Trilha sonora

O sertão em Minas

15 de Maio de 2018, por Renato Ruas Pinto 0

No mês de abril, esta coluna completou quatro anos e sou só agradecimentos ao Jornal das Lajes pela oportunidade para falar da arte que embala a vida de tanta gente. E aproveito para também parabenizar o jornal pelos incansáveis 15 anos trazendo notícias e cultura para Resende Costa e o Campo das Vertentes. Falando nas Vertentes, o tema dessa coluna é justamente uma filha especial da região, da cidade de Oliveira, e uma das maiores cantoras da música brasileira: Titane e o seu magnífico disco com músicas de Elomar: “Titane Canta Elomar - Na Estrada das Areias de Ouro”, lançado em março.

Sou fã de Titane de longa data e, não por acaso, ela foi tema do meu segundo texto nesse espaço. Dona de uma voz poderosa, Titane se vale de uma técnica apurada e de interpretações irretocáveis nas quais se entrega de corpo e alma, brindando-nos sempre com apresentações emocionantes. Além do trabalho como cantora, há que se destacar o esforço de Titane na divulgação e preservação de manifestações populares, como o congado, conforme ela mostrou no seu projeto cultural que culminou com o DVD “Titane e o Campo das Vertentes”. Titane conhece de perto e carrega na voz o sertão mineiro e, no seu disco “Inseto Raro”, de 1996, fez questão de frisar que os seus verdadeiros professores foram os artistas do Vale do Jequitinhonha. E talvez por assim carregar essa tradição, a aproximação de Titane com o repertório de Elomar tenha sido tão natural.

O grande compositor baiano Elomar, hoje com 80 anos, se notabilizou por um repertório que remete à vida do sertanejo, ora sofrida, ora cheia das riquezas que a natureza e a simplicidade proporcionam, emolduradas por harmonias saídas de canções de menestréis medievais e acompanhadas pelo seu complexo violão, sempre rico de contracantos impressionantes. Influenciado desde novo pela música regional, Elomar preservou essa sonoridade em sua obra, seja em suas canções ou nos seus trabalhos sinfônicos. Hoje vive quase recluso em suas fazendas na Bahia e pouco aparece para shows. Não é muito fã de terceiros cantando sua obra, de modo que a aprovação do trabalho de Titane, com o qual contribuiu com sugestões no repertório, é sinal de que a sinceridade na interpretação da cantora deve ter sido decisiva para receber seu apoio.

Para gravar o disco, Titane reuniu um time afiadíssimo. Sob a direção musical do talentoso Kristoff Silva, um dos expoentes da geração de BH marcada pelo movimento do Reciclo Geral, a base do disco se apoia no violão virtuoso de Hudson Lacerda, que tem competência para reproduzir o violão de Elomar, mas com personalidade de sobra para não soar como um pastiche. Na obra de Elomar, talvez mais importante que a harmonia são os contracantos e a segunda voz feita pelo violão e, nesse disco, o casamento com a voz de Titane foi perfeito. Para um disco soar bem com um instrumental econômico, só mesmo reunindo músicos de calibre: Aloízio Horta no baixo, André Siqueira na viola e no exótico bouzouki, instrumento de cordas parente do alaúde, e o virtuoso Toninho Ferragutti, possivelmente um dos acordeonistas mais concorridos da MPB. Por fim, o disco conta com a participação mais do que especial de Pereira da Viola na faixa “Chula no terreiro”. Se Titane tem o sertão na voz, Pereira da Viola é o sertão. Sua participação foi magnífica e a faixa em parceria com Titane entra para a lista das interpretações antológicas, de arrepiar os cabelos de bonita.

Ao fim, o resultado não poderia ser diferente: um disco de primeiríssima linha e que precisa ser ouvido com muitíssimo cuidado e atenção a fim de que se possa apreciar as belas interpretações de Titane e o domínio absoluto que ela tem da própria voz, além de um acompanhamento irretocável e que complementa a cantora perfeitamente. Por fim, o disco ainda conta com um trabalho gráfico muito bonito assinado por Marcelo Lelis e Leonora Weissmann. A obra de Elomar é incrível e ganhou uma interpretação à altura. E a boa notícia é que já está disponível nas plataformas de streaming.

