Trilha sonora

Música plena

12 de Dezembro de 2017, por Renato Ruas Pinto 0

De tempos em tempos surge a oportunidade de ver um grande show, daqueles que você sai quase sem acreditar na qualidade do que ouviu e maravilhado com os caminhos que a música é capaz de percorrer quando tem artistas de calibre a seu serviço. Eu tive a felicidade de assistir ao show do disco “Dos Navegantes”, lançado esse ano pelo trio incrível composto por Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise e as sensações foram aquelas e outras tantas. São artistas que deveriam dispensar apresentações, mas essa não é a realidade da música popular brasileira, que está fora da grande mídia e não presta o mínimo de reverência que alguns artistas merecem.

Romero Lubambo é um violonista e guitarrista radicado nos Estados Unidos há mais de trinta anos, e lá construiu uma carreira sólida, além de ser um requisitado músico de estúdio. A qualidade e a precisão do seu violão explicam porque ele já tocou com artistas de uma lista que inclui Wynton Marsalis, Paquito D’Rivera, Yo-Yo Ma e muitos outros. Mauro Senise é um brilhante saxofonista e flautista e que também tem no currículo participação em discos e shows da nata da MPB como Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal e Toninho Horta. Além disso, fez parte de grandes grupos de música instrumental, com destaque para o Cama de Gato, um inovador grupo de jazz fusion com sotaque brasileiro do qual Senise foi um dos fundadores.

Edu Lobo, por sua vez, é praticamente um capítulo a parte da música brasileira. Com apenas vinte e dois anos conquistou o festival da TV Excelsior com “Arrastão”, uma parceria com Vinícius de Moraes, em uma interpretação que revelou Elis Regina ao grande público. Em 1967 fez história no festival da TV Record ao ganhar com “Ponteio”, uma parceria com o poeta Capinan, concorrendo contra canções que se tornaram históricas como “Roda Viva” de Chico Buarque e “Domingo no Parque” de Gilberto Gil. Depois envolveu-se em alguns projetos que marcaram época como as trilhas dos espetáculos “Arena Canta Zumbi” e de “O Grande Circo Místico”, esse em parceria com Chico Buarque. Edu Lobo é, sem dúvidas, um dos maiores melodistas de música popular – e não estou falando só de MPB – e seu estilo sofisticado influencia compositores até hoje. E a ideia da gravação de “Dos Navegantes” veio justamente após uma homenagem de Senise e Lubambo a Edu no disco “Todo Sentimento”, lançado antes pela dupla e para o qual convidaram Edu para cantar duas canções.

Após a gravação, tiveram a ideia de um álbum somente com faixas menos conhecidas de Edu em uma formação enxuta, o que deu destaque à interpretação de Edu e às suas melodias. Assim, “Dos Navegantes” foi gravada somente com os sopros de Senise e o violão de Lubambo, que é uma orquestra por si só, e o contrabaixo de Bruno Aguilar, além do apoio em algumas faixas da percussão de Mingo Araújo e o piano do grande Cristóvão Bastos. O resultado é incrível e de uma beleza ímpar, o que só confirma o talento de Edu Lobo como melodista e o virtuosismo de Senise e Lubambo. De quebra, Edu mostra qualidade como vocalista, capaz de interpretar as suas difíceis melodias, o que não é tarefa para qualquer cantor. Curiosamente, das onze faixas, somente “Noturna”, o encerramento do disco, é instrumental. As demais são composições de Edu com parceiros antigos: Chico Buarque, Capinan, o mestre das letras Paulo César Pinheiro, Cacaso e Ronaldo Bastos. O clima do disco, não só pela delicadeza do conjunto instrumental escolhido, mas também pelo repertório, é bastante intimista. Com o show não foi diferente, apesar de que ao vivo deram uma apimentada no repertório com algumas canções mais quentes e conhecidas de Edu.

É uma experiência sempre especial ouvir música sendo tocada na sua plenitude: músicos virtuosos, canções de primeira linha e interpretações sinceras. Não é sempre que se reúne um elenco desse quilate, o que confirma a vocação do Brasil para a produção de músicos excepcionais. Pena que muitas vezes o nosso próprio país não os dá o devido reconhecimento.

