De um ponto de vista

Três momentos de nossa história

21 de Maio de 2024, por João Bosco Teixeira 0

- “Permanente como as grandes endemias que devastam a humanidade, universal como o vício, furtivo como o crime, solapador no seu contágio como as invasões purulentas, corruptor de todos os estímulos morais, como o álcool, ele zomba da decência, das leis e da polícia, abarca no domínio de suas emanações a sociedade inteira, nivela sob a sua deprimente igualdade todas as classes, mergulha na sua promiscuidade indiferente até os mais baixos volutabros do lixo social, alcança no requinte das suas seduções as alturas mais aristocráticas da inteligência, da riqueza, da autoridade e dos destroços das longas madrugadas do Cassino”. (Rui Barbosa)

 

- “O serviço público será sempre um serviço mau e caríssimo, além de redundar na criação de um viveiro de empregados sem os requisitos necessários para o bom desempenho de suas funções, pelo menos em véspera de eleições. Aí serão colocados todos os companheiros que, não podendo vencer na vida e se equilibrar em determinada profissão, recorrerão a esse meio”. Gaspar Saldanha, deputado estadual do Partido Federalista Gaúcho em 22 de novembro de 1919.

 

- O Brasil já não possui CONSTITUIÇÃO. O que há são Onze Constituições ambulantes no país, uma em Nova York, outra em Londres e por aí. (Aldo Rebelo)

 

- Aos brasileiros não convém saber por onde, com quem, para que autoridades servem-se dos aviões da Força Aérea Brasileira ao se locomoverem, pois O TCU autoriza sigilo de autoridades em voos de avião da FAB.

 

- Os desgastes entre os Três Poderes ganharam novo capítulo após o ministro Cristiano Zanim atender a um pedido do Governo Lula e suspender trechos da lei que prorrogou a desoneração da folha de empresas e prefeituras.

 

Como não viver hoje uma lembrança? Como não ver na lembrança uma denúncia? Como não entender essa denúncia face a uma realidade tão desconfortável? Assalta-me uma certeza: não nos podemos deixar mais levar pela razão. Não, já não há lugar para ela em nossos dias político-judiciários. A razão nos foi roubada. A razão está envolta em sangue. Já não lhe sobram espaços. Onde ela devia imperar, a garantir vida segura para todos, implantou-se supremo poder judiciário, incontestável, garantidor de que o crime compensa, de que nenhum sofrimento seja capaz de sensibilizá-lo, de que seus membros têm, na ironia, a máxima manifestação de seu comportamento ético.

Já nenhum motivo existe para que os humanos se sintam seres pensantes. Pensar tornou-se um risco de lesa majestade, embora majestade não haja, de direito, em nenhum daqueles que se conferiram poderes eliminadores da Constituição. Os brasileiros fomos reduzidos a espécies menores da natureza, aquelas sem qualquer vestígio de razão. O homem, entre nós, está nu. A razão nos foi desqualificada. Ao corpo amordaçado, resta-lhe apenas um coração partido pela vergonha. Restam-lhe as emoções, ainda assim, com enormes restrições, ainda assim, com olhos embebidos de ódio a nos contemplar, ameaçadores”. Discurso em 21 de abril de 2024, na celebração emblemática do mártir Tiradentes.

Jesus, o libertador

24 de Abril de 2024, por João Bosco Teixeira 0

Durante a Semana Santa, vi na TV uma entrevista sobre a Teologia da Libertação. Porque o tema me é muito caro, pus-me a apreciar a conversa. O entrevistado mostrava conhecimento da matéria. Os entrevistadores, entretanto, começaram a narrar fatos disparatados, quais padres a celebrar missa com variadas bebidas, a substituir o pão por carnes assadas e outras tolices. E atribuíam tais comportamentos à Teologia da Libertação. Não suportei e não suporto tal ilação.

Teologia da Libertação é assunto muito sério. E aqui não é o espaço oportuno para discorrer exaustivamente sobre a matéria. Quero apenas lembrar aos interessados alguns aspectos que demonstrem a tolice de algumas considerações feitas na entrevista.  

Antes de mais nada, se existe alguma teologia cujo objetivo não seja libertar os fiéis, com certeza não se trata de teologia cristã.

Em segundo lugar, a Teologia da Libertação se ocupa, notavelmente, com a figura de Jesus. Ora, o maior título bíblico de Jesus é aquele de libertador. Jesus esteve entre os humanos para libertá-los de tudo quanto os escravizava. E Ele não veio propor uma doutrina, mas uma prática restauradora da vida; prática libertadora da vida. Por isso é que Jesus não levava em consideração os méritos das pessoas, mas suas necessidades.

