Coisas e coisas, mais e menos
06 de Outubro de 2026, por João Bosco Teixeira 0
Muita gente justificando o voto na situação para que se mantenha a democracia. Ora, esta é garantida até pela autonomia e harmonia entre os três poderes que a compõem. Haverá alguém hoje, no país, que acredite na autonomia dos poderes? Alguém que negue que estamos vivendo uma ditadura do judiciário? Haverá alguém, um pouco entendido de direito, que justifique absurdos legais em plena vigência, qual aquele de um possível réu participar da votação de seu julgamento, emitindo opinião e votando? Haverá alguém que não veja a subordinação do Estado de Direito à política, essa com letra bem minúscula?
Muita gente justificando o voto na situação pela melhoria das condições de trabalho na Universidade Pública. Tudo está restabelecido na Universidade, segundo dizem. Tudo está revisto, relativamente ao governo anterior. É interessante e parece que os dados confirmam tal assertiva. Mas, então, por que a produção científica decaiu vertiginosamente? Melhores condições não deveriam ter como consequência mais trabalho, mais qualidade, mais compromisso com aquilo para que a Universidade existe?
Muita gente justificando a vitória da oposição no exterior sem a devida leitura. Haverá mil razões para que brasileiros optem por viver no exterior. Mas, aí vivendo, além do benefício de se poder fazer, à distância, uma leitura da situação do país, respiram, sem sombra de dúvida, ares que influenciam sua percepção da vida. O resultado a que se chegou no exterior não é um dado isolado, separado, distinto da política externa que se vem implantando no país, em claro desprezo pela forma como era conduzida.
Muita gente justificando a derrota de nomes ilustres de políticos da situação, ilustres pela posição que ocupam, sem quererem entender o porquê. Para muitos nomes, variada leitura. Pode o povo estar mais atento a quem realmente merece seu apoio. Pode o resultado denunciar a necessidade de uma troca de postura democrática, além da desejável alternância no poder. E pode mesmo significar a descrença em quem, há tanto tempo no poder, não ter conseguido traduzir sua ação política em melhoria da qualidade de vida da população.
A eleição para a escolha do mandatário maior do país não terminou. E não sei como terminará. Possuidor de um caráter algo obsessivo, não me abandonam duas sentenças de dois legítimos representantes da situação: “não disputamos eleição, nós tomamos o poder”; e “para vencermos uma eleição, fazemos o diabo”. Já tomaram o poder mais de uma vez. E sempre “fazendo o diabo”. A obsessão pelo poder pode imprimir força aos litigantes, é verdade. Mas, além disso, costuma desvirtuar condições mínimas de decência, de pudor e de respeito.
Eleição ainda aberta para Presidente da República. Podem acontecer “Coisas e coisas, mais e menos”.
C Á L I C E
30 de Setembro de 2026, por João Bosco Teixeira 0
Chico Buarque
A vergonha que tenho sentido nestes dias é tamanha que quase gera em mim descrer da humanidade. Não posso, entretanto, confundir a humanidade com o grupelho de “intocáveis”. Em homenagem a estes, hoje vou de Chico Buarque, dada a impossibilidade de produzir algo mais rico e mais fiel ao momento. Não pedi licença ao Chico, temendo que a negasse.
PAI, AFASTA DE MIM ESSE CÁLICE DE VINHO TINTO DE SANGUE
Como beber dessa bebida amarga, tragar a dor engolir a labuta.
Mesmo calada a boca, resta o peito. Silêncio na cidade não se escuta.
De que me vale ser filho da santa, melhor seria ser filho da outra.
Outra realidade menos morta, tanta mentira, tanta força bruta.
PAI, AFASTA DE MIM ESSE CÁLICE
Como é difícil acordar calado se na calada da noite eu me dano.
Quero lançar um grito desumano que é uma maneira de ser escutado.
Esse silêncio todo me atordoa. Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa.
DE VINHO TINTO DE SANGUE
De muito gorda a porca já não anda. De muito usada a faca já não corta.
Como é difícil, pai, abrir a porta, essa palavra presa na garganta.
Esse pileque homérico no mundo. De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados do centro da cidade.
PAI, AFASTA DE MIM ESSE CÁLICE
Talvez o mundo não seja pequeno, nem seja a vida um fato consumado.
Quero inventar o meu próprio pecado, quero morrer do meu próprio veneno.
Quero perder de vez tua cabeça, minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel. Me embriagar até que alguém me esqueça.
DE VINHO TINTO DE SANGUE
Igreja santa e pecadora: humana
26 de Agosto de 2026, por João Bosco Teixeira 0
Há vinte e seis anos comprei um livro: O Papa de Hitler – A história secreta de Pio XII, lançado no ano anterior, 1999.
O autor John Cornwell, inglês, jornalista e escritor premiado, que sempre se ocupa de temas católicos. Escreveu: Um ladrão na noite: a morte do Papa João Paulo I. Sucesso absoluto no mundo inteiro. Tem também uma obra em que trabalha o perfil de João Paulo II.
O biografado: Pio XII. Eugênio Pacelli, seu nome de batismo. Pessoa peculiaríssima, pelas características individuais e riqueza de personalidade. Viveu seu tempo quase total não só a serviço da Igreja no Vaticano, como fora de Roma, no desempenho de complexas relações diplomáticas. Com a morte de Pio XI, em 1939, Pacelli é eleito Bispo de Roma, isto é, Papa.
