Trilha sonora

Discos da pandemia

20 de Novembro de 2021, por Renato Ruas Pinto 0

Os artistas estiveram entre os mais afetados por essa terrível pandemia cuja força vai diminuindo, mas que ainda inspira cuidados. Com os palcos fechados por um longo período, toda a classe artística e profissionais de suporte – iluminadores, técnicos de som e outros - perderam, da noite para o dia, sua fonte de renda. Também ficaram expostos os problemas inerentesao streaming, cuja remuneração dada ao artista beira o ridículo.

Ainda assim, muitos músicos deram uma contribuição inestimável e nos ajudaram a suportar essesdias. “Música e vinho alegram o coração”, já dizia o Eclesiastes. E na pandemia pudemos ter algum conforto não só em apresentações via internet, mas também em discos. Apesar das dificuldades, não foram poucos os bons trabalhos e pretendo comentar alguns. Vamos, então, aos dois primeiros discos.

 

“A desordem dos templários”, Guilherme Arantes – Guilherme Arantes foi uma verdadeira usina de produção de grandes sucessos nos anos 80, ao lado de artistas como Lulu Santos e Renato Russo. Quem é da minha geração se lembra da presença constante do artista em programas de TV como o “Cassino do Chacrinha” com hits como “Cheia de Charme”, “Deixa chover” e a canção que o revelou, “Planeta água”. O que poucas pessoas sabem é que, por trás do artista capaz de compor sucessos populares, há um músico virtuoso e influenciado pelo intrincado rock progressivo.

Fã declarado de tecladistas como Rick Wakeman, ele começou sua carreira com o Moto Perpétuo, grupo de rock progressivo bastante ortodoxo. Com este novo álbum, Guilherme Arantes volta às origens com uma pegada bastante progressiva e de arranjos elaborados, mas sem perder de vista o seu talento parafazer canções com melodias que saímos cantando depois da primeira audição. Gravado praticamente sozinho com suporte de teclados e tecnologias digitais, o álbum consegue soar quente e é preciso dar a Guilherme todos os créditos pelos arranjos e composições de alta qualidade. O trabalho, que reúne influências diversas de estilos brasileiros e do rock, é uma ótima audição para fugir de fórmulas tradicionais.

 

“Aldir Blanc inédito”, vários artistas – Aldir Blanc é uma unanimidade ao se compilar qualquer lista dos maiores letristas da música brasileira. O poeta e escritor deixou sua marca em letras que se tornaram praticamente hinos como “O bêbado e o equilibrista” ou “O mestre-sala dos mares”, ambas compostas em uma das parcerias mais prolíficas da música mundial, com João Bosco. A perda recente do compositor, infelizmente, é ilustrativa das mazelas que afligem a vida de artistas. Nos modelos atuais de remuneração de compositores – com pagamentos pífios em plataformas de streaming – a sobrevivência digna destes artistas vai se tornando cada vez mais difícil, como se mostrou nos últimos dias de vida de Aldir.

Passando por dificuldades financeiras, o artista dependeu de ajuda de amigos e fãs para se tratar de complicações de saúde sofridas durante a pandemia. Acabou por contrair COVID e se tornou uma de suas vítimas mais conhecidas. Após sua partida, sua viúva Mary Lúcia de Sá Freire reuniu escritos inéditos e composições que ainda não haviam ganhado registro em discos para uma homenagem ao poeta. Seus parceiros de longa data e artistas de peso prontamente toparam o projeto, capitaneado pelo selo Biscoito Fino. Parceiros como João Bosco, Guinga, Joyce e Cristovão Bastos não poderiam faltar no disco, que teve a produção assinada por Jorge Helder e ainda contou com grandes intérpretes como Maria Betânia, Chico Buarque e Dori Caymmi, entre outros. Com tanto talento reunido, o resultado não poderia ser menos que excelente.

Ambos discos são audições mais que recomendadas. Além disso, são um instantâneo importante desses dias terríveis de pandemia. O de Guilherme Arantes, produzido sozinho em casa, é o retrato do isolamento ao qual muitos de nós fomos submetidos. Já o de Aldir ilustra, de forma triste, as dificuldades inerentes à vida de artistas. E também dá um rosto conhecido para representar as milhares de vítimas de uma pandemia que escancarou a cara nefasta da desigualdade social e a incompetência e má fé de um governo que ignorou a vida de muitos.

Notáveis cinquentões

19 de Agosto de 2021, por Renato Ruas Pinto 0

O mundo estava em efervescência nos anos entre 1967 e 1974. Colônias e países subjugados se levantavam contra seus senhores, a guerra do Vietnã estava à toda e mudanças de costumes sacudiam a juventude. Em outras palavras, o mundo incendiou-se literal e figurativamente. As artes sempre andam sintonizadas com seu tempo e costumam ser uma válvula de escape para as pressões acumuladas. Assim, foi natural que a produção de música popular andasse igualmente inflamada, refletindo toda a agitação em curso. O resultado foi uma quantidade de discos incríveis produzidos e que ainda hoje influenciam e são objetos de discussões e estudos.