A psicodelia no Brasil

13 de Marco de 2018, por Renato Ruas Pinto 0

A música brasileira vai ganhando pouco a pouco livros dedicados à sua história. De biografias de grandes artistas, como Elis Regina ou Tim Maia, a volumes dedicados a estilos específicos como o recém-lançado sobre samba-canção, de Zuza Homem de Mello. Porém, sempre senti falta de mais livros sobre o rock em nossa terra. O rock no Brasil tem uma história complicada e é comum, ao se falar do estilo, ouvir só referências à Jovem Guarda, Mutantes, Raul e Rita Lee ou o movimento dos anos 80. Assim, é muito gratificante ver um projeto de grande envergadura levado a cabo pelo jornalista, pesquisador e colecionador Bento Araújo em seu livro “Lindo Sonho Delirante – 100 discos psicodélicos do Brasil” (PoeiraPress, 2016), que vem justamente mostrar que outras águas passaram entre a Jovem Guarda e a volta ao básico do Punk e New Wave dos anos 80.

O rock desembarcou no Brasil com a turma dos anos 50: Elvis, Little Richard e outros. No começo dos anos 60 vieram os Beatles e Rolling Stones. Bastante influenciados por esses últimos, surgiu a Jovem Guarda, encabeçada por Roberto e Erasmo Carlos e Wanderléa. O fato é que o rock passou, no resto do mundo, por uma evolução gradual e acelerada. Saiu da inocência e rebeldia juvenil dos anos 50 e começo dos 60 para um estilo engajado e denso por conta de trabalhos de artistas como os Bob Dylan, Beatles ou Grateful Dead. No Brasil eu considero que não houve essa evolução gradual. Ao contrário, Os Mutantes levaram o rock brasileiro a dar um grande salto rumo à psicodelia e produções elaboradas com o apoio dos tropicalistas Caetano e Gil e dos maestros Rogério Duprat e Júlio Medaglia. Era o fim da inocência do rock em terras brasileiras.

E os ventos vindo do norte não refrescaram somente a música dos Mutantes, mas também a de diversos artistas e é isso que mostra Bento Araújo em seu livro. Ele é um grande pesquisador, colecionador e editou por muitos anos a excelente revista PoeiraZine, dedicada à música, e, infelizmente, já fora de circulação. Hoje ele edita o ótimo PoeiraCast, um podcast dedicado ao rock e que mantém a pegada da revista em termos de profundidade. E quando Araújo anunciou a nova empreitada, um livro dedicado à música psicodélica no Brasil, a ser lançado na base do financiamento coletivo, não hesitei e contribuí na pré-venda.  E fiquei muito feliz com o resultado final. Um material de primeira qualidade em todos aspectos, da parte gráfica à pesquisa primorosa, marca do trabalho de Araújo. O livro disseca 100 discos nacionais que sofreram forte influência do rock psicodélico, ainda que nem todos possam ser classificados como álbuns de rock.

Como toda lista, sempre vai ter questionamento sobre as escolhas e ausências. Porém, ainda assim é uma fonte incrível para se debruçar e fazer descobertas surpreendentes. A começar da escolha do título do livro, “Lindo Sonho Delirante”, título de um álbum do cantor Fábio, que foi parceiro de Tim Maia, e que é uma referência nada indireta ao LSD. Outras surpresas estão no livro, como o ótimo trabalho psicodélico de Ronnie Von, comumente associado à música romântica. O livro escolheu um formato consagrado naquela série “1001 [discos/livros] para você [ouvir/ler] antes de morrer”, com uma bela foto do disco em uma página e uma lista de músicas e análise na página adjacente. Sobre as fotos, o trabalho só foi possível devido à colaboração de colecionadores que disponibilizaram discos raros para o registro. Pela raridade de muitas obras, é até difícil encontrar alguns álbuns. O YouTube, porém, tem sido de grande ajuda, pois sempre tem um apaixonado disposto a compartilhar.

Fico na torcida para que esse trabalho sirva de ponto de partida para outras pesquisas e para trazer mais conteúdo sobre o que aconteceu aqui entre os anos 60 e 80. E recomendo para quem gosta mesmo de rock conhecer o trabalho do Bento Araújo no site www.poeirazine.com.br, onde rolam sempre verdadeiras aulas sobre o estilo.

