Por que os gatos são perseguidos?
27 de Janeiro de 2026, por Evaldo Balbino 0
O mundo, visto da janela do oitavo andar, parece uma geometria rígida de concreto e vidro. Mas, se estreitarmos os olhos para o terreno baldio que repousa nos fundos do edifício, a rigidez se desfaz. Ali, o tempo corre em outra velocidade, sob a guarda de pequenos deuses de veludo que ignoram as escrituras do cartório. O terreno pertence ao prédio, dizem os documentos; os gatos, porém, dizem que a terra pertence ao sol que a aquece.
Por que os gatos são perseguidos? A pergunta flutua no corredor, entre o cheiro seco da vida humana e o silêncio austero dos elevadores. É um mistério que desafia a lógica do afeto. Três moradores, munidos de tigelas e de uma ternura que não cabe em atas de condomínio, decidiram que a fome não deveria ser o destino daqueles seres de passos lunares. Mas a caridade, por vezes, encontra muros mais altos que os de alvenaria, erguidos por quem vê na vida alheia apenas um estorvo a ser “higienizado”.
Há uma estranha intolerância no bicho homem contra o bicho gato. Talvez seja a autonomia deles que nos ofenda. O gato não nos deve obediência; ele nos oferece presença. No terreno esquecido, entre o mato que insiste em ser verde e os restos de uma construção que nunca foi, eles são pequenas vírgulas de vida num parágrafo em branco. Cinzas, malhados, pretos como a noite sem estrelas, eles deslizam pelas sombras como se costurassem o tecido da realidade com fios invisíveis de mistério.
Essa perseguição ignora uma linhagem sagrada que remonta às areias do tempo. Não foi por acaso que os antigos egípcios os elevaram ao altar da divindade. Eles não viam no gato apenas um caçador de roedores, mas a personificação de Bastet, a deusa da proteção, do prazer e da saúde. No Egito, ferir um gato era ferir o equilíbrio do cosmos; eles eram os sentinelas do invisível, capazes de enxergar o que os olhos humanos, turvos de pressa e vaidade, jamais alcançam. Quando um gato caminhava pelos palácios de Tebas, ele não pedia permissão; emanava uma autoridade silenciosa, a mesma que hoje, milênios depois, ainda brilha nas pupilas verticais daqueles que habitam o nosso terreno baldio.
Adorá-los não era um capricho, era um reconhecimento de sua elegância metafísica. E hoje, o que fazemos? Trocamos o incenso e o ouro pelo desprezo e pela proibição. A perseguição nasce, talvez, de um equívoco de posse. Os vizinhos que protestam, amparados por regulamentos e queixas sobre “higiene”, parecem ter esquecido a lição dos faraós: de que há seres que carregam em si uma centelha do sagrado.
Quando os três moradores descem, quase em segredo, levam mais do que ração; levam o reconhecimento de que não somos os únicos donos da existência. Cada grão depositado na tigela é um verso de um poema que celebra o direito de respirar sob o mesmo céu. O gato é um mestre da contemplação. Ele olha para o humano não como um servo, mas como um mistério a ser observado. Talvez por isso causem medo. Eles são os guardiões dos portais da invisibilidade em meio à nossa urbanidade estéril.
Negar-lhes o alimento é uma tentativa vã de expulsar a natureza de dentro de nós mesmos, de “higienizar” o espírito até que não reste nada além de azulejos limpos e corações vazios. Há uma poesia silenciosa no ato de cuidar. Quando a mão humana se estende para o pequeno felino, há um curto-circuito de alteridade. Ali, naquela fronteira de mato e concreto, o antropocentrismo desmorona. Percebemos que a dor da fome é uma linguagem universal, que não exige tradução nem CPF.
A perseguição aos gatos é, no fundo, a perseguição à liberdade. Eles não pagam condomínio, não seguem o relógio de ponto e não se curvam às nossas vaidades. Simplesmente são. E sua existência, tão plena e tão frágil, parece afrontar aqueles que vivem aprisionados em suas próprias certezas de cimento.
Que se abram as frestas! Que as tigelas permaneçam cheias, não apenas de comida, mas de dignidade. Porque um edifício que não suporta o miado de um gato faminto é um edifício que já começou a desabar por dentro. O respeito a essas pequenas vidas é o que nos impede de virar apenas sombras frias no terreno baldio da indiferença. Despertemo-nos para a beleza de partilhar o mundo! Honremos o legado daqueles que, há milênios, já sabiam que onde há um gato há um pouco mais de luz.
Escrever para amar
24 de Dezembro de 2025, por Evaldo Balbino 0
Ainda estamos aqui.
