Inventário das calçadas – I
30 de Setembro de 2026, por Evaldo Balbino 0
Quem tem 40 anos ou mais (e a gente sempre caminha cada vez para além), vai se lembrar de tudo isto que vou dizer agora. Se a sua memória já estiver meio fraquinha, vítima dessa modernidade que guarda tudo em nuvens etéreas, mas esquece o chão de terra batida, vou ajudando aqui nestas linhas de palavra e tempo.
Recordar, mais do que viver, é dar um drible desconcertante no relógio e voltar para o lugar onde a gente não precisava de bateria para estar plenamente carregado. Naquela época, o Wi-Fi era o grito da mãe na janela e o Bluetooth era o aperto de mão suada após um pacto de amizade no fundo do quintal.
O maior clássico da nossa infância era o jogo de pelada nas ruas descalças: Camisa X Sem Camisa. O critério estético era de uma simplicidade leve, sem frescuras de uniformes carimbados e caros. “Você aí, magrelo, tira a blusa que dá pra ver o que você comeu no almoço por entre essas costelas!”, gritava o capitão do time, um menino dois anos mais velho que já se achava o dono da bola. E assim, os “descamisados” serviam de radiografia humana para a vizinhança curiosa, enquanto os de camisa ostentavam tecidos de algodão grosso e desbotado que, após o primeiro tombo, pesavam cinco quilos de puro suor e poeira ferida.
Havia também o embate geográfico, a geopolítica do bairro: Rua de Baixo contra Rua de Cima. Coloco o time da Rua de Baixo primeiro porque ele não pode ficar por baixo, ora essa! Façamos justiça, mesmo que tardia! O ar ficava espesso com o cheiro quente de terra misturado ao odor de mato cortado das calçadas vizinhas.
O gol era demarcado por dois chinelos Havaianas cansados, cujas tiras já tinham sido remendadas com prego quente tantas vezes que pareciam Frankenstein de borracha. A distância entre os chinelos era medida em passos que geravam brigas homéricas. “Esse seu passo tá muito grande, Orlando! O gol já virou o Maracanã! Desse jeito até minha vó faz gol!”, reclamava o goleiro, limpando o suor da testa com as costas da mão suja de terra. A regra do “quem chuta busca” era a única lei respeitada, um código inabalável.
Mas o pavor real acontecia quando a bola de leite ou de capotão descascada caía no quintal da dona Marocas, a vizinha mais temida da rua. Ela guardava as bolas “presas” como troféus de guerra em cima do telhado, entre telhas de amianto e ninhos de rolinha. “Lá vai o tonto buscar a bola na onça!”, sussurravam os colegas enquanto o infeliz pulava o muro sentindo o cheiro de mofo, terra molhada e samambaia velha.
A terra batida moldava cascas nos joelhos que ostentávamos como verdadeiras medalhas de honra. O único “VAR” disponível era o grito estridente da vizinha cujo vaso de violetas acabara de ser estilhaçado por um chute de bico mal calculado.
O som era uma sinfonia caótica: gritos agudos de “passa a bola!”, o baque seco e oco da bola no portão de ferro e o chiado rítmico dos pés descalços raspando o chão áspero. Tudo isso envolto em uma nuvem de poeira dourada pelo pôr do sol, com aquele cheiro inconfundível de liberdade e poeira que subia ao nariz e batizava a nossa alma.
E o telefone com fio? Que engenharia de ponta! Bastavam duas latas de extrato de tomate vazias, com furinhos embaixo, e uma tira de linha de costura ou de retalho esticada entre as duas. “Tá me ouvindo, Juvêncio? Câmbio!”, “Fala mais alto que a linha tá bamba e a conexão tá caindo!”. Era a nossa primeira experiência com a fibra óptica de algodão, uma tecnologia de fundo de quintal que desafiava as leis da física e nos fazia acreditar em milagres acústicos. Se a corda ficasse minimamente frouxa, a fofoca morria em um chiado de nada, um silêncio absoluto que frustrava os espiões de plantão.
Nas brincadeiras de cobra-cega, o pânico lúdico era puro e absoluto. O escuro forçado nos instigava; as mãos tateavam o ar de forma desajeitada, como se buscássemos o sentido da vida, quando na verdade só queríamos agarrar o ombro suado de um primo para passar a vez. O som era composto por risinhos abafados, respirações ofegantes e o ranger característico dos sapatos no piso de taco encerado. O cheiro era uma mistura de terra úmida que vinha do jardim com o perfume barato das colônias infantis da época – aquela lavanda persistente que grudava na pele e na memória.
