De um ponto de vista

Democracia em vertigem

16 de Julho de 2019, por João Bosco Teixeira 0

Democracia sempre me interessou. Considero o exercício democrático do poder uma força irresistível. Não desconheço, entretanto, os riscos que um democrata corre. Um, entre outros, de se tornar um demagogo. 

Em palavras simples, a democracia é um regime de governo cujo poder emana do povo. De origem nas cidades-estado gregas, lá mesmo a própria democracia já tinha suas falhas, já continha suas limitações. É que a democracia, entendida como governo do povo, “destina-se a todos os cidadãos, ou seja, a todos aqueles que gozam do direito de cidadania...”  Acontece que, nas tais cidades-estado, a grande maioria da população era escrava. Seus habitantes, pois, não gozavam de liberdade, não eram cidadãos. A democracia era, então, o governo voltado para uma ínfima minoria. Modernamente, a democracia nada mais é que a forma republicana de governo, em oposição à forma aristocrática.

A democracia, como noutros tempos, tem seus limites, configurados até nos desvios a que está sujeita. É muito fácil empanar, encobrir, empalidecer seu significado. Todos, que se dizem democratas, se empenham com os processos eleitorais, em todos os níveis. Esquece-se, entretanto, de que as eleições são apenas uma exigência da democracia. Ela vai além. Porque, se no processo eleitoral é-se capaz de identificar por quem a maioria da população faz opção, com tal processo não se identificam quais as ambições populares. Diz-se que isso é possível, pois os eleitores votam segundo os programas de governo. Balela, absoluta balela. Qualquer singela pesquisa demonstra a falsidade de tal afirmativa.

A democracia, como processo, tem suas exigências, intransferíveis. Grande entre todas, a exigência de um Judiciário. Governo do povo, pelo povo, com o povo sem judiciário é buraco n’água, é firmeza em lamaçal, é transparência em nuvens carregadas.

Foi assim que vi o recente documentário Democracia em Vertigem. Ao dispor-me a vê-lo, pensei, de um lado, em enriquecer-me, em fortalecer minhas convicções sobre a democracia; e, de outro, imaginei que acabaria por concordar com o título, pois a pobreza invadiu nosso sentido republicano, nossa visão democrática. Confesso que, no documentário, nem me entusiasmei, nem vi a democracia em vertigem. Já na voz da narradora senti um tom de lamento, de queixa. Portanto, subjetividade à flor da pele. Direito dela, ou de quem produziu o documentário, sem dúvida. Objetividade, entretanto, a léguas de distância. Se tivesse que avaliar o filme em pobres e únicas palavras, eu diria: a democracia está em vertigem porque um líder popular está preso, porque se perdeu o respeito pelo Judiciário.

 Convenhamos: uma visão muito pobre de democracia, pois democracia não existe onde há gurus, não existe onde há mitos intocáveis, não existe onde a autoridade maior não é o povo. Este pode querer ter um ídolo. A democracia, se o tiver, deixa de ser democracia.

Acredito, sim, que nossa democracia esteja em vertigem. Não, porém, pelas razões apresentadas no documentário: apologia de uma ideologia.

Trinta por cento de ...

18 de Junho de 2019, por João Bosco Teixeira 0

Corte ou não corte de trinta por cento da educação?

 É evidente que um educador não vai nunca concordar com isso. Mas, o educador não pode, também, se comportar como um fanático opositor do governo, ou como um seu cego seguidor. Se o educador não consegue ser livre, que outro profissional o será? Os educadores somos, por excelência, pessoas assumidamente comprometidas com a liberdade e a libertação das pessoas. Então?

Em primeiro lugar, não se trata de corte. É contingenciamento. E isso não é figura de estilo, eufemismo. É preciso lembrar que outros governos sempre fizeram isso. O penúltimo, por exemplo, contingenciou dez bilhões da educação.

Em segundo lugar, não se trata de trinta por centro. Quantos peritos já demonstraram isso, desde que a notícia foi veiculada.

