De um ponto de vista

Seis a cinco!

14 de Maio de 2019, por João Bosco Teixeira 0

O país vive uma orgia política. Sabia-se, desde o processo eleitoral, que com Bolsonaro no Governo teríamos uma crise por semana. Erramos. A crise acontece a cada dia.

Dois assuntos mexem muito comigo. Um, me deixa decepcionado. Outro, abismado.

Decepciona-me a posição de parlamentares que, não tendo seus intentos atendidos, abandonam o compromisso com reformas, há longo exigidas. Sentido republicano, zero; busca dos próprios interesses, dez. É verdade que o presidente da Câmara disse que o projeto da reforma da Previdência é maior que o programa do Governo. É triste, no entanto, verificar que desentendimentos verbais e ‘whatsapianos’ possam interromper, atrasar, dificultar a tramitação de ações, de cuja relevância ninguém de bom senso duvida. Nada a ver com “política”. Com politicagem, sem dúvida.

Outro assunto, aquele que leva o título desta matéria: seis a cinco. Seis a cinco é o resultado de várias votações sérias no Supremo Tribunal Federal. Nas cortes penais ocorre, com frequência, que o corpo de jurados condene ou absolva alguém com resultado quatro a três. Resultado que evidencia a falta de clareza para decidir. Em todo caso, jurados não são especialistas. Devem opinar em base às falas ouvidas da acusação e da defesa. Só ouvem e nada mais. Muito difícil formar convicção. Por isso, apesar de lamentável condenar ou absolver com resultado tão pífio, ninguém condena o corpo de jurados.

No Supremo Tribunal Federal, entretanto, um resultado seis a cinco é de arrepiar. Lá estão grandes especialistas. Lá estão onze “supremos”, muito bem pagos, muito bem assessorados. Então, um resultado por diferença mínima, é inaceitável. As matérias são sérias demais para que se decida dessa forma, sem nenhuma garantia do melhor. Sabe-se muito bem: nem todos os onze foram juízes. Alguns dentre eles foram e continuam sendo meros advogados. Não julgam; defendem. Ora, o Supremo não é lugar de advogado. Mais: lá não se discute nada; cada um lê seu parecer, enquanto os demais não necessariamente prestam atenção. Não se trocam informações. Não se valoriza a argumentação do colega. Fica-se com o próprio parecer, com a própria visão do assunto, sem se valer da opinião dos colegas que, sem vaidade, poderia levar a posicionamentos aproximados em torno da matéria. Nada disso. Cada um é independente, sabedor de tudo, controlador de toda a verdade, sem precisar de alternativa. Leem-se os votos, contam-se: seis a cinco. Decidem-se, assim, os rumos do país. Julgo isso um crime. Os ministros não estão lá para isso. Estão lá para buscar o melhor e não para que a nação tome ciência de seus conhecimentos. Deveriam estar lá para debater as matérias e decidir com, pelo menos, dois terços dos votos. Senão, para que se reúnem? Fique cada qual no seu gabinete. Envie o parecer pela internet.

No Supremo, razão é só razão, que satisfaz às exigências vaidosas de cada um. Em clara competição.

Onze ilustres cidadãos, ditos brilhantes, que não chegam a bom entendimento. Disso é que se diz: o fim da picada.

Fraternidade 2019

16 de Abril de 2019, por João Bosco Teixeira 0

François Varone escreveu livro muito sério: Esse Deus que dizem amar o sofrimento. Numa de suas passagens, declara: “Jesus realiza perfeitamente a síntese profética que quer que a paixão por Deus seja inseparável da paixão pelo homem.”

Varone explicitou o que o evangelista João, escancaradamente, proclama: “Se alguém disser ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, que não vê, não poderá amar.” (Jo 1,4-20)

Não há, definitivamente, cristianismo sem uma ação transformadora. Frequência aos sacramentos, santo sacrifício da Missa, sem preocupação com a melhoria de vida das pessoas, engano. Santa celebração da Semana Santa, sem modificação dos hábitos opressores, doce engano. Piedoso acompanhamento da procissão do Senhor Morto sem luta para que todos tenham vida e vida em plenitude, enorme engano. Cristianismo sem preocupação com Mariana, Brumadinho significa outras muitas barragens. Cristianismo com menores abandonados, sem escola; com o povo sem saúde, sem segurança, muito pobre cristianismo. Cuidado para com todos aqueles que não têm ‘com quem contar’, vigorosa expressão de cristianismo.