Não se pode negar que a teologia chamada de “Teologia da Libertação” traga, no seu bojo, novidade. Tanta novidade, quanta a novidade que Jesus mesmo o foi e é. O Deus de Jesus não é o Deus do Antigo Testamento. O Deus de Jesus é aquele que os Evangelhos nos fazem “experimentar”.

Se assim é, por que tanta divergência na avaliação dessa Teologia? É que as igrejas cristãs têm “marginalizado” o Evangelho. E ao marginalizá-lo, o colocam também à margem de nossas vidas e da sociedade.

“Para os homens da religião, o que vem em primeiro lugar é a observância da religião, enquanto que, para Jesus e o Evangelho, o que vem em primeiro lugar é a vida, dar a vida, remediar o sofrimento, curar a enfermidade”, segundo o teólogo espanhol Castillo. É pensamento que bate mal em muitos ouvidos cristãos.

Há mais. A Teologia da Liberdade leva o humano, radicalmente, em consideração, convencida de que não há manifestações divinas que não se expressem mediante a carne, pois é somente na humanidade que Deus se torna visível. E isso não é uma liberdade teológica, mas uma teologia libertária.  

A Teologia da Liberdade é condenada por tanta gente visto que ela, fundamentada nos Evangelhos, privilegia o olhar para os mais deserdados da sociedade. Não é que o Evangelho e Jesus condenem a riqueza e outras manifestações de privilégio; condenam, isso sim, a indiferença diante da pobreza, condenam as diferenças quando essas inferiorizam as pessoas. Para Jesus, a carência e a miséria nascem do egoísmo de todos os que retêm para si aquilo que, pelo contrário, é destinado a pertencer a todos. Tanta gente ainda hoje quer ver Jesus REI, soberano todo poderoso, ele que “nunca foi visto como representante da Lei, mas como profeta da compaixão de Deus”, no dizer de outro grande teólogo espanhol, Pagola. Jesus tinha plena consciência de que sua missão era a de comunicar e favorecer a vida.

Segundo a referida entrevista, a Teologia da Libertação, para muitos, virou saco de pancada, responsável pelo comportamento leviano e irresponsável de certas pessoas que cometem verdadeiras aberrações. Mas nessa ordem de raciocínio, iríamos nós também dizer que a teologia clássica foi quem deu sustentação aos numerosos erros da Igreja Católica: em primeiro lugar, a sua clericalização e hierarquização, a perseguição aos judeus, as guerras santas, a inquisição, a condenação de Jordano Bruno, Savonarola, Galileu, e de muitos teólogos católicos atuais.  

A Teologia da Libertação é tão fiel aos Evangelhos quanto estes são uma fiel apresentação do comportamento de Jesus, o Libertador.

Ele ressuscitou

27 de Marco de 2024, por João Bosco Teixeira 0

Nós cristãos vivemos um período especial nesta época do ano. Celebramos a quaresma, iluminada, além de tudo, pela Campanha da Fraternidade, como preparação para a nossa maior festa: a Páscoa de Jesus, a comemoração de sua Ressurreição.

Trata-se da grande festa dos cristãos por sabermos que Jesus, com sua passagem pela morte, inaugurou um novo tempo em que todos são convidados para a comunhão de vida eterna com o Pai. É tempo de alegria geral. É a festa da vida que estava esmagada e sofrida e que é resgatada por Jesus. É a festa da plenitude da vida, pois a morte nos retira apenas os limites: o pequeno eu que somos se dilui e retornamos ao “Princípio in-principiado”.

Na vida, na morte e na ressurreição de Jesus, nos encontramos e nos envolvemos com aquilo que o coração humano postula de mais precioso: a liberdade. A Ressurreição de Jesus anuncia a nossa libertação. E a libertação nos lança na transcendência da vida, na permanente possibilidade de ruptura com os determinismos e alienações do existir.  Não por nada, o grande pensador Garaudy disse e escreveu: “O homem não nasceu para morrer, mas para começar. Viver, sim, como um poema, mas sempre nascendo e renascendo” até na explosão de seu existir. Acreditar, então, na Ressurreição é crer no dom da vida plena, eterna.

