Trilha sonora

Bob Dylan incendiário

15 de Outubro de 2019, por Renato Ruas Pinto 0

Adjetivos para descrever ou elogiar Bob Dylan não faltam. Um dos artistas pop mais celebrado de todos os tempos, ele já tem seu nome gravado com destaque no panteão dos grandes da música moderna. Seu trabalho influenciou gerações de músicos e, como se isso não fosse o suficiente, ainda ganhou em 2016 o Prêmio Nobel de literatura pela qualidade das suas letras e livros escritos. Recentemente, ganhamos nas telas um presente e tanto para entender a extensão e a força do trabalho de Bob Dylan, o excepcional documentário “Rolling Thunder Revue – A Bob Dylan Story”, do renomado diretor Martin Scorsese, disponível no Netflix.

Bob Dylan já era um artista consagrado quando sofreu um grave acidente de moto em 1966 e se afastou das turnês até 1974, quando voltou aos palcos com sua banda tradicional, a The Band, para tocar em grandes estádios lotados. No ano seguinte, entretanto, Dylan lançou um projeto inusitado. Ele queria fazer uma turnê em estilo quase mambembe, como se fosse uma espécie de circo ou show de variedades. Dylan convidou alguns músicos amigos, como Roger McGuinn, dos Byrds, e a antiga parceira, a incomparável Joan Baez. Abriu mão da competente The Band e recrutou uma banda bem menos qualificada e saíram, literalmente, pela estrada com alguns trailers e um ou outro caminhão levando um mínimo de equipamento.

Ao invés de grandes centros e estádios enormes, os shows aconteceram em cidades do interior e pequenos teatros, em visível tentativa de retorno às origens. No lugar de shows cronometrados e com repertórios rigorosamente iguais, interpretações livres e músicas escolhidas muitas vezes no palco ou atendendo a pedidos da plateia. De acordo com os músicos, Dylan mudava as interpretações das músicas a cada show de forma absolutamente inesperada, fazendo com que a banda precisasse estar sempre atenta e pronta para se adaptar no palco.

O resultado desse espírito de liberdade e criatividade foi um Dylan completamente à vontade no palco e com interpretações incendiárias de seus clássicos e de algumas músicas novas que apareceriam no excelente álbum “Desire”, lançado no meio da turnê. Bob Dylan aparece no palco como se estivesse no auge de sua forma, com uma presença de palco quase hipnotizante e que foi brilhantemente capturada na filmagem. Há mais energia no olhar de Dylan nesses shows do que em muito disco de rock que se ouve por aí. A veia militante e de protesto de Dylan também estava de volta e, durante a turnê, ele estava engajado na campanha pela inocência de Rubin “Hurricane” Carter, boxeador que passou quase vinte anos em uma prisão injustamente, em uma história contada sem medo na incrível canção “Hurricane”, escrita por Dylan.

E o documentário? Recomendo muito por uma série de motivos. Scorsese soube costurar as imagens gravadas na época e contar a história de uma forma muito interessante. Dylan estava dirigindo um filme e aproveitou para documentar a turnê e seus bastidores. Scorsese adicionou um toque interessantíssimo ao inserir no filme algumas histórias e depoimentos que não são reais, mas que convencem e fazem com que seja quase impossível separar a ficção da realidade. Eu mesmo não me toquei disso quando vi pela primeira vez e somente soube das partes ficcionais quando comecei a pesquisar sobre a turnê e o filme. Porém, não vou antecipar aqui o que não é verdade. Deixo para você assistir ao filme e fazer seu julgamento. Já antecipo que uma pesquisa rápida em artigos vai contar a verdade. As cenas de bastidores são interessantíssimas por conta dos personagens importantes que Dylan reuniu à sua volta, como o poeta Allen Ginsberg ou a cantora Joni Mitchell.

Finalmente, as apresentações de Dylan são, como já mencionei acima, memoráveis. Enfim, é um documentário com uma história e tanto a ser contada e, ainda por cima, com músicas sensacionais no meio. Não tem como dar errado.

