Trilha sonora

Histórias e lições

18 de Julho de 2018, por Renato Ruas Pinto 0

Uma das belezas das artes é que a obra sobrevive ao artista e perpetua sua existência no imaginário do seu público. Ainda assim é impossível não se lamentar quando um grande artista se encanta precocemente, deixando a sensação de que havia muito ainda por se tocar. Em abril desse ano, um dos maiores violeiros do país, o Índio Cachoeira, pegou sua viola e levou-a para tocar em outros planos. Como diria o Rolando Boldrin, partiu antes do combinado.

Violeiro e luthier autodidata, aprendeu a tocar viola como os grandes violeiros: nas rodas de viola e festas populares, como as folias de reis. Interessado não só no ponteado da viola, mas também na construção do instrumento em si, certa vez arrumou um violão para, em seguida, mergulhá-lo na água para que suas peças descolassem e pudesse ele entender como era sua estrutura e montagem. Dedicou-se, então, também ao ofício de luthier, construtor de instrumentos, sempre tocando em violas construídas por ele mesmo. Fez parte por alguns anos da tradicional dupla Cacique e Pajé, na qual registrou alguns discos. Vivendo em um país onde não se dá o devido valor a músicos de estilos fora dos circuitos comerciais, Cachoeira precisou se virar por algum tempo como motorista de ônibus até resolver viver exclusivamente da sua arte.

Violeiro virtuoso e compositor inspirado, registrou seus trabalhos solos já quase aos 60 anos de idade. Seus discos instrumentais “Solos de Viola Caipira”, “Violeiro Bugre” e “Viola Caipira Duas Gerações” (esse em parceria com Ricardo Vignini) são obras de arte e um tributo às possibilidades e sonoridades da viola. Nesses álbuns, Cachoeira mostra não só o domínio do instrumento, mas um estilo de composição único que remete não apenas às sonoridades da música caipira, como também traz temperos mais universais, com referências a outras sonoridades modernas e de fronteiras amplas. Além de instrumentista, era um grande cantor e registrou também trabalhos em dupla com Cuitelinho e, mais recentemente, com Santarém no ótimo “Ponteando Tradições”, sobre o qual escrevi aqui no começo do ano.

Tive a felicidade de conhecer e conviver com o Índio Cachoeira em três oportunidades, em um curso intensivo de viola organizado pelos violeiros Ricardo Vignini e Zé Helder, da dupla Moda de Rock. Cachoeira era sempre uma atração à parte por ser um legítimo violeiro representante da essência da viola caipira e do sertão, buscado pelos violeiros mais experientes pela oportunidade de aprender com um grande mestre. No convívio próximo, é claro que o violeiro me impressionava com seu toque preciso e seu conhecimento enciclopédico da música caipira. Mas o que me marcou foi sua humildade e amor verdadeiro pela viola. Não esqueço quando ele pediu para um violeiro iniciante tocar um pagode de viola, ritmo intricado e cheio de manhas. O violeiro tocou como pôde, mas se desculpou ao final por não ter tocado muito certo. Foi quando o Cachoeira falou: “Você tocou certo sim. Do seu jeito.” Para então se virar para a turma e afirmar categórico: “Quando algum violeiro falar com vocês que tem que tocar assim ou de outro jeito, não dá bola. Cada violeiro tem o seu jeito de tocar. Não existe jeito errado de tocar viola.” É uma lição que sintetiza toda a história da viola caipira, que se espalhou por todo o país e se desenvolveu de forma independente em cada região, com toques e afinações que mudam a cada curva de rio.

Daqueles dias fica também o agradecimento pela paciência do mestre que me ensinou, literalmente, nota por nota, a tocar uma de suas peças instrumentais, “Viola Marruda”. A cada nota errada ou ritmo mal feito, vinha uma palavra de incentivo, como um verdadeiro professor que sempre desafia o aluno, mas o apoia na hora das passagens mais difíceis. Fico feliz por ter tido essa sorte de aprender com um músico desse calibre. E também por tê-lo homenageado ainda em vida em duas oportunidades nessa coluna. Que o mestre siga iluminando todos os violeiros de onde ele estiver.