Não há dúvida: tudo isso é objeto da fé. Não é do conhecimento. O que, porém, não significa que seja algo contra a razão, dado que essa nos foi infundida qual “sopro do criador numa atitude repleta de amor”. Portanto, nada de oposição entre razão e fé. Como também nada de exclusão. Nada na razão ofenda a fé. Nada na fé exclua a razão. Ainda mais que a fé não é o aprendizado de uma doutrina, mas é a esperança alimentada na comunhão com os irmãos na comunidade.  A fé se realiza no existir. E somos muito felizes por sabermos que o objeto da fé só o podemos alcançar pela nossa humanidade. Deus se faz visível para nós naquilo que somos: humanos.

Jesus é a encarnação de toda essa verdade. E ele o é porque possuiu em plenitude a humanidade. Tão radical ela foi que ele se constituiu como a face humana de Deus. Deus se revela na humanidade de Jesus. O caminho para Deus passa pelo homem. O cristianismo vê a Deus no homem.

Páscoa o “dia que o Senhor fez”, conforme a liturgia católica. Dia em que todos aqueles que se aproximam de Jesus tomam, ou podem tomar, consciência de sua plena liberdade. Liberdade advinda não pela adesão a uma verdade, a uma doutrina, mas adesão a uma prática restauradora da vida. Liberdade da consciência oprimida por toda sorte de alienação. Por isso é que Jesus, ressuscitado, vive, está no meio de nós”, não qual verdade a ser pensada, mas qual presença a ser vivida.

A gente não escolhe como vem para este mundo, mas pode escolher como vai embora. Para os cristãos, o caminho de volta é Jesus que se fez “símbolo, arquétipo do ser mais integrado e perfeito que irrompeu no mundo a ponto de mergulhar no próprio mistério recôndito de Deus e com ele identificar-se” na expressão do grande teólogo Leonardo Boff. Seguir Jesus é sinônimo de ser cristão, ligar-se a ele pela fé, pela esperança, pelo amor, pelo Espírito.

Consola-nos saber que o caminho não é só o trajeto de uma pessoa para Deus, mas também o trajeto de Deus em sua aproximação a cada um de nós.

Ele ressuscitou. Vive no meio de nós.

Duzentos anos de um sonho de São João Bosco

28 de Fevereiro de 2024, por João Bosco Teixeira 0

O Fundador da Congregação Salesiana, São João Bosco, foi uma pessoa dotada de características peculiares. Uma delas, ter encontrado nos sonhos respostas, caminhos e soluções para as muitas peripécias que a vida lhe apresentava.

Certa época da vida, quando já sacerdote, relatou a seus colaboradores um sonho que tivera em sua adolescência. Um sonho cujos conteúdos tornaram-se emblemáticos para a missão que, entendia, lhe estava reservada. “Um sonho que me ficou profundamente impresso na mente por toda a vida”.

Singela e resumidamente, o que ele narrou para seus colaboradores foi o seguinte.

“Vi-me num prado onde multidão de meninos se divertia. Diante das blasfêmias que proferiam, pus-me no meio deles, agredindo-os com socos. Nisso, vi um homem venerando que, chamando-me pelo nome, me disse: ‘Não é com pancadas, mas com a mansidão e a caridade que deverás ganhar esses teus amigos’. Dirigi-me àquele senhor: quem sois para me ordenar coisas impossíveis, dado que sou menino pobre e ignorante? O senhor falou-me: ‘Eu te darei a mestra, sob cuja orientação poderás tornar-te sábio, orientação sem a qual toda sabedoria se converte em estultice’. Apareceu-me, em seguida, uma senhora de aspecto majestoso que me tomou pela mão. No lugar dos meninos que haviam fugido, apareceram cabritos, cães, gatos, ursos e outros animais. A senhora falou-me: ‘Eis o teu campo onde deves trabalhar. Torna-te humilde, forte e robusto. E o que agora vês acontecer a esses animais, deves fazê-lo aos meus filhos’. Os animais ferozes haviam se transformado em mansos cordeiros. Comecei a chorar copiosamente quando, então, a senhora descansou a mão em minha cabeça dizendo: ‘A seu tempo tudo compreenderás’”.

Independentemente do que sejam os sonhos, das inúmeras indagações possíveis sobre esse “oráculo da noite”, o fato é que para São João Bosco o sonho, tido na adolescência, tornou-se referência obrigatória para sua atividade pedagógica no meio da juventude.

Dom Bosco entendeu qual seria sua missão. Entendeu também quais princípios deveriam orientar seu trabalho. Antes de qualquer outra coisa, intuiu que a essência do processo educativo se dá com a presença/relação. Sem esta, nada acontece, pois só a “relação” educa. Uma relação racional, sem espaço, por exemplo, para o castigo. Uma relação carinhosa, em que o educando sinta que é amado.  E uma relação espiritual, da qual não se elimina a transcendência do existir.