1969 e o fim do sonho

17 de Setembro de 2019, por Renato Ruas Pinto 0

No mês de agosto comemoraram-se os 50 anos do festival que marcou uma época e se transformou em um marco da cultura moderna: o festival de Woodstock. Desde seu acontecimento, ele foi tema de músicas, filmes, livros e referência recorrente na cultura popular. Ele não foi o maior festival de música e pode-se discutir se foi o mais importante. Mas ainda assim, fixou-se no inconsciente coletivo e é louvado a ponto de entrar no campo da mistificação de suas narrativas. Tal como mito, hoje é difícil separar realidade e lenda daquilo que se fala a respeito. Independentemente das idealizações, o festival foi um momento crítico e conseguiu ser, ao mesmo tempo, o ponto alto e talvez o encerramento de um capítulo incrível da história recente que envolve toda a revolução musical e de costumes causada pelo rock e passagens fascinantes como o movimento hippie.

O rock havia mudado de patamar. Além de ritmo musical, passou a ser um influenciador de comportamento, moda e estética. No campo musical, na trilha aberta por Bob Dylan e pelo álbum “Sergeant Pepper’s” dos Beatles, o estilo se tornava denso para se converter em voz de uma geração. Em 1967 acontece o “Verão do Amor”, que reúne em San Francisco hippies que esperavam novos tempos. No mesmo ano, tem lugar o festival Monterey Pop, na Califórnia, pioneiro dos grandes eventos e que apresenta uma seleção de artistas de fazer inveja. Já em 1968, parece que o mundo estava a ponto de explodir, com agitações em todos os continentes.

Paris ardia em chamas em maio enquanto a ofensiva do Tet no Vietnã apontava para a impossibilidade dos EUA de vencerem uma guerra que já era contestada no país. No Brasil a ditadura endurecia e o 5º Ato Institucional baixado pelos gorilas jogaria o país em anos de trevas. Na antiga Tchecoslováquia, o plano de se instalar um socialismo mais liberal é esmagado pelos tanques soviéticos. Assim, no ano seguinte, a realização de um festival que prometia três dias de paz e amor seduziu a juventude. Vários artistas declinaram o convite para participar, mas alguns admitiriam depois o arrependimento por não participar daquele momento histórico. O público, porém, superou as expectativas dos organizadores e invadiu a pequena cidade de Bethel, no estado de Nova Iorque. Como os portões foram abertos para evitar confusão, nunca se saberá quantas pessoas compareceram, mas a estimativa mais aceita dá que cerca de 400.000 participaram do evento.

Após uma sucessão de grandes shows, talvez muita gente tenha saído de lá cheio de esperança com o futuro. Essa vibração inspirou imediatamente a belíssima canção “Woodstock”, de Joni Mitchell, que, ironicamente, não participou do festival, mas ficou fascinada com os relatos do parceiro David Crosby, do Crosby, Stills, Nash & Young, que lá estiveram. Porém, o que se sucedeu depois não confirmou as expectativas de um novo mundo. A guerra do Vietnã não acabou, o mundo continuou dividido entre o capitalismo, socialismo e um cinturão de pobreza e o movimento hippie começou a declinar. O rock, por sua vez, entra em uma fase de menos inocência e mais olho no dinheiro. Começa o tempo das grandes turnês com shows em estádios gigantes e toda sorte de excessos.

No ano de 1969, alguns eventos ajudariam a reforçar a sensação do fim do sonho. Os Beatles gravariam o seu último álbum, o “Abbey Road”, enquanto os Rolling Stones ficariam marcados pelo assassinato de um expectador no festival de Altmont. O que pretendia ser uma espécie de Woodstock na Costa Oeste terminou com a violência dos temidos motoqueiros Hell’s Angels, contratados para fazer a segurança do evento.

Assim, Woodstock, com tudo o que aconteceu e foi fantasiado ao seu redor, parecia ser um farol da nova era de aquário, mas acabou se tornando talvez o último ato de um sonho. Seria ele o mais importante festival de todos os tempos? Creio que sim. Deixem-se de lado os números, as histórias e estórias. É um marco que será lembrado por muito tempo como símbolo de um mundo de paz sempre possível.

