Retalhos Literários

O mistério de José Sebastião

26 de Agosto de 2026, por Evaldo Balbino 0

Naquela tarde de março, o tempo na cidadezinha de Vila do Sossego bocejava. O sol, com aquela preguiça típica das três da tarde, deitava-se sobre o paralelepípedo morno, enquanto as três guardiãs do destino alheio ocupavam o centro do universo: a calçada de casa. Eram a dona Naná, a senhora Zuleide e a silenciosa Mariquinha.

O trabalho ali era sagrado. Munidas de tesouras que brilhavam como foices domésticas, as pacatas senhoras operavam o milagre da multiplicação dos novelos. Restos de camisetas de propaganda política, pijamas puídos e vestidos de verões esquecidos eram agora retalhos de malha transformados em tiras precisas. O som era rítmico: shiiic, shiiic, shiiic... Cada tira enrolada virava uma bolota de cores caóticas que, em breve, se tornaria um tapete fofinho ou uma daquelas colchas pesadas que têm o poder místico de curar qualquer resfriado.

Dona Naná, a líder do triunvirato, cortava uma malha azul-piscina enquanto comentava sobre a vida da sobrinha do farmacêutico. Dona Zuleide, com os óculos na ponta do nariz, era o contraponto crítico. Mariquinha apenas enrolava os fios, os dedos ágeis criando mundos circulares. A rua era delas. O silêncio só era interrompido pelo estalar das tesouras e pelo ocasional latido de um vira-lata que também parecia filosofar sobre a existência.

Foi quando, na esquina da padaria, surgiu o homem desconhecido. Ele chegava caminhando e vinha apoiado em uma bengala de madeira escura, polida pelo uso e pelo afeto. Cada passo era uma negociação diplomática com a gravidade. Avançava com uma lentidão amorosa, como se cada centímetro de chão merecesse ser cumprimentado individualmente. O rosto era um mapa de rugas suaves, e os olhos guardavam aquela doçura de quem já viu a vida amorosa muitas vezes.

As três tesouras pararam no ar. O shiiic cessou. O mundo congelou para que ele passasse.

O senhor parou diante do trio de artesãs. Olhou para os retalhos coloridos, para os novelos e, por fim, para o rosto atento de dona Naná. O silêncio na rua ficou tão denso que era possível ouvir o pensamento das formigas. Ele respirou fundo, ajeitou a boina e, com uma voz de veludo antigo, lançou a pergunta que parecia carregar o peso de uma busca secular:

– As senhoras conhecem o José Sebastião?

As mulheres se entreolharam. O cérebro de dona Naná funcionou como um arquivo de repartição pública. José Sebastião? Tinha o Zé do Bar, o Sebastião da Horta, o filho da finada Dores... mas José Sebastião, assim, com nome de santo dobrado? Vasculharam a memória coletiva da vizinhança, os batizados de trinta anos atrás, os obituários do jornal local. Nada.

Dona Naná, com a honestidade de quem não quer negar informações, respondeu com um suspiro de lamento:

– Não, meu senhor. A gente não conhece nenhum José Sebastião.

O homem não pareceu triste. Pelo contrário. Arregalou levemente os olhos, como se tivesse acabado de descobrir uma lei da física. Olhou bem para o rosto de Naná, deu um sorrisinho de canto de boca e, com uma simplicidade desconcertante, exclamou:

– Ora! Nem eu!

As mulheres paralisaram. O homem deu as costas com uma agilidade renovada pela própria revelação. Começou a retomar seu caminho, passo a passo, bengala após bengala. Mas agora o silêncio fora substituído por um mantra. Ele seguia rua abaixo, a voz ecoando suave, mas firme, entre as casas de muros baixos:

– Nem eu... nem eu... nem eu... nem eu...