Viola para todos os gostos

16 de Fevereiro de 2018, por Renato Ruas Pinto 0

Fevereiro é quando descobrimos qual é o hit do carnaval que nos vai ser enfiado goela abaixo em doses cavalares. Para quem procura outros sons, vou falar de mais dois bons lançamentos ainda de 2017. Quem me segue sabe o quanto admiro a viola caipira. E motivos não faltam. É um instrumento que tem um timbre único e muitas possibilidades, muito além da música caipira. E para ilustrar essa versatilidade, os dois trabalhos mostram a viola em terrenos distintos: a música caipira tradicional, chamada atualmente de “raiz”, da dupla Índio Cachoeira e Santarém, e o som instrumental de Ricardo Vignini, que coloca a viola e seus ponteados a serviço de estilos como o rock e sonoridades de música celta ou nordestina.

O nome do álbum, “Ponteando Tradições”, de Índio Cachoeira e Santarém, já explica o que vamos ouvir. Música caipira tradicional no melhor estilo de dupla bem entrosada e que desenvolve seus temas apoiados pelos contracantos e solos da viola. Ambos são músicos experientes nesse cenário, já tendo participado de duplas como Cacique e Pajé, no caso de Cachoeira, e com o violeiro Tião do Carro, no caso de Santarém. O repertório é predominantemente autoral e os cantores assinam nove das quinze faixas. As temáticas, por sua vez, remetem aos clássicos de viola: ora a vivência em um idílico ambiente rural, ora o lamento do caipira que foi obrigado a abandonar o campo para sofrer na poluída cidade grande. Não faltam também referências sempre presentes na música caipira como as festas na roça, as populares e as religiosas como a folia de reis e a dança de São Gonçalo.

E há também uma peça instrumental, “Lamento Latino”, de Índio Cachoeira. Sou grande admirador do seu trabalho e do seu virtuosismo como instrumentista. Autodidata e luthier que fabrica os próprios instrumentos, Cachoeira carrega toda uma tradição de grandes violeiros e é dono de uma técnica singular e impecável. Recomendo muito ouvir seus dois discos de solos de viola caipira. Enfim, “Ponteando Tradições” é um disco que precisa ser ouvido por quem gosta da música caipira tradicional e por violeiros que querem estudar os ritmos como o pagode de viola, cururu e as modas.

Ricardo Vignini tem uma história bem diferente. É um roqueiro de origem, mas que em determinado momento encontrou e abraçou a viola. Aí fica a dúvida se ele trouxe a viola para o rock ou o rock para a viola. Ele vem fazendo há um bom tempo com o violeiro Zé Helder a dupla Moda de Rock, onde interpretam clássicos do rock com duas violas caipiras e sobre o qual já escrevi. É um autêntico trabalho de fusão de estilos por valorizar nos arranjos os ritmos típicos de viola. Em seu último trabalho, o disco “Rebento”, ele mostra o devido respeito à linguagem caipira, mas sem se prender a estilos e sempre deixando claro a sua veia roqueira. Seja em músicas onde o rock seja a tônica, como em “Beijando o Céu”, onde faz uma homenagem nada disfarçada a Jimi Hendrix, ou nos seus solos e ponteios em músicas que remetem à música caipira como “O Bonde dos Fontes”.

O disco conta com participações especiais que deram um colorido muito legal, como a gaita de Sérgio Duarte e a percussão do veteraníssimo Marcos Suzano, ambas na faixa “Pé Vermelho”, além da criativa percussão de André Rass, parceiro de Vignini em seu outro projeto, a banda “Matuto Moderno”. Merece nota também o belíssimo piano de Ari Borger em “Ventos de Novembro”, mostrando que a viola conversa bem com outros instrumentos harmônicos. Vignini com seu disco confirma que a viola caipira não só está passando por um renascimento e um crescimento sem precedentes, mas também que sua sonoridade permite navegar em mares que passam longe da música caipira, sem limite de rótulos ou ortodoxias de estilos.

E assim a viola segue expandindo limites e nos encantando com sua sonoridade. Seja no trabalho tradicional de Índio Cachoeira e Santarém, ou na renovação promovida por Ricardo Vignini, a certeza é que esse instrumento vai continuar nos surpreendendo.