Os Salesianos estão comemorando os “duzentos anos” desse sonho porque acreditam que, ainda hoje, mesmo com os tempos mudados, a presença/relação do educador ao lado do educando é, no processo educativo, não só fator insubstituível como constitui seu fator chave de sucesso. E os seguidores de Dom Bosco sabem que a salesianidade não se dá sem a presença entre os jovens.

Dom Bosco entendeu, pois, o que dele esperava a Divina Providência. Mais ainda: levou toda uma vida dedicada aos jovens segundo os princípios educativos colhidos daquele sonho. Um sonho luminar que inspirou o assim chamado “sistema preventivo na educação da juventude”. Preventivo no sentido de o educador ser capaz, com a presença/relação, de se antecipar aos desejos, às aspirações, às necessidades dos educandos. Do meu ponto de vista, uma maneira de ser educador com absoluta validade para nossos dias tão conturbados.

Duzentos anos de um SONHO que apontou para São João Bosco, e seus seguidores, a maneira de graça para os jovens em des-graça.

Francisco, Papa

25 de Janeiro de 2024, por João Bosco Teixeira 0

Recebi de um grande amigo a mensagem abaixo.

“Tenho minhas diferenças com Papa Francisco e suas fantasias pt-peronistas; mesmo assim, rezo por ele todos os dias. Mas, douto presbítero João, estaria ele impedido, pela nossa Santa Madre Igreja, de abençoar em particular um casal homoafetivo sincero?

Respondi ao prezado amigo:

Sim, enquanto o Papa fala de uma simples bênção, não faz nada diferente do que Jesus faria. Mas, em se tratando de conceder uma bênção matrimonial, Francisco já não pode fazer isso. Francisco é o “presidente” de uma instituição. Ora, instituições têm suas leis, sobretudo aquelas que se dizem de origem divina. E Francisco, como maior mandatário, tem que levar isso em consideração. Além do mais, nosso querido Papa falando de uma simples bênção já apanha tanto, imagina se...

É assim. Francisco tem se apresentado como uma pessoa radicalmente tocada pelo seguimento de Jesus. A linguagem que utiliza em todos os seus escritos nada tem de apologética, de combate a heresias e outras conversas. É uma linguagem “pastoral”, isto é, de “pastor” preocupado com o atendimento das necessidades das “ovelhas”.

Um dia Francisco escreveu sobre a “felicidade”. Um texto extraordinário, de alguém que conhece profundamente o ser humano, rico e pobre, certo e errado, constante e inconstante, alegre e triste, vibrante e deprimido, desesperado e esperançoso, religioso e indiferente. Um texto muito rico. Numa linguagem sem dogmatismos, sem verdades preconcebidas, sem definições que nada definem. Quando tomei conhecimento desse texto, perguntava-me: que papa PIO, ou BENTO, ou LEÃO, ou qualquer outro escreveria daquela maneira? Talvez um JOÃO XXIII ou JOÃO PAULO I. Não sei se outro. Um jeito de falar que não exclui ninguém, aproxima as pessoas, deixa-as livres porque consoladas, esperançosas porque sem paradigmas aprisionadores.

Vejo Francisco como pastor; ele sabe que seu título maior é aquele de Bispo de Roma; e porque Bispo de Roma, aí sim, Papa, primaz entre todos. Como pastor, Francisco é capaz de enxergar bem e menos bem, é capaz de distinguir com maior e menor precisão, de se deixar levar por bons e maus ventos, até mesmo de se deixar influenciar por conselheiros diversos e, então, ter opiniões nem sempre favoráveis a quanto muitos pensam. No pastoreio nada é definitivo, porque as situações são as mais variadas. O pastor está sujeito a tudo quanto pode acontecer com um pastor que conhece suas ovelhas. Não é infalível, porque se trata sempre de gente. E ele é pastor de toda gente “de boa vontade”.

Então, mesmo com “suas fantasias pt-peronistas”, como dizia meu amigo, entendo que nosso Papa anda muito nas pegadas de Jesus. E se, em nossa Igreja, tantos há que não o aplaudem, não só, mas que o criticam abertamente, a cada um desses cabe sempre a pergunta: quais pegadas você segue, em que luz as segue, movido por quais intenções e interesses?

Francisco, Papa, nunca se esqueceu de que ele é aquele JORGE BERGOGLIO, arcebispo de Buenos Aires.