Trilha sonora

Notáveis cinquentões

19 de Agosto de 2021, por Renato Ruas Pinto 0

O mundo estava em efervescência nos anos entre 1967 e 1974. Colônias e países subjugados se levantavam contra seus senhores, a guerra do Vietnã estava à toda e mudanças de costumes sacudiam a juventude. Em outras palavras, o mundo incendiou-se literal e figurativamente. As artes sempre andam sintonizadas com seu tempo e costumam ser uma válvula de escape para as pressões acumuladas. Assim, foi natural que a produção de música popular andasse igualmente inflamada, refletindo toda a agitação em curso. O resultado foi uma quantidade de discos incríveis produzidos e que ainda hoje influenciam e são objetos de discussões e estudos.

O tempo passa, mas as obras ficaram registradas nos fonogramas e em mídias que evoluíram. Nos últimos anos, temos visto uma série de grandes álbuns completando cinquenta anos e rendendo desde matérias a relançamentos ou edições luxuosas para celebrar sua importância. O ano de 1971 também registrou grandes lançamentos e vale a pena lembrar e ouvir alguns desses notáveis cinquentões.

Construção – Chico Buarque: o álbum marca o retorno de Chico Buarque do exílio e é um disco de canções de alto teor crítico, reflexo de um dos períodos mais terríveis da ditadura militar, que estava sob o comando do general Médici. Com grandes músicas, como “Construção”, “Cotidiano” e “Valsinha”, é um disco que seguramente entra na lista dos álbuns mais marcantes de um dos maiores compositores da nossa música popular.

Imagine – John Lennon: se o disco tivesse só a faixa título, já seria elogiado. Mas conta com outras ótimas músicas que mostram um lado intimista de John Lennon em canções quase confessionais. Para os fãs dos Beatles e de Lennon, o aniversário rendeu uma edição comemorativa de luxo com músicas extras e gravações alternativas. A caixa é um bocado cara, mas os extras podem ser ouvidos nas plataformas de streaming.

Blue – Joni Mitchell: Joni Mitchell combina uma voz incrível com um talento único como compositora. Autora de melodias belíssimas e letras com conteúdo, ela teve suas músicas gravadas por outros artistas da cena folk antes mesmo de lançar seus álbuns. O disco é totalmente autoral e, seguindo a tradição folk, é predominantemente acústico e com bases elegantes. A voz incrível de Joni é um bálsamo para a alma.

Tim Maia – Tim Maia: após o grande sucesso da sua estreia no ano anterior, Tim conseguiu engatar uma boa sequência em um trabalho mais autoral do que o primeiro. O disco reúne algumas músicas que se tornaram sucessos do artista, como: “Não quero dinheiro” e “Você”. Tim Maia seguiu com sua fusão de ritmos brasileiros ao soul norte-americano e consolidou a reputação de revelação.

Led Zeppelin IV – Led Zeppelin: o grupo de rock inglês já havia se firmado como uma das grandes bandas de rock dos anos 70, quando lançou o seu quarto disco. O amadurecimento da banda pode ser visto em um disco que mostra sua evolução, mas sem perder a pegada e suas bases pesadas. Recheado de grandes músicas, como “Stairway to heaven”, “Black dog” e “Going to California”, foi sucesso imediato de público e crítica.

Pearl – Janis Joplin: a intensa vida de Janis foi interrompida precocemente aos 27 anos e apenas a poucos meses do lançamento deste álbum. Após alguns anos como parte da fraca “Big Brother and the Holding Company”, Janis finalmente conseguiu um contrato para se lançar como estrela principal e recebeu da gravadora Columbia uma produção que merecia. “Pearl” foi seu segundo disco solo e Janis mostra toda a potência que lhe rendeu fama nos anos anteriores.

“Gilberto Gil” – Gilberto Gil e “Caetano Veloso” – Caetano Veloso: registrei os dois discos juntos por conta de seus paralelos. Os álbuns foram gravados no exílio na Inglaterra e contêm várias semelhanças. Nos dois, o tom é melancólico por conta das dores do exílio e a produção é bem simples. Enfim, os discos ilustram bem o espírito pesado daquele tempo por conta dos coturnos que esmagavam um país inteiro.

A lista não para aqui, já que o ano de 1971 registrou outros grandes álbuns. Porém, fica aí a dica de audições preciosas de obras que resistiram ao teste do tempo, mas ainda assim servem como instantâneos de tempos agitados.