Vi o filme de Walter Salles em março de 2025. O roteiro de Murilo Hauser e Heitor Lorega foi baseado na autobiografia homônima de 2015, Ainda estou aqui, escrita por Marcelo Rubens Paiva, o mesmo autor que me fascinou há muitos anos com o livro Feliz ano velho. O filme Ainda estou aqui entrou em cartaz nos cinemas do Brasil em 7 de novembro de 2024, com uma grande repercussão, tornando-se um sucesso de bilheteria antes mesmo de suas indicações ao Oscar em 2025, e saiu dos cinemas em abril do mesmo ano. Esse foi o único longa-metragem que vi em 2025. Vi e chorei.
Chorei com a firmeza da interpretação da Fernanda Torres e com a intocável performance sem palavras da Fernanda Montenegro.
Vi o filme, e ainda estou aqui: respirando, pensando, falando e escrevendo. Nossas vidas se fazem de resistência e insistência. Em todos os sentidos.
E a arte é uma das formas de sobrevivermos. Não falo de sobrevida financeira, ainda mais em se tratando de literatura, a que não se vende facilmente. O trabalho circula, mas leitores de fato, como diversas vezes já falaram e lamentaram “n” escritores, são raros. Lembro as palavras de Lygia Fagundes Telles no seu delicioso A disciplina do amor, quando a autora discorre sobre o fato de leitores serem uma espécie em extinção (termos da escritora). E ela recorrentemente retomou essa ideia em diversas entrevistas. O livro é de 1980. E até hoje o problema continua.
Se proliferam divulgações de leitura, resta saber o que de fato está acontecendo com a leitura do texto literário. Os que citam tantos autores estão de fato os lendo?
Um desânimo paira no ar. Escreve-se. Escreve-se o texto. Escreve-se para quem?
Apesar de tudo, escrevo e publico. Escrevo por necessidade e por resistência. Publico por esses mesmos motivos, mas também por insistência. Remo constantemente, ainda que a correnteza se volte contra mim.
Enquanto houver motivo, se escreve. E o maior de todos é o não entendermos a existência. Damos explicações históricas, biológicas, sociológicas, psicológicas, religiosas e outras mais. Esgotamos pensamentos e compêndios inteiros, na duração da busca dum entendimento impossível.
Não nego as ciências, as religiões. Não nego a importância do tempo despendido em tantas elucubrações. Afinal, tudo isso nos define a nós humanos, pobres humanos! E nos constrói como seres pensantes, além de sentidores. Sentir, talvez, seja o que mais nos salva. Sentir com a mente, pensar com o coração.
Assim penso e sinto, por palavras impressas em livros. Um poema, um conto, uma crônica, as linhas de um romance. Tudo isso é tição, lenha que não se apaga, tocha (ainda que tênue) na escuridão da não leitura.
Não lamento aqui. Apenas constato. E também reitero o poder da escrita de lutar contra tudo o que lhe é contrário.
E vale lembrar sempre: ninguém é obrigado a ler. O debruçar-se sobre um livro, e aqui falo especialmente do livro literário, deve ser um ato de amor, deve construir-se na disciplina prazerosa do tocar as palavras, sentir-lhes o cheiro e o sabor, beijar-lhes a textura inconfundível. E avançar mais ainda: abraçar tudo o que elas, as palavras em estado de arte, podem nos oferecer. Beleza tamanha não tem preço, mesmo que o livro-mercadoria seja vendável.
Ler é mais do que estudar. Para quem é leitor espontâneo (e sei que essa espontaneidade é construída), o estudo é uma consequência natural. O leitor não tem medo do livro. Deita a cabeça sobre ele como num travesseiro aprazível e incômodo. E quantos sonhos e pesadelos se tecem nesse conforto desconfortável! Infindáveis lendas, imensuráveis ficções a nos falarem de verdades verdadeiras, de coisas boas e ruins. A nos falarem, na verdade, da vida e de tudo o que a vida representa e é para nós. Vale a pena esse exercício!
Escrever e ler são atos de amor. São atos que dizem que ainda estamos aqui. São disciplinas que construímos e que viram gestos de uma entrega sem esforço. A poesia nos amavia. Amemos!
A alegria e a companheira da alegria
01 de Outubro de 2025, por Evaldo Balbino 0
Sozinha, a alegria não segue seus passos.
Precisamos da tristeza para enxergar a importância da alegria.
