O fascínio dos grandes mestres
27 de Maio de 2026, por Renato Ruas Pinto 0
Boa música nos é trazida por bons músicos por todos os lados. No nosso fone de ouvido ligado no streaming favorito, em shows ou mesmo uma experiência mais inesperada de trombar com um bom artista fazendo um fundo sonoro em um bar. Enfim, bons músicos, profissionais ou não, se encontram com certa facilidade. Em um nível acima encontramos músicos excepcionais, aqueles que lá chegaram pela prática e estudo, mas que, além de técnica, carregam originalidade e domínio do estilo ao qual se dedicam. Esses já não são tão numerosos e um encontro casual costuma ser um lance de sorte. Normalmente vamos atrás deles por indicações ou em shows e audições onde já sabemos que iremos encontrá-los.
E, em um patamar ainda mais elevado, temos aqueles que podem ser chamados de grandes mestres de um determinado instrumento ou estilo musical. Esses normalmente são os verdadeiros criadores ou fundadores de escolas. Ou gigantes que ditam o rumo e a evolução de uma linguagem musical. Todo estilo, movimento musical ou instrumento, da música folclórica ao free jazz, tem alguns nomes na sua prateleira mais alta e que são unanimemente aclamados como referência. No blues podemos lembrar de Muddy Waters ou BB King. No jazz temos Miles Davis ou Charlie Parker. Na viola caipira é impossível evitar Tião Carreiro ou Almir Sater em qualquer conversa. No samba temos Cartola ou Noel Rosa.
Naturalmente a lista de cada estilo é mais longa do que eu exemplifiquei. E a Bossa Nova também tem o seu panteão. Em um degrau mais alto precisamos citar João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius, que resumem o triunvirato do ritmo, melodias e harmonias e as letras que marcaram o estilo. Logo na sequência, temos uma turma que muito fez pela construção e consolidação do estilo: Nara Leão, Roberto Menescal, Carlos Lyra, Newton Mendonça, Astrud Gilberto, Johnny Alf, Ronaldo Bôscoli, Elizeth Cardoso, os irmãos Paulo Sérgio e Marcos Valle e outros. É um clube seleto que, em boa medida, já nos deixou. Assim, quando temos a chance de ver ao vivo um grande mestre desse time, não podemos desperdiçar.
Por esses dias, tive a sorte de conferir ao vivo um desses grandes, o Roberto Menescal. Para destacar o seu currículo, bastava o fato de ser um dos fundadores da Bossa Nova e autor de clássicos do estilo, como “Nós e o mar" ou “O barquinho", sendo que essa última provavelmente figura na lista das músicas brasileiras mais regravadas. Mas ele vai além disso. Menescal participou em um sem número de gravações como instrumentista, acompanhou em turnê diversos artistas e assinou a produção de álbuns dos mais diversos estilos. Finalmente, foi diretor artístico da Polygram entre 1970 e 1986, tempos em que a gravadora abrigava a nata da música brasileira.
Legado é o que não falta pra Menescal e ele segue na ativa aos 88 anos. Além de shows pelo país, ele continua lançando discos e colocou recentemente na praça o “Bossa Sempre Nova”, em parceria com Toquinho e Luísa Sonza. Embora seja um disco adequado, não é do tipo que vai ser lembrado no futuro. Se quiser ver um trabalho do Menescal recente e digno de nota, confira o bom “O Tom da Takai”, da Fernanda Takai (Pato Fu) e produzido e arranjado por Menescal e Marcos Valle.
E o show? O mestre mostrou que segue afiado no palco também. Menescal, embora se arrisque no microfone vez ou outra, não se reconhece como cantor e se apresentou acompanhado pelo jovem Theo Bial nos vocais e pelo Massatrio nas bases. Em um show leve, emocionante e recheado de clássicos da Bossa Nova, Menescal ainda fez a noite divertida, contando casos de bastidores e histórias de suas composições. A renovação do artista parece vir não só do palco, mas da interação com novas gerações, como ele mostrou ao chamar para uma canja a jovem Analu Sampaio, sua afilhada musical. Que o mestre siga firme levando sua arte e suas refinadas harmonias e melodias mundo afora com todo o amor e entusiasmo que ainda carrega após 70 anos de carreira.
A viola caipira na sala de concerto
25 de Marco de 2026, por Renato Ruas Pinto 0
As formações eruditas como orquestras e quartetos estão acostumadas com a presença da viola de arco, a prima maior do violino. Já a viola caipira é figura mais rara nesses cenários, mas ela vai abrindo seu caminho. O violão, apesar de ser um parente bem mais novo da viola caipira, já ganhou o status de instrumento erudito e se juntou às orquestras por obra dos compositores e instrumentistas de sua terra natal, a Espanha.