João

13 de Agosto de 2019, por Renato Ruas Pinto 0

Na história da música, temos uma série de nomes que serão sempre lembrados por seus trabalhos inspirados e por terem sido relevantes em algum momento. Porém, quando falamos de artistas que realmente definiram um estilo, seja como um marco fundador ou como causador de uma revolução, a lista de nomes passa a ser contada nos dedos das mãos. Na música erudita, por exemplo, para centenas de grandes compositores, os realmente essenciais se resumem a uma lista que terá Bach, Mozart, Beethoven, Wagner e mais alguns. No rock podemos destacar Chuck Berry, Elvis Presley, os Beatles, Bob Dylan e outros poucos.

Na MPB não é diferente. O Brasil é um celeiro de talentos e qualquer lista de artistas importantes será interminável. Porém, na hora de selecionar os que foram divisores de água, a lista se reduz muito: Pixinguinha, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e Luiz Gonzaga, por exemplo. Infelizmente, há um mês perdemos um desses grandes, o mestre João Gilberto, cuja batida de violão e estilo único de cantar o fazem, com justiça, o pai da Bossa Nova, estilo que levou a música brasileira para um sucesso sem precedentes além das nossas fronteiras.

Baiano de Juazeiro, ainda bem jovem começou a sua carreira na música e com sua bela voz logo foi para o Rio de Janeiro tentar a sorte. Era o tempo do samba-canção e dos cantores de voz potente, como Orlando Silva. Apesar de gravar um disco e outros trabalhos, a passagem não rendeu frutos. Decepcionado, João passa por um período isolado na casa da sua irmã em Diamantina, que acabaria sendo uma reconstrução musical em que buscou incansavelmente um novo jeito de cantar e de tocar. Saiu de lá com um estilo que era a antítese dos cantores de então, nos quais um dia se espelhou. Ao invés da potência, entrou em cena um canto delicado, de notas precisas e letra cantada com todo cuidado, com cada sílaba pronunciada perfeitamente. E uma batida que sintetizava o samba e outros ritmos brasileiros e que, em breve, se tornaria quase sinônimo de música brasileira.

Ao chegar ao Rio, João rapidamente causou agitação com a sua batida e encontrou nas composições de Tom, Vinícius e Newton Mendonça o casamento perfeito para seu ritmo. Nascia a Bossa Nova e a lenda de João Gilberto. Ou as lendas, talvez. Vieram na sequência os álbuns que o consagrariam: “Chega de Saudade” (1959) e “O amor, O Sorriso e a Flor” (1960), ambos com a direção de Tom Jobim. O reconhecimento internacional viria após o histórico concerto da Bossa Nova no Carnegie Hall em Nova Iorque e com o disco de grande sucesso internacional, o “Getz/Gilberto” (1964), com o saxofonista norte-americano Stan Getz. João então se tornou uma referência que cruzou gerações muito além dos seus pares da nascente Bossa Nova.

Apesar de sua grandeza e talento, João Gilberto teve uma carreira um tanto errática por conta dos seus comportamentos inusitados e a sua vida reclusa. Nos últimos tempos, infelizmente, seus problemas familiares se tornaram o destaque nas matérias. Porém, chamou a atenção também a batalha que travou por anos com a EMI pelo controle de sua obra. Resumindo, João protestou contra um relançamento das músicas dos primeiros discos, alegando que a gravadora, detentora dos direitos comerciais das obras, modificou as músicas sem sua autorização (trechos cortados e efeitos sonoros acrescentados, por exemplo). É uma história para ser contada em outra oportunidade, mas simbólica dos contratos duvidosos que mesmo grandes artistas como ele e Tom Jobim assinaram naqueles tempos.

De todo modo, João Gilberto era a soma da sua genialidade e excentricidades. A primeira vai ser lembrada sempre e sua influência ainda irá ecoar por muito tempo. Até hoje é impossível aprender violão sem conhecer “a batida do João Gilberto”. Quanto às excentricidades, essas rendem histórias curiosas e divertidas. A única coisa que espero é que sua obra gravada seja tratada o quanto antes com o devido respeito que merece e não volte apenas em lançamentos apressados e com cheiro de “caça-níquel”. Seria muito bom ver seus discos ganharem o tratamento de luxo que merecem.

