Retalhos Literários

Comer o nome, ler a comida

10 de Agosto de 2017, por Evaldo Balbino 0

Ilustração Elimar do Carmo

Nome pega e todo mundo sabe disso. Estudiosos da linguagem podem até falar que as palavras são arbitrárias, que são roupas que se vestem e que se desvestem em diferentes culturas. Não estou aqui para negar a ciência da linguagem. Mas a experiência é a base da vivência, e por isso não deixo de sentir que as palavras são as caras e as almas dos objetos que elas nomeiam.

Nome de pessoa, por exemplo. A gente conhece alguém e nunca mais consegue separar o nome da cara. Tentem trocar o nome de uma pessoa conhecida, e vocês verão que tristeza, suas mentes buscando perceber aquele rosto com outro nome. Isso não desce de jeito nenhum por goela abaixo. No final das contas, a cara do fulano tem a cara do nome dele, o rosto da beltrana é o seu próprio nome. Imaginem, por exemplo, se tenho há anos uma vizinha chamada Dulce, e de repente me chegam e dizem que o nome dela é Lourdes. Aí minha cabeça entra em parafuso e minha teimosia antiga não deixa meus olhos verem Lourdes onde sempre viram Dulce.

E com comida o mesmo acontece. Alguém já viu macarronada com cara de feijoada? Ou arroz parecendo angu? De jeito nenhum! A comida também vai ganhando a cara do seu nome. E assim vamos pondo cada coisa, cada comida em seu lugar. Batizamos tudo, e os nomes de pia vão seguindo pela vida afora, entranhados nas coisas.

Quando criança, eu levava tão a sério esse negócio de nomes, que cismava demais da conta com alguns nomes de comida. Porque os nomes têm cara, podem ter certeza.

Churrasco era coisa incômoda. Para menino acostumado que eu era lá na roça a ver cana moída nos engenhos, inevitavelmente churrasco me fazia pensar em bagaço de cana. Não me perguntem por que tamanha confusão. Era ouvir falarem em churrasco, me vinha na mente aquele monte de cana triturada, a montanha de bagaço no canto do terreiro.

Vaca atolada, nem se fala. Um dia meu tio falou que fora num restaurante em São João del-Rei e que lhe serviram esse nome esquisito. Fiquei pensando numa vaca atolada de verdade. E como eu só a tinha visto atolada em brejo uma vez na casa dum primo, então fui imaginando meu tio comento barro fedido com uma vaca dentro.

Nhoque, nem pensar! Como eu faria para comer essa coisa, ouvida só de nome porque nunca a tinha visto? Palavra esquisita. Parecia que eu é que seria comido por nome tão glutão assim. Via-me diante do prato e, de repente, NHOC!!! Adeus, menino guloso!

Mamãe dizia que dava muita comida boa ao lado de corregozinhos. Um dia ela falou que iria cortar Serratucano para o nosso jantar. Fiquei com medo do nome. Parecia algo que serrava tucano. Uma ave tão bonita não podia morrer daquele jeito violento que o nome da guloseima prenunciava. Só fui ficar tranquilo depois que vi que o dito cujo apanhado por mamãe era um brotinho mais ou menos que nem broto de bambu.

E por falar em serrar, desde muito cedo comecei a conviver com a serralha. “Muito amarga”, minha irmãzinha reclamava. O nome era feio, pois me fazia pensar em algo que cortava, que podia nos serrar em vários pedaços. Mas depois que eu vi que os vários pedacinhos eram a própria serralha que mamãe cortava, uns filamentos fininhos de dar gosto que nem chuva fina gostosa, nunca mais pensei coisas tortas dessa verdura. E passei até a amá-la quando comida com angu e macoco em panela de ferro.

E o pé-de-moleque, o que fazer com esse nome? Quando bem pequeno mesmo, eu não ia a festas juninas. Somente depois, lá pelos sete ou oito anos, é que comecei a ir. Eram as festas da escola. E que espanto tive quando me falaram do pé-de-moleque! Imaginei um pé de criança sendo comido. E um horror tomou conta de mim. Só depois é que fui ver que se tratava de um doce gostoso e tentador.

