Retalhos Literários

Anunciação

12 de Dezembro de 2017, por Evaldo Balbino 0

Anunciação era professora, diretora,
inspetora, delegada, juíza, promotora...
O que ela quisesse ser. 

Regina Coelho[1]

Usava blusa ou vestido com mangas compridas ou curtas. Sua roupa compunha-se com sandálias de abotoar nos pés. Gostava também de salto, mas era um tamanquinho bem leve. No pescoço levava quase sempre um colar, que mais parecia um terço. Com lenço na cabeça, sombrinha a tiracolo (fazendo sol ou chuva), ela usava óculos grandes, professorais. E seus gestos diziam de sua sabedoria, das posições sociais que ocupava no tocante ao Ensino.

Não estou certo se Maria Anunciação de Jesus tinha leitura. Mas com os grandes óculos postados e os olhos firmes (em jornais, revistas, livros e papéis avulsos ou acondicionados em pastas), ela se concentrava. Seus dedos ágeis tocavam as letras. E a mulher lia: não sei se o que estava realmente impresso ou se palavras outras que sua mente garatujava.

O seu dedo anular não andava desnudo por Resende Costa. E o anel que levava tinha brasão. Não do sangue nobre que passa de pai para filho, mas de uma formatura a que ela acedera, conforme seu testemunho, depois de muito estudar.

Com o anel de formatura marcando presença, suas mãos seguravam papéis e pastas. Muitas vezes eram jornais mais que dormidos, com notícias do mundo já passadas. A tudo ela segurava junto ao peito. A mão direita firmando o saber no lado esquerdo do tórax, bem rente ao coração.

O seu nome era ignorado por muitas pessoas. Por várias outras, não. Mesmo assim, entre todos sempre havia bocas sem controle, um sadismo sem peia. E apelidavam-na de Ponte Preta, Maria Fumaça e outras alcunhas afins. O apodo que lhe ficou mesmo, o que angariou fama na pequena cidade, foi o de Maria Fumaça.

Incomodavam-na as brincadeiras de mau gosto. Tanto que bradava com os provocadores. Não obstante o incômodo, ela, paradoxalmente, demandava tais provocações, chegando mesmo a não admitir que não percebessem sua presença quando passava, por exemplo, perto de crianças desordeiras. No fundo, adorava quando mexiam com ela. Os seus divertimentos eram dois: o de fazer-se “professora, diretora, inspetora, delegada, juíza, promotora... O que ela quisesse ser” e o de ser a atenção do sadismo de muitas pessoas, aquelas cujas línguas se julgavam inofensivas em suas brincadeiras.

Em 1992, Maria Anunciação de Jesus passou a viver no Lar São Camilo. Com a idade já bem avançada, pôde encontrar ali os cuidados necessários que a passagem do tempo demanda de todos nós.

Nessa casa de idosos, minha mãe foi conversar com ela certo dia e lhe perguntou se estava tudo bem. “Ah, tô, minha fia! Tô sim.” E em seguida, corrigindo-se no português: “Só que estou afastada do Assis Resende [Escola]. Tanto que fazer parado! Os alunos e professores sem inspeção! Só Deus para tomar conta, né?!”

Estive com ela, também no Lar São Camilo, no segundo semestre de 2016. Fui lá com minha irmã e sobrinhas para fazermos com os idosos uma pequena festa. Levamos guloseimas, com o devido cuidado de pensar nos casos que demandavam dietas específicas. A confraternização foi boa, deveras. Até encontrei uma simpática senhora que grudou em mim, me abraçando e me beijando a torto e a direito, dizendo que eu era o seu noivo. E que depois ainda ficou lamentando por ter um nubente tão desleixado que não quis lhe beijar a boca. Vejam só! Mulher tão alegre, de vida tão esfuziante, e com energia para dar e vender!

Em certo momento, numa fuga da “minha noiva”, fui ao quarto de dona Anunciação. Ela já estava impossibilitada de se levantar e, portanto, não fora ter conosco no simples festejo. Com olhos esbranquiçados, já não enxergava mais. Não por praxe, mas por um amor espontâneo, indaguei-lhe como estava. Me disse que não se encontrava bem e me pediu que rogasse a Deus para que ela pudesse ter o necessário e final descanso.

