Retalhos Literários

O nosso jardim de Cecília (canto a quatro vozes)

19 de Setembro de 2018, por Evaldo Balbino 0

O principal de tudo era o sapo jardineiro. Chapéu e calça azuis, uma camisa vermelha com esmaecidos laivos de branco. O chapéu era meio mexicano, para proteger do sol: rebaixado na cabeça e de abas razoavelmente largas. As cabeças dos sapos já são mesmo achatadas. Talvez fosse por isso que o chapéu era assim. E o sapo de que falo era verde. Nunca vi de verdade nenhum dessa cor. Os sapos da minha vida sempre foram de um tom mais sério, fechado. Me apaixonei pelo sapo que, sei muito bem, nunca viraria príncipe. Nem precisava virar.

As flores eram várias e muitas. De cores que eu nunca imaginara habitassem em flores. Rosas, vermelhas, azuis, amarelas, verdes, anis, violetas, laranjas e outros tons mais que já se misturaram nas memórias dos meus olhos. Brotavam do chão como brotam desejos de vida, anseios por alegria e eternidade. As florezinhas e suas folhas enfeitavam a terra e o gramado do jardim.

As borboletas também eram multicores: leves sobre o jardim, levitando entre lavadeiras e passarinhos. Se não fosse o apelo visual aos meus sentidos, eu imaginaria mulheres lavando roupas num riacho, bem no debaixo de pássaros folgazões. Mas meus dedos tocavam o livro, meu corpo sentia seu cheiro, meus olhos beijavam sua página colorida. E o que eu via eram insetinhos alados sobrevoando como helicópteros vivos as águas de uma fonte azul e branca.Com seus dois pares de asas transparentes, com seu corpocompridinho e cheio de anéis, cada uma das lavadeiras dava voltas pelo jardim e retornava sempre em voos rasantes para a fonte fresca e convidativa.

Eos ovos verdes e azuis nos ninhos? Onde estavam? Lá jaziam, porém num só ninho, bem em cima do braço da estátua de primavera, uma menina linda, fantasmal, com cabelos longos e face branda. Toda ela de pedra, talvez, mas parecendo macia na sua alvura quase transparente. Sobre a sua cabeça, um pássaro descansando de voar. Em cada orelha uma flor, possivelmente furtadas por ela mesma do jardim. Ou então não tenha sido roubo, e sim oferta amável do sapo jardineiro e dócil. A menina de pedra segurava um balde também pétreo, do qual jorrava a fontede água azul e branca.

Vagando sobrea mureta da fonte, o caracol namorava a queda d’água. Tomava sol úmido, esperando pelo arco-íris que ainda não aparecera. O raio de sol já atravessava as águas, só que o arco-celeste trazia ares tímidos, hesitando em mostrar-se ao caramujo exibido e celestroso. As antenas da lesminha estavam ligadas, voltadas para o ar líquido e levemente rumoroso à beira da fonte, esperando por mais vida onde a vida já era muita.

O lagarto, também verde, andava entre o muro e a hera. Do mesmo modo nunca vi, de verdade, lagartos verdes. Nunca fui apresentado a nenhum de carne e osso. Porque os répteis são vertebrados, aprendi isso desde cedo. E o verde lagarto, embrenhando-se pela trepadeira, sentia cada tijolo frio do muro, que era coberto de musgo num setembro que ia entrando. E ali o bichinho se misturava ao verde da planta.

O formigueiro, bem perto de tudo, era cerro alto galgado por formigas incansáveis. Em fila indiana, subiam e desciam as obreiras. Perto do sapo e do formigueiro, um grilinho dentro do chão, vindo de um buraquinho da terra e espreguiçando-se do sono tranquilo que tivera lá no escuro da toca. Era um grilinho preguiçoso, se podia ver.

Sentada no muro da fonte, ao lado da estátua de primavera, a cigarra tinha as pernas cruzadas onde apoiava seu violão. Ela e o instrumento eram uma coisa só, pura música e cor e vida. De olhos fechados, ela parecia sonhar com o que cantava. Sua bocafundava mundos, ditava o compasso da existência. O sapo, as flores, as borboletas, as lavadeiras, os passarinhos, os ovos verdes e azuis nos ninhos, a estátua de primavera, o caracol, o raio de sol, o lagarto entre o muro e a hera, o formigueiro, o grilinho e a cigarra cantando eternamente. Tudo isso era fruto do canto da cigarra.

E a cigarra verdadeira, voz humana poetizada, era Cecília Meireles no seu canto. A poeta leiloava com palavras um jardim e as belezas dele. E assim ela me vendeu a beleza para a vida inteira. Não somente ela, mas também Maria Ângela Haddad Villas e Roberto Caldas, os ilustradores que tornaram mais pictural ainda o poema da autora que me enfeitou a infância.