Dona Naná ficou com a tesoura aberta, a malha azul pendurada como uma língua de pano. Dona Zuleide ajeitou os óculos, incrédula. Mariquinha, pela primeira vez, perdeu o ponto do novelo. O homem ia sumindo na curva, levando consigo a existência do tal José Sebastião, deixando as três senhoras mergulhadas no mais puro absurdo.

A tarde voltou ao normal, mas com um detalhe a mais. O mistério não consistia em quem era o homem ou na identidade do tal José, mas na libertação de não se conhecer ninguém. As tesouras voltaram a cantar, e o ritmo era outro. Agora, a cada corte, parecia que as lâminas também queriam dizer alguma coisa.

Naquela rua, naquela tarde, descobriu-se que a melhor resposta para um desconhecido é a nossa própria ignorância compartilhada. E até hoje dizem que se você prestar atenção ao vento que sopra nos retalhos das colchas da Vila do Sossego, ainda se ouve um eco distante, bem humorado e persistente: “Nem eu... nem eu... nem eu...”.

Ainda no país do futebol

29 de Julho de 2026, por Evaldo Balbino 0

A estrada era uma serpente de asfalto cortando o coração das Gerais e parecia um ventre suspenso no tempo na tarde de 29 de junho de 2026. Eu deixava Resende Costa, com o sol de inverno desenhando sombras longas nas ladeiras de pedra, quando o silêncio se impôs. Tudo era uma ausência absoluta de rumor humano, uma suspensão de fôlego que só se encontra nas pausas que a nação impõe a si mesma, como um rito sagrado e ao mesmo tempo assustador.

Enquanto meu carro rodava em direção a Belo Horizonte, senti pulsar em mim aquele espanto não espantado que me habita por vezes. Espanto sim, pois o mundo de repente parecia ter sido evacuado: os comércios com as portas arriadas, as calçadas órfãs de pedestres, a vida pulsante engolida por uma única e invisível frequência. Não espantado, contudo, porque essa é a nossa liturgia, o rito que conheço desde que aprendi a decifrar o mapa do Brasil. É praxe, é a lei não escrita, mas que se cumpre com um fervor quase religioso: quando a Seleção joga, a realidade ordinária se dobra e se anula diante dos noventa minutos.

A memória, viajante incansável que guarda os baús da nossa formação, saltou décadas e me trouxe o cheiro de um livro didático da sexta série, em 1989. Lembrei-me da crônica “No país do futebol”, de Carlos Eduardo Novaes. Eu tinha doze anos e, ao ler sobre Juvenal Ouriço, sobre o mendigo que filosofava na calçada e sobre as multidões que se aglomeravam diante das vitrines das lojas de eletrodomésticos, apaixonei-me pela crônica como forma de registrar essa nossa estranha, trágica e linda mania de ser brasileiros. Em junho de 1976, quando Novaes publicou seu texto no Jornal do Brasil, não havia ainda nem um mês que eu tinha chegado a este mundo, mas o destino já havia traçado essa nossa sina coletiva.

Na estrada vazia, porém, vi o reflexo dessa crônica eterna ganhar contornos que hoje me pesam. Em um posto de gasolina na BR-040, caminhoneiros, frentistas e viajantes formavam um coro silencioso. Eram 14h em Resende Costa, 12h em Houston, e em cada ponto deste território continental a expectativa era a mesma. O Brasil, sob a batuta de Carlo Ancelotti, enfrentava o Japão pelas oitavas de final. Sofremos. O primeiro tempo viu o nosso time vacilar. Um erro de passe, e o gol japonês nos ecoou como uma injúria. A angústia era palpável na beira do asfalto.

Na segunda etapa, porém, a redenção desenhou-se na grama de Houston. O domínio, a posse de bola persistente, o campo de ataque ocupado como quem cerca uma fortaleza. O triunfo veio com o gol de Martinelli, o salvador daquela tarde, e a classificação selada por 2 a 1, de virada. Na estrada não houve foguetório, mas permaneceu o alívio que faz o ar vibrar. Um motorista de carreta estacionou bruscamente no acostamento apenas para soltar um brado de euforia – um homem só que, por um instante, sentiu o peso do país nos ombros. Ali éramos todos contemporâneos de Juvenal Ouriço, unidos pelo mesmo cordão umbilical que liga o desespero à glória fugaz.