Falando assim desses nomes de comida, uma vontade de comer exatamente tudo isso me assalta. E aí lembro (e como lembro!) de pamonha, daquela que se fazia na minha região, massa feita de fubá e assada em folha de bananeira. Gostava de comê-la, mas não gostava do seu nome. E isso porque ele me fazia lembrar quando meus irmãos gritavam comigo: “Ê, pamonha, anda mais rápido com isso!”, “Você é lerdo mesmo, hein, pamonha!”. E então o nome me atazanava, me dava raiva. Mas a pamonha assada, essa me fazia ser feliz, me dava entradas para o Paraíso, para esse nome bonito e florido, um bom lugar para se viver.

O boi não é marido da vaca

13 de Julho de 2017, por Evaldo Balbino 0

Sei que os bovinos não se casam. Felizes eles, pois não criaram instituições que tornam os humanos atabalhoados e preocupados com cerimônias prazerosas mas cheias de trabalho. Os bois e as vacas se olham, se roçam, se acasalam. Simplesmente vivem a vida sem muitas invenções.

No entanto, como viver é também carregar cruzes, esses quadrúpedes pagam lá o seu preço. Desde os tempos antigos têm servido ao homem que muitas vezes os trata sem o devido respeito.

Já eu os respeito demais da conta. Gosto de vê-los ruminando no pasto, numa paciência maior que a de Jó. E olha que, mesmo sofrendo, não apelam para Deus, não questionam nada. Pelo menos é isso que meus olhos e ouvidos humanos acham. As vãs certezas humanas. Os achismos. E enquanto vou achando, fazendo deduções apoiado em minha duas pernas, os bovídeos vão pastando sobre duas patas e dois pés. E seus olhos olham os pertos e os longes, estendem-se pelas campinas silentes, às vezes mugindo e outras dormitando, as pálpebras cerradas para espreitar o silêncio do mundo.

Amo os bois e as vacas. E os bezerrinhos, nem se fala! No início meio molengos, quando recém-nascidos. Uma graça de lerdeza que me faz apaixonar. Depois a esperteza, perdendo somente para os cabritinhos.

Não tenho receio do gado do mundo. Só não uso roupa vermelha quando passo perto de seus corpos rijos, olhos arregalados e orelhas em pé, atentas. E isso não é mito. É verdade. Certa feita, num hotel-fazenda perto de Belo Horizonte, quando vários professores da universidade onde trabalho estávamos num seminário interno, um grupo de colegas fomos indo para a área gourmet na hora do almoço. Atravessávamos uma trilha de pedrinhas no meio do pasto. Uma professora passou perrengue com suas roupas de um vermelho escancarado. Se não fosse o resto do grupo para tapar a presença encarnada daquela mulher, ela teria sido um alvo perfeito de uma vaca furiosa.

Volto a dizer: o boi e a vaca não se casam. Uma vez, porém, quando eu era adolescente lá em 1990 na Escola Conjurados Resende Costa, como teria gostado que eles fossem casados. Melhor ainda: teria adorado se eles fossem um ser só, inseparável. Nem adiantaria que fossem simplesmente o macho e a fêmea de uma família de mamíferos. Explico o porquê dessa minha insanidade.

A professora de História, Elzi Reis, trabalhava conosco a sociedade hindu. E eu me empolgava com o livro: as ilustrações me mostrando um deus de faces e braços, poderoso para criar e recriar o mundo com a beleza de uma flor de lótus (a pura beleza imperecível), a arquitetura sublime e as vestimentas exóticas para mim. Lembrem-se: estou falando de uma época em que não tínhamos internet, essa coisa toda de acesso fácil e rápido às informações do mundo todo dia e toda hora, até mesmo lá dentro de nossa casa com um simples aparelhozinho. Não, não tínhamos.

