Trilha sonora

Sergeant Pepper’s: 50 anos e contando...

16 de Junho de 2017, por Renato Ruas Pinto 0

Nos anos 60 o mundo passava por grandes transformações com profundas implicações para toda a sociedade. O mundo vivia sob a sombra da guerra fria e o risco de um conflito nuclear, além de mudanças que balançavam a ordem geopolítica e envolviam toda a sorte de revoluções e conflitos armados. Nesse caldeirão havia uma juventude que acreditava na mudança através do poder da flor e do amor e buscava alternativas embalados pelo som do rock’n’roll e por drogas para expandir os limites da consciência. Imersos nesse momento e, ao mesmo tempo, se tornando um dos seus principais influenciadores, os Beatles colocam no mercado um álbum cujas implicações iriam muito além da música popular e se tornaria um marco da produção fonográfica, o “Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, que acaba de completar cinquenta anos e segue relevante.

O evento está sendo tão celebrado que pensei em não escrever a respeito, já que tem muita gente fazendo-o com propriedade. Mas depois de ver no jornal Estado de Minas uma montagem parodiando a capa do Sgt. Pepper’s com os envolvidos nos escândalos de corrupção, ficou claro que eu não podia deixar a data passar em branco, dado o impacto cultural e musical desse disco. Na época, os Beatles sofriam com a loucura que se tornou a beatlemania: gente se machucando nos shows por conta de fãs descontrolados e performances de péssima qualidade, consequência da gritaria que impedia que eles se ouvissem no palco. Decidiram então abandonar os shows para se dedicarem exclusivamente ao trabalho de estúdio.

Deram então continuidade à experimentação e sofisticação de arranjos que já havia começado no álbum anterior, “Revolver”, sem a menor preocupação de executar ao vivo as faixas. Além disso, criaram uma espécie de alter-ego, a fictícia banda do Sargento Pimenta que faria o seu “show” ao longo do disco. As temáticas das músicas são aparentemente despretensiosas: cenas cotidianas – que falam do trabalho de uma leitora de parquímetros (“Lovely Rita”) ou de alguém que reforma sua casa (“Fixing a Hole”) – ou lembranças da infância pintadas nas clássicas “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever”. Sobre essas últimas duas, vale uma nota. Foram as primeiras músicas gravadas para o trabalho, mas, por pressão da gravadora, acabaram lançadas em compacto – prática comum da época – e não entraram no disco, decisão da qual se arrependeriam depois.

Apesar da suposta inocência dos temas, as músicas se encadeiam com tal coesão que fizeram que o disco fosse prontamente identificado como um álbum conceitual, isto é, um trabalho que gira em torno de um tema e não é uma mera reunião de faixas. Isso era algo inédito na época e passou a ser perseguido pelos artistas. Um exemplo pode ser visto no Brasil. Caetano, Gil, Mutantes e companhia estavam trabalhando no disco “Tropicália”, que reuniria algumas faixas de cada participante. Após o lançamento de Sgt. Pepper’s, os planos foram revistos e o lançamento adiado para que pudessem trabalhar em um disco que tivesse conexão do começo ao fim. Além disso, Sérgio Dias dos Mutantes admitiu que o arranjo de sopros de “Panis et Circenses” são inspiração direta do trompete de “Penny Lane”.

No plano cultural, sua estética psicodélica veio a calhar com o momento em que nascia o movimento hippie e começava o “Verão do Amor” de 67, fazendo com que o disco estendesse sua influência para esferas além da música, como a moda e as artes plásticas. Em suma, é difícil falar em um espaço de uma coluna de jornal sobre um disco que já rendeu documentários, livros e teses de doutorado. Mas eu tento resumir porque vale a pena ouví-lo com cuidado: são os Beatles em um pico de criatividade, trabalhando juntos e em perfeita sintonia e com o suporte um produtor talentoso (George Martin) em um trabalho que influenciou toda a música e artes modernas. É difícil chegar ao fim do disco sem sair maravilhado com o que pode ser feito com criatividade e apenas um modesto gravador de quatro canais.