O mistério de José Sebastião
26 de Agosto de 2026, por Evaldo Balbino 0
Naquela tarde de março, o tempo na cidadezinha de Vila do Sossego bocejava. O sol, com aquela preguiça típica das três da tarde, deitava-se sobre o paralelepípedo morno, enquanto as três guardiãs do destino alheio ocupavam o centro do universo: a calçada de casa. Eram a dona Naná, a senhora Zuleide e a silenciosa Mariquinha.
O trabalho ali era sagrado. Munidas de tesouras que brilhavam como foices domésticas, as pacatas senhoras operavam o milagre da multiplicação dos novelos. Restos de camisetas de propaganda política, pijamas puídos e vestidos de verões esquecidos eram agora retalhos de malha transformados em tiras precisas. O som era rítmico: shiiic, shiiic, shiiic... Cada tira enrolada virava uma bolota de cores caóticas que, em breve, se tornaria um tapete fofinho ou uma daquelas colchas pesadas que têm o poder místico de curar qualquer resfriado.
Dona Naná, a líder do triunvirato, cortava uma malha azul-piscina enquanto comentava sobre a vida da sobrinha do farmacêutico. Dona Zuleide, com os óculos na ponta do nariz, era o contraponto crítico. Mariquinha apenas enrolava os fios, os dedos ágeis criando mundos circulares. A rua era delas. O silêncio só era interrompido pelo estalar das tesouras e pelo ocasional latido de um vira-lata que também parecia filosofar sobre a existência.
Foi quando, na esquina da padaria, surgiu o homem desconhecido. Ele chegava caminhando e vinha apoiado em uma bengala de madeira escura, polida pelo uso e pelo afeto. Cada passo era uma negociação diplomática com a gravidade. Avançava com uma lentidão amorosa, como se cada centímetro de chão merecesse ser cumprimentado individualmente. O rosto era um mapa de rugas suaves, e os olhos guardavam aquela doçura de quem já viu a vida amorosa muitas vezes.
As três tesouras pararam no ar. O shiiic cessou. O mundo congelou para que ele passasse.
O senhor parou diante do trio de artesãs. Olhou para os retalhos coloridos, para os novelos e, por fim, para o rosto atento de dona Naná. O silêncio na rua ficou tão denso que era possível ouvir o pensamento das formigas. Ele respirou fundo, ajeitou a boina e, com uma voz de veludo antigo, lançou a pergunta que parecia carregar o peso de uma busca secular:
– As senhoras conhecem o José Sebastião?
As mulheres se entreolharam. O cérebro de dona Naná funcionou como um arquivo de repartição pública. José Sebastião? Tinha o Zé do Bar, o Sebastião da Horta, o filho da finada Dores... mas José Sebastião, assim, com nome de santo dobrado? Vasculharam a memória coletiva da vizinhança, os batizados de trinta anos atrás, os obituários do jornal local. Nada.
Dona Naná, com a honestidade de quem não quer negar informações, respondeu com um suspiro de lamento:
– Não, meu senhor. A gente não conhece nenhum José Sebastião.
O homem não pareceu triste. Pelo contrário. Arregalou levemente os olhos, como se tivesse acabado de descobrir uma lei da física. Olhou bem para o rosto de Naná, deu um sorrisinho de canto de boca e, com uma simplicidade desconcertante, exclamou:
– Ora! Nem eu!
As mulheres paralisaram. O homem deu as costas com uma agilidade renovada pela própria revelação. Começou a retomar seu caminho, passo a passo, bengala após bengala. Mas agora o silêncio fora substituído por um mantra. Ele seguia rua abaixo, a voz ecoando suave, mas firme, entre as casas de muros baixos:
– Nem eu... nem eu... nem eu... nem eu...
Dona Naná ficou com a tesoura aberta, a malha azul pendurada como uma língua de pano. Dona Zuleide ajeitou os óculos, incrédula. Mariquinha, pela primeira vez, perdeu o ponto do novelo. O homem ia sumindo na curva, levando consigo a existência do tal José Sebastião, deixando as três senhoras mergulhadas no mais puro absurdo.
A tarde voltou ao normal, mas com um detalhe a mais. O mistério não consistia em quem era o homem ou na identidade do tal José, mas na libertação de não se conhecer ninguém. As tesouras voltaram a cantar, e o ritmo era outro. Agora, a cada corte, parecia que as lâminas também queriam dizer alguma coisa.
Naquela rua, naquela tarde, descobriu-se que a melhor resposta para um desconhecido é a nossa própria ignorância compartilhada. E até hoje dizem que se você prestar atenção ao vento que sopra nos retalhos das colchas da Vila do Sossego, ainda se ouve um eco distante, bem humorado e persistente: “Nem eu... nem eu... nem eu...”.