Em terceiro lugar: o país está à mingua. Todos os setores da vida nacional precisam colaborar. E, embora falte dinheiro para a educação como um todo, sabe-se bem que no ensino superior é possível contingenciar. É preciso reconhecer a notável distância existente entre a capacitação profissional dos professores, que o Brasil produziu nos últimos tempos, e os resultados operacionais de tal capacitação. A desproporção é gritante. A análise custo/benefício é claramente desfavorável. É possível, por conseguinte, rever o investimento.

Como e onde, porém, fazer isso? Não é de forma linear, certamente, tratando situações diferentes da mesma maneira; e, segundo, não pode ser feito pelo governo que desconhece os dados das instituições. A colaboração que o governo espera das universidades públicas tem que passar pelas próprias universidades. Seus reitores sabem identificar ações em que contingenciar. E sabem mais que, em termos de pesquisa, não podem contingenciar nunca. Seria quase um crime. O Brasil está cem anos atrasado no setor. Mais cem anos ficaríamos, com tal contingenciamento. Estou, no entanto, convencido: as universidades podem colaborar. E seus reitores sabem disso. O ministro da Educação, este não sabe.

Uma questão à parte: se a educação no país anda à deriva; se o país precisa dos professores; se dos professores depende, em parte, a melhoria da educação; se os professores precisam ser mais bem tratados; então, os professores deveriam ser os primeiros a provar que eles são importantes, que eles merecem melhor tratamento, servidores públicos que são. Se assim é, não faz sentido manifestação em dia letivo. Nossas ações precisam comprovar nossa luta de servidores. Ninguém mais é otário para acreditar em manifestações de servidores públicos que os afastem de suas obrigações indispensáveis ao desenvolvimento. Não se pode dar margem a possíveis outras interpretações de tais paralisações.

Foi o que aconteceu com os comentários à disparidade das manifestações contra e a favor do Governo. As primeiras, realizadas em dia letivo, pelo pessoal ligado essencialmente à educação. As outras, num domingo, sem paralisação das atividades empreendedoras. As primeiras em cores vermelhas. As segundas, em verde e amarelo. Notável diferença, realmente.

Ser contra o governo não é razão para nós, educadores, fugirmos de nossos compromissos de servidores públicos.

Seis a cinco!

14 de Maio de 2019, por João Bosco Teixeira 0

O país vive uma orgia política. Sabia-se, desde o processo eleitoral, que com Bolsonaro no Governo teríamos uma crise por semana. Erramos. A crise acontece a cada dia.

Dois assuntos mexem muito comigo. Um, me deixa decepcionado. Outro, abismado.

Decepciona-me a posição de parlamentares que, não tendo seus intentos atendidos, abandonam o compromisso com reformas, há longo exigidas. Sentido republicano, zero; busca dos próprios interesses, dez. É verdade que o presidente da Câmara disse que o projeto da reforma da Previdência é maior que o programa do Governo. É triste, no entanto, verificar que desentendimentos verbais e ‘whatsapianos’ possam interromper, atrasar, dificultar a tramitação de ações, de cuja relevância ninguém de bom senso duvida. Nada a ver com “política”. Com politicagem, sem dúvida.

Outro assunto, aquele que leva o título desta matéria: seis a cinco. Seis a cinco é o resultado de várias votações sérias no Supremo Tribunal Federal. Nas cortes penais ocorre, com frequência, que o corpo de jurados condene ou absolva alguém com resultado quatro a três. Resultado que evidencia a falta de clareza para decidir. Em todo caso, jurados não são especialistas. Devem opinar em base às falas ouvidas da acusação e da defesa. Só ouvem e nada mais. Muito difícil formar convicção. Por isso, apesar de lamentável condenar ou absolver com resultado tão pífio, ninguém condena o corpo de jurados.