O Bruxo

18 de Maio de 2017, por Renato Ruas Pinto 0

No mês de abril acabou me passando desapercebido que esta coluna completou três anos no Jornal das Lajes, fato que só tenho a comemorar e mais uma vez agradecer ao JL a oportunidade para falar sobre música, a arte que faz parte de nossa vida de uma forma muito intensa. Nesse tempo falei de muita coisa interessante que ouvi ou li por aí, porém, me dei conta de uma omissão séria em termos de assunto: a música instrumental. A música instrumental brasileira reflete o caldeirão cultural que é nosso país: ao mesmo tempo, é fortemente influenciada pelo improviso do jazz americano, o rigor clássico europeu, a complexidade dos ritmos africanos e toques regionais que vão das sonoridades gaúchas à música nordestina. E para falar da riqueza desta música creio que não há artista que resume melhor essa diversidade do que Hermeto Pascoal, o “bruxo”, como é chamado por muitos.

Hermeto é daqueles músicos de talento inato. Despertou para arte ainda criança, dedicando-se ao acordeão e percussão, para se tornar um multi-instrumentista que domina o piano, flauta, saxofone e o que vier pela frente. Após passar por orquestras de rádio, tocar em boates e alguns grupos, participou em 1966 da fundação do inovador Quarteto Novo, em companhia de Heraldo do Monte (viola e guitarra), Théo de Barros (baixo) e Airto Moreira (bateria). Esse grupo é lembrado por acompanhar diversos músicos nos anos de ouro dos festivais. Afinal, foram a banda de apoio das icônicas “Ponteio” de Edu Lobo e Capinan e “Disparada” de Geraldo Vandré e Théo de Barros. Porém, o Quarteto Novo é reconhecido por ter trazido para a música instrumental brasileira, até então apoiada nas harmonias do jazz americano e da bossa nova, uma linguagem com forte influência do Nordeste. Infelizmente o grupo teve vida breve e apenas um disco homônimo lançado. Ele se desfez e seus integrantes seguiriam para carreiras solo nas quais tiveram amplo reconhecimento e com Hermeto não foi diferente. Em passagem pelos Estados Unidos impressionou, entre outros, Miles Davis, que gravou duas de suas músicas. A partir daí o prestígio de Hermeto foi aumentando cada vez mais e ele se tornou uma referência na música instrumental mundial.

Por esses dias tive o prazer e o privilégio de assistir a um show da nova turnê de Hermeto que celebra os seus 80 anos. Hermeto Pascoal é uma figura que por si só já chama atenção quando sobe ao palco: com sua vasta cabelereira e barba parece um personagem saído de quadrinhos alternativos dos anos 60 de Gilbert Shelton ou Robert Crumb. Mas é quando a música começa que se tem noção da grandeza e universalidade do seu som. Se você fechar os olhos a sensação é que está rolando no palco um encontro de John Coltrane, Miles Davis, Chick Corea, Villa Lobos, Tom Jobim, Sivuca e Luiz Gonzaga. A música é intensa e combina belos temas com improvisos inspirados. Aliás, a improvisação e as surpresas são a marca do show, pois Hermeto desafia seus músicos todo o tempo a criar dentro do palco. Curiosamente, Hermeto trabalha durante o show como um maestro, regendo seus músicos com seu corpo, seu chapéu ou sua música mesmo. Mas, mesmo fazendo questão de conduzir o som e o show com uma coesão incrível, Hermeto dá plena liberdade para seus músicos voarem alto, seja em grupo ou em improvisos solos. Naturalmente, isso só é possível pois ele se cerca de músicos de primeira linha. Ainda assim, ao final de uma música ou de um improviso desafiador, Hermeto se dirige paternalmente ao músico para cumprimentá-lo com um abraço ou um tapinha nas costas.

Resumindo, a música de Hermeto Pascoal é poderosa. Não conhece limites e não se prende a fórmulas, porém, sem perder de vista, mesmo nos improvisos mais ferozes, os seus belos temas e melodias. E, talvez justamente por não ter limites, a música é universal e com admiradores nos quatro cantos do mundo, mas sem perder o seu pé no Brasil e no Nordeste. Não há nome melhor para se lembrar quando se fala da riquíssima música instrumental feita no Brasil.