Um disco improvável

12 de Junho de 2018, por Renato Ruas Pinto 0

O fim da década de 60 foi marcado por um mundo virado de cabeça para baixo em todos os sentidos: política, sociedade e cultura popular. Das agitações políticas da Primavera de Praga e as revoltas em Paris, até a promulgação do infame Ato Institucional número 5 (AI-5) no Brasil, estava em curso uma grande transformação cultural que andava de mãos dadas com a música popular. No cenário do rock, em 1968 ainda soprava forte o vento da psicodelia e da influência do LSD, que impulsionaram o lançamento, naquele ano, de discos como o ótimo “Beggar’s Banquet”, dos Rolling Stones, ou o “Electric Ladyland”, de um endiabrado Jimi Hendrix. No Brasil, o disco “Caetano Veloso” trazia a novidade do tropicalismo e “Canto Geral”, de Geraldo Vandré, subia o tom contra a ditadura. No meio disso tudo, um disco teoricamente bem comportado, mas gravado em um lugar inusitado, faria sucesso e traria de volta aos holofotes um dos pais do rock e que andava meio esquecido: Johnny Cash e o histórico álbum gravado ao vivo em uma penitenciária de segurança máxima, o “Live at Folsom Prison”, que completa cinquenta anos.

Para entender por que Johnny Cash escolheu uma prisão como local para gravar um disco, é preciso lembrar que um dos primeiros sucessos de Cash foi a canção “Folsom Prison Blues”, lançada em 1955 pela gravadora Sun Records, o berço do rock que revelou também Carl Perkins, Elvis Presley e Jerry Lee Lewis. Tocado por um filme que se passava na prisão, uma das mais antigas dos EUA, Cash escreveu a canção em que um prisioneiro se lamenta por seus crimes e que sabe que não vai deixar a cadeia. A música rendeu a Cash cartas de presidiários que pediam shows em suas prisões. Cash aceitou o desafio e tocou em várias prisões em solidariedade aos condenados. Cabe aqui um parêntese para citar que Cash sempre foi um militante em causas ligadas à reforma do sistema prisional, defesa de minorias, como os indígenas, e contra as drogas e a pobreza.

Antes da gravação, Johnny Cash passava por um momento ruim da carreira. Andava longe das paradas de sucesso e sofreu com o vício em anfetaminas e outras drogas. Após controlar a dependência, ele estava disposto a levantar sua carreira e propôs a ideia do disco. A penitenciária Folsom topou. Cash se preparou arduamente, juntamente com sua esposa June Carter e o companheiro dos tempos da Sun, Carl Perkins, autor de “Blue Suede Shoes”, famosa na voz de Elvis. Também fizeram parte da empreitada o quarteto vocal The Statler Brothers. Os artistas fizeram duas apresentações seguidas para garantirem uma boa captação e gravação do repertório.

A audição do disco revela um Johnny Cash em boa forma, com sua tradicional voz de registro mais grave e presença discreta no palco. Uma de suas marcas registradas era a breve apresentação “olá, eu sou Johnny Cash”, já seguida de música. Um artista de poucas palavras, mas que ainda assim faz algumas brincadeiras, quando anuncia que o show está sendo gravado e por isso não pode falar palavras como “merda” ou “inferno”, para arrancar gargalhadas de prisioneiros supostamente perigosos. E o disco mostra também o artista versátil que Cash sempre foi, transitando pelo country, rock e rockabilly com desenvoltura. Não é para menos que ele é o único artista indicado para três halls da fama distintos: o do rock, do country e do gospel, outro estilo que ele sempre prezou e registrou em disco.

O disco é um desfile dos seus sucessos, como “Walk The Line”, e, é claro, “Folsom Prison Blues”. O sucesso do álbum fez justiça e trouxe de volta às paradas um dos artistas mais importantes da gênese do rock. Vale conferir também o lançamento especial de 2008, a Legacy Edition, que incluiu números de Carl Perkins, June Carter e dos Statler Brothers, que não foram lançados originalmente. Para quem não conhece a obra de Cash, que não gozou da imensa popularidade do seu colega Elvis, ou quem curte um rock tradicional com fortes pitadas de country, é uma audição obrigatória e prazerosa.