Voltando sempre para casa

15 de Agosto de 2018, por Evaldo Balbino 1

O dia amanheceu alegre, a luz entrando pelos poros da existência. Porém eu estava pesado, ansioso, e principalmente com medo. Já tinha conhecido Belo Horizonte havia quase três meses. Fora em dezembro de 1994 a minha ida para a capital, o enfrentamento no vestibular da UFMG, eu pela primeira vez numa cidade grande. As ruas movimentadas, os carros, o barulho, a multidão solitária. Voltara lá em janeiro de 1995 para fazer a segunda etapa do concurso. Viera ao fim a desejada aprovação. Março desse mesmo ano já se aproximava e a necessidade de ir embora me atravessava com urgência. As aulas da faculdade começariam logo. Um teto a ser arranjado, um emprego a ser procurado e uma adaptação a uma nova vida completamente diferente para garoto de 18 anos que mal conhecia São João del-Rei e só.

O dia amanheceu, pois. Tomei com meu pai um café, muito amargo pela primeira vez na minha vida. O pai, sempre amoroso mas durão, agora com os olhos úmidos, a voz embargada e surda. Minha mãe continuou em sua cama. Sempre levantava antes de mim, mas daquela vez ficou deitada evitando despedidas. Fui ao quarto abraçá-la. No berço ao lado, minha maninha com seus 05 anos. Dormia profundamente o anjo, pois ainda não entendia de partidas. Mamãe chorava, soluçava baixinho, os olhos vermelhos. Abracei-a sem deixar que se levantasse.

Depois, pegar o ônibus da Viação Sandra (que passava do lado de fora da nossa casa, pois ainda não tínhamos rodoviária), sentar-me no banco, abrir a janela para a rua em que fui criado, tentar me acalmar – tudo isso foi tarefa difícil, novo caminho pela frente. Uma vida inteira, não abandonada, mas ficando para trás do veículo, servindo de alicerce aos dias vindouros. A base da construção de memórias.

Essa foi a manhã do dia em que saí de casa. E tempos depois, visitou várias vezes a minha mente a canção No dia em que eu saí de casa, do gaúcho Joel Marques, um dos grandes compositores da música brasileira e merecedor de aplausos por fazer poesia com as coisas comuns da vida. E as palavras da mãe ao filho reboando nos meus pensamentos: “Por onde você for eu sigo / Com meu pensamento sempre onde estiver / Em minhas orações eu vou pedir a Deus / Que ilumine os passos seus”.

E depois, do mesmo modo, na cidade grande o sentimento de saudade em mim ressuscitando várias vezes, aquele do qual nos fala Dorival Caymmi em sua também bela canção: “Ai, ai, que saudade eu tenho da Bahia / Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia / ‘Bem, não vá deixar a sua mãe aflita / A gente faz o que o coração dita / Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão’”.

De maldade e de ilusão o mundo se faz, é fato. Mas também de belezuras, de braços e mãos que se estendem e nos ajudam, de bocas (como a de minha mãe) que oram por nós todo santo dia. E como desconhecer o poder de uma oração? O poder de palavras em sintonia com as forças boas do universo, com as forças de Deus? Com tanta fé e bons desejos direcionados a nós, não há como nos perdermos de todo no vasto mundo.

Porque o mundo é mesmo vasto, infinito em sua finitude. Muitos já disseram isso, inclusive, aqui em Minas, o nosso Carlos Drummond de Andrade. E nossas mães ficam aflitas, sim, quando percebem que seus filhos partem para um mundo pleno de maldade e ilusão. E elas oram, rezam, distantes dos seus filhos e filhas, pedindo a Deus ou a algum santo uma ajuda do alto, rogando-lhes que os seus rebentos vivam debaixo da misericórdia celeste. As mães – e também os pais – sofrem. Oram e sofrem. Sofrem por não terem a plena certeza de que serão mesmo ouvidos.

A fé é esse sentimento penoso, porque posto à prova constantemente. Mas é nesse fundamento que nos assentamos, é dele que precisamos, é a partir dele que construímos esta ampla e linda casa que é a nossa vida. Pela fé todos vencem, apesar das coisas ásperas da existência. Vencemos em nossa história, que é tão boa e tão agressiva ao mesmo tempo.

E foi nos braços agressivos e bons da vida que peguei naquele dia a estrada entre as montanhas de Minas. Fui embora da casa de meus pais, dando voltas, perfazendo sinuosidades, mas nunca saindo de lá. Nos volteios inevitáveis, a gente vai indo e vindo, e sempre voltando para casa.