“Vida difícil de levar”

14 de Novembro de 2017, por Renato Ruas Pinto 0

Seguindo com os bons lançamentos do ano, vou pegar carona na última coluna na qual mencionei o Coletivo Casazul. O disco da vez é de outro artista que faz parte do coletivo, o Luiz Gabriel Lopes, que trouxe à luz o álbum “Mana”. Eu o conheci quando assisti ao lançamento do seu disco “O Fazedor de Rios” e fiquei impressionado com o seu trabalho de compositor – vale destacar a qualidade de suas letras e melodias – e no palco também. Comecei a seguir mais de perto sua produção e a outra surpresa foi a extensão do seu trabalho não só solo, mas com outros grupos.

Luiz Gabriel leva vários trabalhos em paralelo, com destaque para o grupo “Graveola e o Lixo Polifônico” (ou só Graveola mesmo) e o trio “Tião Duá”, além de participação em discos de outros artistas ou mesmo como produtor. Seguindo suas movimentações nas redes sociais, logo se percebe que é um artista que está em constante movimento, tocando em todos os cantos do Brasil e até em excursões para o exterior. E nessa agitação ainda sobra tempo para mais um trabalho solo de qualidade, o “Mana”. O disco, que guarda similaridades com “O Fazedor de Rios”, mostra que Luiz Gabriel tem um trabalho bastante coerente e com uma marca pessoal bem nítida.

Analisando o trabalho de artistas da chamada “nova MPB” e que tiveram algum sucesso comercial, eu fico com uma sensação de que o que predomina é a leveza e doçura das canções. Ambas são importantes e necessárias, afinal, também é função da música nos fazer esquecer das amarguras da vida de vez em quando. Porém, há horas nas quais penso que falta um pouco de energia para que as composições não descambem para a irrelevância e acabem sendo chamadas, na melhor das hipóteses, apenas de “fofinhas”. Luiz Gabriel, por sua vez, consegue fazer um disco que predomina a leveza, mas com músicas que promovem um casamento muito interessante de melodia, ritmo e letra que trazem peso e relevância ao conjunto. Em outras palavras, é o tipo de música que, ao mesmo tempo, faz o seu corpo se mexer com a pulsação, mas também te faz prestar atenção na letra e pensar. Diga-se de passagem, uma combinação que poucos artistas conseguem fazer com frequência e o melhor exemplo talvez seja Gilberto Gil.

Sobre o disco em si, é um trabalho autoral e Luiz Gabriel só não assina uma das faixas, “Matança”, de Augusto Jatobá. O instrumental é econômico, mas de ótimo gosto. Contando, na maioria das faixas, com somente bateria, contrabaixo, flauta e sua guitarra ou violão, Luiz Gabriel mostra mais uma vez que sabe conduzir os arranjos e tirar um ótimo resultado dessa formação enxuta e entrosada. Tal como eu já havia observado em “O Fazedor de Rios”, Luiz Gabriel não se prende a estilos e o disco desfila vários ritmos, do baião a uma tradicional balada, mas sem perder a coerência ao longo do álbum ou soar confuso. Finalmente, é justamente essa coerência que me atrai pelo gosto de se ouvir um álbum que passa longe de ser só um apanhado de canções mas, ao contrário, tem algo que conecta as canções, ainda que seja difícil definir o que traz essa unidade.

Sobre a produção do disco, Luiz Gabriel apostou de novo no financiamento coletivo com recompensas interessantes que incluíam até shows particulares para os mecenas mais generosos. O resultado é mais um trabalho produzido na raça por um artista que sabe se virar. Como citei antes, nas redes sociais logo se vê que, como diz a música, o artista vai aonde o povo está. Com uma agenda agitada, Luiz Gabriel está sempre na estrada, seja com banda ou só com seu violão. E não nos resta nada senão aplaudir o artista que, mesmo tão jovem, já tem uma produção digna de nota e apoiar a sua batalha em um país que prefere reclamar da música empurrada pelos grandes veículos ao invés de se antenar no que está acontecendo no bar ou no pequeno teatro. Como o próprio Luiz Gabriel canta na faixa “Música da Vila”, “vida fácil de artista é difícil de levar”. E que ele siga na luta.