O dia em que o rock ficou órfão

13 de Abril de 2017, por Renato Ruas Pinto 0

Por esses dias chegou a triste notícia de que um dos pioneiros do rock, Chuck Berry, levou sua voz inconfundível e sua guitarra furiosa para tocar em outros planos. Mais que pioneiro, Chuck Berry merece ser chamado, com todas as honras, de um dos pais do rock’n’roll. O rock nasceu de uma fusão de outros estilos, a saber, o country, o blues e o rhythm and blues. Ao final dos anos 40 e começo dos anos 50 havia músicos das três vertentes gravando sonoridades aceleradas de seus estilos que poderiam muito bem serem chamadas de rock, ainda que fosse um embrião do estilo que mudaria a música popular para sempre. Assim, é muito difícil creditar a paternidade a esse ou aquele músico. Mas pode-se afirmar, sem medo de criar polêmica, que a contribuição que Chuck Berry deu ao novo ritmo, seja musicalmente, em sua sonoridade ou mesmo em termos comportamento, o credencia como um dos artistas mais decisivos para o sucesso e consolidação da nova música que viraria a juventude de cabeça pra baixo.

Nascido em Saint Louis, Missouri, sul dos EUA, Chuck Berry foi influenciado desde novo pelo blues e cedo tomou a guitarra como instrumento. O sul dos Estados Unidos era dividido racialmente até na música: blues para os negros e country para os brancos. O blues era seu estilo favorito, mas Berry começou a colocar músicas e elementos do Country no seu repertório, o que inicialmente causou estranhamento no seu público negro, mas que aos poucos acabou sendo aceito. E essa mistura mais tarde abriria as portas do público branco para sua música. Berry foi para Chicago, onde o blues encontrava seu espaço com a ajuda da gravadora Chess. Muddy Waters promoveu o encontro de Berry com o Leonard Chess, um dos donos da gravadora, que se impressionou, não com os blues, mas com os ritmos em que Berry misturava o country e resolveu apostar no artista. O primeiro compacto que ele lançou foi a icônica “Maybellene” que de cara foi para o topo das paradas. Isso foi em 1955 e o rock já dava seus primeiros passos com Elvis Presley, Ike Turner, Fats Domino e Little Richards. Chuck Berry se juntava ao grupo que mais ou menos na mesma época já começava a crescer com Johnny Cash e Jerry Lee Lewis, Bill Halley e Buddy Holly.

Em meio a todos esses grandes artistas que podem ser chamados de pais do rock, Chuck Berry conquistou seu espaço e influenciou o estilo de tal maneira que se ouve ecos de seu som característico até hoje. As bases e solos de guitarra de Berry talvez tenham sido sua maior contribuição ao rock e ela pode ser ouvida claramente nos trabalhos dos Beatles – que gravaram as músicas do mestre “Rock and Roll Music” e “Roll Over Beethoven” e outras tantas em suas carreiras solos – ou dos Rolling Stones e uma infinidade de bandas. Creio que deve ser raro um iniciante na guitarra que não tenha tentado tirar a introdução de “Johnny B. Goode”, uma música de 1958, mas que não perdeu sua força até hoje e já foi regravada incontáveis vezes. Além de sua guitarra, Berry também foi um grande letrista e soube capturar a atenção da juventude dos anos 50 com letras cheias de humor, ironia e duplos sentidos com conotação sexual, em um momento em que esses jovens buscavam seu espaço e a libertação do conservadorismo. Além disso, o próprio Chuck Berry teve uma vida atribulada, com várias passagens em prisões desde novo, e até uma rebeldia contra o establishment, ao tentar gerenciar sua carreira de forma independente para não ser passado para trás em cachês de shows e contratos.

Por tudo isso pode-se dizer sem medo que Chuck Berry lançou as bases do que seria o rock nos anos seguintes, não só em termos de música e sonoridade, mas também de comportamento. Se o rock representou a voz de toda uma geração, Chuck Berry foi, sem dúvida, um de seus principais amplificadores. Por hora, nada de chorar a perda desse músico e sim ouvir sua música, que ainda vai tocar por muito tempo.