E me apaixonei, não me esqueço, pela foto da escultura grande de uma vaca, e outra foto ao lado (na mesma página do livro) de uma vaca de verdade sendo abraçada por um homem. E a professora falava que os indianos tinham a vaca como animal sagrado, não comiam sua carne e não a maltratavam. Então me deu vontade, ali mesmo na aula de História, de morar na Índia, de conviver com essa existência sagrada sobre quatro apoios, com seu leite farto para bezerros tenros e cheios de vida. Essa vontade me deu até desejos de Paraíso, aquele mítico e perdido lá nas eras adâmicas, onde todos os seres viviam em paz entre si.

Esse meu desejo, porém, sofreu um primeiro golpe uns quinze dias depois. A professora nos aplicou uma prova sobre as sociedades estudadas. Numa questão de V ou F, afirmava-se num item que o boi era o animal sagrado da Índia. Marquei um V ali entre os dois parênteses, crente de que estava certo, certíssimo, numa inabalável certeza como a que me faz segurar nas vestes ardentes de Deus.

Uma vez entregue a prova corrigida, meu desapontamento. Eu tinha errado a atividade. Como podia esse negócio de a vaca sim ser sagrada e o boi não!? Alguma coisa errada havia naquilo. Não que eu achasse que a professora e o livro estivessem errados. Mas também não aceitava que animais da mesma família fossem considerados à parte. A Taxonomia não me salvava de desilusões. Esse fato só serviu para eu achar muito complexa a humanidade e para insistir, outra vez e às minhas expensas, no sonho de que o boi e a vaca são um só corpo vivendo na plenitude de um campo paradisíaco. Um campo sagrado e imperecível.

Lico do Iote

16 de Junho de 2017, por Evaldo Balbino 0

Ilustração: Elimar do Carmo

Seu nome de pia era Alício, mas o chamavam Lico. Já as línguas escarninhas proferiam Lico Pacote, alcunha perversa das ruas quando queriam bulir com o homem. Era de família de lenhadores, que vendiam lenha rachada e carregada em lombos de burro. Mas ele, o Lico, além de rachar lenhas em algumas casas, vivia de vagar pelas ruas de Resende Costa, sem tino e sem rumo.

Magro e de barba rala, quase sempre descalço e de saco nas costas, levava bugigangas desconhecidas por nós. Errava com roupa larga, um cinto segurando a largura para que ela não caísse. De paletó ou camisa sem mangas, usava ora um chapéu ou boné, ora nenhuma proteção na cabeça. Ia sempre seguido de cães, os seus melhores e quiçá únicos amigos. De dois me lembro bem: Cirica e Cheiroso.

Carregava seu saco e não se desfazia dele para nada, nem mesmo quando se exaltava contra as pessoas que o molestavam. Errava pelas ruas ensimesmado. No seu mundo, mas não em silêncio. Seu corpo andarilho ia xingando ou conversando, falando coisas sem nexo, ora com alguém que o havia irritado, ora com alguma pessoa que talvez nunca existira.

Entre os que zombavam dele, estavam muitas crianças em sua teatral falta de maldade. E faziam isso de longe, pois tinham medo. O homem vitimado revidava diversas vezes com pedradas impiedosas.

Três cenas me marcaram nas muitas vezes em que o vi.

Uma foi quando eu estava na sala de minha casa, vendo algum filme na tevê. De repente um estrondo, um estilhaçar de vidros esparramando-se pelo chão. Uma pedra invadira o quarto de hóspedes ao lado e tinha vindo das mãos do Lico. Nervoso lá na rua, ele vira o meu cunhado rindo à janela. E no riso lera uma chacota. Então o ato desvairado. A pedra atingira em cheio a vidraça. Meu cunhado jurou de pé junto que nada fizera. E isso perante os olhos bravos do meu pai.