As várias faces de Rita Lee

16 de Julho de 2019, por Renato Ruas Pinto 0

Sou das antigas e ainda gosto de comprar discos. Gosto de esmiuçar o encarte e a ficha técnica do álbum para saber quem tocou nas faixas, quem são os compositores e admirar as artes. Ouvir através de streaming é prático, mas a única informação a mais que temos é a arte da capa. Assim, não abro mão de comprar discos enquanto eles existirem. Outro dia, não resisti a uma promoção de uma pequena caixa de CDs com os três primeiros discos da carreira solo da Rita Lee, uma fase de transição impressionante e decisiva da sua carreira.

Rita Lee surgiu com uma das bandas mais corajosas e inovadoras da música brasileira, os Mutantes, ao lado dos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias. Em um momento em que o rock ainda era inocente e com temáticas juvenis, os Mutantes ousaram empunhar guitarras elétricas e levar o rock nacional para a idade adulta com um som psicodélico e com substância. Encontraram a parceria perfeita com o movimento tropicalista e balançaram o cenário musical brasileiro. Rita se destacou como cantora e compositora e a gravadora se animou com a ideia de lançá-la em um disco solo. O seu primeiro álbum, “Build Up”, foi, na prática, um álbum dos Mutantes creditado à Rita. Tinha toda a sonoridade da banda e algumas faixas assinadas por Arnaldo Baptista, que naquele momento estava casado com Rita Lee.

Na sequência, veio o segundo álbum de Rita, “Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas”, novamente um verdadeiro disco dos Mutantes, com a banda completa nos instrumentais e praticamente todas as faixas assinadas por ao menos um dos irmãos Dias Baptista. Naturalmente, a sonoridade ainda era a dos Mutantes: extremamente psicodélica, experimental e já com um pé no rock progressivo, que já estava em alta em 1972. E nesse ponto, com os Mutantes já consolidados e com sucesso comercial, a situação vira de cabeça para baixo para a banda e para Rita. O seu casamento com Arnaldo tem um fim conturbado e, ao mesmo tempo, ela é expulsa da banda. A separação com certeza contribuiu, mas a guinada para o rock progressivo teve seu peso na expulsão. Os irmãos Dias Baptista teriam alegado que uma banda de progressivo precisaria de instrumentistas competentes, coisa que Rita, uma intérprete por excelência, não era.

Nesse momento, começa o renascimento de Rita Lee, que a levaria para destinos que nunca alcançaria a reboque dos Mutantes. O terceiro disco da caixa é o excelente “Atrás do porto tem uma cidade”, que definiria o estilo de Rita nesta nova fase. Finalmente sozinha, Rita Lee recrutou uma legítima banda de rock para ser seu apoio. A banda, batizada de Tutti Frutti, tinha no comando o lendário Luis Carlini na guitarra. O disco, que nem de longe lembra os Mutantes, foi algo necessário para que Rita Lee mostrasse que era uma verdadeira artista capaz de liderar um grupo e levantar o público. O disco é puxado para o hard rock, com bases bem mais pesadas do que rolava no país na época. Apesar de algumas críticas negativas, emplacou um sucesso com “Mamãe Natureza” e pavimentou o caminho para outros álbuns de altíssimo nível que viriam em uma sequência de tirar o fôlego: “Fruto proibido”, “Entradas e bandeiras” e “Babilônia”.

Apesar de emplacar vários hits nesses álbuns, a fase de maior sucesso comercial de Rita ainda estava por vir. “Babilônia” seria o último álbum com o Tutti Frutti; depois, começaria a parceria com Roberto de Carvalho. Mais uma vez, Rita mudaria o rumo musical e sua sonoridade, desta vez para uma pegada mais leve e pop e teria um sucesso comercial sem precedentes, que a colocaria entre os artistas de maior vendagem no país na história. Por isso, essa foi sua fase mais conhecida do grande público. Para quem não conhece a fase mais roqueira, sempre recomendo ir atrás dos discos com o Tutti Frutti.

Rita surgiu com os Mutantes, mas mostrou que não precisava deles para crescer. Sempre mudando e buscando novos rumos, Rita definitivamente foi um dos grandes nomes do rock no país e abriu caminhos para o estilo.