Ainda no país do futebol
29 de Julho de 2026, por Evaldo Balbino 0
A estrada era uma serpente de asfalto cortando o coração das Gerais e parecia um ventre suspenso no tempo na tarde de 29 de junho de 2026. Eu deixava Resende Costa, com o sol de inverno desenhando sombras longas nas ladeiras de pedra, quando o silêncio se impôs. Tudo era uma ausência absoluta de rumor humano, uma suspensão de fôlego que só se encontra nas pausas que a nação impõe a si mesma, como um rito sagrado e ao mesmo tempo assustador.
Enquanto meu carro rodava em direção a Belo Horizonte, senti pulsar em mim aquele espanto não espantado que me habita por vezes. Espanto sim, pois o mundo de repente parecia ter sido evacuado: os comércios com as portas arriadas, as calçadas órfãs de pedestres, a vida pulsante engolida por uma única e invisível frequência. Não espantado, contudo, porque essa é a nossa liturgia, o rito que conheço desde que aprendi a decifrar o mapa do Brasil. É praxe, é a lei não escrita, mas que se cumpre com um fervor quase religioso: quando a Seleção joga, a realidade ordinária se dobra e se anula diante dos noventa minutos.
A memória, viajante incansável que guarda os baús da nossa formação, saltou décadas e me trouxe o cheiro de um livro didático da sexta série, em 1989. Lembrei-me da crônica “No país do futebol”, de Carlos Eduardo Novaes. Eu tinha doze anos e, ao ler sobre Juvenal Ouriço, sobre o mendigo que filosofava na calçada e sobre as multidões que se aglomeravam diante das vitrines das lojas de eletrodomésticos, apaixonei-me pela crônica como forma de registrar essa nossa estranha, trágica e linda mania de ser brasileiros. Em junho de 1976, quando Novaes publicou seu texto no Jornal do Brasil, não havia ainda nem um mês que eu tinha chegado a este mundo, mas o destino já havia traçado essa nossa sina coletiva.
Na estrada vazia, porém, vi o reflexo dessa crônica eterna ganhar contornos que hoje me pesam. Em um posto de gasolina na BR-040, caminhoneiros, frentistas e viajantes formavam um coro silencioso. Eram 14h em Resende Costa, 12h em Houston, e em cada ponto deste território continental a expectativa era a mesma. O Brasil, sob a batuta de Carlo Ancelotti, enfrentava o Japão pelas oitavas de final. Sofremos. O primeiro tempo viu o nosso time vacilar. Um erro de passe, e o gol japonês nos ecoou como uma injúria. A angústia era palpável na beira do asfalto.
Na segunda etapa, porém, a redenção desenhou-se na grama de Houston. O domínio, a posse de bola persistente, o campo de ataque ocupado como quem cerca uma fortaleza. O triunfo veio com o gol de Martinelli, o salvador daquela tarde, e a classificação selada por 2 a 1, de virada. Na estrada não houve foguetório, mas permaneceu o alívio que faz o ar vibrar. Um motorista de carreta estacionou bruscamente no acostamento apenas para soltar um brado de euforia – um homem só que, por um instante, sentiu o peso do país nos ombros. Ali éramos todos contemporâneos de Juvenal Ouriço, unidos pelo mesmo cordão umbilical que liga o desespero à glória fugaz.
Sinto alegria desmedida com tudo isso. Mas também uma ponta de cansaço, não pelo futebol em si, que considero maravilhoso em sua plasticidade e capacidade de emocionar, mas pela alienação profunda que atravessa as pessoas. Há um assombro em perceber como as demandas mais urgentes do nosso povo – a saúde capenga, a educação que clama por socorro, as injustiças que cavam abismos sociais diariamente – simplesmente se apagam diante de uma Copa do Mundo. O futebol não é o problema; o problema é tomá-lo como anestésico que substitui a própria urgência da vida, uma cortina de fumaça que cega. Somos capazes de desligar a marcha à ré da nossa história por noventa minutos, apenas para assistir a homens correrem atrás de uma esperança esférica, enquanto as nossas mazelas continuam a rodar em falso no mesmo lugar.
Ao chegar a Belo Horizonte, a cidade ainda vibrava, um eco remoto de Houston ressoando em cada janela. O “espanto não espantado” me acompanhava, misturado à melancolia poética da viagem. Percebi que o Brasil para porque, no fundo, prefere a ilusão temporária da vitória nos gramados ao enfrentamento doloroso de suas próprias verdades. Naquela tarde de junho, enquanto o sol se punha sobre as montanhas de Minas, compreendi que a crônica do país do futebol se repete não apenas como festa, mas também como um eterno retorno de nossa própria fuga.