O sertão em Minas

15 de Maio de 2018, por Renato Ruas Pinto 0

No mês de abril, esta coluna completou quatro anos e sou só agradecimentos ao Jornal das Lajes pela oportunidade para falar da arte que embala a vida de tanta gente. E aproveito para também parabenizar o jornal pelos incansáveis 15 anos trazendo notícias e cultura para Resende Costa e o Campo das Vertentes. Falando nas Vertentes, o tema dessa coluna é justamente uma filha especial da região, da cidade de Oliveira, e uma das maiores cantoras da música brasileira: Titane e o seu magnífico disco com músicas de Elomar: “Titane Canta Elomar - Na Estrada das Areias de Ouro”, lançado em março.

Sou fã de Titane de longa data e, não por acaso, ela foi tema do meu segundo texto nesse espaço. Dona de uma voz poderosa, Titane se vale de uma técnica apurada e de interpretações irretocáveis nas quais se entrega de corpo e alma, brindando-nos sempre com apresentações emocionantes. Além do trabalho como cantora, há que se destacar o esforço de Titane na divulgação e preservação de manifestações populares, como o congado, conforme ela mostrou no seu projeto cultural que culminou com o DVD “Titane e o Campo das Vertentes”. Titane conhece de perto e carrega na voz o sertão mineiro e, no seu disco “Inseto Raro”, de 1996, fez questão de frisar que os seus verdadeiros professores foram os artistas do Vale do Jequitinhonha. E talvez por assim carregar essa tradição, a aproximação de Titane com o repertório de Elomar tenha sido tão natural.

O grande compositor baiano Elomar, hoje com 80 anos, se notabilizou por um repertório que remete à vida do sertanejo, ora sofrida, ora cheia das riquezas que a natureza e a simplicidade proporcionam, emolduradas por harmonias saídas de canções de menestréis medievais e acompanhadas pelo seu complexo violão, sempre rico de contracantos impressionantes. Influenciado desde novo pela música regional, Elomar preservou essa sonoridade em sua obra, seja em suas canções ou nos seus trabalhos sinfônicos. Hoje vive quase recluso em suas fazendas na Bahia e pouco aparece para shows. Não é muito fã de terceiros cantando sua obra, de modo que a aprovação do trabalho de Titane, com o qual contribuiu com sugestões no repertório, é sinal de que a sinceridade na interpretação da cantora deve ter sido decisiva para receber seu apoio.

Para gravar o disco, Titane reuniu um time afiadíssimo. Sob a direção musical do talentoso Kristoff Silva, um dos expoentes da geração de BH marcada pelo movimento do Reciclo Geral, a base do disco se apoia no violão virtuoso de Hudson Lacerda, que tem competência para reproduzir o violão de Elomar, mas com personalidade de sobra para não soar como um pastiche. Na obra de Elomar, talvez mais importante que a harmonia são os contracantos e a segunda voz feita pelo violão e, nesse disco, o casamento com a voz de Titane foi perfeito. Para um disco soar bem com um instrumental econômico, só mesmo reunindo músicos de calibre: Aloízio Horta no baixo, André Siqueira na viola e no exótico bouzouki, instrumento de cordas parente do alaúde, e o virtuoso Toninho Ferragutti, possivelmente um dos acordeonistas mais concorridos da MPB. Por fim, o disco conta com a participação mais do que especial de Pereira da Viola na faixa “Chula no terreiro”. Se Titane tem o sertão na voz, Pereira da Viola é o sertão. Sua participação foi magnífica e a faixa em parceria com Titane entra para a lista das interpretações antológicas, de arrepiar os cabelos de bonita.

Ao fim, o resultado não poderia ser diferente: um disco de primeiríssima linha e que precisa ser ouvido com muitíssimo cuidado e atenção a fim de que se possa apreciar as belas interpretações de Titane e o domínio absoluto que ela tem da própria voz, além de um acompanhamento irretocável e que complementa a cantora perfeitamente. Por fim, o disco ainda conta com um trabalho gráfico muito bonito assinado por Marcelo Lelis e Leonora Weissmann. A obra de Elomar é incrível e ganhou uma interpretação à altura. E a boa notícia é que já está disponível nas plataformas de streaming.