O tempo passa, mas as obras ficaram registradas nos fonogramas e em mídias que evoluíram. Nos últimos anos, temos visto uma série de grandes álbuns completando cinquenta anos e rendendo desde matérias a relançamentos ou edições luxuosas para celebrar sua importância. O ano de 1971 também registrou grandes lançamentos e vale a pena lembrar e ouvir alguns desses notáveis cinquentões.

Construção – Chico Buarque: o álbum marca o retorno de Chico Buarque do exílio e é um disco de canções de alto teor crítico, reflexo de um dos períodos mais terríveis da ditadura militar, que estava sob o comando do general Médici. Com grandes músicas, como “Construção”, “Cotidiano” e “Valsinha”, é um disco que seguramente entra na lista dos álbuns mais marcantes de um dos maiores compositores da nossa música popular.

Imagine – John Lennon: se o disco tivesse só a faixa título, já seria elogiado. Mas conta com outras ótimas músicas que mostram um lado intimista de John Lennon em canções quase confessionais. Para os fãs dos Beatles e de Lennon, o aniversário rendeu uma edição comemorativa de luxo com músicas extras e gravações alternativas. A caixa é um bocado cara, mas os extras podem ser ouvidos nas plataformas de streaming.

Blue – Joni Mitchell: Joni Mitchell combina uma voz incrível com um talento único como compositora. Autora de melodias belíssimas e letras com conteúdo, ela teve suas músicas gravadas por outros artistas da cena folk antes mesmo de lançar seus álbuns. O disco é totalmente autoral e, seguindo a tradição folk, é predominantemente acústico e com bases elegantes. A voz incrível de Joni é um bálsamo para a alma.

Tim Maia – Tim Maia: após o grande sucesso da sua estreia no ano anterior, Tim conseguiu engatar uma boa sequência em um trabalho mais autoral do que o primeiro. O disco reúne algumas músicas que se tornaram sucessos do artista, como: “Não quero dinheiro” e “Você”. Tim Maia seguiu com sua fusão de ritmos brasileiros ao soul norte-americano e consolidou a reputação de revelação.

Led Zeppelin IV – Led Zeppelin: o grupo de rock inglês já havia se firmado como uma das grandes bandas de rock dos anos 70, quando lançou o seu quarto disco. O amadurecimento da banda pode ser visto em um disco que mostra sua evolução, mas sem perder a pegada e suas bases pesadas. Recheado de grandes músicas, como “Stairway to heaven”, “Black dog” e “Going to California”, foi sucesso imediato de público e crítica.

Pearl – Janis Joplin: a intensa vida de Janis foi interrompida precocemente aos 27 anos e apenas a poucos meses do lançamento deste álbum. Após alguns anos como parte da fraca “Big Brother and the Holding Company”, Janis finalmente conseguiu um contrato para se lançar como estrela principal e recebeu da gravadora Columbia uma produção que merecia. “Pearl” foi seu segundo disco solo e Janis mostra toda a potência que lhe rendeu fama nos anos anteriores.

“Gilberto Gil” – Gilberto Gil e “Caetano Veloso” – Caetano Veloso: registrei os dois discos juntos por conta de seus paralelos. Os álbuns foram gravados no exílio na Inglaterra e contêm várias semelhanças. Nos dois, o tom é melancólico por conta das dores do exílio e a produção é bem simples. Enfim, os discos ilustram bem o espírito pesado daquele tempo por conta dos coturnos que esmagavam um país inteiro.

A lista não para aqui, já que o ano de 1971 registrou outros grandes álbuns. Porém, fica aí a dica de audições preciosas de obras que resistiram ao teste do tempo, mas ainda assim servem como instantâneos de tempos agitados.

Para curtir e conhecer melhor Elvis Presley

20 de Julho de 2021, por Renato Ruas Pinto 0

Para complementar a coluna do mês, a minha sugestão é uma sequência de vídeos muito legais disponíveis no YouTube. Em 1968, Elvis se encontrava há anos longe do palco, dedicando-se ao cinema. Um canal de televisão organizou um especial onde ele pôde mostrar que continuava afiado. Em outras palavras, foi uma espécie de retorno triunfal à música. A parte mais legal do show é quando ele faz uma roda de improviso com a banda que o acompanhava no começo da carreira. Este momento do show mostra a energia incrível do rock nos seus primórdios. Repare que Elvis entra no espírito do momento e custa a se segurar sentado.

https://youtube.com/playlist?list=PL7uMBlhHG8iEKzXhomLvJRBKTICWH_XCQ

Para quem quer ouvir as músicas mais emblemáticas de Elvis, a coletânea “Elvis 30 #1 Hits” (fácil de achar em qualquer plataforma de música), consegue cobrir toda sua carreira de forma muito didática. Diversão pura para animar o corpo e o espírito.