Picumã nos bons modos
06 de Julho de 2026, por Evaldo Balbino 0
A tarde caía com a lentidão de um doce de leite apurando no fogo. No interior das Minas Gerais, o tempo não corre e se arrasta de prosa.
Nessa tarde durando sempre, visitamos a casa da comadre Lurdinha. Minha mãe subira o morro incansável para o sagrado ritual do café. Fora armada com sua paciência de santa e dois filhos a tiracolo: eu, com os meus cinco anos de pura curiosidade sem modos; e minha irmã, a afilhada de sete anos que já carregava a pose de quem entende de etiqueta.
A cozinha de dona Lurdinha era um templo escuro de fumaça e mistério. O fogão a lenha era uma locomotiva de tijolos e trabalhava incansável a todo vapor. O cheiro de lenha de eucalipto misturava-se ao aroma do café acabado de coar no pano, criando-se ali uma atmosfera que oscilava entre o rústico e o místico. O que me fascinava, porém, não era o que estava sobre a chapa de ferro, e sim o que pairava acima de nossas cabeças, grudado nas telhas e nos caibros.
O teto daquela cozinha estava todo “enfeitado”. Décadas de fumaça e teias de aranha haviam transformado a cobertura de barro e madeira em um santuário de fuligem. O picumã acumulado ali era mais do que sujeira: fazia-se textura orgânica, densa, que pendia em estalactites escuras e aveludadas. Para os olhos de uma criança de cinco anos, aquela massa cinzenta e viscosa, que balançava leve com o bafo de ar quente subido do fogão, tinha uma semelhança inegável com algo muito familiar, porém proibido em mesas onde se podia comer o bocado bom de cada dia.
Eu não aguentei. Entre um gole de leite e um pedaço de queijo, apontei o dedo inquiridor (e mais do que isso, inquisidor) para o alto, quebrando a harmonia das fofocas adultas:
– Olha, mãe! Credo... tem picumã no telhado!
O silêncio envergonhado que se seguiu ficou mais denso que a própria fuligem. Minha mãe arregalou os olhos vexados, buscando um buraco no chão de terra batida para se esconder. Minha irmã, a afilhada exemplar de sete anos, fingiu – eu acho – que não era da mesma linhagem genética que a minha. Mas a reação mais memorável veio da dona da casa.
Comadre Lurdinha não era mulher de meias palavras. Não tinha eira nem beira na língua, e o freio de sua educação havia se rompido ainda na infância. Parou de tomar o café, olhou para o teto, depois olhou para mim com um olhar que misturava desprezo e uma honestidade brutal. Sem pestanejar, disparou o petardo impiedoso:
– Se tem picumã na teia, limpa você!
A resposta veio como um coice de mula desembestada. A cara de minha mãe, quase tendo o brilho vermelho-vivo a laranja das brasas do fogão, tentou sorrir um sorriso amarelo que mais parecia uma careta de dor diante da franqueza da comadre. A visita, que deveria durar inteira até o pôr do sol, foi abreviada pela “urgência de ver o feijão no fogo em casa”.
Saímos de lá em passos rápidos, descendo o morro sob o sol poente. O caminho de volta foi o palco da verdadeira aula de etiqueta e bons modos. Minha mãe, mestre na arte de corrigir sem traumatizar, parou à sombra de uma jabuticabeira. Abaixou-se, ficando na minha altura, e com uma voz que era um misto de mel e autoridade, começou o sermão amoroso:
– Meu filho, o picumã é coisa de casa antiga, mas existem certas sujeiras que a gente não comenta na casa dos outros. A casa da comadre é o castelo dela. Se o telhado tem fumaça ou qualquer outra coisa que sua imaginação veja, o seu silêncio é que deve falar.
– Mas, mãe, parecia mesmo... – tentei argumentar.
– Não importa o que pareça – ela interrompeu, limpando meu rosto com o canto da barra do vestido. – Ter bons modos é saber que a verdade, às vezes, é uma visita indesejada. A gente olha, mas não aponta. A gente sente, mas não descreve. O mundo é cheio de picumã, meu amor; o que não podemos é faltar com cortesia.
Naquele dia aprendi que a fumaça e a aranha fazem o picumã no teto, mas que a falta de educação faz o estrago no coração das comadres. E, principalmente, aprendi que, diante de uma mulher como a dona Lurdinha, com uma xícara de café na mão e nenhuma paciência no juízo, o melhor tipo de gente que podemos ser é o tipo que fica calado.