Graças a compositores como Joaquín Rodrigo e músicos como Andrés Segovia, o violão foi aceito como instrumento erudito e ouvido em espaços de concerto. Aqui mesmo no Brasil, onde o violão era considerado um instrumento popular, Villa Lobos compôs um repertório que é referência mundial para o violão erudito. E a nossa viola caipira? Ela vai aos poucos conquistando esse espaço.
A viola caipira ficou, em um determinado momento de nossa história, restrita ao Brasil profundo e só foi resgatada para um público maior no começo do século XX com os registros em disco promovidos pelo pioneiro Cornélio Pires. A partir desse ponto, ela ganhou espaço também na MPB, nos tempos dos grandes festivais dos anos 60, em canções como “Disparada”. Finalmente, por volta dos anos 80, ela passou por um renascimento em popularidade e atraiu uma nova geração de instrumentistas.
Um pouco antes disso, o mestre Renato Andrade já vinha demonstrando as possibilidades técnicas e sonoras da viola, apresentando um repertório que combinava o popular com peças de roupagem mais erudita. Na sequência, ela ganharia também a academia. Com os trabalhos dos virtuosos instrumentistas e professores Roberto Corrêa e Ivan Vilela, a viola passou a fazer parte do currículo de cursos superiores de música. Acredito que é questão de tempo para que a viola ganhe peças de fôlego, como o “Concerto de Aranjuez”, obra notável para violão e orquestra, e conquiste seu espaço em grandes salas do gênero.
A motivação dessa reflexão foi assistir a uma apresentação de um duo surpreendente de viola caipira e violoncelo executados, respectivamente, pelos talentosos Neymar Dias e Vana Bock. Embora o repertório incluísse temas populares, não faltaram peças eruditas, como adaptações de Bach e Villa Lobos. Eu já conhecia o trabalho virtuoso de Neymar Dias e, em outra apresentação, ouvi as incríveis transcrições que ele fez de Bach para a viola caipira.
No novo show, no qual o repertório e os arranjos ainda estão sendo gestados e testados pela dupla, Neymar trouxe a parceria do violoncelo de Vana Bock e a colaboração dos dois instrumentos foi uma ótima novidade. De acordo com a dupla, existe a intenção da colaboração ser registrada em um álbum. Enquanto ele não chega, fica a dica para ouvir o excelente “Neymar Dias Feels Bach – Viola Brasileira Solo”. O disco de Neymar mostra algo que deveria ser óbvio, mas não o é para muita gente: a viola é um instrumento que tem possibilidades infinitas e pode ocupar diversos espaços, inclusive o da música erudita. Vale até observar que ele faz questão de chamar de “viola brasileira” e não “caipira”. Talvez seja o que melhor a descreve, já que expande os seus limites além da música regional e pelo fato de que ela foi melhor preservada aqui do que em sua terra de origem, a Península Ibérica.
A viola, definitivamente, não precisa do carimbo de “erudito” para mostrar seu valor ou refinamento, mas tem todas as condições de estar na mesma prateleira junto a concertos para piano, violino ou violão. Normalmente associada à música caipira ou tradições populares, como a folia de reis, a viola já mostrou que pode transitar por terrenos distintos, como o rock ou a MPB. No campo do erudito, ela já colocou o seu pé e não há de tardar o reconhecimento por um público maior como um instrumento realmente completo.
Para conhecer e curtir Lô Borges
08 de Fevereiro de 2026, por Renato Ruas Pinto 0
Complementando a última coluna, criei uma playlist que acompanha a carreira do Lô Borges ao longo do tempo.
Confira a playlist no link: bit.ly/tidal-loborges
Para quem já conhece sua obra, é só curtir. Para quem conhece superficialmente, é a chance para viajar pela carreira de um compositor inspirado e inovador. Dividi a sequência assim:
Faixas 1 a 12 – o mundo conhece Lô Borges: são faixas do início da carreira nas quais Lô mostra suas credenciais. Primeiro, como compositor em faixas do álbum “Milton”, depois como cantor no legendário “Clube da Esquina” e, finalmente, na sua estreia solo no chamado “disco do tênis”.
Faixas 13 a 19 – o retorno: após o estafante processo de gravação do “tênis”, Lô Borges se afasta do mundo da música para voltar sete anos depois. Porém, volta em grande estilo com o excelente “A Via Láctea”.
Faixas 20 a 28 – um novo retorno e o século XXI: após outro hiato entre 1984 e 1996, Lô Borges retorna para uma fase muito produtiva que vai até os seus últimos momentos.