Sinto alegria desmedida com tudo isso. Mas também uma ponta de cansaço, não pelo futebol em si, que considero maravilhoso em sua plasticidade e capacidade de emocionar, mas pela alienação profunda que atravessa as pessoas. Há um assombro em perceber como as demandas mais urgentes do nosso povo – a saúde capenga, a educação que clama por socorro, as injustiças que cavam abismos sociais diariamente – simplesmente se apagam diante de uma Copa do Mundo. O futebol não é o problema; o problema é tomá-lo como anestésico que substitui a própria urgência da vida, uma cortina de fumaça que cega. Somos capazes de desligar a marcha à ré da nossa história por noventa minutos, apenas para assistir a homens correrem atrás de uma esperança esférica, enquanto as nossas mazelas continuam a rodar em falso no mesmo lugar.

Ao chegar a Belo Horizonte, a cidade ainda vibrava, um eco remoto de Houston ressoando em cada janela. O “espanto não espantado” me acompanhava, misturado à melancolia poética da viagem. Percebi que o Brasil para porque, no fundo, prefere a ilusão temporária da vitória nos gramados ao enfrentamento doloroso de suas próprias verdades. Naquela tarde de junho, enquanto o sol se punha sobre as montanhas de Minas, compreendi que a crônica do país do futebol se repete não apenas como festa, mas também como um eterno retorno de nossa própria fuga.

Picumã nos bons modos

06 de Julho de 2026, por Evaldo Balbino 0

A tarde caía com a lentidão de um doce de leite apurando no fogo. No interior das Minas Gerais, o tempo não corre e se arrasta de prosa.

Nessa tarde durando sempre, visitamos a casa da comadre Lurdinha. Minha mãe subira o morro incansável para o sagrado ritual do café. Fora armada com sua paciência de santa e dois filhos a tiracolo: eu, com os meus cinco anos de pura curiosidade sem modos; e minha irmã, a afilhada de sete anos que já carregava a pose de quem entende de etiqueta.

A cozinha de dona Lurdinha era um templo escuro de fumaça e mistério. O fogão a lenha era uma locomotiva de tijolos e trabalhava incansável a todo vapor. O cheiro de lenha de eucalipto misturava-se ao aroma do café acabado de coar no pano, criando-se ali uma atmosfera que oscilava entre o rústico e o místico. O que me fascinava, porém, não era o que estava sobre a chapa de ferro, e sim o que pairava acima de nossas cabeças, grudado nas telhas e nos caibros.

O teto daquela cozinha estava todo “enfeitado”. Décadas de fumaça e teias de aranha haviam transformado a cobertura de barro e madeira em um santuário de fuligem. O picumã acumulado ali era mais do que sujeira: fazia-se textura orgânica, densa, que pendia em estalactites escuras e aveludadas. Para os olhos de uma criança de cinco anos, aquela massa cinzenta e viscosa, que balançava leve com o bafo de ar quente subido do fogão, tinha uma semelhança inegável com algo muito familiar, porém proibido em mesas onde se podia comer o bocado bom de cada dia.

Eu não aguentei. Entre um gole de leite e um pedaço de queijo, apontei o dedo inquiridor (e mais do que isso, inquisidor) para o alto, quebrando a harmonia das fofocas adultas:

– Olha, mãe! Credo... tem picumã no telhado!

O silêncio envergonhado que se seguiu ficou mais denso que a própria fuligem. Minha mãe arregalou os olhos vexados, buscando um buraco no chão de terra batida para se esconder. Minha irmã, a afilhada exemplar de sete anos, fingiu – eu acho – que não era da mesma linhagem genética que a minha. Mas a reação mais memorável veio da dona da casa.