Elis, inigualável

16 de Marco de 2017, por Renato Ruas Pinto 0

É muito legal ver a obra e memória de Elis Regina, que faria 72 anos nesse mês, voltar com tudo, com direito a filme e nova biografia, ambos lançados em um intervalo de menos de dois anos. Sobre o filme, eu não vou falar para não ser redundante e deixo com vocês a resenha do amigo historiador e pesquisador de música popular Luiz Henrique Garcia (http://massacriticampb.blogspot.com.br/2016/11/1a-c-7a-elis-o-filme.html). Já a biografia “Elis Regina – nada será como antes”, escrita pelo jornalista Julio Maria, eu terminei de ler por esses dias e recomendo a leitura.

A primeira coisa a se elogiar é a coragem na escolha do tema. Afinal, Elis Regina não era simplesmente uma grande cantora. Ainda em vida foi louvada como uma das maiores cantoras do país, senão a maior. Ao se encantar tão jovem, com apenas 36 anos, entrou para o panteão das lendas. Elis deixou na música brasileira um vácuo, um posto vazio da grande cantora que era praticamente unanimidade e certeza de grandes interpretações. Logo, não é tarefa fácil para qualquer autor escolher um personagem tão conhecido, já que o trabalho com certeza será escrutinado nos detalhes. Porém, Julio Maria fez seu dever de casa com uma pesquisa muito bem feita e complementada por entrevistas com os personagens mais importantes, fato que deixa a narrativa bem mais interessante e recheada de histórias curiosas.

Outro mérito do trabalho vem da complexidade da própria personagem de Elis. Uma cantora brilhante, que com pouca idade já se destacava como vencedora de festivais e apresentadora de um popular programa de TV, mas também uma pessoa cheia de inseguranças e com um espírito extremamente competitivo, que levou a artista a polêmicas nada honrosas, envolvendo principalmente outras cantoras. Assim, seria muito fácil um autor resvalar para um dos dois extremos, o da hagiografia – a biografia da vida de santos – ou, em bom português, a tradicional “rasgação de seda” ou para o folhetim de fofocas. Julio Maria conseguiu se equilibrar muito bem e contar a história que precisava ser contada. Naturalmente, ele se debruça em alguns aspectos complexos de Elis, como a relação conturbada com a família ou os problemas enfrentados em seus casamentos com Ronaldo Bôscoli e César Camargo Mariano (e os seus affairs extraconjugais) e tenta analisar com alguma profundidade além da mera narração de eventos. Porém, Júlio o faz com elegância, sem pieguices ou análises rasas e lineares.

Por fim, Julio Maria não poupou em seu livro a descrição do gênio complicado e explosivo de Elis. Suas rusgas com outras cantoras e histórias nada dignificantes como as querelas com Nara Leão ou Alaíde Costa estão lá. Bem como o assunto espinhoso do uso de cocaína, que cobrou de Elis o preço máximo. Ou a difícil patroa que pagava os melhores cachês aos seus músicos, mas que cobrava uma lealdade canina, além do desempenho irretocável, à altura da sua voz. Mas o livro também retrata Elis como a mãe dedicada e a pessoa que peitou a polícia em dias de ditadura para ajudar Rita Lee, com quem quase não tinha relação, a sair da cadeia por porte de drogas e a se reerguer financeiramente, gravando músicas dela.

Acima de tudo, o livro pinta em cores vivas a artista brilhante que foi Elis, dona de uma voz sem igual e respeitada por instrumentistas por entender seu trabalho muito além do que se esperaria de uma cantora. E cuja dedicação à música e perfeccionismo a transformou em uma exímia garimpeira de ouro escondido no trabalho de artistas ainda desconhecidos e por ela promovidos, em uma lista que vai de Milton Nascimento a Renato Teixeira, passando por João Bosco e Ivan Lins. E é justamente a música o ponto alto do livro, como não podia deixar de ser. O autor conta com detalhes a produção e gravações de vários álbuns de Elis e de seus espetáculos que marcaram época, como “Falso Brilhante”. Enfim, um trabalho completo e que honra a memória da inigualável Elis e, principalmente, sua obra. Será que ainda veremos outra cantora tão incrível assim?