Faixas 29 a 32 – parcerias pop: Lô Borges emplaca grandes sucessos, seja em parcerias com Samuel Rosa e Nando Reis ou na voz do eterno parceiro Milton.
Faixas 33 a 35 – o Clube da Esquina: para fechar a lista, uma curiosidade. As três faixas que acabaram batizando o Clube da Esquina. A primeira foi gravada no álbum “Milton” de 1970. Na sequência, a clássica “Clube da Esquina No. 2” na versão original, instrumental, do álbum “Clube da Esquina”. Lô Borges não queria letra na música, mas Nana Caymmi convenceu Márcio Borges a escrever versos que se imortalizaram. A versão com letra se tornou um verdadeiro hino e era impossível Lô fazer um show sem passar por ela.
“Se eu cantar não chore não, é só poesia”
27 de Janeiro de 2026, por Renato Ruas Pinto 0
O fim do ano foi um tanto amargo para a música e fãs. Partiram, em um curto espaço de tempo, músicos incríveis como André Geraissati, inovador do violão e fundador do trio “Grupo D’Alma”, além de outros, como o cantor e compositor Jards Macalé, o “bruxo” Hermeto Pascoal e a subestimada Ângela Ro Ro. No exterior, também partiu gente de peso, como o guitarrista do Kiss Ace Frehley, Rick Davies, fundador e vocalista do Supertramp e o “príncipe das trevas” e um dos pais do Heavy Metal, Ozzy Osbourne. Para mim, porém, foi particularmente doída a notícia recebida nas primeiras horas do dia dois de novembro do cair da cortina para Lô Borges.
Passado o choque inicial das primeiras horas, nossos corações foram confortados com uma série de belas homenagens a um dos maiores nomes de nossa MPB. Elas vieram na forma de depoimentos, textos e, a mais marcante de todas, a grande reunião que movimentou a histórica esquina belorizontina no encontro das ruas Paraisópolis e Divinópolis. As apresentações de diversos músicos em homenagem a Lô não poderiam ser em outro lugar que não aquele que é considerado o epicentro simbólico de um dos movimentos mais significativos e influentes da nossa música, o Clube da Esquina.
O Clube da Esquina foi a inovação mais criativa na música brasileira desde a Bossa Nova e, tal como essa, de alcance além das nossas fronteiras. O movimento tem sido bastante celebrado em tempos recentes por conta da inclusão do disco que o batizou, “Clube da Esquina”, de 1972, em diversas listas como um dos discos brasileiros mais influentes de todos os tempos. A recente aposentadoria dos palcos de Milton Nascimento também ajudou a resgatar o prestígio da música criada de forma colaborativa por artistas brilhantes, como Beto Guedes, Toninho Horta, Nelson Ângelo e Wagner Tiso. Além deles, o Clube contou sempre com o sólido alicerce das letras de Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Fernando Brant.
Embora seja claro o caráter coletivo da obra do Clube, no qual todos colaboravam entre si nas composições, arranjos e letras, é preciso destacar o papel de Lô Borges na vanguarda do movimento e no mesmo patamar de Milton Nascimento. Milton, que já era um artista bem estabelecido no final dos anos 60, percebeu cedo o talento de Lô e gravou três de suas composições no disco “Milton”, de 1970. Entre elas, estava o hoje clássico “Para Lennon e McCartney”, que mostra a maturidade na composição de um Lô Borges com apenas 18 anos. Logo depois, Milton enfrentaria os executivos da EMI-Odeon para dividir com o ainda desconhecido Lô um disco duplo – o primeiro nesse formato no Brasil –, que se tornou o marco fundador do movimento. Em “Clube da Esquina”, Lô Borges assinou pérolas, como “O trem azul”, “Um girassol da cor do seu cabelo” e outras tantas. Novamente, chega a ser assombroso o nível de composição de um artista que ainda iria completar 20 anos.
Na sequência, Lô Borges assinou o contrato para seu primeiro disco solo, que ficou conhecido como o “disco do tênis”. Lô, que havia registrado todas suas composições nos discos “Milton” e “Clube...”, foi obrigado a entrar em uma maratona de composição para honrar seu contrato. A estafa causada levou ao seu afastamento do mundo da música, mas felizmente ele voltou em grande estilo no ótimo “A Via Láctea”, de 1979. Depois disso, Lô construiu uma carreira sólida e, em tempos recentes, mostrou que a inspiração e a transpiração continuavam em alta ao lançar sete discos nos últimos sete anos.