Meses depois ela fechou os olhos já cansados de tanta vida. Nos deixou no dia 20 de janeiro de 2017. Se esperasse por mais uns 65 dias, teria entrado na vida eterna na mesma data em que, pela tradição católica, o arcanjo anunciou à Virgem o advento do Cristo. Isso, porém, não importa. Sendo o calendário criação humana, qualquer dia é dia de nascer. E Maria Anunciação anunciou-se às portas do Céu. Agora sem cegueira, sem pernas fracas, mas ainda com seus óculos professorais e eternos.

 

[1] Do artigo “Tempos de Anunciação” – Jornal das Lajes, 16 de fevereiro de 2017. Disponível em https://www.jornaldaslajes.com.br/colunas/contemplando-as-palavras/tempos-de-anunciacao/1001.

O despropósito

14 de Novembro de 2017, por Evaldo Balbino 0

A casa já estava tonta. A meninada corria no seu entorno. Afinal, criança brincando é uma loucura, um rodopio. Ciranda de entontecer.

Tudo começara na varanda, rente à porta da cozinha. Combinaram que fosse uma corrida. Não um pique de corre-corre nem de esconder. Disso todos já estavam cansados. Guris cansam à toa. E ninguém poderia fazer outro trajeto que não o combinado. Deveriam partir da varanda, correr em linha reta em direção à rua (o portão ficaria aberto), guinar à direita, passar em frente da casa diante das duas janelas namoradeiras, virar à direita de novo, entrar pela porta da sala (o portão aí também ficaria aberto), correr até o final lá perto da ribanceira, virar novamente à direita, passar pelos fundos da cozinha até chegar ao lado da caixa d’água já de frente para o galinheiro e a privada, guinar outra vez para a direita até a varanda da cozinha. E aí, perto da porta que dava para os quitutes que a mãe sempre deixava em cima do armário, todos deveriam continuar a corrida. E nada de algum sem-vergonha querer fugir do trajeto para furtar e comer algo lá de cima do móvel. A hora do lanche ainda não era chegada. Tudo a seu tempo. E agora seria a hora de correr. Só parariam os que fossem ficando cansados e não aguentassem mais. Ganharia aquele que, por último, permanecesse correndo ao redor da casa.

E assim todos giravam agora. Eram relâmpagos. Na verdade, não faziam um círculo perfeito. A casa era um retângulo, e além disso desobedeciam às quinas e faziam uma curva desengonçada, célere. Eram faíscas riscando num giro a vivenda. Fagulhas perigosas, fazendo estrondo como trovões irrequietos. E que perigos pelo caminho! Que não houvesse nenhum obstáculo! Seria morte na certa. O pior é que os relâmpagos também poderiam morrer. Mas eles não se preocupavam com isso. Que os adultos se cuidassem, que saíssem do caminho necessário à brincadeira!

Numa das voltas atordoadas, Lino quase se chocou com um grupo de visitantes que entrava pelo portão do terreiro da cozinha. Nas cidades pequenas as visitas são assim, sem cerimônias. Todos entram mesmo é pela porta da cozinha. E mesmo o portão estando fechado, nenhum problema. As mãos visitantes o abrem naturalmente, e passam com intimidade como se ele não existisse.

No quase choque, desviou-se ágil, e a mãe lhe gritou para que voltasse e pedisse bênção aos tios e cumprimentasse os primos. O menino respondeu “um já vou” animado e com pressa. “Já vou, mas deixa eu terminar essa volta!”.

E continuou correndo lá para a rua no intuito de, olimpicamente, fechar aquela rodada em tempo recorde, parar diante dos parentes, pedir bênçãos protocolares, fazer cumprimentos formais e voltar (com toda a educação do mundo) para a corrida que não podia perder.