Para curtir e conhecer melhor Elvis Presley

20 de Julho de 2021, por Renato Ruas Pinto 0

Para complementar a coluna do mês, a minha sugestão é uma sequência de vídeos muito legais disponíveis no YouTube. Em 1968, Elvis se encontrava há anos longe do palco, dedicando-se ao cinema. Um canal de televisão organizou um especial onde ele pôde mostrar que continuava afiado. Em outras palavras, foi uma espécie de retorno triunfal à música. A parte mais legal do show é quando ele faz uma roda de improviso com a banda que o acompanhava no começo da carreira. Este momento do show mostra a energia incrível do rock nos seus primórdios. Repare que Elvis entra no espírito do momento e custa a se segurar sentado.

https://youtube.com/playlist?list=PL7uMBlhHG8iEKzXhomLvJRBKTICWH_XCQ

Para quem quer ouvir as músicas mais emblemáticas de Elvis, a coletânea “Elvis 30 #1 Hits” (fácil de achar em qualquer plataforma de música), consegue cobrir toda sua carreira de forma muito didática. Diversão pura para animar o corpo e o espírito.

https://deezer.page.link/h98awP1SdXN4jQK17

Novas percepções sobre Elvis

17 de Julho de 2021, por Renato Ruas Pinto 0

Uma das coisas boas que os novos serviços de vídeo nos trouxeram foi o acesso a incontáveis documentários. E, dentro desse universo, há diversos documentários sobre música e que sempre trazem novidades. Em um dos últimos que assisti encontrei ótimas histórias, depoimentos e análises que me trouxeram mais luz sobre um dos maiores ídolos do rock, o inigualável Elvis Presley. O documentário “Elvis – o rei do rock” (tradução ruim do original “Elvis – the searcher”, que seria algo como “Elvis – o que buscava respostas” em uma tradução livre) está disponível na Netflix e conseguiu trazer informações interessantes e depoimentos de peso que ajudam a entender o impacto causado por Elvis e um pouco de sua personalidade.

O documentário é todo baseado em imagens do artista e os áudios dos depoimentos e trechos de entrevistas são colocados por cima das imagens. Um dos méritos é conseguir criar uma narração muito legal, mesmo com “retalhos” de vozes diversas, inclusive a do próprio Elvis. Entre os “narradores”, além de Elvis, há pessoas do seu círculo íntimo como sua esposa Priscilla, amigos próximos e o seu polêmico empresário, o “Coronel” Tom Parker. Há também boas intervenções de escritores, pesquisadores, instrumentistas que acompanharam Elvis e dos músicos Tom Petty e Bruce Springsteen. A história é contada em dois episódios de um pouco mais de uma hora e meia cada.

O filme segue a cronologia da vida do biografado. Já na sua infância, é ressaltada a sua atração não só pela música de um modo geral, mas também pela música negra. De acordo com o filme, ainda criança, Elvis entrava escondido nas igrejas de negros para acompanhar seus corais e conjuntos. Pode parecer algo trivial, mas é preciso entender o contexto. Elvis nasceu em uma pequena cidade no interior do Mississipi em 1935. Um estado racista onde não só os direitos eram negados aos negros, mas também em tempos em que a Ku Klux Klan os enforcava e queimava por conta da cor de sua pele. Mais tarde, adolescente, Elvis se muda para Memphis, um centro tradicional de música negra como o jazz e o blues. Colegas de escola apontam que o viam como um menino estranho por frequentar bares de negros para apreciar a música. Isto é essencial para entender a grande revolução que Elvis causou.

Elvis, ao tentar a sorte em uma audição no estúdio da Sun Records, do idealista Sam Phillips, começou mostrando um repertório tradicional de country, outra de suas influências, mas sem empolgar o dono do estúdio. Em uma pausa, Elvis começou um improviso com um clássico de blues, “That’s allright”, com uma batida um pouco diferente e na hora Sam Phillips viu que tinha algo diferente ali. Um artista com uma voz excelente, bonito e ainda por cima trazendo uma fusão de estilos que iria agradar todas as audiências jovens. Com o lançamento dos primeiros compactos, Elvis tem uma ascensão meteórica e toma conta de rádios e lota shows. E revela mais um talento como um verdadeiro dono do palco, que hipnotizava as plateias com sua voz e seu rebolado que chocavam os pais dos fãs. A Sun era uma gravadora pequena e não conseguia fazer uma promoção nacional dos discos. Após um ano, o empresário Tom Parker, que enxergou o potencial do artista, e a gravadora RCA Victor, compram o contrato de Elvis e ele rapidamente se torna um fenômeno nacional.

A partir daí o documentário mostra os diversos e tortuosos caminhos que Elvis seguiu em sua vida pessoal e artística. A convocação pelo exército no auge da fama, seguida de dois anos servindo na Alemanha, o retorno ao mundo da música e, depois, um período longo como ator de cinema e longe dos palcos. Elvis então retorna para a música e para seu habitat natural, o palco. Nos seus últimos anos, entra em um ritmo alucinante de shows, com mais de uma centena de apresentações de grande porte por ano. Para se aguentar de pé ou para conseguir dormir, se entupia de drogas lícitas e ilícitas. O preço maior foi cobrado e ele nos deixou com apenas quarenta e dois anos.