Dirão que meu pensamento é binarista, mas não é. Pois sei que caminhamos por largos espectros em nossas vidas. As cores do arco-íris caminham num degradê; do mesmo modo somos nós e nossos sentimentos, ações e percepções. Entre a alegria e a tristeza existe um vasto percurso no qual nos situamos. Sempre um caminhar.
Lembro a entrevista em que a atriz Tônia Carrero, indagada por um jornalista se era feliz, respondeu prontamente: “Sou, várias vezes ao dia”. Isto mesmo. “Várias vezes ao dia” quer dizer que não se é feliz, mas sim que se vivem momentos de felicidade na existência.
E vejam que maravilha de fala! Apesar dos pesares, podemos ser felizes “várias vezes ao dia”. Este pronome indefinido é tudo e nos salva! Não são poucas as vezes em que ficamos felizes.
Dirão os pessimistas e extremamente realistas que um dia é um intervalo muito pequeno de tempo para tanta felicidade. E eu digo que essas vozes não são apenas pessimistas e extremamente realistas, mas também muito literais na leitura das palavras.
Ora, tomemos “dia” como “existência”. Assim fica tudo mais suportável. A existência, mesmo efêmera, é longa. E nela, na existência, muitas gotas de alegria (e até rios e mares inteiros) podem nos banhar. Digo até do dia no sentido literal, pois que num só dia podemos viver intensamente felizes. Isso é possível, graças a Deus!
A frase da atriz carrega uma leveza e nos leva a contemplar as multifaces tanto da alegria ou felicidade quanto, por extensão, da tristeza. A felicidade não é uma estátua, contínua e imutável, porém sim estados experienciais fluidos, pontuais e muitas vezes, por que não?, discretos.
Poderão pensar que estou confundindo alegria com felicidade. Não, não estou. Se entre ambas há diferenças de intensidade e duração, de causas externas e internas, de profundidade ou rasura emocional, de distanciamento ou aproximação da tristeza – elas são boas e apetecíveis. E é isso que importa. Uso uma pela outra sem constrangimentos.
Perceber a alegria como algo que acontece em pequenos momentos – e não como um estado absoluto – é reconhecer que a vida é pontilhada, um tecido em construção com idas e vindas das linhas tantas e tortas. Somos ora alegres ora tristes, ou ainda alegres e tristes ao mesmo tempo. A sensação constante de bem-estar não existe. Temos de lidar com os desconfortos do corpo e da alma sob todos os aspectos.
A felicidade chega a ser algo subjetivo, fragmentado, e até mesmo efêmero. Aliás, como a própria vida.
Se a felicidade acontece em momentos esparsos, a tristeza também. Não sendo um estado contínuo e imutável, o sentimento da tristeza aparece e desaparece. Como o pisca-pisca de um vagalume. O lume e o escuro se abraçando o tempo todo em nós.
Vi pela primeira vez a imagem da alegria intermitente em Guimarães Rosa, no belíssimo conto “As margens da alegria”: “Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vagalume. Sim, o vagalume, sim, era lindo! – tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria”. Rosa me ensinando as rosas da vida, apesar do rumor dos espinhos das rosas.
Sucessão de momentos, nossas vidas vão dando volteios em torno de si e de outras vidas mais. Coexistindo e alternando-se, a alegria e a tristeza são irmãs, uma dando sentido à outra, uma existindo porque a outra existe.
A tristeza não é falta de alegria. É justamente o que nos faz entender o que é a alegria. Como amaríamos a água sem saber o sabor da sede? Sem experienciar os momentos difíceis, não saberíamos valorizar os pequenos e imensos prazeres cotidianos.
No equilíbrio da existência humana, a vida é uma dança de emoções. E nessa dança vamos bailando nosso corpo e nossa alma. Mesmo na lama a alma pode dançar.
E cantamos também, de corpo e alma. Escuto sempre o eco da “Toada” de Adélia Prado acariciando-me inteiro: “Cantiga triste, pode com ela / é quem não perdeu a alegria”.
Sejamos alegres e tristes! Vivamos!
Imagem insular
27 de Agosto de 2025, por Evaldo Balbino 0
A ilha, imersa na solidão entre águas, deseja não ser pedra – deseja comunicar-se com outras terras, outros braços, outros corpos.
Sempre gostei da imagem da ilha! Creio que não seja o que há nela de solidão o que me atrai, mas sim o fato de ser banhada por águas, doces ou salgadas, não importa. E nos rios e lagos e mares existem vidas. Peixes, algas e outros seres se banham neles e neles mergulham e vivem. Pássaros aos montes, fauna e flora que florescem cotidianamente.