Outra feita, minha irmã e eu voltávamos do centro da cidade. Quando passávamos ao lado do barranco de lixo, na entrada de nossa rua, vimos crianças se engraçando com o Lico. Ele, de súbito, agarrou pelos cabelos uma garota. Minha irmã ficou trêmula, vermelha, e ameaçou chamar a polícia. Lico deixou a menina sem modos. Obedeceu à minha irmã como um filho, resmungando, obedece a sua mãe.

A terceira cena foi na Escola Conjurados. Estávamos na sétima série. Um professor tinha se atrasado, e ficamos aguardando em sala. Alguns alunos, porém, acabaram indo para o corredor que dava para a rua. E lá fora, o Lico nervoso, injuriando o ar que materializava algum malfeitor. Do outro lado da rua, as casas de São Vicente. E entre elas e a escola, o homem em sua fúria. Os colegas fora de sala começaram a mexer com ele, berrando repetidas vezes “Ô, Lico Pacote!”. E os alunos gritavam e davam risadas escarnecedoras, escancaradas. A exaltação do homem aumentou, e ele começou a jorrar pachouchadas que excitavam ainda mais os seus carrascos. Não saciado com os palavrões, e vendo os garotos na persistência, foi pegando pedras e atirando-as contra o colégio. A meninada, trêmula, correu para a sala, mas com uma alegria trocista nos corpos. Na rua, alguém da escola foi acalmar o Lico. E logo depois a orientadora educacional entrou arrebatada na classe, puxando orelha de turma tão desrespeitosa.

A derradeira notícia que tive do Lico, muitos anos depois, foi que ele faleceu numa tentativa de fuga do lar de idosos em que fora recolhido tempos antes.

Lembro nestas linhas que em 1987 se constituiu no Brasil o 18 de maio como o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Essa é justamente a época de que extraio as memórias que tenho do Lico, reconstruindo-as. Tal dia foi instituído numa busca por uma sociedade sem manicômios e preocupada com os direitos das pessoas com transtornos mentais. Porém não basta “derrubarmos”, quando possível, muros de instituições psiquiátricas que privam os pacientes de viverem na sociedade. Não adianta isso, se não combatermos os preconceitos que nela mesma brotam como erva daninha.

Muitas pessoas caçoavam do Lico sim, mangavam de um homem que se destacava da maioria. Ele explicitava nas ruas as diferenças que todos nós temos e que escondemos muito mais do que entre quatro paredes. As nossas diferenças que nos espantam, nós as guardamos no fundo lago de nós. Escondemos, acautelados, tudo o que em nós nos molesta. E isso porque é mais fácil ser igual a todo mundo. Seguir uma onda é mais confortável do que erigir nossos próprios movimentos.

De espadas e de heróis

18 de Maio de 2017, por Evaldo Balbino 0

As crianças brincam. E adultos felizes, os que têm a infância durando conscientemente dentro de si, também brincam.

Por isso estou aqui brincando. Estou jogando com palavras, criando e recriando a minha e a nossa vida. Estou seguindo aquilo que Freud constatou em nossa existência: assim como as crianças brincam, criando mundos pela imaginação, o escritor faz isso com palavras. Os escritores criativos embarcam em devaneios não para fugir da realidade, mas para narrá-la de modo melhor. Assim também as crianças. Inventam asas não no intuito de voarem para além desta vida, mas para mergulharem num voo certeiro no âmago mesmo da sua experiência vital.

E voávamos muito na minha infância. Como se voa hoje, é claro!

Se o adejar, no entanto, permanece em sua essência, as formas de voo vão mudando em certos aspectos. Mudam-se os brinquedos, muda-se o que é moda. O motor de tudo, porém, continua. Continuam os nossos gestos com formas variadas sim, mas sempre com os mesmos desejos.