Dona Eliana

18 de Julho de 2018, por Evaldo Balbino 0

Agora a coisa parecia mais ajuizada. Víamos a 3ª série como o início de um caminho cujo cimo se daria no final da 4ª. Em menos de dois anos e os aprovados adentraríamos a 5ª. Na nossa cabeça, a época da alfabetização tinha ficado para trás. Talvez essa sensação fosse só minha, eu não sei, e o que sempre fiz, tanto lá quanto agora, é achar que todos a tínhamos.

Ir para o ginásio era novidade lá em casa. Ninguém dos meus tinha continuado os estudos para além dos primeiros quatro anos de escolarização. E isso só aumentava ainda mais o meu compromisso de construir adiante uma trilha que os meus não tinham edificado.

A seriedade aumentou ainda mais para nós logo no início da 3ª série, a partir do momento em que ninguém ousou chamar a nossa nova professora de tia. Era “dona Eliana” e ponto final. E foi ela que lecionou para nós durante os dois anos, 1986 e 1987, ou seja, 3ª e 4ª séries.

Quase sempre de calças compridas e cabelos loiros partidos ao meio, ela entrava com livros, papéis e o caderno de planejamento de aulas seguro pelo braço direito rente ao peito. Enquanto fazíamos exercícios, suas mãos escondiam-se nos bolsos das calças e seus olhos passeavam junto com o corpo pela turma, ajudando-nos nas atividades, mas também nos coriscando ralhos quando ousávamos fazer baderna.

Ela de fato era muito séria. Mas com que competência dava as aulas! Ensinava as lições e cobrava de todos nós dedicação aos estudos. Nos rastros dessa seriedade, fui emaranhando ainda mais a minha existência a livros e Escola.

Eu gostava muito dos Estudos Sociais. A mestra nos levava pontos sobre história do Brasil, os “vultos” da pátria, e me lembro de ter-me apaixonado com a imagem dum Anchieta escrevendo nas areias da praia.

Nas aulas de Ciências, estudávamos os animais, as plantas, a natureza. Meus olhos brilharam mesmo foi quando colei no caderno aquele desenho do esqueleto humano. Um esqueleto sem sorriso, mas finamente dividido em crânio, escápula, coluna vertebral, braço, antebraço, dedos, fêmur, rótula (na época a patela se chamava assim), tíbia, tarso, metatarso e dedos.

Na Matemática eu ia avançando. Gostava dos conjuntos, da união e do pertencimento. Hachurar os encontros entre conjuntos diversos me dava felicidade, a ideia de ligação entre os mundos. A Álgebra me amedrontava, principalmente quando vinha em fórmulas secas, lacônicas. Já com os problemas que se faziam em palavras para, a partir delas, eu ir compondo as fórmulas, aí sim eu me situava, me sentia em casa. Com as palavras eu me dava bem.

O que dizer, então, das aulas de Português? A conjugação dos verbos, o estudo das classes de palavras e o sabor de juntá-las em grupos, brincar com elas, entendê-las melhor.

Nas aulas de leitura, um paraíso. A Narizinho de Monteiro Lobato, A fada que tinha ideias de Fernanda Lopes de Almeida, a lenda da vitória-régia contada por Henriqueta Lisboa, A ilha perdida de Maria José Dupré, O menino mágico de Raquel de Queiroz, fábulas de Esopo, O papagaio Tubiba de Bárbara Vasconcelos de Carvalho, O Elefante Basílio de Erico Veríssimo, cantigas de roda, o Walmir Ayala com o seu Histórias dos índios do Brasil, A vaca voadora de Edy Lima, Alice no país das maravilhas de Lewis Carroll, os mistérios do fundo do mar com Lúcia Machado de Almeida... E muitos, muitos outros textos fazendo meu mundo expandir-se para horizontes sem fim.

Ainda falando nas leituras, não esqueço a letra do samba “Zelão”, de Sérgio Ricardo. Nesse poema, os versos “Ninguém riu nem brincou / E era Carnaval” me tocaram fundo, já me mostrando naquela época o poder das palavras de um certo modo agrupadas. No fechamento da música, a antítese mostrando a dor de Zelão e de todos os pobres que sempre lutaram nos morros das grandes cidades.