Gosto mais mesmo, na verdade, é do que liga a ilha a outras paragens, daquelas porções de terra sob as águas, úmidas de limo e vidas rasteiras. E também de areia, porque na vida os minerais em pó são importantes. As rochas desagregadas nos falam de inteirezas que existem mesmo nos fragmentos. Cada grânulo é ele mesmo, e isso nos basta. Pensar que alguém duma ilha pode se comunicar com outras ilhas, com outros continentes, com outros chãos firmes sob os pés humanos – isso nos dá segurança. As terras emersas são nosso porto seguro.
Sem brânquias para respirar debaixo dágua, sem bexiga natatória para a flutuação, sem outros órgãos sensoriais como a linha lateral para detectar movimentos áqueos, sem os filamentos piscianos que são pura maravilha, sem as nadadeiras e as escamas, sem a pele propícia ao viver entre água e algas sempiternamente – sem essas maravilhas somos todos inadaptados à imersão aquática permanente. Precisamos da água, mas não damos conta de habitá-la por inteiro.
Pobres macacos nus, como diria Desmond Morris, não somos da água nem das árvores nem do ar. Em nossa complexidade cultural, não deixamos de ser primatas, não somos a única espécie do planeta, nem mesmo a espécie superior. Pobres de nós! Quanta presunção nos atravessa e nos corta como fina e fria lâmina! Macacos nus, estamos mergulhados na vida e julgamos que ela está sob nosso domínio, quando na verdade tudo se nos foge.
Descemos, pois, das árvores, e perambulamos pela terra. Somos sempre ligados, porém, às alturas arbóreas e às profundezas das águas. E almejamos até os ares, como se fôssemos pássaros. E até mais do que eles, quando, por exemplo, buscamos a Lua e os píncaros alhures pelo espaço sideral imenso e assustador.
Não somos ilhas. Indubitavelmente não somos. Temos poros e precisamos de conexões. O que acontece é que há vários modos de conexão. Estar com os outros não é necessariamente posicionar-se fisicamente entre pessoas numa praça pública. Quantos seres estão nas aglomerações de pessoas e se sentem, mesmo assim, sozinhos! A solidão é questão de estado de espírito e não de afastamento de um corpo em relação a outros corpos.
Depois que li Baudelaire e outras mais vozes falando da modernidade, dos processos industriais, do crescimento dos burgos, da urbanização crescente da vida, das explosões demográficas, é que fui pescar e entender a expressão “multidão solitária”. Nesse paradoxo reside uma verdade inconsolável. Posso me sentir sozinho entre as pessoas.
É essa solidão que sinto quando, por exemplo, leio O Sentimento dum ocidental, do poeta português Cesário Verde. O autor se destaca por retratar cidades, a vida urbana, as multidões e os aglomerados no final do século XIX. Nesse poema longo, Lisboa é revisitada e descrita com suas ruas, seus mercados, suas gentes e seus contrastes, explorando-se a experiência da vida urbana moderna. De cara, nos deparamos em seu poema com o caráter soturno e melancólico da existência, mesmo urbanizada e em meio à multidão: “Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / Despertam-me um desejo absurdo de sofrer”.
Embora contemporâneo de outros poetas da chamada Geração de Coimbra, Cesário é conhecido por sua abordagem única da cidade, fugindo do lirismo tradicional à época e abraçando o realismo cru da vida urbana. Diferencia-se ao focar na experiência do indivíduo na multidão, na dinâmica da cidade em transformação e nos detalhes cotidianos que compõem a vida urbana.
Voltemos às conexões!
Quando ouço uma música, também sou autor dela. E ajudo a compor os sons, a tecer as letras, a dizer tudo o que diz a canção. E vivo tudo o que se fala nela, o que existe porque ela existe. Do mesmo modo quando vejo um filme, assisto a uma telenovela ou a um filme. E quando leio, nem se fala! Amante da leitura, tenho nela uma companhia sem limites, e isso porque a grande multidão humana me acompanha por meio de autores, personagens e lugares. Ler é viver em conexão.
Saio assim da ilha, aquela lá do início desta crônica, e chego aos que leem estas linhas, minha/nossa lida alinhavada com as palavras. Me descubro não estar sozinho. A escrita é também uma forma de viver.