Foi uma vida breve, mas que deixou marcas na música e na sociedade. Elvis abriu não só o caminho para o rock, mas para aquilo que viria a ser chamado de música pop. Além da sua contribuição musical, também ajudou a estabelecer padrões que redefiniriam a juventude em vários aspectos, com impactos no comportamento e em hábitos de consumo. Enfim, Elvis é mais um artista com status de lenda e sobre o qual ainda se falará e se ouvirá muito.

Bob Dylan: uma playlist para conhecer o artista

17 de Junho de 2021, por Renato Ruas Pinto 0

Para complementar a última coluna “Trilha Sonora”, preparei uma playlist com clássicos do Bob Dylan. Para quem já é fã, é para se divertir. Para quem conhece pouco mais do que “Blowin’ in the wind” ou “Mr. tambourine man”, é a chance de sentir o peso das canções do bardo. Divirta-se.

b.link/playlist-bobdylan

Os oitenta anos do bardo

16 de Junho de 2021, por Renato Ruas Pinto 0

Em maio, uma das figuras mais influentes da música popular completou oitenta voltas ao redor do sol: o cantor e compositor Bob Dylan. Que o rock foi uma das maiores revoluções recentes na cultura e costumes ninguém contesta. E Bob Dylan tem, com todos os méritos, os créditos de uma parte importante nessa revolução. O rock nasceu como um estilo musical para consumo de jovens. Assim, era natural que, nos seus primórdios, o estilo falasse essencialmente de um universo adolescente: festas, carros esportivos, namoros e paixões de verão. Mas, com a chegada de Bob Dylan na cena, a coisa mudaria e o estilo entraria em sua fase adulta.

O próprio Bob Dylan foi atraído pelo rock quando adolescente. Porém, depois de começar a se dedicar seriamente à música com suas primeiras bandas, achou que o rock não tinha substância – como, de fato, não tinha – e virou-se para a música folk estadunidense, que bebia na tradição do folclore e do country, trazendo letras com conteúdo. Ao se mudar para Nova Iorque, logo se envolveu com a cena folk local e, após participar em discos de alguns artistas, conseguiu o contrato para o seu primeiro álbum, “Bob Dylan”, de 1962. A estreia, que continha principalmente músicas tradicionais folclóricas e apenas duas autorais, não teve grande repercussão.

O álbum seguinte, contudo, “The Freewheelin’ Bob Dylan”, tornou-se um marco. Com um repertório quase todo autoral, Dylan mostrou a força de suas letras em canções que se tornaram icônicas, como “Blowin’ in the wind”. Além disso, antenado com o seu tempo e com a luta pelos direitos civis dos negros, seu repertório foi automaticamente incluído entre as músicas cantadas em passeatas. Finalmente, em um 1963, quando os Beatles ainda cantavam canções inocentes, como “She loves you”, Bob Dylan já estava em outro patamar de complexidade de letras, como se pode ver em “A hard rain’s a- gonna fall”.

E o rock? Onde ele entra nessa história de músicas folk acompanhadas só de violão e instrumentos acústicos? Uma troca importante aconteceu em 1964, quando os Beatles, em turnê pelos EUA, conheceram Bob Dylan. O trabalho de Dylan inspirou os Beatles a fazer música mais séria e, ao mesmo tempo, o sucesso dos Beatles e suas guitarras teria feito Dylan buscar audiências mais amplas. Há quem diga que esse foi um dos encontros mais importantes do rock, mas isso é uma opinião e, como tal, pode ser debatida. O fato é que no ano seguinte Dylan usou instrumentos elétricos em um álbum pela primeira vez. E tomou uma sonora vaia quando subiu ao palco do tradicional festival de música folk, em Newport, com uma guitarra em vez do violão.

O rompimento de Dylan com a tradição do folk, além de representar a entrada do rock em sua fase adulta, como já citado, deu a pista do que viria a ser a carreira do artista. Dylan se tornaria um artista descolado de rótulos ou estilos. Em sua extensa discografia, ele passearia com desenvoltura pelo folk, rock, blues, country e até pela música gospel. Dono de uma obra extensa e recheada de grandes discos, Dylan se tornou objeto de uma idolatria incondicional por parte dos fãs. Curiosamente, essa paixão também fez movimentar, desde os tempos das fitas cassetes, um mercado de discos não oficiais de shows ou gravações não lançadas, as chamadas “bootleg”.

Dylan não só rompeu fronteiras dentro da música, mas também de outras artes e se aventurou como escritor e artista plástico. Finalmente, a força da sua escrita – em especial, de suas letras – foi coroada em 2016 com o prestigiado Prêmio Nobel de Literatura. Ainda que o prêmio reacenda uma polêmica antiga sobre classificar letras de música como poesia ou não, é um reconhecimento sem precedentes para um artista popular.

Bob Dylan, enfim, é um artista de primeira grandeza e um dos grandes nomes de nosso tempo. Mais do que a qualidade do seu trabalho, é preciso destacar a extensão de sua influência e o legado que construiu para as artes. Com violão ou com guitarra, não deixe de ouvir Dylan.