A psicodelia no Brasil

13 de Marco de 2018, por Renato Ruas Pinto 0

A música brasileira vai ganhando pouco a pouco livros dedicados à sua história. De biografias de grandes artistas, como Elis Regina ou Tim Maia, a volumes dedicados a estilos específicos como o recém-lançado sobre samba-canção, de Zuza Homem de Mello. Porém, sempre senti falta de mais livros sobre o rock em nossa terra. O rock no Brasil tem uma história complicada e é comum, ao se falar do estilo, ouvir só referências à Jovem Guarda, Mutantes, Raul e Rita Lee ou o movimento dos anos 80. Assim, é muito gratificante ver um projeto de grande envergadura levado a cabo pelo jornalista, pesquisador e colecionador Bento Araújo em seu livro “Lindo Sonho Delirante – 100 discos psicodélicos do Brasil” (PoeiraPress, 2016), que vem justamente mostrar que outras águas passaram entre a Jovem Guarda e a volta ao básico do Punk e New Wave dos anos 80.

O rock desembarcou no Brasil com a turma dos anos 50: Elvis, Little Richard e outros. No começo dos anos 60 vieram os Beatles e Rolling Stones. Bastante influenciados por esses últimos, surgiu a Jovem Guarda, encabeçada por Roberto e Erasmo Carlos e Wanderléa. O fato é que o rock passou, no resto do mundo, por uma evolução gradual e acelerada. Saiu da inocência e rebeldia juvenil dos anos 50 e começo dos 60 para um estilo engajado e denso por conta de trabalhos de artistas como os Bob Dylan, Beatles ou Grateful Dead. No Brasil eu considero que não houve essa evolução gradual. Ao contrário, Os Mutantes levaram o rock brasileiro a dar um grande salto rumo à psicodelia e produções elaboradas com o apoio dos tropicalistas Caetano e Gil e dos maestros Rogério Duprat e Júlio Medaglia. Era o fim da inocência do rock em terras brasileiras.

E os ventos vindo do norte não refrescaram somente a música dos Mutantes, mas também a de diversos artistas e é isso que mostra Bento Araújo em seu livro. Ele é um grande pesquisador, colecionador e editou por muitos anos a excelente revista PoeiraZine, dedicada à música, e, infelizmente, já fora de circulação. Hoje ele edita o ótimo PoeiraCast, um podcast dedicado ao rock e que mantém a pegada da revista em termos de profundidade. E quando Araújo anunciou a nova empreitada, um livro dedicado à música psicodélica no Brasil, a ser lançado na base do financiamento coletivo, não hesitei e contribuí na pré-venda.  E fiquei muito feliz com o resultado final. Um material de primeira qualidade em todos aspectos, da parte gráfica à pesquisa primorosa, marca do trabalho de Araújo. O livro disseca 100 discos nacionais que sofreram forte influência do rock psicodélico, ainda que nem todos possam ser classificados como álbuns de rock.

Como toda lista, sempre vai ter questionamento sobre as escolhas e ausências. Porém, ainda assim é uma fonte incrível para se debruçar e fazer descobertas surpreendentes. A começar da escolha do título do livro, “Lindo Sonho Delirante”, título de um álbum do cantor Fábio, que foi parceiro de Tim Maia, e que é uma referência nada indireta ao LSD. Outras surpresas estão no livro, como o ótimo trabalho psicodélico de Ronnie Von, comumente associado à música romântica. O livro escolheu um formato consagrado naquela série “1001 [discos/livros] para você [ouvir/ler] antes de morrer”, com uma bela foto do disco em uma página e uma lista de músicas e análise na página adjacente. Sobre as fotos, o trabalho só foi possível devido à colaboração de colecionadores que disponibilizaram discos raros para o registro. Pela raridade de muitas obras, é até difícil encontrar alguns álbuns. O YouTube, porém, tem sido de grande ajuda, pois sempre tem um apaixonado disposto a compartilhar.

Fico na torcida para que esse trabalho sirva de ponto de partida para outras pesquisas e para trazer mais conteúdo sobre o que aconteceu aqui entre os anos 60 e 80. E recomendo para quem gosta mesmo de rock conhecer o trabalho do Bento Araújo no site www.poeirazine.com.br, onde rolam sempre verdadeiras aulas sobre o estilo.