Ele nunca tinha visto aqueles parentes. Não se lembrava da cara deles. Deveriam certamente ser de outra cidade. Dali é que não eram, pois em cidade pequena, pequenina mesmo, todo mundo conhece a cara de todo mundo. Ainda mais ele, Lino, um garoto que andava que nem cachorro sem dono no dizer dos pais e dos irmãos.

Apertou o passo; chegou até a varanda da cozinha; adentrou o recinto com educação, mas respirando forte e todo suado; esbaforido, pediu bênção e fez saudações. E os seus olhos, já olhando para a varanda lá fora na iminência de correrem mundo, viram de lado uma prima um pouco menor do que ele. Talvez quase do mesmo tamanho. Ela estava sentada no banco. Ele não pensou duas vezes. Numa educação agora espontânea e muito amiga, foi logo puxando a prima por um dos braços, convidando-a para entrar na brincadeira pelo terreiro.

Parou atônito, de repente. Parou estarrecido com o grito que a prima acabara de lhe dirigir. Um grito tão alto, que seus ouvidos doeram. Alto e grave, numa voz de adulto.

– Me larga, idiota, que não sou criança, não!!!

No susto, ele viu que falava com mulher adulta, já bem adulta. Mas só que pequena, bem pequena. Ele falava, e ela gritava.

Largou-lhe o braço, as pessoas todas se olhando entre achar graça e meio desconcertadas. E ele com vergonha, muita vergonha e chateação.

Saiu da cozinha e voltou para brincar. Isso para não enfiar a cara num buraco, de tanto acanhamento. E teve raiva da prima. O problema não era ela ser pequena. Isso não. O problema era ser bruta.

Caminhada de mãe e filho

11 de Outubro de 2017, por Evaldo Balbino 0

Ilustração Elimar do Carmo

Lino sobe com a mãe pela cidade. Vão buscar o pente de tear que dona Lucília fez. E o menino vai feliz. Quer ajudar no carregamento daquela peça cheia de palitinhos de bambu fincados ao longo de duas réguas paralelas de madeira. Entre os palitinhos passam fios que se cruzam com tiras de retalho e fazem nascer tecidos, quenturas para os frios das pessoas e beleza para todas as vidas carentes de beleza. Não querendo deixar o garoto sozinho em casa, a mãe o leva consigo, protetora.

Depois do Largo do Rosário com suas majestosas árvores, os dois passam defronte da delegacia de polícia. E o medo de sempre da cadeia, palavra forte e opressora. Dizem que somente as pessoas más é que vão parar ali, mas o vislumbre de se prender alguém como se prende na gaiola um pássaro deixa ressabiado o menino. Asas são para voos; corpos pedem passagem para a liberdade da vida. E uma cadeia prende essa liberdade, ata-a com nó desumano, rijo, apertado e impiedoso.

Ambos caminham agora pela avenida central, e a porta austera dando entrada sombria para um corredor que leva ao consultório odontológico do Antônio Resende. As paredes caiadas de branco, um cheiro de flúor que atravessa as narinas, os poros da pele, os medos das pessoas diante do barulho de um aparelho polindo dentes ou do bisturi rasgando a gengiva, buscando pela dor a saúde de uma boca ávida de vida. No centro de tudo uma cadeira grande, reclinável, onde se pode, mesmo sofrendo, sonhar com um sorriso mais limpo, uma vontade de beijo e falas longas e claras, sem peia nenhuma.

Mais adiante, depois da Limpadeira do Vantuir, o encontro. A mãe para com uma pessoa e entabulam uma conversa. É o monsenhor Nélson. Amenidades se trocam sobre a tarde que se estende num vento lerdo e calmo, sobre pessoas que faleceram recentemente, sobre a vida mesma ao rés-do-chão. Comentam até sobre os dias longos que se tecem, mas que mesmo assim são curtos para tanta coisa a se fazer.

O garoto fica olhando intrigado para o padre, esperando da mãe uma explicação do que ele não entende. Como os dois adultos continuam conversando num esquecimento da existência dele, seu corpo infantil, então, resolve alardear sua presença. E entra na conversa alheia, fazendo-se comparte daquele encontro, querendo indagar sobre coisa muito importante. E comenta sem receios: “Mãe, nunca vi mulher de cabelo raspado e com voz de homem!!”.

