trabalham e servem?
Aqui reside o perigo de um cristianismo que, como adverte o Evangelho, “coa o mosquito e engole o camelo” (Mateus 23, 24). Dogmatiza-se o costume, o acidental, e esquece-se o essencial. A Instrução Geral do Missal Romano (IGMR), o documento que rege a celebração da Missa, não é um manual de regras inflexíveis, mas uma “instrução pastoral e ritual”. Seu objetivo é guiar os fiéis a uma participação “consciente, ativa e plena, de corpo e espírito”. A IGMR enfatiza que a Missa é a “ação de Cristo e do povo de Deus”, um povo sacerdotal que aprende a oferecer-se a si mesmo. A própria existência de edições atualizadas do Missal, que permitem o uso da língua vernácula, testemunha que a liturgia é uma tradição viva, capaz de se adaptar para um maior bem espiritual dos fiéis, e não um fóssil intocável.
Ironia das ironias, muitos desses “fiscais da liturgia” citam o documento Redemptionis Sacramentum para justificar suas denúncias. No entanto, leem-no seletivamente. Sim, o documento adverte contra abusos e reafirma o direito dos fiéis a uma liturgia celebrada segundo as normas. Mas seu propósito último é “preservar a dignidade e a santidade da Eucaristia”, não fornecer munição para guerras paroquiais. Um verdadeiro abuso é aquele que contradiz as normas da Igreja e fere a fé. Um sacerdote que segue as rubricas aprovadas pela Santa Sé - que permitem a comunhão na mão - não está em abuso. O verdadeiro abuso talvez seja o escândalo da divisão, a quebra da caridade e a presunção de julgar publicamente os ministros ordenados, atos que ferem diretamente a natureza da Eucaristia como sacramento da unidade.
É neste ponto que a parábola do Bom Samaritano (Lucas 10, 25-37) se torna uma luz cortante. Um mestre da Lei, perito em regras e preceitos, pergunta a Jesus o que fazer para herdar a vida eterna. A resposta é simples: amar a Deus e ao próximo. Querendo justificar-se, ele pergunta: “E quem é o meu próximo?”
Jesus responde com uma história. Um sacerdote e um levita, homens do templo, peritos na liturgia e na lei, veem um homem espancado à beira do caminho e, para não se contaminarem ou simplesmente por indiferença, “seguiram adiante, pelo outro lado”. Eles cumpriram, talvez, suas obrigações rituais, mas falharam no teste essencial do amor. Foi um samaritano, um herege aos olhos dos judeus, quem viu, “sentiu compaixão”, e cuidou do ferido.
A pergunta de Jesus reverbera até hoje: “Qual dos três foi o próximo?” A resposta é óbvia: “Aquele que usou de misericórdia”. E a ordem de Cristo é direta: “Vai e faze a mesma coisa”.
Não estaremos nós, em nosso zelo por uma liturgia “perfeita”, agindo como o sacerdote e o levita? Preocupados com a “mosca” de um gesto litúrgico, passamos ao largo do “elefante” do Corpo de Cristo ferido pela discórdia, pelo julgamento e pela falta de misericórdia. Gastamos nossa energia em contendas sobre posturas e rubricas, enquanto o irmão ao nosso lado está caído, necessitando do óleo e do vinho da compaixão.
A Eucaristia é o sacramento do amor, o vínculo da caridade, o centro da vida cristã que nos une como um só Corpo. Promover a divisão em nome dela é a mais trágica das contradições. Que o Senhor nos dê a graça de sermos mais samaritanos e menos fariseus; que nossa principal preocupação seja a de nos aproximarmos do altar e do irmão com um coração contrito e cheio de amor, pois é essa a adoração que agrada a Deus. O resto, por mais belo que seja, é secundário.
A falsa riqueza do dinheiro: descobrindo o verdadeiro valor da vida
27 de Janeiro de 2026, por Mauro Luiz do Nascimento Júnior 0
A expressão “pobre de dinheiro” é muito comum em nosso vocabulário e geralmente é utilizada para se referir a pessoas que não possuem muitos recursos financeiros. No entanto, o oposto também pode ser verdadeiro quando observamos pessoas que possuem grande quantidade de dinheiro, mas são extremamente pobres em outros aspectos da vida.
