De um ponto de vista

Escravidão

18 de Julho de 2018, por João Bosco Teixeira 0

Ilustração Elimar do Carmo

Jessé de Souza, em seu livro A Elite do Atraso, dedica-se a dar “uma resposta crítica ao clássico Raízes do Brasil, do historiador Sérgio Buarque de Holanda, eternizado por incontáveis intelectuais de todas as colorações ideológicas e partidárias”. É o que está escrito na orelha do livro.

O autor defende uma tese fundamental: somos o que somos não por nossa herança portuguesa, mas porque a escravidão não terminou. Ele subordina a permanência de tal movimento social a três fatores ou aspectos: o capital econômico, o capital cultural e o capital social das relações pessoais.

O primeiro capital, sumamente importante, “dado que a elite econômica pode comprar as outras elites não econômicas”. O capital cultural, entendido como “a incorporação pelo indivíduo de conhecimento útil ou de prestígio”. E o social, caracterizado pelas “relações pessoais”.

Interessante como o notável pensador e escritor enfatiza a permanência da escravidão ligada a esses três fatores capitais. A cada um deles corresponde uma forma de escravidão: a econômica, a cultural e a relacional.

A escravidão econômica salta aos olhos de qualquer um nesse país das desigualdades. A escravidão cultural tem origem nos primórdios da vida daquelas pessoas que nascem sem a devida assistência, sem o devido amparo afetivo, sem a alimentação necessária, com mães impossibilitadas de dar o apoio afetivo aos filhos e, muitas vezes, distantes deles, sem poder lhes garantir a certeza de um amor indispensável para sua formação. Tais crianças crescem impossibilitadas de adquirir os conhecimentos que a vida exige. Tudo isso a confirmar a insuficiente educação, que caracteriza nossa gente e que nos impede de ser um povo à altura de suas possibilidades. Com essa escravidão cultural, é pouco o que se pode esperar das pessoas ao viver em sociedade. Essa escravidão, essa vida sem condições mínimas favorecedoras de uma autoimagem positiva, prolonga-se ao longo dos dias, deixando as pessoas incapazes de ocupar e exercer papéis a que teriam direito na sociedade. Tornam-se pessoas realmente pobres, escravas das condições mínimas de uma vida digna.

A escravidão das relações pessoais caracteriza aqueles que “não têm com quem contar”: vivem na tremenda escravidão da solidão existencial, apesar de sermos um povo “cordial”, marcadamente focado nas pessoas. A ausência de tais relações não só empobrece a vida, como dificulta a existência decente nas diversas redes que a sociedade constrói para seus cidadãos. 

Li o livro de Jessé, satisfeito com a análise que apresenta “outras formas de escravidão”. Identifiquei-me com o pensamento-chave do autor, que apresenta nossa herança escravocrata “usada para oprimir todas as classes populares, independentemente da cor da pele”. 

Uma grande discordância, entretanto, mantenho com o autor:  não consigo ver na Lava-Jato “o pacto dos donos do poder para perpetuar uma sociedade cruel forjada na escravidão”. Vejo nisso uma clara adesão à ideologia que nos levou onde nos encontramos: caos político e econômico.

Prefiro manter minha independência intelectual a sujeitá-la a uma ideologia político-partidária.

Espelho

12 de Junho de 2018, por João Bosco Teixeira 0

Há um elemento da cultura universal, expresso também na literatura e nos tratados de várias ciências humanas, que oferece chaves para a leitura e interpretação de aspectos do comportamento humano.  Trata-se do “mito”.

Os mitos contêm fonte enorme para a leitura da vida.  De per si, eles nos levam até o fundo das reservas psíquicas da humanidade. Eles criam uma ponte entre o desconhecido e o conhecedor.

Considero, aqui, o mito de Narciso, que se vê refletido no espelho das águas.