As pequenas casas de show

14 de Maio de 2019, por Renato Ruas Pinto 0

Em minhas viagens, sempre que vou a uma cidade com tradição musical, faço questão de ir a casas de show para conhecer a música local. O tempero costuma ser melhor em casas menores, onde se tem a chance de ouvir artistas menos conhecidos e mais autênticos. Tive a felicidade de ir a pequenos clubes que impressionaram pela qualidade da música ali executada e pelo absoluto respeito da plateia para com os artistas – um tipo de relação entre público e música que não costumo ver com frequência em nossas terras.

Nova Iorque, por exemplo, é uma das mecas do jazz. Na cidade ainda sobrevivem clubes com décadas de existência, como o Birdland, fundado em 1949 e no qual já tocaram todas as lendas do jazz, como Charlie Parker, Miles Davis, John Coltrane e outros. No tradicional bairro boêmio do Greenwich Village, há algumas dúzias de pequenas salas dedicadas ao estilo, como o Village Vanguard, em atividade desde 1935, o famoso Blue Note, ou espaços quase escondidos, como o Smalls Jazz Club. Esse último faz jus ao nome (small é “pequeno” em inglês). É um porão tão minúsculo que, se você passar desatento na rua, quase não vê a pequena porta que dá acesso ao subsolo. Esses clubes possuem algumas características em comum. Em todos há uma preocupação muito grande com a qualidade do que se toca lá e com a curadoria da programação. A segunda, e que mais chama atenção, é o respeito do público pelos artistas. Durante as execuções, ainda que haja serviço de bebidas, o silêncio absoluto impera na plateia, que só conversa nos intervalos.

Em um passado distante, havia no Brasil, ao menos nas cidades maiores, pequenas casas de show que prezavam pela qualidade do que se tocava. E a plateia ia por conta do show, não necessariamente por conta da cerveja ou dos tira-gostos. No começo dos anos 60, quem se arriscasse a ir no tradicional edifício Malleta, no centro de BH, na boate Berimbau, talvez topasse com um ainda desconhecido Milton Nascimento tocando contrabaixo com seu parceiro Wagner Tiso. Ou, nos anos 50, quem passou pelo hoje lendário Beco das Garrafas, uma pequena travessa sem saída em Copacabana, teve a chance de ver a Bossa Nova nascer, além de assistir, ainda no começo de suas carreiras, a artistas que se tornariam lendas, como Baden Powell ou Elis Regina.

De lá para cá, muita coisa mudou. A música ao vivo nos bares continua existindo, porém, na maioria das vezes, como um som de fundo. E ainda há quem reclame do volume do som porque “atrapalha a conversa”... Conheço algumas poucas casas que valorizam a música autoral ou instrumental e onde a plateia guarda o devido respeito e deixa a conversa de lado para apreciar a arte. Porém, fico preocupado ao ler declarações como a do proprietário da casa “A Autêntica”, de Belo Horizonte, que está se firmando como uma referência para shows autorais. Ele disse que somente ingressos e bebidas não são suficientes para fechar as contas, de modo que começou a abrir o local para almoço, a fim de equilibrar os gastos.

Penso que o caminho para o estabelecimento desse tipo de casa passa um pouco por educação do público, não só em termos de audição, isto é, do estímulo para se ouvir coisas novas e originais, e não só artistas e músicas consagradas, mas também de comportamento, no sentido de entender que o momento do show pode ser ocasião de apreciação da música e não de convivência social. Quanto à primeira mudança, creio que há esperança. Na minha cidade, São José dos Campos, há uma unidade do SESC que dá muita abertura para novos artistas e sempre percebo uma boa resposta do público, que prestigia e participa ativamente da programação. Ou seja, espaços que tiverem a coragem de dar tal abertura podem ter uma resposta positiva. Já o segundo aspecto – o comportamento durante o show – talvez seja um pouco mais difícil de mudar. No entanto, se imposto no começo, talvez a plateia se acostume com a ideia. A se ver. Enquanto isso, fico na torcida para que mais espaços assim surjam e que tenham a devida resposta do público. Seria uma utopia minha?