A genitora sofre de vergonha. O rosto queima e não titubeia na decisão de ralhar com o filho. Vai logo chamando atenção de sua cria. Sem violência, sem agressão física. Mas com autoridade.

O monsenhor, amável, lento, paciente. Sorri para o garoto, afaga-lhe a cabeça indomável e lhe sorri também com as mãos. Em seguida diz à mãe que ela precisa ter mais atenção com a vida religiosa da família, levar mais os filhos à igreja.

A mulher pede desculpas e concorda com as palavras conselheiras. O padre avança em sua caminhada, sem saber que a mãe leva o menino sim, e muito, para a igreja. Contudo não é um templo com homens vestindo batinas ou batas. O que o garoto sempre vê são homens de terno e gravata, faça sol ou chuva. Um terno de fazer suar um pobre corpo no calor dos trópicos.

Então a mãe continua com seu filho na direção da Praça Professora Rosa Soares Penido. Vão para o Canela, lá onde mora dona Lucília, a fabricadora de pentes de tear. E vai explicando ao garoto quem é aquele homem, fala da sua importância para a cidade e para os fiéis que ele pastoreia. E diz também do uso da batina, do que representa toda aquela compostura de um homem que fala em nome de Deus. “Mas ele também sua, mãe?” – interroga o garoto, querendo saber e se mostrando importante por não ter dito “soa” como muitas vezes dissera e sofrera risos de pessoas que se achavam mais sabidas do que ele.

A mulher não entende o porquê da pergunta e o questiona sobre ela. “Aquela batina parece ser quente”, responde o filho. Rindo bem alto, com vontade mesmo, a mãe diz que sim, que o padre sua, é ser humano como todo mundo.

Numa careta, então, Lino reafirma sua ideia de ser aquilo tudo muito chato. Pra que terno e gravata, pra que batina e sapatos duros e fechados num mundo onde o Sol derrete seu fogo sobre as pessoas? Isso não é certo. Isso também é cadeia, é prender as pessoas numas grades duras, de ferro. Pensa essas coisas, porém não diz mais nada. Só vai pensando rua abaixo até o Canela. Pensando um pensamento longo, largo como os fios da vida.

Geografia entre brumas

15 de Setembro de 2017, por Evaldo Balbino 0

Ilustração Elimar do Carmo

Hoje me deu uma saudade danada. Dessas que não se explicam, mas que nos tomam de um jeito inopinado, sem mais nem menos. Saudade dos inícios de minha vida. Mas nada de apenas cantar o passado, nada de ver nele somente várzea e ar amigo, raízes lindas e verdes de fazer o hoje secar-se como palha seca. Não. Nada disso.

Lá eu via pessoas, bichos, plantas e coisas. Todos lindos, mas também sofridos. Cada uma vivendo do seu jeito, nas alegrias e dores do existir. As pedras caladas, sentindo. O sol se indo do outro lado das planícies, bem para lá das lajes, o miradouro de pedra. Cachorros de rua ou não, que muitos deles, mesmo morando em casas, vagabundam pela rua sem destino, numa liberdade de fazer gosto, mas também numa judiação de dar dó. É que muitos males grassam pelas ruas: pouca comida, lixo estragado, pés humanos sem piedade, carros que atropelam e seguem seu rumo sem ajudar o corpinho estendido no chão.

E as pessoas pelas ruas poucas, tortas, ora subindo, ora descendo. E no andar uma vagareza da vida, ou então uma pressa também vital, porque às vezes saímos atrasados de casa e temos que correr, andar a passos largos, mesmo não havendo lotações e trânsito difícil.

O Tijuco era a porta primeira da minha entrada na vila. Nome mais velho, primogênito. Hoje já é outro. Os nomes mudam, meu Jesus! Temos a necessidade forte de cambiar. Renomear se parece com reviver.