Toda essa intensidade na composição e nos shows que vinham acontecendo deixa a amarga sensação de que Lô, como sempre dizia Rolando Boldrin, partiu antes do combinado. Como consolo, Lô Borges está na rara prateleira dos artistas que conquistaram a imortalidade ainda em vida e terá sua música ecoando por mais gerações. Que a obra de Lô Borges receba a aclamação que merece e que em todo canto haja uma esquina onde artistas se encontrem para criar a música, que nos é tão necessária para viver.
Milton na telona
30 de Abril de 2025, por Renato Ruas Pinto 0
Por esses dias, tive a oportunidade de assistir no cinema, na telona e com som de primeira como tem que ser, ao documentário “Milton Bituca Nascimento” (direção de Flávia Moraes). O filme mostra os bastidores da turnê de despedida de Milton, batizada de “A última sessão de música”, sobre a qual já escrevi aqui na ocasião do show de encerramento no Mineirão (leia em bit.ly/42dyZzC). Ao Milton Nascimento, um gênio da música cujos encantos superaram o território brasileiro, toda homenagem é merecida. E esse documentário, definitivamente, precisa ser visto por todos, fãs ou quem só conhece a obra do artista superficialmente. Ainda assim, acho que algumas oportunidades foram perdidas e creio que há espaço até para outro documentário que trate de alguns tópicos com mais profundidade.
O filme acompanha toda a movimentação do artista ao longo de uma estafante turnê com dezenas de shows ao redor do mundo, passando por Portugal, Inglaterra, Itália, Estados Unidos e, é claro, o Brasil. Enquanto percorre o trajeto, o filme conta com a competente narração de Fernanda Montenegro e vai sendo entrecortado por depoimentos. Alguns do próprio Milton, contando momentos de sua história e trajetória, alguns de pessoas próximas e uma série de depoimentos de músicos dos mais diversos estilos. Para quem não conhece o trabalho de Milton muito bem, os depoimentos dão ideia de sua grandeza e influência.
Entre os artistas brasileiros rendendo homenagens, temos nomes consagrados, como Chico Buarque, Ivan Lins, João Bosco e Caetano Veloso. E ainda há representantes de gerações mais novas, como Maria Gadu, Criolo e Djonga, que mostram que Milton continua a inspirar. Finalmente, grandes nomes do jazz, tais como Herbie Hancock, Stanley Clark e Pat Metheny, deixam claro como a música e harmonias inovadoras de Milton romperam fronteiras e conquistaram seguidores mundo afora. Para nós fãs, é muito legal ver toda essa nata da música brasileira e mundial se curvar para Milton.
O tom laudatório do documentário, porém, leva a algumas armadilhas. Entendo perfeitamente que o objetivo era ser um “filme de estrada”, mostrando o caminho percorrido por Milton em seu último giro como se estivesse seguindo sua imortal canção “Nos bailes da vida”. E não falta coragem para Milton expor na tela toda sua fragilidade física e saúde debilitada, o que é o aspecto mais humano e emocionante do filme. Por outro lado, a profusão de depoimentos de músicos de alto calibre transforma Milton em uma criatura quase divina e inatingível. Quero deixar claro que todo elogio ao Milton é merecido, porém isso praticamente transforma o filme em uma hagiografia, texto que conta a vida dos santos.
Com isso perdeu-se uma oportunidade de contar melhor de onde veio a música de Milton. Da sua infância em uma cidade do interior, onde só se tinha acesso às músicas via rádio, até chegar no Clube da Esquina, onde um caldo de influências criou algo original. Houve um caminho percorrido e pouco foi falado dele. E creio que o próprio Clube da Esquina teve pouquíssimo espaço e passou-se uma ideia de que seus artistas seriam meros coadjuvantes na carreira de Milton. Ainda que Milton tenha sido o grande expoente do Clube e, por já ter uma carreira consolidada na época, ter sido quem abriu o caminho da gravadora para os demais, a influência mútua e interação com Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta e outros – além dos letristas Fernando Brant, Márcio Borges e Ronaldo Bastos, é claro – foi decisiva na construção da identidade de Milton como artista. Para quem quiser se aprofundar no assunto, recomendo dois excelentes livros: “Os Sonhos Não Envelhecem”, de Márcio Borges, e “A Música de Milton Nascimento”, de Chico Amaral.
Mesmo com esse reparo, o documentário é muito bonito e emocionante. Não só me levou às lágrimas durante todo o filme, mas também rendeu uma longa sessão de palmas ao seu final. Recomendo, para quem puder ver no cinema, pois o som faz bastante diferença. De todo modo, deve estar disponível em breve em algum streaming.