 Falar de Narciso é falar, pois, de “espelho”. Espelho que favorece uma investigação orientada, de um lado, para o amor (eros); e, de outro, para a morte (tánatos). No centro do mito, encontra-se o olhar, na sua função de ilusão: Narciso se olha e não se reconhece. Narciso se desconhece no outro. Para Narciso, o mundo se abre em sons e luzes, mas também fecha-se no silêncio e no escuro. O que leva Pausânias a dizer que Narciso não se dando conta de que via sua própria imagem, apaixona-se por si mesmo e morre de amor à beira da fonte. No mito verifica-se a verdade da dramatização de valores conscientes e inconscientes, numa radical apreensão da realidade. De que são capazes os espelhos!

E quem não os tem? Maiores, menores, todos a refletirem a imagem que diante deles se posta. Imagem plurifacetada da mesma figura, na dependência de tantas variáveis, quais tempo e espaço, luz e sombras, consciência e inconsciência. Para cada tempo e circunstância o espelho dá uma resposta. É gerador de alegrias e tristezas, de felicidade e infelicidade, de amor e ódio. Pode-se utilizá-lo com total desembaraço. Igualmente, com absoluto comprometimento. Para tudo dá oportunas respostas. Pode alcançar a verdade ou deixá-la suspensa. Pode ser fonte de confiança e de desconfiança. Fonte de amor e de sofrimento no amor. Sempre a retratar uma realidade.

A leitura dos mitos é uma forma de psicoterapia individual. E no mito de Narciso, o espelho é, então, excelente instrumento para que as pessoas perscrutem seu próprio ser, sua humanidade, sua mortalidade. É excelente instrumento que pode levar as pessoas a superarem a ilusão de onipotência, de eternidade.

Cantado e decantado em mil formas ao longo da história da humanidade, Narciso continua vivo como forma inexcedível de contemplação da realidade: rica, assustadora, tranquilizadora. Sempre realidade. Sempre espelho.

Fico a pensar se se tem no espelho uma ajuda inestimável. Fico a pensar de que liberdade é preciso estar dotado para se mirar no espelho, dada a imensa variedade de sentimentos que o se ver no espelho é capaz de manifestar. Mas fico também imaginando...

Fossem as paredes de tantos espaços públicos cobertas de espelhos, talvez tivéssemos saudável melhoria no comportamento de nossos representantes públicos, homens e mulheres. Quem sabe os levaria a entender que não podem ser eles os contemplados pela sua atividade política. Quem sabe os levasse a abandonar os holofotes que os cegam.

Narciso. Espelho. Reflexo da intimidade profunda. Vida real. Realidade viva!

Homens públicos e pivetes

15 de Maio de 2018, por João Bosco Teixeira 0

Contou-me um amigo que certo cidadão, visitando uma biblioteca que, em tempos idos, havia frequentado e que, no momento, estava um tanto abandonada, retirou de lá um ou dois livros que lhe interessavam. O amigo, por julgar o fato um tanto suspeito, indagou de mim “o que você acha disso?”.

Tentando lhe dar uma resposta, falei-lhe de meus tempos em Belo Horizonte quando via e conhecia pivetes nas ruas que, sem a menor sem-cerimônia, cometiam pequenos assaltos. Destituídos de qualquer sentimento de culpa, pensavam estar em seus legítimos direitos. Muitos não tinham onde dormir, desconheciam relações familiares, escapuliam das escolas, onde eram discriminados e que não lhes favoreciam relações respeitosas, capazes de ajudar na formação de um caráter oportuno para a vida em sociedade.

Falei mais com meu amigo. Desta vez, no entanto, com uma indagação:  você acha que nossos homens públicos ao se permitirem apossar-se do dinheiro comum, receber propinas, sentem algum mal-estar? E, se católicos, vão por acaso se confessar e restituir o que “roubaram”?  Na minha opinião, não. Nem se sentem mal, nem se confessam. Julgam estar em pleno direito de fazer o que fazem, com a desculpa de que gastaram muito para se eleger e para chegar onde chegaram; administram fortunas e parece-lhes que os salários não são suficientes dada a “importância” das vidas que levam.

Penso realmente assim dos pivetes e dos homens públicos que cometem tais crimes. A única diferença entre as duas categorias fica no montante que é surrupiado. E o mesmo penso do cidadão que retirou livro da biblioteca. Nada de escrúpulos.

O amigo que solicitara minha opinião disse apenas: que tempos, que costumes!