Na Várzea eu assentei meus pés. As matas não tinham fim. O eucaliptal levava até a casa da Dinha, com direito a encontros terríveis e atraentes: uma cobra ancestral morando perto da Fonte da Ia e a alma penada de um homem, antigo morador daquelas bandas, quase sempre esperando em cima da pinguela. Mas esse homem esperava não era para fazer mal nenhum. Ele só desejava mesmo era ter companhia, a certeza de que na vida, mesmo morta, não existe solidão plena. Nem mesmo a cobra era má, assim na essência. Podia até morder se fosse necessário. Ela ficava escondida numas lajotas e só ia na Fonte da Ia para beber água, fios de vida. Podia ser até bonita a serpe! Secular, antiga como as raízes de nossos medos e sonhos. Antiga e boa, creio. Eu, porém, é que nunca queria vê-la. Só de ouvir falar dela já bastava. A palavra não é a coisa, graças a Deus!

Depois a Nova Resende, antes chamada Serra do Urubu. A Rua Sete subindo, e os dois cemitérios em silêncio entre muros. Sibilinos e traiçoeiros. A Rua Sete me levando para a morte inevitável, mas a Rua do Rosário me salvando do escuro, me fazendo olhar para o alto, para as nuvens remidoras.

O Beramuro era desconhecido. Fui lá só uma vez, numa reserva florestal linda, para namorar bichos e árvores.

No Expedicionários a Escola Conjurados, o prédio me esperando para um mergulho sem fim nas letras, nas ciências.

O Centro vivia também em quietude. Os Quatro-Cantos eram quatro olhos vendo tudo.  A Escola Assis Resende, edifício antigo, pomposo para mim, também existindo para abrir meus olhos.

O Canela mais para baixo, nuns desejos de fuga da cidadezinha. Lá eu via uma igrejinha cujo nome era bíblico e me transportava para a antiga Filadélfia. Mas tinha o Asilo, nome hoje não aceitável, mas que não deixava de ser asilo.

A estrada de terra, mais lá embaixo, saindo para o Varginha, para o Morro das Pedras, para o Barracão que até hoje ainda não conheço.

O asfalto levando para bandas que eu não sabia. E um desejo grande, naquela época, de que o mundo inteiro me chegasse pela estrada asfaltada através dos mensageiros ônibus e caminhões. Naqueles anos eu não pensava em aviões, que eram apenas cruzes passando vez em quando pelo céu.

Lá na várzea, meus pés plantados. A terra vermelha do chão virando barro em dias de chuva, as piteiras cercando a chácara da dona Trindade e contendo as assombrações pousadas em goiabeiras e mangueiras. Só de vez em quando aquelas aparições desciam das árvores e andavam meio que levitando, bem perto do chão, pelas ruas da minha infância. É que a criançada, numa algazarra celestial dos infernos, espantava as pobres almas penadas. Nem depois de saírem da matéria morrível (este corpo cansado, vaso feito para quebrar-se), as almas vagantes tinham sossego. Criança é bulício, e morto quer sossego.

Eu, no entanto, não estou morto ainda. Por isso não quero e não posso sossegar. Os nevoeiros vão aumentando, que eles não faltam em muitas madrugadas da minha cidadezinha. A neblina, a poética e bela bruma, vai se adensando com o tempo. Mas eu construo visões de memória e palavra. Ando através da cerração que não cerra meus olhos.

Comer o nome, ler a comida

10 de Agosto de 2017, por Evaldo Balbino 0

Ilustração Elimar do Carmo

Nome pega e todo mundo sabe disso. Estudiosos da linguagem podem até falar que as palavras são arbitrárias, que são roupas que se vestem e que se desvestem em diferentes culturas. Não estou aqui para negar a ciência da linguagem. Mas a experiência é a base da vivência, e por isso não deixo de sentir que as palavras são as caras e as almas dos objetos que elas nomeiam.