Num mês de junho daqueles dois anos, pois não me lembro se foi na 3ª ou na 4ª série, dona Eliana nos ensinava no quadro a fazer uma redação bem ordenada. Era sobre a Festa Junina que se aproximava. Deu-nos um desenho de uma linda fogueira sob bandeirolas, e ia escrevendo na lousa o passo a passo do texto. Aí ela escreveu “A fogueira crepitava no terreiro.” Aquela frase me agarrou com braços fortes e quentes, me fez colorir o desenho e escrever o texto com muito afeto. Até hoje crepito de amor entre palavras.

Tia Turca

12 de Junho de 2018, por Evaldo Balbino 0

No início de cada aula, na 2ª série da E. E. Assis Resende, copiávamos do quadro a ficha escolar composta pelos nomes do estabelecimento, da diretora, da professora, da série e do aluno. Essa atividade se repetia de segunda a sexta-feira toda semana. Com isso os cadernos ficavam bem arranjados e, diziam, íamos afinando a escrita. O nome da professora não se perdeu da minha memória: Maria Salomão. Mas o que ficou mesmo foi o Tia Turca, pois assim era que a chamávamos.

Abrimos aquele ano letivo de 1985 no prédio que era o Ginásio Nossa Senhora da Penha, pois o Grupo Escolar Assis Resende estava em reforma. Só alguns meses depois é que fomos para o antigo edifício lá no alto da cidade. Antes eu gostava de correr pelos corredores do ginásio, mas meu sonho mesmo eram as tábuas-corridas do Assis Resende. Meus pés concretizaram isso quando professores, alunos, móveis, livros, papéis e tudo o mais fomos transportados para a escola anciã. Chão novo, tintura renovada, jovens bancos e carteiras, uma biblioteca com livros novinhos, janelas de madeira e vidro abertas com ares antigos. E o chão de tábua-corrida, assoalho correndo sobre um porão escuro que se via pelas frestas. E eu vislumbrando meu medo escondido lá embaixo.

Tia Turca se mudou conosco para a velha-nova edificação. Nossa sala de aula ficava do lado de cima do prédio, ladeando com a Santa Casa e com o Necrotério. E na escola vicejavam saúde e vida de meninos cheios de agitação para dar e vender.

A professora era brava, sabia domar a desordem dos educandos com olhos graves e austeros gestos. Mas também alcançava nos amar com sentimentos nobres. Não tinha jeito de não aquietarmos o facho diante dela e do mesmo modo não havia como não gostarmos do seu jeito afável de cobrança. Copiava as lições no quadro e depois ia passando pelas carteiras, tirando dúvidas, apondo outras informações, intervindo nas dificuldades dos nossos passos. Hoje repasso o sério trabalho que ela fez conosco naquele ano. Sei deveras que ela contribuiu com a construção das bases da minha cultura e a de meus colegas.

De vez em quando nos levava para a biblioteca, onde eu me deliciava com os livros de literatura que tinham acabado de chegar à escola. Foi ali, nessa época, que li A arca de Noé, de Vinicius de Moraes. Na capa da edição, uma montanha com a arca no topo e com muitos, muitos animais por todos os lados, nas escarpas descendo, sobre a arca, no ar, alguns até quase indo para além das bordas da portada. Foi também ali que minha gula e minha devoção conheceram O menino poeta de Henriqueta Lisboa e o Erico Veríssimo para crianças: viajei pelas aventuras de Tibicuera, escutei a música na barriga do urso, brinquei com os três porquinhos, conheci a vida do elefante Basílio e, mais que tudo, participei das aventuras do Avião Vermelho.

Certa vez minha mãe não pôde ir à reunião de pais para pegar o boletim com o resultado bimestral. Um boletim num envelope bonito, onde eu havia colado Magali ofertando uma caixa de bombons vazia para sua mãe. Que era dos bombons?! O gato comera, ou melhor, a gulosa Magali os tinha consumido. Mamãe acabou indo dias depois daquela reunião. Quando ela chegou à escola, nossa aula estava acontecendo justamente na biblioteca. Bateu à porta, e tia Turca foi recebê-la. Ambas passaram entre as mesas dispostas irregularmente pela grande sala ao lado das prateleiras, e os olhos de mamãe me procurando entre tantos meninos até me encontrarem, atentos.

As duas pararam rente à mesa próxima ao quadro. Enquanto lhe entregava o documento, a professora foi tecendo elogios ao aluno que eu era e dando-lhe parabéns por educação tão bem cultivada lá no canteiro do berço. Os olhos de minha mãe me olharam, brilhando de alegria e ao mesmo tempo alfinetando amorosamente o meu frágil corpo, porque discordavam até certo ponto do que dizia a mestre naquele momento. Era como se estivesse pensando: “Ah, se a dona Maria comesse um saco de sal junto com esse menino todo dia! Ia ver como ele corta uma bagunça que não tem jeito!”.