Outro dia sugeri a um dos sete párocos da cidade onde moro e que celebra diariamente a missa: padre, vamos deixar a missa hoje e vamos varrer a praça onde fica nossa igreja; está muito suja! Tive que sair quase correndo, para não ouvir uma espinafração. Eu sei que se pode fazer uma coisa, sem deixar de fazer a outra. Mas não temos feito ambas as coisas. Então, de vez em quando, poder-se-ia fazer uma que não é tão comum. Mas não se trata disso. Trata-se é de lembrar aos cristãos que a fidelidade aos sacramentos sem uma ação transformadora pode ser tudo, menos o que o cristianismo nos pede. Não é possível esquecer: “FAZEI isso quando vos lembrardes de mim.” FAZEI é o grande preceito. FAZEI é o critério de identificação com o seguimento de Jesus.  

Li uma coisa muito interessante: o grande e único pecado que se comete é o da omissão. Em primeiro lugar, omissão com relação à infinita bondade de Deus. Acreditamos pouco na misericórdia sem limites de Deus. Mas omissão também com aquilo de Jesus: Tive fome, tive sede, estava nu, sem abrigo, e... e.... e...

O cristianismo não é uma ideologia. É uma práxis. Ação. Sabe-se muito bem que o rito é parte essencial de nossas vidas. Em toda atividade, em toda manifestação de vida há rito. A vida, entretanto, não se exaure nos ritos. Neles, fica aprisionada. Neles, pode até ficar irreconhecível. O que dá sentido aos ritos é a vida, é a ação que eles simbolizam. Rito sem vida, é vida sem sentido. Vida que não produz vidas.

Quaresma celebrada em todas as manifestações penitenciais, oracionais, litúrgicas, paralitúrgicas sem transformação da vida pode ser Quaresma. Mas não será expressão de vida cristã. Cultural, talvez.

Quaresma: tempo da salvação.

Fraternidade: “Paixão por Deus inseparável da paixão pelo homem.”

Elis Regina

12 de Fevereiro de 2019, por João Bosco Teixeira 0

O seriado sobre Elis Regina, que a televisão apresentou e acompanhei em absoluta atenção, independentemente de qualquer consideração, me fez reviver muitas lembranças, curtir momentos inesquecíveis e, até mesmo, projetar outros tantos cheios de vida.

Que retrato de uma época fundamental sob o ponto de vista da vida de uma gente! Que emoções experimentadas nos levaram a observar certos acontecimentos, alguns ainda com lágrimas nos olhos! Afinal, no centro daquela vida, e da sua recordação, estava uma mulher nada comum, dotada de características até contrastantes: valente e com seus medos, altiva e endoidecida quanto se quiser, mas cuja linha da vida, marcada por tantas vitórias, culminou numa aparente derrota.

Foi maravilhoso ouvir de Elis, saído lá do fundo de sua alma: “que sonha com a volta do irmão do Henfil, de tanta gente que partiu num rabo de foguete”. Apreciar a visita de Elis à sua desconhecida Rita Lee me faz pensar de que são capazes pessoas assim, tão duras, tão determinadas, tão autossuficientes, e, ao mesmo tempo, capazes de atitudes meigas, atitudes de total desprendimento e plena consideração para com quem está só! Grande Elis, grandes todos os demais capazes de superar medo e apresentar-se como gente diante dos oprimidos.

Elis foi notável na sua multifacetada expressão. Ora a pedir: “Perdoem a cara amarrada, a falta de abraço... os dias eram assim”; ora a verificar que “quem cantava chorou ao ver seu amigo partir”; e confiar que “mesmo que o tempo e a distância digam ‘não’ ... qualquer dia, amigo eu volto a te encontrar”; ora a suplicar: “E quando passarem a limpo, e quando cortarem os laços, e quando soltarem os cintos e quando brotarem as flores, crescerem as matas e colherem os frutos ... façam a festa por mim”. Era admirável a riqueza de interpretação. Saía de dentro. Parecia nunca representar. Apenas externar.

Apesar de ter tudo na mão, com tudo pela frente, uma solidão imensa, capaz de solapar a admiração de toda uma classe social. Pouca solidão se compara com aquela que se refugia na droga.

Havia um grito íntimo a incomodar Elis, inapelavelmente: ser livre. Liberdade: “O maior dom que, dos deuses, os homens receberam e pelo qual vale a pena perder a honra e até a vida” (Quixote). Elis não conseguiu se libertar. Impedida pelos homens? Assim pensava Henfil quando a viu vítima de sua solidão: “Nós matamos Elis Regina: os homens não entenderam e não deixaram viver uma mulher livre.” Palavras de Henfil? Históricas? Os editores do seriado usaram-nas para justificar uma morte que ninguém queria.

Uma obra de arte pode ser vista sob mil aspectos e mil olhares. Isto é, a obra de arte é para ser contemplada. E contempla-se com a própria vida. O seriado sobre Elis Regina me levou à contemplação. Alongou-se em mim. Tempo, história, alegria, dor, tudo presente a dizer-me: é a vida, que é bonita, mas pode também doer.