No Supremo Tribunal Federal, entretanto, um resultado seis a cinco é de arrepiar. Lá estão grandes especialistas. Lá estão onze “supremos”, muito bem pagos, muito bem assessorados. Então, um resultado por diferença mínima, é inaceitável. As matérias são sérias demais para que se decida dessa forma, sem nenhuma garantia do melhor. Sabe-se muito bem: nem todos os onze foram juízes. Alguns dentre eles foram e continuam sendo meros advogados. Não julgam; defendem. Ora, o Supremo não é lugar de advogado. Mais: lá não se discute nada; cada um lê seu parecer, enquanto os demais não necessariamente prestam atenção. Não se trocam informações. Não se valoriza a argumentação do colega. Fica-se com o próprio parecer, com a própria visão do assunto, sem se valer da opinião dos colegas que, sem vaidade, poderia levar a posicionamentos aproximados em torno da matéria. Nada disso. Cada um é independente, sabedor de tudo, controlador de toda a verdade, sem precisar de alternativa. Leem-se os votos, contam-se: seis a cinco. Decidem-se, assim, os rumos do país. Julgo isso um crime. Os ministros não estão lá para isso. Estão lá para buscar o melhor e não para que a nação tome ciência de seus conhecimentos. Deveriam estar lá para debater as matérias e decidir com, pelo menos, dois terços dos votos. Senão, para que se reúnem? Fique cada qual no seu gabinete. Envie o parecer pela internet.

No Supremo, razão é só razão, que satisfaz às exigências vaidosas de cada um. Em clara competição.

Onze ilustres cidadãos, ditos brilhantes, que não chegam a bom entendimento. Disso é que se diz: o fim da picada.

Fraternidade 2019

16 de Abril de 2019, por João Bosco Teixeira 0

François Varone escreveu livro muito sério: Esse Deus que dizem amar o sofrimento. Numa de suas passagens, declara: “Jesus realiza perfeitamente a síntese profética que quer que a paixão por Deus seja inseparável da paixão pelo homem.”

Varone explicitou o que o evangelista João, escancaradamente, proclama: “Se alguém disser ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, que não vê, não poderá amar.” (Jo 1,4-20)

Não há, definitivamente, cristianismo sem uma ação transformadora. Frequência aos sacramentos, santo sacrifício da Missa, sem preocupação com a melhoria de vida das pessoas, engano. Santa celebração da Semana Santa, sem modificação dos hábitos opressores, doce engano. Piedoso acompanhamento da procissão do Senhor Morto sem luta para que todos tenham vida e vida em plenitude, enorme engano. Cristianismo sem preocupação com Mariana, Brumadinho significa outras muitas barragens. Cristianismo com menores abandonados, sem escola; com o povo sem saúde, sem segurança, muito pobre cristianismo. Cuidado para com todos aqueles que não têm ‘com quem contar’, vigorosa expressão de cristianismo.

Outro dia sugeri a um dos sete párocos da cidade onde moro e que celebra diariamente a missa: padre, vamos deixar a missa hoje e vamos varrer a praça onde fica nossa igreja; está muito suja! Tive que sair quase correndo, para não ouvir uma espinafração. Eu sei que se pode fazer uma coisa, sem deixar de fazer a outra. Mas não temos feito ambas as coisas. Então, de vez em quando, poder-se-ia fazer uma que não é tão comum. Mas não se trata disso. Trata-se é de lembrar aos cristãos que a fidelidade aos sacramentos sem uma ação transformadora pode ser tudo, menos o que o cristianismo nos pede. Não é possível esquecer: “FAZEI isso quando vos lembrardes de mim.” FAZEI é o grande preceito. FAZEI é o critério de identificação com o seguimento de Jesus.  

Li uma coisa muito interessante: o grande e único pecado que se comete é o da omissão. Em primeiro lugar, omissão com relação à infinita bondade de Deus. Acreditamos pouco na misericórdia sem limites de Deus. Mas omissão também com aquilo de Jesus: Tive fome, tive sede, estava nu, sem abrigo, e... e.... e...