Bem convencido, no entanto, eu sabia que minha mãe voltaria orgulhosa para nossa casa. Mesmo pensando assim, ela me esperaria com o boletim alegre em suas mãos.

A biblioteca, a rosa e o povo

15 de Maio de 2018, por Evaldo Balbino 0

Agora em abril comemorou-se em Resende Costa o centenário da Biblioteca Municipal Antônio Gonçalves Pinto. Além de premiações, leituras de poesia, exposição de livros, coquetel, entre outras atividades, o evento contou com a fala da professora Regina Coelho que, citando Mário Quintana, arrazoou sobre as transformações que os livros podem promover nas pessoas.

A nossa biblioteca municipal nasceu em 1918 com a doação do acervo particular de Antônio Gonçalves Pinto. A atitude altruísta do resende-costense fez surgir um espaço que, antes móvel pela cidade, ganhou desde 2008 uma sede definitiva, inaugurada pelo ex-prefeito Gilberto Pinto no Mirante das Lajes de Cima. Nesse espaço alto da cidade, aberto para o horizonte como a dizer mesmo da leitura, o ato de ler nos convida para a expansão vital. Somente quem lê de fato sabe o que são as asas de uma liberdade intelectual e estética que somente os livros podem proporcionar.

Diante das apresentações do ato comemorativo, meus pensamentos foram “voando” para diversas memórias de leitura e de vida. Foram fazendo conexões, links como se diz hoje em dia. Foram se desdobrando em raízes diversas para vários lados, em caules rizomáticos, galhos cruzando-se, folhas e pétalas diversas.

Foi nessa mesma biblioteca, agora uma persona centenária, que eu peguei emprestado A rosa do povo de Carlos Drummond de Andrade. Isso, lá no final do ano de 1994. Esse livro foi muito especial na minha formação de leitor e escritor. Era a primeira edição, datada de 1945, que 49 anos depois de impressa vinha parar nas minhas mãos leitoras. Uma relíquia!

A capa da brochura era um limiar que fazia convites imensos: sobre o fundo de um salmão discreto, palavras negras se destacavam; o nome do autor bailava no topo; abaixo do título, a palavra “poesia” avisava ao leitor sobre o gênero que seria lido; a casa editora José Olympio grafava-se em escrita cursiva na base. Os atrativos desta soleira não paravam aí. No centro da capa, avultava uma flor gigante, crescida até as alturas, medrada do chão difícil da vida desse homo sapiens, politicus e socialis. Na base da rosa, pessoas de cabeças erguidas, num clamor reunido em comuna, olhares levantados para a vida vegetal e obstinada. O título da obra, cursivo, destacava-se em vermelho sobre a cor salmão: o sangue escorrendo, o grito rubro do povo.

Foi para o vestibular que visitei o Drummond naqueles dias. E não o li por obrigação. Antes aceitei de bom grado o convite feito pela universidade em seu processo seletivo e mais que tudo feito pelo próprio livro de autor que eu conhecia pouco, só de ter lido alguns poemas em livros didáticos.

Mergulhei nos poemas de A rosa do povo durante dias. E até hoje não me esqueço do “Canto ao homem do povo Charlie Chaplin”, onde li o silêncio do ator que valia por mil palavras, onde vi os gestos, vi os olhares e até mesmo as palavras do Carlito com sua poderosa voz humana: “Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopro aos exaustos. / Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo, / crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e a fúria dos ditadores [...]”.

E o poema de Drummond cumpria o seu papel estético, político e humano de me transformar, de me educar pela beleza da poesia. Beleza que está nos livros e que posso acionar quando queira, quando meus pés e mãos passeiam por bibliotecas e meus olhos se põem a namorar lombadas e páginas inteiras.

Ideia puxa ideia. No tributo à biblioteca municipal de Resende Costa, também pensei no livro O nome da rosa de Umberto Eco. Aquele em que se fala da biblioteca medieval de um mosteiro beneditino, a qual mantinha em segredo obras apócrifas não aceitas em consenso pela igreja cristã da Idade Média. As páginas dos livros proibidos continham veneno que fazia morrer quem os lia. O autor dos envenenamentos sabia muito bem do “infinito poder das palavras” e, por isso, desencadeou as sucessivas mortes de monges que buscavam as leituras interditas.

Nós, no entanto, não morremos nas leituras. Muito pelo contrário: crescemos como a rosa de Drummond. Lendo, navegamos horizontes amplos, ganhamos poder de asas para ir além do chão que nos prende. E com olhos aquilinos enxergamos, povo insubmisso, mais longe. Vemos dum mirante alto, dum mirante atento e vívido.