Raízes de alma e terra
04 de Agosto de 2025, por Evaldo Balbino 0
O amor da gente é como um grão / Uma semente de ilusão
/ Tem que morrer pra germinar / Plantar nalgum lugar /
Ressuscitar no chão / Nossa semeadura / Quem poderá
fazer aquele amor morrer / Nossa caminhadura / Dura
caminhada / Pela noite escura
Gilberto Gil – Drão
Esta imagem vegetal, etérea e mineral não me vem à toa. Somos casados com a natureza das plantas, dos minerais e de tudo o mais que nos transcende e é ao mesmo tempo imanente em nós. Nenhum animal se desconecta do que ele é, nem mesmo o humano que muitas vezes acredita ingenuamente ser filho duma selva de pedra. Nossos pensamentos nos levam aqui, ali, lá e alhures. Transportam-nos a lugares onde as ideias vivem, têm medo, sentem saudades e sonham futuros. Mesmo pedras, temos poros.
Tudo o que inventamos tem base real. Nossos pés plantados, refeitos de poesia e sonho, ganham ares alados: voam sem fim dentro da finitude. E assim levamos a vida. Entre perdas e ganhos, vamos germinando e morrendo – vivendo.
Por isso se escrevem tratados filosóficos, se fazem poemas, se registram narrativas inteiras, se aprecia a arte em suas múltiplas faces. Escrevo, por exemplo, esta estorinha muito verdadeira:
Em meio a uma densa floresta em festa, entre musgos e folhas caídas, encontrava-se uma árvore majestosa, porém cansada. Seus galhos se sentiam pesados, o tronco envelhecido e as folhas fazendo-se murchas. Era como se a vida pulsante que um dia a preenchera agora se dissipasse lentamente em meio a tanta vida. A árvore abatida suspirava profundamente, com um gemido quase imperceptível. Cada respiração era um esforço, um ato de persistência diante da exaustão que a consumia. Seu sopro era lento, fraco, carregado de uma melancolia que ecoava pelo entorno sombrio cheio de folguedos.
A vida brinca, apesar da morte, e isso porque a morte só existe porque ela, a vida imensa e tanta, também existe.
As criaturas da floresta percebiam a tristeza da árvore esgotada e se aproximavam com cuidado, como que em respeito à sua dor silenciosa de um leve rumor. As folhas balançavam em uma dança serena e bela, e até mesmo o vento sussurrava palavras de consolo. Os pássaros cantavam melodias suaves e surdas.
O canto, até mesmo o triste, é sempre alegre.
A despeito da vida, e por causa dela mesma, a árvore esfalfada apenas cerrava os olhos, em um cansaço profundo e antigo. Ela sabia que fazia parte do ciclo da vida, que havia dado tudo de si para abrigar os seres da floresta, para purificar o ar e para manter a harmonia do ecossistema. E agora, era hora de descansar.
Apesar da tormenta, serenar é preciso.
E assim sua respiração extenuada foi se tornando lentamente mais suave, mais leve. Os galhos se recolheriam, um a um secando-se aos poucos. As folhas cairiam suavemente ao chão, devagar, devagar. Seriam tapete e húmus; esterco para vidas ali mesmo, naquele momento, e nos futuros incertos. E, no último suspiro, a árvore se despediria, deixando para trás sua essência, sua força e sua beleza eterna, como um legado de amor à natureza. O seu legado sempre vida – sempre-viva.
Isto é uma alegoria, e é verdade e não é lamento.
Quando adquiri o meu lotezinho em minha cidade natal, isso em plena pandemia no ano de 2020, meu pai ficou feliz e seus olhos brilharam ainda mais. Porque eu lhe disse que demoraria muito para construir uma pequena casa. Um dia... bem longe... E solicitei a ele que cuidasse dos poucos 220m2 e das plantas que lá habitavam. Meu desejo era afastá-lo da construção civil, protegê-lo do vírus à época mortífero. Era só um lote, mas isso, juntamente com as atividades de marcenaria no quintal da nossa casa, ocuparia o seu corpo e a sua mente.
Pedi-lhe que plantasse um pé de tamarilho, ou tomate de árvore como também é conhecido, esse enigmático e poderoso fruto que atravessou a minha infância inteira. Os meus o chamam de cajá, nome equivocado que não consta nos livros de Botânica. Cajá é outro tipo de fruto.
Meu pai imediatamente providenciou a muda e, quando retornei à cidade, lá estava o meu pezinho de tamarilho. Plantado e crescendo a todo o vigor. Amei aquela arvorezinha abençoada pelas mãos de meu pai, lavrador desde sua mais tenra infância. As plantas o amavam, e com ele cresciam felizes de existir.
Quase cinco anos depois (eu ainda não sabia disto), meu pai já teria partido deste mundo. O pé de tamarilho está lá no lote, firme. Cercado de cuidado pelos meus olhos gulosos de infância.
Nunca sabemos do amanhã; por isso vivemos agora refestelados de existência.