Viola para todos os gostos

16 de Fevereiro de 2018, por Renato Ruas Pinto 0

Fevereiro é quando descobrimos qual é o hit do carnaval que nos vai ser enfiado goela abaixo em doses cavalares. Para quem procura outros sons, vou falar de mais dois bons lançamentos ainda de 2017. Quem me segue sabe o quanto admiro a viola caipira. E motivos não faltam. É um instrumento que tem um timbre único e muitas possibilidades, muito além da música caipira. E para ilustrar essa versatilidade, os dois trabalhos mostram a viola em terrenos distintos: a música caipira tradicional, chamada atualmente de “raiz”, da dupla Índio Cachoeira e Santarém, e o som instrumental de Ricardo Vignini, que coloca a viola e seus ponteados a serviço de estilos como o rock e sonoridades de música celta ou nordestina.

O nome do álbum, “Ponteando Tradições”, de Índio Cachoeira e Santarém, já explica o que vamos ouvir. Música caipira tradicional no melhor estilo de dupla bem entrosada e que desenvolve seus temas apoiados pelos contracantos e solos da viola. Ambos são músicos experientes nesse cenário, já tendo participado de duplas como Cacique e Pajé, no caso de Cachoeira, e com o violeiro Tião do Carro, no caso de Santarém. O repertório é predominantemente autoral e os cantores assinam nove das quinze faixas. As temáticas, por sua vez, remetem aos clássicos de viola: ora a vivência em um idílico ambiente rural, ora o lamento do caipira que foi obrigado a abandonar o campo para sofrer na poluída cidade grande. Não faltam também referências sempre presentes na música caipira como as festas na roça, as populares e as religiosas como a folia de reis e a dança de São Gonçalo.

E há também uma peça instrumental, “Lamento Latino”, de Índio Cachoeira. Sou grande admirador do seu trabalho e do seu virtuosismo como instrumentista. Autodidata e luthier que fabrica os próprios instrumentos, Cachoeira carrega toda uma tradição de grandes violeiros e é dono de uma técnica singular e impecável. Recomendo muito ouvir seus dois discos de solos de viola caipira. Enfim, “Ponteando Tradições” é um disco que precisa ser ouvido por quem gosta da música caipira tradicional e por violeiros que querem estudar os ritmos como o pagode de viola, cururu e as modas.

Ricardo Vignini tem uma história bem diferente. É um roqueiro de origem, mas que em determinado momento encontrou e abraçou a viola. Aí fica a dúvida se ele trouxe a viola para o rock ou o rock para a viola. Ele vem fazendo há um bom tempo com o violeiro Zé Helder a dupla Moda de Rock, onde interpretam clássicos do rock com duas violas caipiras e sobre o qual já escrevi. É um autêntico trabalho de fusão de estilos por valorizar nos arranjos os ritmos típicos de viola. Em seu último trabalho, o disco “Rebento”, ele mostra o devido respeito à linguagem caipira, mas sem se prender a estilos e sempre deixando claro a sua veia roqueira. Seja em músicas onde o rock seja a tônica, como em “Beijando o Céu”, onde faz uma homenagem nada disfarçada a Jimi Hendrix, ou nos seus solos e ponteios em músicas que remetem à música caipira como “O Bonde dos Fontes”.

O disco conta com participações especiais que deram um colorido muito legal, como a gaita de Sérgio Duarte e a percussão do veteraníssimo Marcos Suzano, ambas na faixa “Pé Vermelho”, além da criativa percussão de André Rass, parceiro de Vignini em seu outro projeto, a banda “Matuto Moderno”. Merece nota também o belíssimo piano de Ari Borger em “Ventos de Novembro”, mostrando que a viola conversa bem com outros instrumentos harmônicos. Vignini com seu disco confirma que a viola caipira não só está passando por um renascimento e um crescimento sem precedentes, mas também que sua sonoridade permite navegar em mares que passam longe da música caipira, sem limite de rótulos ou ortodoxias de estilos.

E assim a viola segue expandindo limites e nos encantando com sua sonoridade. Seja no trabalho tradicional de Índio Cachoeira e Santarém, ou na renovação promovida por Ricardo Vignini, a certeza é que esse instrumento vai continuar nos surpreendendo.