Comadre Lurdinha não era mulher de meias palavras. Não tinha eira nem beira na língua, e o freio de sua educação havia se rompido ainda na infância. Parou de tomar o café, olhou para o teto, depois olhou para mim com um olhar que misturava desprezo e uma honestidade brutal. Sem pestanejar, disparou o petardo impiedoso:

– Se tem picumã na teia, limpa você!

A resposta veio como um coice de mula desembestada. A cara de minha mãe, quase tendo o brilho vermelho-vivo a laranja das brasas do fogão, tentou sorrir um sorriso amarelo que mais parecia uma careta de dor diante da franqueza da comadre. A visita, que deveria durar inteira até o pôr do sol, foi abreviada pela “urgência de ver o feijão no fogo em casa”.

Saímos de lá em passos rápidos, descendo o morro sob o sol poente. O caminho de volta foi o palco da verdadeira aula de etiqueta e bons modos. Minha mãe, mestre na arte de corrigir sem traumatizar, parou à sombra de uma jabuticabeira. Abaixou-se, ficando na minha altura, e com uma voz que era um misto de mel e autoridade, começou o sermão amoroso:

– Meu filho, o picumã é coisa de casa antiga, mas existem certas sujeiras que a gente não comenta na casa dos outros. A casa da comadre é o castelo dela. Se o telhado tem fumaça ou qualquer outra coisa que sua imaginação veja, o seu silêncio é que deve falar.

– Mas, mãe, parecia mesmo... – tentei argumentar.

– Não importa o que pareça – ela interrompeu, limpando meu rosto com o canto da barra do vestido. – Ter bons modos é saber que a verdade, às vezes, é uma visita indesejada. A gente olha, mas não aponta. A gente sente, mas não descreve. O mundo é cheio de picumã, meu amor; o que não podemos é faltar com cortesia.

Naquele dia aprendi que a fumaça e a aranha fazem o picumã no teto, mas que a falta de educação faz o estrago no coração das comadres. E, principalmente, aprendi que, diante de uma mulher como a dona Lurdinha, com uma xícara de café na mão e nenhuma paciência no juízo, o melhor tipo de gente que podemos ser é o tipo que fica calado.

Cilêncio

27 de Maio de 2026, por Evaldo Balbino 0

Dona Adelaide era uma dessas professoras que não apenas ensinavam, mas regiam a turma como uma maestrina em meio a um vendaval. No quinto ano B, o barulho era som e mais que som: era uma entidade viva, um poltergeist feito de estojos caindo, fofocas sobre o recreio e o incessante arrastar de cadeiras.

O ar estava denso naquela tarde de terça-feira. A paciência de Adelaide, geralmente um elástico bem esticado, finalmente arrebentou. Nenhum brado professoral. O grito é para os fracos; o silêncio de Adelaide era o terror dos impúberes. Ela caminhou até o quadro negro, que na verdade era um “quadro verde” (nós e a mania antiga de derivarmos nossa expressão do inglês blackboard). Foi até a lousa com a solenidade de um carrasco e, com o giz rangendo como um dente faminto, escreveu em letras garrafais: CILÊNCIO!

– Já que vocês não sabem se comportar, vão aprender a escrever pela repetição – sentenciou ela, com um brilho quase poético nos olhos. – Cinquenta vezes no caderno! Não, quer saber? O arrependimento pede abundância. Cem vezes. Cada letra deve ser um tributo à paz que vocês têm me roubado. Ô, turminha difícil!!!