Revoada de música boa

08 de Outubro de 2017, por Renato Ruas Pinto 0

Eu disse na minha última coluna que o ano está quente em termos de lançamentos e vou continuar comentando aqui o que tenho ouvido de bom. Desta vez vou comentar um lançamento da mais alta categoria: “Revoada” de Irene Bertachini e Leandro César. Antes de apresentar do disco, faço primeiramente algumas observações sobre o Coletivo Casazul.

O Coletivo Casazul (visite www.coletivocasazul.com), mais do que uma reunião de artistas, também é um espaço que conta com estúdio e de onde têm saído trabalhos autorais impressionantes, inclusive alguns que já comentei aqui ou na página da Trilha Sonora no Facebook (@TrilhaSonoraBR). Os artistas colaboram nos discos uns dos outros e produzem discos solos ou em conjunto. Dada a qualidade, volume e consistência da música que está sendo produzida ali, talvez o coletivo possa ser chamado, no futuro, de “movimento”. Irene e Leandro fazem parte do coletivo e esse lançamento confirma a qualidade sobre a qual estou falando.

Irene Bertachini é o que se pode chamar de artista completa: compositora, ótima violonista e flautista e dona de uma voz lindíssima. Já sigo o trabalho dela junto ao coletivo “Amostra Nua de Autoras” e o solo também. 0uça o excelente “Irene Preta, Irene Boa” para o qual só tenho elogios. Leandro César, além de multi-instrumentista se dedica à experimentação e criação de instrumentos. Já ouvia bastante outro trabalho com a participação dele – o grupo Ilumiara e o seu ótimo disco homônimo – e tinha ideia da qualidade de seus arranjos e como instrumentista. A parceria foi extremamente feliz e produziu um disco de altíssimo apuro instrumental e arranjos de primeira, a maioria assinada por Leandro. O vocal fica a cargo de Irene, com sua voz precisa, cristalina e interpretação que sabe o momento de ser delicada ou incisiva, apesar de que este disco esteja mais para o delicado. Em tempos de mp3 tocando em sequência aleatória, ou de listas pré-estabelecidas pelas plataformas de streaming, é sempre uma satisfação ver artistas se dedicando a construir um álbum com canções que se encadeiam e se completam para serem ouvidos na íntegra.

 Quando falo em álbum, vale destacar o belo trabalho das capas e encarte que contam com um trabalho gráfico muito legal e algo bastante curioso. Mais do que a conexão subjetiva entre as canções e arranjos, há um fio que conecta todas as páginas do encarte, ligando fisicamente as canções da capa à contracapa. Voltando às músicas, Irene e Leandro assinam quase todas as faixas com parcerias entre si ou outros compositores. O convidado que aparece com destaque é o carioca Thiago Amud, um compositor da nova geração, que merece ser escutado e que assina duas faixas e canta em uma delas.

Nesses dias de composições fáceis, monopólio comercial de um estilo e artistas de uma só música, um disco do naipe de “Revoada” é um oásis de criatividade. E é também uma linha de resistência de um tipo de música que um dia foi regra no nosso país e hoje é quase exceção, lutando como uma “guerrilha” promovida de forma independente. Falando em disco independente, esse foi gravado através de um convite de um centro dedicado à música ibérica em Portugal. Entretanto, ao que parece estar virando regra para trabalhos do tipo, contou com uma campanha de financiamento coletivo para ser finalizado. Então não se pode deixar de louvar também a coragem dos artistas, não só por propor um tipo de música que tem passado longe do sucesso comercial, mas também por se empenhar em um projeto de tal envergadura, trazendo à luz um trabalho complexo, que é irretocável das músicas ao trabalho do encarte. Disponível nas plataformas digitais de streaming e até no Youtube, não há desculpa para não ouvir “Revoada”. Mas ainda assim recomendo conhecer o CD e seu belo encarte, que acrescentam um gosto extra na audição

Ano cheio de música boa

15 de Setembro de 2017, por Renato Ruas Pinto 0

Nas últimas colunas falei de clássicos porque não podia deixar passar em branco datas como o aniversário do Sgt. Pepper’s. Agora é hora de falar de novidade, já que 2017 tem trazido muita coisa boa para nossas vitrolas. De fato, andei ouvindo tanta coisa bacana que devo gastar algumas colunas para comentar tudo. Para começar vou falar do lançamento de um disco bastante surpreendente: o belo e original “Caipira”, de Mônica Salmaso, dona de uma voz incrível.