Muitas vezes, olhamos para aqueles que possuem uma grande quantidade de dinheiro e supomos que eles são bem-sucedidos em todos os aspectos da vida. Mas, na realidade, isso nem sempre é verdadeiro. O dinheiro não pode comprar a felicidade, a saúde, a paz de espírito ou relacionamentos saudáveis.
De fato, pode ser que a pessoa rica que admiramos esteja passando por problemas pessoais, tenha problemas de saúde ou até mesmo possa estar sofrendo de solidão. O dinheiro, muitas vezes, pode ser um escudo que esconde essas dores e sofrimentos.
Por outro lado, há pessoas que têm muito pouco dinheiro, mas são extremamente ricas em outras áreas da vida. Elas podem ter amigos amorosos e dedicados, ter uma família feliz, ter uma vida espiritual rica ou uma carreira bem-sucedida.
Além disso, a riqueza financeira nem sempre é adquirida de forma ética. Há pessoas que enriquecem através de atividades ilegais ou prejudicando outras pessoas. Por outro lado, há pessoas que possuem grandes fortunas e utilizam esse dinheiro para fazer o bem, ajudando causas nobres e promovendo a igualdade social.
Portanto, não devemos julgar a riqueza ou a pobreza de uma pessoa apenas com base em sua situação financeira. É importante olhar além do dinheiro e avaliar a pessoa como um todo, considerando suas atitudes, valores e relacionamentos.
Lembre-se de que a verdadeira riqueza vem de dentro, e não pode ser medida pelo tamanho da conta bancária. Apreciar as pessoas por quem elas são, em vez do que elas possuem, pode nos ajudar a desenvolver uma perspectiva mais humana e compassiva em relação aos outros.
A dialética do conhecimento: uma reflexão sobre a relação entre teoria e prática
24 de Dezembro de 2025, por Mauro Luiz do Nascimento Júnior 0
“Um intelectual que não compreende o que acontece no seu tempo e no seu país é uma contradição ambulante; e aquele que compreende e não age, terá lugar na antologia do pranto, não na história viva de sua terra” (Rodolfo Walsh).
O intelectual, por definição, é alguém que busca compreender o mundo ao seu redor de forma aprofundada e crítica. Ele dedica sua vida ao estudo, à reflexão e à análise dos fenômenos que permeiam a sociedade em que vive, sempre com o intuito de contribuir para o seu desenvolvimento e aprimoramento.
No entanto, como bem aponta a citação de Rodolfo Walsh, essa dedicação intelectual não pode se resumir a um mero exercício de teoria e reflexão. O intelectual é aquele que compreende o que acontece no seu tempo e no seu país, e que age em consequência.
Compreender o seu tempo e o seu país significa ter consciência das questões políticas, econômicas e sociais que afetam a vida das pessoas. Significa estar atento às mudanças que ocorrem na sociedade, identificando seus problemas e desafios, e buscando soluções concretas para enfrentá-los.
No entanto, compreender não é suficiente. Pois um dos papéis do intelectual é agir em defesa de seus ideais e dos interesses da sociedade como um todo. É colocar em prática suas ideias e propostas, mobilizando outras pessoas em torno de suas causas e lutas.
Um intelectual que não age, que não coloca suas reflexões em prática, é apenas uma contradição ambulante. Ele pode até ter um grande conhecimento teórico e ser admirado por isso, mas não estará cumprindo o verdadeiro papel que lhe cabe como intelectual.
Por outro lado, aquele que compreende e age, que se envolve nas lutas e mobilizações de sua época, terá um lugar na história viva de sua terra. Ele será lembrado como alguém que contribuiu para a construção de um mundo melhor, que lutou pelos direitos e interesses dos mais fracos, que dedicou sua vida a uma causa maior do que apenas a sua própria realização pessoal.
Assim, a reflexão e a ação são duas faces da mesma moeda. Portanto, o intelectual é aquele que une essas duas dimensões, compreendendo o seu tempo, o seu país e agindo em consequência. Ele é um agente de mudança, que busca transformar a realidade em que vive e contribuir para a construção de um mundo mais justo e igualitário.