Lá nos túneis de outrora havia muitos barrancos não virgens, verdadeiros precipícios, na minha cidadezinha. E sua virgindade era porque todos eram explorados por meninas e meninos eletrizados. Hoje tais paragens estão abandonadas, cheias de mato, com mamoneiros, lobeiras e folhas de assa-peixe se alastrando por tudo. Desconfio até que estejam abandonadas. As invenções de agora se fazem em outros cenários, outras plataformas, principalmente as digitais. As cercas de arame farpado e muros de placa ou de tijolo não contam. Porque criança não respeita tais obstáculos.

E esses obstáculos eram pulados para que as matas fossem desbravadas. Éramos bandeirantes que buscavam ouro o mais fino, diamante o mais precioso e inalienável. Procurávamos o devaneio sem o qual não sobrevivemos na vida. Nos barrancos de nossa meninice, tudo era possível. Até mesmo o desmundo.

Espadas eram tantas. Cabos feitos de sabugo de milho. Grão já maduro, debulhado e servido a galinhas, pombos e humanos esfaimados de vida, alegria e gula. O sabugo ficava para restolho a gado e para brinquedos infantis. Os cabos assim, de sabugo, serviam de base onde se espetavam barrinhas finas de ferro. Eram varinhas que sobravam do mundo adulto, principalmente nas construções civis onde os pedreiros desprezavam os restos da ferragem usada para a estrutura das lajes.

Eram tantas as espadas quantos fossem os heróis que pudessem manuseá-las. Éramos cavaleiros indomáveis em cavalos imaginários.

Cavalos não existiam mesmo. Só os de verdade, mas dos adultos. A imaginação dessa forma os criava e os fazia galoparem pelo Grand Canyon de nosso bairro, nos fundos de nossas hortas, lá onde podíamos sonhar e campear. As façanhas se realizavam no pasto do Chicão ou no barranco do outro lado da rua, mais para os fundos nos pastos do Lalado. Nossos ginetes eram invisíveis. E eram lindos em suas formas, crinas levantadas ao vento, patas coriscando o chão sob o rumor que as folhas dos bambuzais faziam no topo de um barranco. E as folhas de bambu farfalhavam. Os caules lenhosos e flexíveis balançavam e se roçavam. Rangiam para nos dar medo. Alguns dos meninos até tremiam, já outros não. Aquelas vozes vegetais eram nossas companheiras, davam mais realismo a nossas peripécias.

E em nossas aventuras éramos venturosos. Heróis inabaláveis em suas vontades de viver. Lutávamos com vontade, cada um defendendo seu território contra as hordas inimigas. As nossas guerras eram pura vida, sem feridos e mortes. E golpes de espada atravessavam o ar, batiam-se contra as paredes das ribanceiras e voltavam num eco destemido para os nossos ouvidos. Era poeira fazendo densa cortina sobre os nossos medos encenados naqueles palcos. Era tudo poeira e suor, o que depois demandaria banho mais cuidadoso em casa. Isso para xingamentos das mães, para reclamações dos pais. As contas de luz e água reverberariam mais depois essas bravuras de amor.

E o amor era tanto, que os nossos pais aceitavam, no final das contas, energias tamanhas se desdobrando nos grandes espaços. E o céu sem fim, com seu azul profundo ou seu ar espesso de nuvens cinzentas, abraçava a todos os guris e gurias que corríamos pelos campos, pela poeira da vida vivida e nunca esquecida.

Menino também brinca de boneca

13 de Abril de 2017, por Evaldo Balbino 0

Certo dia a irmã de Lino passou uma tarde inteira na casinha das amigas Lu e Tila. As duas irmãs a tinham convidado para brincarem de comadres lá no fundo da horta com a permissão dos pais.

Depois de costurar e bordar com as colegas, sua irmã chegou na boca da noite com um presente feito por elas, o qual lhe fora oferecido de bom grado.

– É feia de doer, parece até uma bruxa a coitada! – maldisse a irmã de Lino.