Cilêncio
27 de Maio de 2026, por Evaldo Balbino 0
Dona Adelaide era uma dessas professoras que não apenas ensinavam, mas regiam a turma como uma maestrina em meio a um vendaval. No quinto ano B, o barulho era som e mais que som: era uma entidade viva, um poltergeist feito de estojos caindo, fofocas sobre o recreio e o incessante arrastar de cadeiras.
O ar estava denso naquela tarde de terça-feira. A paciência de Adelaide, geralmente um elástico bem esticado, finalmente arrebentou. Nenhum brado professoral. O grito é para os fracos; o silêncio de Adelaide era o terror dos impúberes. Ela caminhou até o quadro negro, que na verdade era um “quadro verde” (nós e a mania antiga de derivarmos nossa expressão do inglês blackboard). Foi até a lousa com a solenidade de um carrasco e, com o giz rangendo como um dente faminto, escreveu em letras garrafais: CILÊNCIO!
– Já que vocês não sabem se comportar, vão aprender a escrever pela repetição – sentenciou ela, com um brilho quase poético nos olhos. – Cinquenta vezes no caderno! Não, quer saber? O arrependimento pede abundância. Cem vezes. Cada letra deve ser um tributo à paz que vocês têm me roubado. Ô, turminha difícil!!!
E assim, trinta cabecinhas se baixaram. O único som na sala era o vupt-vupt dos lápis (criança não podia e nem pode escrever com caneta) e o roçar da ponta no papel. O erro, ali no quadro, brilhava soberano. O “C” de Adelaide parecia uma foice ceifando a ortografia em nome da disciplina. Os meninos, hipnotizados pelo castigo, não questionaram. Se a autoridade máxima dizia que o silêncio agora tinha a curva de uma “casa” e não a elegância de um “sino”, quem seriam eles para duvidar?
O drama literário só ganhou seu quase epílogo à noite, na casa do pequeno Pedrinho. Sua mãe, examinando o caderno como quem busca provas de um crime, estancou diante do que vira.
– Pedrinho... que é isso? – perguntou a mãe, a voz oscilando entre o espanto e o pânico.
– É castigo, mãe. Cem vezes. Pra gente aprender a não fazer barulho.
– Mas meu filho... “silêncio” é com “s”!
– Não na escola, mãe. Na nossa turma, o silêncio mudou de letra.
No dia seguinte, a mãe – munida de um dicionário e uma coragem cívica invejável – foi à escola. Reuniu-se com a coordenação e, para surpresa geral, verificaram-se os outros cadernos. Era uma epidemia. Trinta cadernos, três mil vezes a palavra errada. A escola inteira estava mergulhada em um “silêncio” ortograficamente clandestino.
Dona Adelaide, chamada às pressas, entrou na sala com sua habitual altivez. Quando confrontada com o erro, não vacilou. Olhou para o caderno, olhou para a mãe e, com um humor fino que só os mestres possuem, soltou:
– Minha querida, o barulho era tanto, mas tanto, que o “s” saiu correndo de susto. Eu apenas acolhi o “c” que estava sobrando no estoque! Eu estava poetizando com os meninos.
Ou mal aceita foi a desculpa, ou então concordaram de fato com a professora, pois o assunto não rendeu mais nada.
Mas Adelaide era uma mulher de camadas. Dias depois, durante uma aula de matemática, o pequeno Juquinha, confuso diante de uma situação-problema que envolvia uma conta de divisão de laranjas para meninos gulosos e que parecia não ter fim, levantou a mão:
– Tia, esse problema aqui... a resolução dele é daquela mais grande ou daquela mais pequena?
O inspetor da escola, um homem de bigodes severos e olhos de águia, estava encostado no portal da porta, avaliando o desempenho pedagógico da sala. Adelaide sentiu o peso do cargo. O “erro” do aluno doía-lhe nos ouvidos como um acorde desafinado, mas a presença da autoridade exigia a perfeição que ela mesma, dias antes, ignorara no quadro.
Com um sorriso que misturava doçura e uma correção cirúrgica, ela pigarreou:
– Ora, Juquinha, meu bem... Não usamos “mais grande” nem “mais pequena”. O mundo é feito de grandezas relativas: ou o problema é maior, ou ele é menor.
O inspetor assentiu, satisfeito com a erudição da mestre. Juquinha, coitado, anotou a correção. Mal sabia ele que, no universo particular de dona Adelaide, a gramática era como a matemática: uma ciência exata, exceto quando o barulho era tão alto que até as letras precisavam mudar de roupa de tão atarantadas.
Adelaide voltou para sua mesa, vitoriosa. Naquela sala, os erros eram relativos, mas a autoridade – ah, essa era sempre maior.