O “Disco do Tênis”

16 de Janeiro de 2018, por Renato Ruas Pinto 0

Em 2017, comemoram-se 45 anos do primeiro disco solo de Lô Borges, aquele apelidado de “Disco do Tênis” por conta da inusitada capa que retrata seu surrado par de tênis. Um disco gravado por um jovem que completava 20 anos naquele momento e, apesar da pouca idade, já tinha mostrado do que era capaz no lendário “Clube da Esquina”. Foi gravado em parceria com Milton Nascimento no ano anterior.

Para comemorar o aniversário e resgatar esse importante disco da música brasileira, o músico e compositor – e profundo conhecedor da música do Clube da Esquina – Pablo Castro convenceu Lô Borges a lançar um show executando o álbum na íntegra e com seus arranjos originais. Diga-se de passagem, foi a sua primeira execução ao vivo, pois Lô Borges, como mostrarei mais abaixo, nunca fez uma turnê do disco e se afastou da música por um tempo após o seu lançamento em 1972. Assim, antes de falar do show, é preciso contar um pouco dessa história.

Lô Borges havia acabado de gravar seu primeiro disco, o “Clube da Esquina”, no qual assinou oito canções em uma verdadeira seleção de obras-primas que inclui, entre outras, “Nuvem Cigana” e “O Trem Azul”. A gravadora Odeon apostou as fichas no seu talento e assinou com Lô Borges um disco solo, para sair na sequência. O compositor tinha, porém, pouca bagagem e estava, literalmente, com o baú de composições vazio. Entretanto topou o desafio e gravou o “Disco do Tênis” em um ritmo frenético. Com o estúdio já agendado, a rotina era pesada, como ele descreve no seu depoimento ao site Museu Clube da Esquina: “é um disco que eu fiz sob pressão. [...] Eu não tinha as músicas para fazer o disco, então eu compunha a música de manhã, o Márcio Borges fazia a letra à tarde e à noite eu ia para o estúdio e botava na roda para os músicos fazerem os arranjos comigo”. Durante o show, ele contou que teve música para a qual ele mesmo foi obrigado a fazer a letra momentos antes de entrar em estúdio, por não ter um letrista disponível.

Após o lançamento, Lô Borges estava esgotado e resolveu se afastar do mundo da música e shows para amadurecer como compositor. O resultado foi um hiato entre o “Disco do Tênis” e o seguinte, “Via Láctea”, que saiu somente em 1979. Além disso, o “Tênis” ficou sem uma turnê de divulgação, o que foi um dos motes para o resgate proposto por Pablo Castro, ao recrutar a banda e dirigir o show. Esse resgate foi mais do que oportuno, não só pela qualidade artística de um grande disco, mas também pelo seu valor histórico. O álbum é um retrato do nascimento e consolidação do Clube da Esquina como um movimento musical que revolucionou a música brasileira com suas harmonias inusitadas, novas temáticas de canções e a fusão da MPB com influências como o rock dos Beatles.

O resultado foi um show que fez justiça ao disco pela fidelidade aos arranjos originais. E isso por si só é um desafio e tanto pela complexidade das composições de Lô Borges, que combinam harmonias não tradicionais e melodias nada triviais. Além disso, o músico aproveitou todo o show para contar histórias sobre a composição e gravação de várias músicas, o que deu um ar de uma audição guiada bastante rica, não só pela contextualização das mesmas, mas também por algumas histórias divertidas. É legal ver que a resposta do público foi positiva pela agenda que envolveu várias cidades e pelo ótimo clima no dia do show, quando assisti ao último do ano no fim de dezembro, em São Paulo. Espera-se que o projeto não pare por aí e continue levando esse trabalho, acompanhado da venda do disco em vinil, por esse nosso Brasil, carente de conhecer a história da MPB e seus grandes artistas.

E o disco em si? É assunto para ser retomado em outra coluna, mas fica o convite para o leitor buscar na internet ou plataformas de streaming e descobrir um excelente álbum que mostra o quanto o Clube da Esquina foi inovador e renovador dentro da música brasileira.

(Aproveito para agradecer ao amigo historiador e pesquisador de música popular Luiz Henrique Garcia pela indicação de material de leitura para esse artigo).