A Lava Jato anda já em seu terceiro ou quarto ano. Há gente que ainda se comporta como se nada estivesse acontecendo. Para tal gente o cargo que ocupa, o poder de que está imbuída garante-lhe impunidade e a certeza de que os crimes que comete não passam de direito que possui.

Aquele ideal ético, imperativo categórico, apregoado pelo grande filósofo Kant, que em palavras simples se expressa com “o dever é o bem”, pivetes e políticos desconhecem. Estes pelo desprezo que nutrem para com uma vida que servisse de modelo para outros. Aqueles, pela simples ignorância. Para ambos, o tal ideal ético nem é imperativo, e tão pouco categórico. 

Tudo isso leva Wilson Campos a desabafar, em O Tempo, ao dizer: Causa engulhos e revolta o desplante dos sem-caráter que, de forma acintosa, praticam os mais ignóbeis atos de canalhice.... Causa tristeza assistir a tudo isso e não poder deletar da vida pública os autores das ilicitudes, colocar na cadeia os ladrões de vidas e banir da sociedade os destruidores de sonhos”.  Quem dera fosse isso apenas “literatura”. É mais. E não é ficção.

Retirar livro de biblioteca. Perpetrar ligeiros assaltos. Desviar dinheiro público de sua finalidade para uso próprio são nomes diferentes para crimes semelhantes.

Ressuscitou

17 de Abril de 2018, por João Bosco Teixeira 0

A quaresma e a celebração da paixão e morte de Jesus precedem o grande dia da Páscoa, da “passagem” de Jesus pela morte, da sua ressurreição. A relação entre a morte e a ressurreição é tão forte que uma não existe sem a outra. A ressurreição é a vitória sobre a morte. Dom absoluto de Deus, ela é a posse da vida sem tempo, tempo sem espaço, plenitude de vida, no infinito de um corpo transformado, transfigurado. A ressurreição implica um modo de existência já não mais físico ou material.

 Jesus ressuscitou. Isto é, saiu para a vida além dos sinais e mecanismos de humilhação exploradores do corpo. Nós também ressuscitaremos para a mesma vida além dos sinais e mecanismos de corrupção, empobrecedores do trabalho humano. Ressuscitaremos para uma vida digna, que vai além dos conflitos que estraçalham a dignidade das pessoas. Ressuscitaremos para uma vida que ultrapassa a morte.

Jesus morreu na cruz. A tradição cristã nunca conseguiu separar a morte de Jesus da cruz. Mais: a cruz tornou-se símbolo forte na vida dos cristãos a ponto de identificar um processo de vida e de morte. Parece que para morrer é necessária a cruz. Necessária, não. Presente, sim. Morreremos. E, quem sabe, através da cruz.

A cruz é símbolo admirável, belo no seu desenho, grandioso no seu significado: duas travessas, em perpendicular. Uma delas apontando para as alturas, para o infinito, para a transcendência. Outra, para a horizontalidade, para as relações igualitárias, para a comunidade. Uma não existe sem a outra. No desenho da cruz, não há verticalidade sem horizontalidade. No seu simbolismo, não há fé sem compromisso com os irmãos. Por isso é que não há vida sem cruz. E, mais, não há morte sem cruz. Cruz, no entanto, que desaparece nos seus dois vértices, nas suas duas dimensões, suas duas exigências, derrotadas pela ressurreição, que já nos coloca na posse da transcendência e na plena comunhão fraterna.

Nossa ressurreição, a exemplo da de Jesus, passa pela cruz. Cruz construída na solidariedade para com os outros, buscada com esforço diuturno. Cruz presente na vida de partilha e amor, sem fim nem fronteiras. Cruz, fruto da dedicação ao trabalho que produz vida, vida que vence a morte pela ressurreição. Cruz, resultado da incansável prática da justiça nas relações, justiça que mata a morte, justiça que anuncia a ressurreição. Cruz, enfim, produzida pela superação de qualquer tipo de morte, inclusive aquelas de todos os dias que insistem em nos prender aqui nesta terra. Cruz que é vida.