As pedras que ainda rolam e lançam bons discos

16 de Fevereiro de 2017, por Renato Ruas Pinto 0

O fim do ano passado viu o lançamento de mais um álbum dos veteranos, mas ainda enérgicos, Rolling Stones. Um disco despretensioso, mas ainda assim com qualidade para mostrar que os Stones não se tornaram clássicos por sorte (muito menos pela beleza, se me permitem a brincadeira). Eles se confundem com a história do rock e contribuíram muito para a popularização desse estilo. E já nos seus setenta anos (exceto o guitarrista Ron Wood, que chega lá este ano), ainda protagonizam performances grandiosas e quentes como pode ser visto no show em Cuba no ano passado, que virou um documentário (“Havana Moon”, que já está sendo mostrado no canal Bis da TV a cabo). Mas um currículo notável não é salvo-conduto para se produzir qualquer coisa. Pelo contrário, há sempre uma pressão grande por parte de público e crítica (os últimos em especial) para não deixar a qualidade cair, e, definitivamente, eles passaram longe de decepcionar.

Os Rolling Stones vieram com “Blue & Lonesome”, um disco que traz somente gravações de outros artistas, sem faixas com a tradicional assinatura “Jagger/Richards”. Mas não sem um motivo, já que resolveram fazer um mergulho no estilo e artistas que foram sua maior influência: o blues e seus heróis como Howlin’ Wolf, Little Walter e Willie Dixon. Foi o gosto comum pelo blues que aproximou Mick Jagger e Keith Richards: no primeiro instante para compartilhar discos e depois para tocar juntos. E o nome da banda vem do título de uma canção de um dos grandes mestres, Muddy Waters. Grandes devotos do blues, os Stones sempre registraram em seus álbuns clássicos como “Love in Vain”, de Robert Johnson, ou “Little Red Rooster”, de Willie Dixon. E ao falar dessa última música, é preciso abrir um parêntese para a grande contribuição dos Stones ao estilo, ao dá-lo visibilidade e praticamente promover o seu renascimento em sua própria terra, os EUA.

No fim dos anos 50 e começo dos 60 o blues andava em baixa nos EUA, mas florescia no outro lado do Atlântico, na Inglaterra de Jagger, Richards, Eric Clapton e John Mayall. Endeusados por esses artistas, nomes como Muddy Waters ou Howlin’ Wolf passavam dificuldades, perdendo vendas para o rock que havia conquistado a juventude. A redescoberta pelos ingleses fez com que o estilo viajasse de volta para os EUA e desse a justa projeção aos artistas que fazem parte da gênese do rock. Os Stones puseram “Little Red Rooster” no topo da parada britânica em 1964 ajudando a dar destaque para o blues eletrificado no melhor estilo de Chicago e da lendária Chess Records (gravadora sobre a qual já escrevi nessa coluna). Em suas primeiras turnês nos EUA, os Stones fizeram questão de convidar os mestres para suas aparições na TV, além de registrar algumas faixas no estúdio da Chess.

Com todo esse histórico e autoridade, os Stones apresentam um disco que é um tributo aos seus mestres e passa longe de ser uma imitação barata ou “mais do mesmo”. A gaita de Mick Jagger é competente e autêntica e faz frente a gaitistas de profissão. E seus vocais são precisos e sem grandes afetações, pecado que Jagger tem cometido recentemente. Aqui ele soa simples e direto como um autêntico blues exige. As guitarras de Ron Wood e Keith Richards têm sua devida proeminência, já que a base do disco é enxuta, com apenas alguns teclados e percussão somados ao quarteto mais o baixista Darryl Jones. A bateria de Charlie Watts, como sempre, é segura e irretocável. E para fechar com chave de ouro, ainda há a participação mais que especial de outro mestre do blues, Eric Clapton, que aparece em duas faixas com uma sonoridade que faz lembrar seu início de carreira na banda de John Mayall, quando era um purista do estilo.

Enfim, quem gosta de blues não pode perder esse disco, que faz um belo resgate da sonoridade eletrificada da escola de Chicago. E quem gosta de Stones, mas não conhece suas origens, é perfeito para entender a banda e quais foram suas verdadeiras influências.