Música plena

12 de Dezembro de 2017, por Renato Ruas Pinto 0

De tempos em tempos surge a oportunidade de ver um grande show, daqueles que você sai quase sem acreditar na qualidade do que ouviu e maravilhado com os caminhos que a música é capaz de percorrer quando tem artistas de calibre a seu serviço. Eu tive a felicidade de assistir ao show do disco “Dos Navegantes”, lançado esse ano pelo trio incrível composto por Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise e as sensações foram aquelas e outras tantas. São artistas que deveriam dispensar apresentações, mas essa não é a realidade da música popular brasileira, que está fora da grande mídia e não presta o mínimo de reverência que alguns artistas merecem.

Romero Lubambo é um violonista e guitarrista radicado nos Estados Unidos há mais de trinta anos, e lá construiu uma carreira sólida, além de ser um requisitado músico de estúdio. A qualidade e a precisão do seu violão explicam porque ele já tocou com artistas de uma lista que inclui Wynton Marsalis, Paquito D’Rivera, Yo-Yo Ma e muitos outros. Mauro Senise é um brilhante saxofonista e flautista e que também tem no currículo participação em discos e shows da nata da MPB como Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal e Toninho Horta. Além disso, fez parte de grandes grupos de música instrumental, com destaque para o Cama de Gato, um inovador grupo de jazz fusion com sotaque brasileiro do qual Senise foi um dos fundadores.

Edu Lobo, por sua vez, é praticamente um capítulo a parte da música brasileira. Com apenas vinte e dois anos conquistou o festival da TV Excelsior com “Arrastão”, uma parceria com Vinícius de Moraes, em uma interpretação que revelou Elis Regina ao grande público. Em 1967 fez história no festival da TV Record ao ganhar com “Ponteio”, uma parceria com o poeta Capinan, concorrendo contra canções que se tornaram históricas como “Roda Viva” de Chico Buarque e “Domingo no Parque” de Gilberto Gil. Depois envolveu-se em alguns projetos que marcaram época como as trilhas dos espetáculos “Arena Canta Zumbi” e de “O Grande Circo Místico”, esse em parceria com Chico Buarque. Edu Lobo é, sem dúvidas, um dos maiores melodistas de música popular – e não estou falando só de MPB – e seu estilo sofisticado influencia compositores até hoje. E a ideia da gravação de “Dos Navegantes” veio justamente após uma homenagem de Senise e Lubambo a Edu no disco “Todo Sentimento”, lançado antes pela dupla e para o qual convidaram Edu para cantar duas canções.

Após a gravação, tiveram a ideia de um álbum somente com faixas menos conhecidas de Edu em uma formação enxuta, o que deu destaque à interpretação de Edu e às suas melodias. Assim, “Dos Navegantes” foi gravada somente com os sopros de Senise e o violão de Lubambo, que é uma orquestra por si só, e o contrabaixo de Bruno Aguilar, além do apoio em algumas faixas da percussão de Mingo Araújo e o piano do grande Cristóvão Bastos. O resultado é incrível e de uma beleza ímpar, o que só confirma o talento de Edu Lobo como melodista e o virtuosismo de Senise e Lubambo. De quebra, Edu mostra qualidade como vocalista, capaz de interpretar as suas difíceis melodias, o que não é tarefa para qualquer cantor. Curiosamente, das onze faixas, somente “Noturna”, o encerramento do disco, é instrumental. As demais são composições de Edu com parceiros antigos: Chico Buarque, Capinan, o mestre das letras Paulo César Pinheiro, Cacaso e Ronaldo Bastos. O clima do disco, não só pela delicadeza do conjunto instrumental escolhido, mas também pelo repertório, é bastante intimista. Com o show não foi diferente, apesar de que ao vivo deram uma apimentada no repertório com algumas canções mais quentes e conhecidas de Edu.

É uma experiência sempre especial ouvir música sendo tocada na sua plenitude: músicos virtuosos, canções de primeira linha e interpretações sinceras. Não é sempre que se reúne um elenco desse quilate, o que confirma a vocação do Brasil para a produção de músicos excepcionais. Pena que muitas vezes o nosso próprio país não os dá o devido reconhecimento.