Mônica Salmaso é uma veterana com ótimos discos na bagagem e, como disse antes, uma cantora de primeiríssima linha. Se não conhece seu trabalho, recomendo começar pela releitura dos Afro-Sambas de Vinícius e Baden Powell, que ela fez em parceria com o grande violonista Paulo Bellinati. Cerca de três anos após o último disco, o excelente “Corpo de Baile” (onde interpreta peças da parceria de Guinga e Paulo César Pinheiro), ela lançou recentemente “Caipira, um álbum onde ela visita paisagens rurais. E foi justamente o tema escolhido que fez o disco tão original. Mônica andou por esse ambiente, bastante diferente do Rio de Janeiro que normalmente eu associaria a ela, imprimindo o seu estilo e sem resvalar para lugares comuns como forçar a roupagem das músicas para associá-la ao universo rural. Apesar da economia de instrumentos nos arranjos, eles são de muito bom gosto e têm a cara de outros trabalhos da artista. Além disso, casam perfeitamente com a bela voz e as excelentes interpretações, que alguns vão dizer que não pertencem ao universo caipira – e com razão – mas que eu julgo como um dos pontos altos do disco.

Claramente, apesar do nome do álbum, ela não queria fazer um disco de música caipira, no sentido que se esperaria do termo nos dias de hoje, muito usado para distinguir o trabalho de artistas sertanejos tradicionais daquele gênero que se estabeleceu nos anos 90 e de viés mais romântico. A temática do disco é com certeza um lugar longe do centro urbano, mas com um toque bastante original na escolha do repertório. Mônica promoveu uma excelente mistura de músicas caipiras tradicionais, como a moda “Minha vida” de Vieira e Carreirinho, o causo cantado “A velha” de Zezinho da Viola ou “Saracura três potes” de Téo Azevedo, com composições de, quem diria, Gilberto Gil, Nana Caymmi e os sambistas Cartola e Dudu Nobre. E a mistura funcionou muito bem, com Mônica botando sua voz a trabalho das canções de forma muito feliz. Sua interpretação cristalina, aliada ao instrumental que conta com nomes de peso como Proveta no Sax e Clarineta e Toninho Ferragutti no Acordeon, valorizou demais a beleza das melodias.

As músicas caipiras ditas “de raiz” ganharam uma interpretação bastante respeitosa e saíram ganhando com a possibilidade de se ouvi-las com outro sotaque e com o toque pessoal de Mônica Salmaso que, como disse, consegue dar um destaque e tanto para as melodias, valorizando-as. Ainda sobre o repertório, Mônica foi bastante cuidadosa na escolha das músicas vindas de fora do universo caipira tradicional, de forma que preservou a temática do disco. Além dos já citados Gil, Cartola e Dudu Nobre, ela mostrou belas peças de autores como Rafael Alterio – que sempre gosta de mostrar seu gosto pela temática caipira ao lado de Ivan Lins – ou os veteranos Sérgio Santos e Roque Ferreira.

Ao fim, o resultado é um disco lindíssimo, de bom gosto e bastante coeso. Mônica Salmaso mostra mais uma vez a qualidade da sua voz e interpretação, ambos irretocáveis, em um trabalho bastante original na escolha do tema e repertório e que traz um novo olhar ao universo caipira e rural. Embora possa se dizer que Mônica tem um pé bem plantado no mundo urbano, ela passeou com naturalidade nesse outro cenário e fez uma leitura bastante pessoal e que vale cada minuto da audição. O ano está quente de música boa e nas próximas colunas vamos continuar a falar de outros trabalhos que estão saindo do forno.