Nome de pessoa, por exemplo. A gente conhece alguém e nunca mais consegue separar o nome da cara. Tentem trocar o nome de uma pessoa conhecida, e vocês verão que tristeza, suas mentes buscando perceber aquele rosto com outro nome. Isso não desce de jeito nenhum por goela abaixo. No final das contas, a cara do fulano tem a cara do nome dele, o rosto da beltrana é o seu próprio nome. Imaginem, por exemplo, se tenho há anos uma vizinha chamada Dulce, e de repente me chegam e dizem que o nome dela é Lourdes. Aí minha cabeça entra em parafuso e minha teimosia antiga não deixa meus olhos verem Lourdes onde sempre viram Dulce.

E com comida o mesmo acontece. Alguém já viu macarronada com cara de feijoada? Ou arroz parecendo angu? De jeito nenhum! A comida também vai ganhando a cara do seu nome. E assim vamos pondo cada coisa, cada comida em seu lugar. Batizamos tudo, e os nomes de pia vão seguindo pela vida afora, entranhados nas coisas.

Quando criança, eu levava tão a sério esse negócio de nomes, que cismava demais da conta com alguns nomes de comida. Porque os nomes têm cara, podem ter certeza.

Churrasco era coisa incômoda. Para menino acostumado que eu era lá na roça a ver cana moída nos engenhos, inevitavelmente churrasco me fazia pensar em bagaço de cana. Não me perguntem por que tamanha confusão. Era ouvir falarem em churrasco, me vinha na mente aquele monte de cana triturada, a montanha de bagaço no canto do terreiro.

Vaca atolada, nem se fala. Um dia meu tio falou que fora num restaurante em São João del-Rei e que lhe serviram esse nome esquisito. Fiquei pensando numa vaca atolada de verdade. E como eu só a tinha visto atolada em brejo uma vez na casa dum primo, então fui imaginando meu tio comento barro fedido com uma vaca dentro.

Nhoque, nem pensar! Como eu faria para comer essa coisa, ouvida só de nome porque nunca a tinha visto? Palavra esquisita. Parecia que eu é que seria comido por nome tão glutão assim. Via-me diante do prato e, de repente, NHOC!!! Adeus, menino guloso!

Mamãe dizia que dava muita comida boa ao lado de corregozinhos. Um dia ela falou que iria cortar Serratucano para o nosso jantar. Fiquei com medo do nome. Parecia algo que serrava tucano. Uma ave tão bonita não podia morrer daquele jeito violento que o nome da guloseima prenunciava. Só fui ficar tranquilo depois que vi que o dito cujo apanhado por mamãe era um brotinho mais ou menos que nem broto de bambu.

E por falar em serrar, desde muito cedo comecei a conviver com a serralha. “Muito amarga”, minha irmãzinha reclamava. O nome era feio, pois me fazia pensar em algo que cortava, que podia nos serrar em vários pedaços. Mas depois que eu vi que os vários pedacinhos eram a própria serralha que mamãe cortava, uns filamentos fininhos de dar gosto que nem chuva fina gostosa, nunca mais pensei coisas tortas dessa verdura. E passei até a amá-la quando comida com angu e macoco em panela de ferro.

E o pé-de-moleque, o que fazer com esse nome? Quando bem pequeno mesmo, eu não ia a festas juninas. Somente depois, lá pelos sete ou oito anos, é que comecei a ir. Eram as festas da escola. E que espanto tive quando me falaram do pé-de-moleque! Imaginei um pé de criança sendo comido. E um horror tomou conta de mim. Só depois é que fui ver que se tratava de um doce gostoso e tentador.

Falando assim desses nomes de comida, uma vontade de comer exatamente tudo isso me assalta. E aí lembro (e como lembro!) de pamonha, daquela que se fazia na minha região, massa feita de fubá e assada em folha de bananeira. Gostava de comê-la, mas não gostava do seu nome. E isso porque ele me fazia lembrar quando meus irmãos gritavam comigo: “Ê, pamonha, anda mais rápido com isso!”, “Você é lerdo mesmo, hein, pamonha!”. E então o nome me atazanava, me dava raiva. Mas a pamonha assada, essa me fazia ser feliz, me dava entradas para o Paraíso, para esse nome bonito e florido, um bom lugar para se viver.