E assim, trinta cabecinhas se baixaram. O único som na sala era o vupt-vupt dos lápis (criança não podia e nem pode escrever com caneta) e o roçar da ponta no papel. O erro, ali no quadro, brilhava soberano. O “C” de Adelaide parecia uma foice ceifando a ortografia em nome da disciplina. Os meninos, hipnotizados pelo castigo, não questionaram. Se a autoridade máxima dizia que o silêncio agora tinha a curva de uma “casa” e não a elegância de um “sino”, quem seriam eles para duvidar?

O drama literário só ganhou seu quase epílogo à noite, na casa do pequeno Pedrinho. Sua mãe, examinando o caderno como quem busca provas de um crime, estancou diante do que vira.

– Pedrinho... que é isso? – perguntou a mãe, a voz oscilando entre o espanto e o pânico.

– É castigo, mãe. Cem vezes. Pra gente aprender a não fazer barulho.

– Mas meu filho... “silêncio” é com “s”!

– Não na escola, mãe. Na nossa turma, o silêncio mudou de letra.

No dia seguinte, a mãe – munida de um dicionário e uma coragem cívica invejável – foi à escola. Reuniu-se com a coordenação e, para surpresa geral, verificaram-se os outros cadernos. Era uma epidemia. Trinta cadernos, três mil vezes a palavra errada. A escola inteira estava mergulhada em um “silêncio” ortograficamente clandestino.

Dona Adelaide, chamada às pressas, entrou na sala com sua habitual altivez. Quando confrontada com o erro, não vacilou. Olhou para o caderno, olhou para a mãe e, com um humor fino que só os mestres possuem, soltou:

– Minha querida, o barulho era tanto, mas tanto, que o “s” saiu correndo de susto. Eu apenas acolhi o “c” que estava sobrando no estoque! Eu estava poetizando com os meninos.

Ou mal aceita foi a desculpa, ou então concordaram de fato com a professora, pois o assunto não rendeu mais nada.

Mas Adelaide era uma mulher de camadas. Dias depois, durante uma aula de matemática, o pequeno Juquinha, confuso diante de uma situação-problema que envolvia uma conta de divisão de laranjas para meninos gulosos e que parecia não ter fim, levantou a mão:

– Tia, esse problema aqui... a resolução dele é daquela mais grande ou daquela mais pequena?

O inspetor da escola, um homem de bigodes severos e olhos de águia, estava encostado no portal da porta, avaliando o desempenho pedagógico da sala. Adelaide sentiu o peso do cargo. O “erro” do aluno doía-lhe nos ouvidos como um acorde desafinado, mas a presença da autoridade exigia a perfeição que ela mesma, dias antes, ignorara no quadro.

Com um sorriso que misturava doçura e uma correção cirúrgica, ela pigarreou:

– Ora, Juquinha, meu bem... Não usamos “mais grande” nem “mais pequena”. O mundo é feito de grandezas relativas: ou o problema é maior, ou ele é menor.

O inspetor assentiu, satisfeito com a erudição da mestre. Juquinha, coitado, anotou a correção. Mal sabia ele que, no universo particular de dona Adelaide, a gramática era como a matemática: uma ciência exata, exceto quando o barulho era tão alto que até as letras precisavam mudar de roupa de tão atarantadas.

Adelaide voltou para sua mesa, vitoriosa. Naquela sala, os erros eram relativos, mas a autoridade – ah, essa era sempre maior.

Escarcéu com muito amor

29 de Abril de 2026, por Evaldo Balbino 0

O coreto da praça de Monte Azul parecia flutuar sobre o mormaço daquela tarde de sábado. O casamento da prima Zulmira era o evento do século na grota, um desfile de ternos de tergal brilhantes e vestidos de cetim que pinicavam a alma. Com meus sete anos e os joelhos ralados, eu observava tudo do alto de um caixote de vinho. O mundo dos adultos é um teatro de sombras, e tia Odete era a protagonista daquele drama rural.