Ainda sobre 1967

13 de Julho de 2017, por Renato Ruas Pinto 0

Na última coluna escrevi sobre o aniversário do icônico álbum Sergeant Pepper’s dos Beatles. Na ocasião mencionei as diversas transformações que aconteciam no mundo e fatos marcantes como o começo do “verão do amor” em San Francisco e o florescimento do movimento hippie. As artes sempre refletem o momento e com a música não foi diferente. Toda essa movimentação no mundo fez com que 1967 fosse um ano bastante prolífico na música, com uma série de grandes álbuns lançados e estreias em discos incríveis que devem ser lembrados e, principalmente, escutados.

Vários artistas que escreveriam seu nome na história teriam seus primeiros álbuns lançados em 1967. No Brasil, três jovens baianos e um mineiro estreavam em disco: Gilberto Gil com “Louvação”, Caetano e Gal com o disco em dupla “Domingo” e Milton Nascimento com “Travessia”. Tempos de ruptura na música brasileira, até então dominada pela estética da Bossa Nova, mas que logo conheceria as novas sonoridades da Tropicália e do estilo único de Milton e, pouco depois, o Clube da Esquina. Acima do Equador também houve estreias impressionantes. O americano Jimi Hendrix precisou cruzar o Atlântico para achar o seu lugar ao sol na Inglaterra e balançar o mundo com um disco de impacto, “Are You Experienced”, sucesso comercial e de crítica, no qual mostrou ao que vinha com uma guitarra furiosa que influenciaria o rock de maneira decisiva.

Na ensolarada Califórnia, em plena explosão do movimento hippie, duas bandas que representam esse movimento apareciam em Long Play: o The Doors de Jim Morrison e o Grateful Dead de Jerry Garcia e Bob Weir, ambas bandas com discos homônimos. Na costa leste, com uma sonoridade totalmente sombria e fazendo um contraponto ao sonho da paz e amor, vinha o Velvet Underground de Lou Reed com o clássico “Velvet Underground & Nico”, com a clássica capa da banana criada por Andy Warhol. Fechando a lista de grandes estreias, o disco homônimo da banda Big Brother & The Holding Company trazia nos vocais ninguém menos que Janis Joplin.

Entre artistas já reconhecidos, 1967 foi o ano do lançamento do encontro histórico de Tom Jobim e Frank Sinatra, que fizeram um disco interessante apesar de alguns conflitos na gravação entre o perfeccionista Jobim e o playboy Sinatra. No Brasil, Chico Buarque registrava em seu segundo disco, “Chico Buarque de Hollanda Vol. 2”, clássicos como “Quem te viu, quem te vê” e “Noite dos mascarados”. Na Inglaterra, o “The Cream” de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker vinha com o excepcional “Disraeli Gears”, mostrando o quanto se podia fazer com um trio. Outro destaque foi o retorno às gravações de Bob Dylan, que havia se afastado da música para se recuperar de um grave acidente de moto. Dylan lançou o álbum “John Wesley Harding”, onde ele retorna às suas origens Folk e Country, em um bom disco e que obteve críticas favoráveis, além de ser uma exceção em um ano dominado pelo rock psicodélico. Voltando aos psicodélicos, temos o ótimo “Surrealistic Pillow” do Jefferson Airplane, outra banda de San Francisco e símbolo do movimento hippie. Outro álbum curioso do movimento foi o “Forever Changes” da obscura banda Love. É um grupo sem maior destaque, mas que foi extremamente feliz nesse álbum. No ano, porém, nem tudo foi glória. Tentando pegar carona no sucesso do Sgt. Pepper’s, os Rolling Stones lançaram “Their Satanic Majesties Request”, onde abandonaram suas raízes do Blues e Rhythm & Blues em detrimento do rock psicodélico. Considerado por muitos como um remendo mal feito do Sgt. Pepper’s, definitivamente, ele não figura entre os mais memoráveis dos Stones.

Como se vê, foi um ano musicalmente agitado. Vale a pena garimpar esses e outros álbuns daquele ano, tarefa fácil em tempos de plataformas de streaming e Youtube, e se divertir com esses clássicos. Como sempre digo, eles não são clássicos sem motivos e vale a pena descobrir porque são discos tão cultuados.