https://deezer.page.link/h98awP1SdXN4jQK17

Novas percepções sobre Elvis

17 de Julho de 2021, por Renato Ruas Pinto 0

Uma das coisas boas que os novos serviços de vídeo nos trouxeram foi o acesso a incontáveis documentários. E, dentro desse universo, há diversos documentários sobre música e que sempre trazem novidades. Em um dos últimos que assisti encontrei ótimas histórias, depoimentos e análises que me trouxeram mais luz sobre um dos maiores ídolos do rock, o inigualável Elvis Presley. O documentário “Elvis – o rei do rock” (tradução ruim do original “Elvis – the searcher”, que seria algo como “Elvis – o que buscava respostas” em uma tradução livre) está disponível na Netflix e conseguiu trazer informações interessantes e depoimentos de peso que ajudam a entender o impacto causado por Elvis e um pouco de sua personalidade.

O documentário é todo baseado em imagens do artista e os áudios dos depoimentos e trechos de entrevistas são colocados por cima das imagens. Um dos méritos é conseguir criar uma narração muito legal, mesmo com “retalhos” de vozes diversas, inclusive a do próprio Elvis. Entre os “narradores”, além de Elvis, há pessoas do seu círculo íntimo como sua esposa Priscilla, amigos próximos e o seu polêmico empresário, o “Coronel” Tom Parker. Há também boas intervenções de escritores, pesquisadores, instrumentistas que acompanharam Elvis e dos músicos Tom Petty e Bruce Springsteen. A história é contada em dois episódios de um pouco mais de uma hora e meia cada.

O filme segue a cronologia da vida do biografado. Já na sua infância, é ressaltada a sua atração não só pela música de um modo geral, mas também pela música negra. De acordo com o filme, ainda criança, Elvis entrava escondido nas igrejas de negros para acompanhar seus corais e conjuntos. Pode parecer algo trivial, mas é preciso entender o contexto. Elvis nasceu em uma pequena cidade no interior do Mississipi em 1935. Um estado racista onde não só os direitos eram negados aos negros, mas também em tempos em que a Ku Klux Klan os enforcava e queimava por conta da cor de sua pele. Mais tarde, adolescente, Elvis se muda para Memphis, um centro tradicional de música negra como o jazz e o blues. Colegas de escola apontam que o viam como um menino estranho por frequentar bares de negros para apreciar a música. Isto é essencial para entender a grande revolução que Elvis causou.

Elvis, ao tentar a sorte em uma audição no estúdio da Sun Records, do idealista Sam Phillips, começou mostrando um repertório tradicional de country, outra de suas influências, mas sem empolgar o dono do estúdio. Em uma pausa, Elvis começou um improviso com um clássico de blues, “That’s allright”, com uma batida um pouco diferente e na hora Sam Phillips viu que tinha algo diferente ali. Um artista com uma voz excelente, bonito e ainda por cima trazendo uma fusão de estilos que iria agradar todas as audiências jovens. Com o lançamento dos primeiros compactos, Elvis tem uma ascensão meteórica e toma conta de rádios e lota shows. E revela mais um talento como um verdadeiro dono do palco, que hipnotizava as plateias com sua voz e seu rebolado que chocavam os pais dos fãs. A Sun era uma gravadora pequena e não conseguia fazer uma promoção nacional dos discos. Após um ano, o empresário Tom Parker, que enxergou o potencial do artista, e a gravadora RCA Victor, compram o contrato de Elvis e ele rapidamente se torna um fenômeno nacional.

A partir daí o documentário mostra os diversos e tortuosos caminhos que Elvis seguiu em sua vida pessoal e artística. A convocação pelo exército no auge da fama, seguida de dois anos servindo na Alemanha, o retorno ao mundo da música e, depois, um período longo como ator de cinema e longe dos palcos. Elvis então retorna para a música e para seu habitat natural, o palco. Nos seus últimos anos, entra em um ritmo alucinante de shows, com mais de uma centena de apresentações de grande porte por ano. Para se aguentar de pé ou para conseguir dormir, se entupia de drogas lícitas e ilícitas. O preço maior foi cobrado e ele nos deixou com apenas quarenta e dois anos.

Foi uma vida breve, mas que deixou marcas na música e na sociedade. Elvis abriu não só o caminho para o rock, mas para aquilo que viria a ser chamado de música pop. Além da sua contribuição musical, também ajudou a estabelecer padrões que redefiniriam a juventude em vários aspectos, com impactos no comportamento e em hábitos de consumo. Enfim, Elvis é mais um artista com status de lenda e sobre o qual ainda se falará e se ouvirá muito.

Bob Dylan: uma playlist para conhecer o artista

17 de Junho de 2021, por Renato Ruas Pinto 0

Para complementar a última coluna “Trilha Sonora”, preparei uma playlist com clássicos do Bob Dylan. Para quem já é fã, é para se divertir. Para quem conhece pouco mais do que “Blowin’ in the wind” ou “Mr. tambourine man”, é a chance de sentir o peso das canções do bardo. Divirta-se.

b.link/playlist-bobdylan