Jesus teve sua cruz. Sofreu a morte. Ressuscitou para garantir-nos que a vida venceu a morte.

A festa de páscoa não é de aniversário, celebração do passado, da vida vivida. É festa de anúncio do dia que vem vindo. Jesus teve sua “passagem” pela morte na noite imensa em que Deus se nos revelou como luz. A nós convém, portanto, abandonarmos o medo das cruzes e das trevas, produtoras de morte, e deixarmo-nos iluminar pelo Ressuscitado, que vive entre nós, porque superou a cruz e a morte.

Por que não se entendem?

13 de Marco de 2018, por João Bosco Teixeira 0

Como gestor público e como psicólogo ligado à dinâmica de grupo, sempre tive dificuldades em lidar com certos comportamentos. Refiro-me à resistência que as pessoas têm para se entenderem, quando há diversidade de opiniões.

O momento brasileiro anda suplicando por pessoas públicas que queiram se entender. Não há tantas. E nenhuma, sozinha, é capaz de superar os constrangimentos nacionais que vamos vivenciando. A situação suplica pelo entendimento entre as pessoas. Não há como esperar isso dos partidos políticos. Sem programas de governo, minimamente suficientes para colocar na linha tantos descaminhos a que se chegou, eles nem têm sobre o que conversar.

Nestes dias, li Cristóvão Buarque e Patrus. Duas mentes pensantes, inclusive criadoras de um partido que surgiu quase como salvador da Pátria, por seu combate a numerosos erros que, depois, veio a implementar, vergonhosamente.

Apesar da qualificação dos dois ilustres políticos, que distância permeia a visão política que possuem. Ou a visão que têm dos fatos. De Cristóvão, um dia ouvi frase terrível: “O PT, mais que a política, corrompeu a inteligência e o caráter”. Agora, em 9 de fevereiro, em O Tempo, ele lamentava: “A tragédia brasileira não é não poder contar com o imenso potencial do PT e de Lula... É eles terem abandonado propostas de economia eficiente, sociedade justa, civilização sustentável, política ética”. Pior: “O PT não entendeu a gravidade do momento: não reconheceu seus erros e não percebe que o mundo real aposentou a falsa verdade entranhada nas mentes de seus militantes...”

Patrus, de seu lado, no dia 10 passado, também em O Tempo, depois de declarar que “Estamos vivendo hoje um processo de desmonte de todas as conquistas e direitos sociais que tivemos”, proclama: Implantamos políticas públicas e sociais que mudaram o país”. Cristóvão não pensa assim: “O partido ficou 13 anos no poder, sem deixar qualquer reforma em marcha”. E refere-se a “falsas narrativas:” a “ascensão da classe média pela Bolsa Família”, o “salto científico pela Ciência sem Fronteiras”, a “revolução educacional pelas vagas na universidade”.

Lula é a maior liderança política do país,” diz Patrus. Mas, para Cristóvão: “A incapacidade para ver a realidade está impedindo o Brasil de beneficiar-se do que ainda sobrevive no PT”.

Dois ícones. Duas mentes ainda pensantes que, juntas, talvez pudessem retomar os primevos ideais do partido e, aliados a outros, projetar melhores dias políticos para o país. Não é a diversidade de opinião que separa esses dois grandes de nossa política. É a fixação de posição em questões que não podem estar eternamente estabelecidas. Comeram e beberam juntos. Por que não esquecerem o que comeram e beberam e, juntos, optarem por novas bebidas e comidas? Qualquer “partido”, colocado acima dos ideais, é e será sempre um empecilho ao desenvolvimento. É, e será sempre, uma forma subliminar de dominação e opressão.  É, e será sempre uma venda colocada nos olhos, com clara redução da visão da realidade. Exemplo disso é o que diz Patrus: “Quanto mais eles tentam condenar Lula, mais ele cresce”. Essa, uma face da verdade. A outra, é que cresce também a rejeição ao companheiro, pois de nordestino já não tem nada, e se encontra no alto da elite brasileira sulista, colhendo os frutos da força dada aos banqueiros. 

A venda nos olhos é terrível. Leva as pessoas a não perceberem que “O excesso de convicção não torna certo o que está errado.”