Pequena grande Elis! Que saudade! Falta? Não. Está viva.

TEMPOS DE INCERTEZA... mas com OTIMISMO

15 de Janeiro de 2019, por João Bosco Teixeira 0

A mecânica quântica envolve o princípio da incerteza: é impossível medir tanto a posição como a velocidade de um dado objeto. Se alguém mensura com precisão a posição de algo, não é possível determinar sua velocidade. Se alguém mensura com precisão a velocidade de algo, não é possível determinar sua posição.

 Essa afirmativa de Stephen Hawking pode se expandir para a situação política que iniciamos no dia primeiro. Se alguém acredita, firmemente, na competência técnica do novo governo federal, não pode garantir sua capacidade política de gestão. Se alguém avalia essa capacidade com segurança, não pode garantir seu valor técnico. Uma coisa é certa: A meritocracia não pode dispensar, não pode se sobrepor ao político, em termos de bem comum. (Mauro Werkema)

 Entendo que o Brasil esteja todo numa grande expectativa. E não é para menos. A mudança no quadro político é muito grande. Quadro político em que não faltam maus políticos, para quem o bem comum conta pouco e a corrupção é uma opção para atender aos próprios interesses. O estrago, causado pelos oito últimos anos, foi grande demais para qualquer governo. Maior para um governo ao qual, queiramos ou não, falta experiência. O mundo perdeu referências que davam sustentação à variedade de governos: direita e esquerda não têm mais significado específico; liberalismo, social democracia e comunismo não se sabe por onde andam; capital e trabalho deixam de comandar; pode-se dizer que o “mercado” continua vivo: e isso é bom ou mau?

 E, apesar de tudo, sou otimista. Cultivo uma grande esperança porque nasce vida até das cinzas. Minha grande esperança está radicada em variados fatores. O presidente empossado não é aquele candidato que conhecemos. Não. Ele, se já se sentou na cadeira presidencial do Planalto, já deve ter percebido que é uma cadeira, ao mesmo tempo, aconchegante e incômoda, ardente e fria, que exige sabedoria e prudência para enfrentar os riscos que não pode deixar de correr.

 Sou otimista. No quadro ministerial composto, há pessoas muito sérias, para as quais o cargo acrescenta pouco à vida que já levam e, por isso, não precisam do emprego. Tal situação as deixa livres e atentas às iniciativas governamentais. Se essas quiserem correr fora dos trilhos possíveis, não se omitirão. A título de exemplo: penso no ministro de Ciência e Tecnologia. Se ele não puder fazer o que entende dever ser feito, se o presidente tomar atitudes inconvenientes, do ponto de vista do bem comum, por que e para que haverá ele de macular a própria vida? Ele não está em início de carreira. Pelo contrário, tem uma carreira que testemunha a seriedade com que encarou a vida.  Assim como ele, há outros. Penso até mesmo nos militares que, na sua expressiva maioria, são muito mais sérios que a grande maioria de nossos políticos.

 Sou otimista. Se “políticas públicas se fazem com gente debruçada sobre a vida”, temos boas chances de êxito. E o presidente vai ter que se comportar. Ou correrá o risco de ficar sozinho. E, sozinho, cairá.

Mais uma vez é natal

12 de Dezembro de 2018, por João Bosco Teixeira 0

Cedo meu espaço de hoje para o colega amigo Tiago Adão Lara, que sabe muito bem do Natal. E desejo a todos os leitores do Jornal das Lajes muitas alegrias nas festividades deste fim de ano. João Bosco de Castro Teixeira.

 

MAIS UMA VEZ É NATAL

Tiago Adão Lara*

Mais uma vez é Natal:

            a noite, o silêncio, o frio.

É a gruta fatal,

            Pra moça judia, chamada Maria.

                       

                        Pra quem memória inda tem,

                        o Natal é de Jesus,

                        lá na lapa de Belém.

 

Mais uma vez é Natal:

            o tugúrio, o micho salário, os filhos com fome, sem pão, sem agasalho.

É a sina letal,

            pra moça Brasília, que funda família

                       

                        Pra quem consciência inda tem,

                        o Natal é dura cruz,

                        lá na casa de alguém.

 

Mais uma vez é Natal:

            o Verbo e a carne, Deus e o homem, o eterno e o tempo.

É a lei fraternal,

            pra moça judia, chamada Maria,

            pra moça Brasília, que funda família.

 

                        Pra quem esperança inda tem,

                        o Natal é nova luz

                        de um mundo que já vem.                   (1990)

*Filósofo, teólogo, místico.