O sol de março castigava as ladeiras, e o cheiro de porco assado se misturava ao perfume barato das convidadas. Odete, a caçula de uma prole de doze filhas, sempre teve o dom de transformar um batizado em um funeral e um casamento em uma guerra civil. O estopim foi um pedaço de asa de frango. O marido, tio Onofre, um homem cuja paciência era proporcional à sua barriga de chope, cometeu o erro fatal de oferecer a iguaria à vizinha de mesa antes de servir a esposa.

– Você me desonrou, Onofre! – o grito de tia Odete cortou a música caipira como uma navalha em seda velha.

O silêncio caiu sobre a grota. Tia Odete, com seu vestido cor de rosa-choque, começou a marchar em direção à ribanceira que margeava a propriedade. O terreno descia íngreme até o riacho seco, um despenhadeiro de barro vermelho e urtiga.

– Vou acabar com tudo! –  ela berrava, jogando o buquê (que nem era dela) no chão. – A vida é um fardo de espinhos! Vou tomar veneno de rato! Vou me atirar no abismo e vocês vão chorar sobre meu cadáver!

Acompanhei a procissão de curiosos, fascinado. Na minha cabeça de criança, imaginava se o veneno de rato tinha gosto de groselha. A tia subiu no topo da ribanceira, descabelada, o rímel escorrendo como rios de petróleo pelo rosto redondo. Balançava os braços, fazendo uma performance digna de ópera mambembe.

Atrás dela, com os braços cruzados e uma expressão de quem assiste a um comercial chato, estava tia Eunice, a irmã mais velha, que era o oposto do drama; era feita de sarcasmo. Enquanto a família tentava acalmar a caçula, a primogênita apenas bocejava, ajustando os óculos no nariz.

– Ai, meu Deus, Odete vai se matar! – gritava a avó, quase desmaiando.

– Pois morra mesmo, minha irmã – disparou Eunice, com uma voz cortante que silenciou os soluços de Odete por um segundo. – Morra logo, que a gente ainda quer comer o bolo! Você está precisando mesmo de um descanso eterno, e nós de um pouco de paz.

Tia Odete arregalou os olhos, a boca aberta em um “O” perfeito de indignação.

– Você está me mandando morrer, Eunice? – soluçou, dramatizando a traição.

– Estou facilitando as coisas. Se quiser, eu dou um empurrãozinho pra ajudar na queda. Mas pula logo, porque esse seu show de todo feriado já perdeu a audiência. O veneno de rato tá ali na despensa, quer que eu busque com um copo d'água ou vai purinho mesmo? – tia Eunice sorria de um jeito ácido, aquele sorriso de quem trocou as fraldas da mana e sabia que ela tinha medo até de lagartixa.

– Você é um monstro! – tia Odete gritava para o vale, enquanto se agarrava a um pé de mamona para não escorregar de verdade.

– Sou prática, Odete. Você faz essa tempestade em copo d'água desde que perdeu a boneca de pano aos cinco anos. O Onofre só deu um frango pra comadre, mulher! Deixa de ser ridícula. Pula ou volta pro baile, que o doce de leite está acabando!

Eu olhava para tia Eunice com uma admiração nova. Ela era a guardiã da realidade. Tia Odete, percebendo que o sarcasmo da irmã ganhava mais público do que o seu martírio, começou a descer da ribanceira com a dignidade de uma rainha deposta, limpando o vestido sujo de terra.

– Eu vou voltar – anunciou soluçando baixo –, mas só porque não quero estragar a festa da Zulmira com o meu sangue.

– Sei – murmurou tia Eunice, voltando-se para o salão. – É o medo de encontrar o capeta e ele te devolver por excesso de drama.

A festa continuou. O casamento seguiu entre risos e fofocas. Tia Odete comeu três pedaços de bolo e tia Eunice continuou vigiando a vida com seus olhos de lince. E eu, ali no meu canto, aprendi que na família o amor às vezes se manifesta através de um “morra logo”, dito por quem sabe que temos vida demais para nos apagarmos por tão pouco. E quanta vida!