O cristianismo não é uma ideologia. É uma práxis. Ação. Sabe-se muito bem que o rito é parte essencial de nossas vidas. Em toda atividade, em toda manifestação de vida há rito. A vida, entretanto, não se exaure nos ritos. Neles, fica aprisionada. Neles, pode até ficar irreconhecível. O que dá sentido aos ritos é a vida, é a ação que eles simbolizam. Rito sem vida, é vida sem sentido. Vida que não produz vidas.

Quaresma celebrada em todas as manifestações penitenciais, oracionais, litúrgicas, paralitúrgicas sem transformação da vida pode ser Quaresma. Mas não será expressão de vida cristã. Cultural, talvez.

Quaresma: tempo da salvação.

Fraternidade: “Paixão por Deus inseparável da paixão pelo homem.”

Elis Regina

12 de Fevereiro de 2019, por João Bosco Teixeira 0

O seriado sobre Elis Regina, que a televisão apresentou e acompanhei em absoluta atenção, independentemente de qualquer consideração, me fez reviver muitas lembranças, curtir momentos inesquecíveis e, até mesmo, projetar outros tantos cheios de vida.

Que retrato de uma época fundamental sob o ponto de vista da vida de uma gente! Que emoções experimentadas nos levaram a observar certos acontecimentos, alguns ainda com lágrimas nos olhos! Afinal, no centro daquela vida, e da sua recordação, estava uma mulher nada comum, dotada de características até contrastantes: valente e com seus medos, altiva e endoidecida quanto se quiser, mas cuja linha da vida, marcada por tantas vitórias, culminou numa aparente derrota.

Foi maravilhoso ouvir de Elis, saído lá do fundo de sua alma: “que sonha com a volta do irmão do Henfil, de tanta gente que partiu num rabo de foguete”. Apreciar a visita de Elis à sua desconhecida Rita Lee me faz pensar de que são capazes pessoas assim, tão duras, tão determinadas, tão autossuficientes, e, ao mesmo tempo, capazes de atitudes meigas, atitudes de total desprendimento e plena consideração para com quem está só! Grande Elis, grandes todos os demais capazes de superar medo e apresentar-se como gente diante dos oprimidos.

Elis foi notável na sua multifacetada expressão. Ora a pedir: “Perdoem a cara amarrada, a falta de abraço... os dias eram assim”; ora a verificar que “quem cantava chorou ao ver seu amigo partir”; e confiar que “mesmo que o tempo e a distância digam ‘não’ ... qualquer dia, amigo eu volto a te encontrar”; ora a suplicar: “E quando passarem a limpo, e quando cortarem os laços, e quando soltarem os cintos e quando brotarem as flores, crescerem as matas e colherem os frutos ... façam a festa por mim”. Era admirável a riqueza de interpretação. Saía de dentro. Parecia nunca representar. Apenas externar.

Apesar de ter tudo na mão, com tudo pela frente, uma solidão imensa, capaz de solapar a admiração de toda uma classe social. Pouca solidão se compara com aquela que se refugia na droga.

Havia um grito íntimo a incomodar Elis, inapelavelmente: ser livre. Liberdade: “O maior dom que, dos deuses, os homens receberam e pelo qual vale a pena perder a honra e até a vida” (Quixote). Elis não conseguiu se libertar. Impedida pelos homens? Assim pensava Henfil quando a viu vítima de sua solidão: “Nós matamos Elis Regina: os homens não entenderam e não deixaram viver uma mulher livre.” Palavras de Henfil? Históricas? Os editores do seriado usaram-nas para justificar uma morte que ninguém queria.

Uma obra de arte pode ser vista sob mil aspectos e mil olhares. Isto é, a obra de arte é para ser contemplada. E contempla-se com a própria vida. O seriado sobre Elis Regina me levou à contemplação. Alongou-se em mim. Tempo, história, alegria, dor, tudo presente a dizer-me: é a vida, que é bonita, mas pode também doer.

Pequena grande Elis! Que saudade! Falta? Não. Está viva.