Cabeça quadrada. Cabelo não tinha nenhum: só um pano preto envolvendo o crânio. Olhos, nariz e boca mal traçados com costura de agulha hesitante e linha preta. O pescoço e o corpo eram um toquinho de panos envoltos por uma fazenda maior e bem costurada. Braços e pernas, idem, só que em toquinhos menores. As pernas, é claro, mais compridas que os braços. O vestidinho que usava a boneca era bonito, de chita, numa costura também acriançada. Assim um pouco torta, a bonequinha era linda aos olhos de Lino. O vestido dava vida àquela “bruxinha”, assim nomeada pela irmã. Um vestido ramado, com flores vermelhas e amarelas num fundo verde-claro.

A menina luxenta, desdenhando a bonequinha, atirou-a sobre o banco de madeira da sala, dizendo que iria jogá-la no lixo depois.

Então o menino se apaixonou pela rejeitada. “Que bruxa que nada!”, pensou consigo. Pediu a boneca para si com a maior naturalidade do mundo. A irmã fez um muxoxo e deu de ombros:

– Se quiser, pega! Nunca vi menino brincar de boneca, mas pode pegar.

Lino não se importou com as palavras da irmã. Ora essa! Não tinha nada disso não. Estava amando a boneca e pronto. Não via problema nisso não.

Pegou a boneca e abraçou-a com aperto carinhoso. Não lhe daria nenhum banho, não por enquanto, que ela estava novinha ainda, acabada de ser feita. Se lhe cuidasse bem, se não a deixasse no chão sujo de terra, se não a expusesse ao Sol que castiga, não teria que banhá-la tão cedo.

Levou-a para seu quarto, e lá a deixou dormindo tranquila sobre a cama, bem ao lado do travesseiro. E já ansiava a hora em que dormiria ao lado dela, abraçados os dois. Ele sendo o pai de um serzinho tão pequeno e indefeso.

Saiu para correr com os amigos na rua. Jogou uma pelada, pegou bandeira e depois ainda brincou de esconde-esconde. O tempo todo, porém, brincando lá com os amigos, foi sentindo uma ansiedade, uma espera danada. Uma vontade louca de chegar em casa, tomar um banho, tomar um café com leite bem gordo e se deitar ao lado da bonequinha, dar-lhe carinho desmesuradamente. Um instinto profundo foi tomando conta de seus pensamentos, cada vez mais. Um desejo de ser pai do serzinho desengonçado, não aceito pela irmã.

Tudo, porém, ficou só na vontade. No mais depois da noite, já em casa e de banho tomado, o menino se preparava para dormir, quando o pai chegou de fazer serão no trabalho.

O homem entrou no quarto do garoto dando um ufa de cansaço pelo longo dia, e seus olhos viram a boneca sobre a cama do filho. Indagou que coisa era aquela ao lado do travesseiro.

Lino ficou quieto, temeroso da tradicional braveza do pai. Uma braveza que lhe tirava a espontaneidade, a possibilidade de viver sem receios. Uma braveza amorosa, mas cheia de espinhos desnecessários. Diante do silêncio do filho, outra vez a pergunta. E mais uma vez o silêncio do garoto.

Antes que o pior acontecesse, a mãe veio imediatamente ao socorro do filho. Foi logo entrando no quarto e informando ao marido do que se tratava. Disse sem medir palavras, pronta já para enfrentar as manias do esposo. Ele não pestanejou um segundo sequer. Seus olhos relampejaram sobre o filho, reprovadores, e suas mãos, sem esperar alguma reação da esposa, pegaram a bruxinha sem se importarem com o choro do menino. Porque este já chorava, e não pouco. Com passadas bravas, o pai foi até a privada seca, lá no fundo da horta, e jogou o brinquedo na fossa.

Lino continuou chorando em seu quarto, só que agora em silêncio. Engoliu pouco a pouco as lágrimas antes que o pai viesse lhe exigir contenção. E foi dormir sozinho. Nem tinha jeito de fazer uma sepultura para sua filha, que sobre a fossa da privada isso não seria possível. Entre as fezes humanas, ficaram enterrados sua filha e o seu desejo de ser pai.