O mundo vivia dois tempos: os que se seguiram à Primeira Guerra, guerra que não encerrou conflitos, e os dias que antecediam a anunciada Segunda Guerra Mundial. O mundo flutuava entre regimes governamentais ditatoriais, entre ideologias comunistas e fascistas – sempre absolutistas - e um outro esforço pela democracia. A mesma Igreja Católica se comportava sob a independente, radical e autocrática autoridade do Papa Pio XI.
Nascido em 1938, passei toda a minha infância e parte notável da juventude sob os melhores auspícios da figura de Pio XII, que faleceu em 1959. O Papa nos era apresentado como figura não apenas ímpar, mas acima de qualquer suspeita humana de fragilidade. Cultura exuberante, atendia e palestrava para os mais diversos auditórios, religiosos, leigos, artísticos, científicos. E quase sempre na língua dos grupos que o visitavam. A simpatia pessoal cativava quem se lhe aproximasse. A fama de santidade coroava toda sua intensa atividade de Pastor Angélico, conforme dele dizia a profecia de São Malaquias.
Mas, comprei então o livro, há vinte seis anos. E ficou na minha estante junto de outros livros relativos à Igreja. De Penny Lernoux, “A barca de Pedro – nos bastidores da Igreja”; de Gordon Urquhart: A Armada do Papa”. E entre os mais recentes, o romance: Um Assassino para o Papa, de Tad Szulc.
Seis meses faz, resolvi desmontar minha biblioteca. Tenho feito doação de livros para entidades diversas, conforme as peculiaridades de cada uma e seus interesses. Processo doloroso, que tenho enfrentado com razoável coragem. E me indago por que ainda tinha livros intocáveis. Não aqueles que são para pura consulta. Mas livros de absoluto interesse histórico, passageiro e de enriquecimento pessoal. Pio XII, o Papa de Hitler, chamou minha atenção. Por que até hoje? E quantas vezes toquei nele, nesses vinte se seis anos, sem a ele me dedicar. Confesso que, temeroso, decidi encarar as quase quinhentas páginas. Temeroso porque sabedor de que o Vaticano escancarara as portas de seus arquivos secretos ao autor John Cornwell. Temeroso, porque imaginava vir a conhecer, de fato, que dias e meses e anos foram aqueles que o celebradíssimo Pio XII havia vivido e enfrentado, sob mil acusações de omissão, de cumplicidade, de irrefreável aparente apoio ao nazismo: nenhuma palavra contra, em momento algum. Que de mistério se envolvia a vida do Bispo de Roma para salvar milhares de judeus na cidade e deixar que milhões deles se encaminhassem para o holocausto. Eu imaginava que o livro fosse dizer alguma coisa.
A história não poderia ser nem aquela que inocentava cem por cento o Papa, muito menos aquela que dele se diziam mil palavras tristes e ofensivas. Entendo que o livro tenha dito tudo porque os arquivos secretos foram a fonte dos relatos. E tudo quanto disse tem muito pouco a ver com a história que nos era contada.
Entendi porque não li aquele livro há mais tempo. Não me teria feito bem. Hoje, o li em paz. E melhor conhecedor dos fatos, apenas me dou conta de que nossa Igreja é mesmo “Santa e Pecadora: Humana”.
Tempo ainda de esperança
29 de Julho de 2026, por João Bosco Teixeira 0
A questão é o tempo. Lá na Bíblia está escrito que há um tempo para tudo. E a experiência mostra que é verdade. Há, no entanto, outras verdades. Inclusive esta, que é cômica, mas é: “O mundo é talvez: e é só. Talvez nem seja talvez”. Do tempo, então, o que dizer?
Para se viver é suficiente não morrer. Isto, no entanto, é pouco. Pois o viver pede muito. Pede, inclusive, que se leve a sério o tempo. E este tem suas exigências.
Exigências que se sucedem. Umas permanecem. Outras findam. Umas se vão com lamentos e sem constrangimentos. Muitas com agradecimentos.
Hoje, já na oitava dezena de vida, vivida em sua maior parte, exigências persistem. Oriundas, na sua maior parte, do desejo de querer viver. E viver com constâncias. Algumas, por caducas, caducaram; enquanto outras, por sábias, insistem em permanecer.
Por mais que sabido, sabe-se que é preciso respeitar o tempo, quando ele exige abandonar a ideia de querer tomar banho em cinco minutos; de querer subir escada aos galopes; de querer curar gripe com mel/cachaça/limão; de querer jogar bola com os netos. O tempo lembra que não se pode mais participar de tudo na comunidade; que não faz mais sentido querer ser o primeiro a chegar nos acontecimentos, nos quais se insiste em estar presente; que não se pode mais querer sempre ter uma palavra “importante” para dizer nos encontros ou reuniões.
Oh! Que tempo aquele em que se devia responder por assuntos nos quais se tomava parte; quando era preciso ser o primeiro a dar conta de conflitos comuns; quando era dever dizer certas coisas; quando fazia sentido se lamentar por não ter sido convidado e por não ter sido contemplado na lista de pessoas citadas.
Hoje, o tempo é aquele em que não faz mais sentido reclamar porque os colegas não sabem que se anda muito ocupado, apesar de aposentado; não faz sentido sentir-se ofendido por não ter sido notado em certos ambientes e não ter sido contemplado com as próprias ideias em assuntos mais que superados. É tempo em que não se pode sofrer por não ter sido ouvido, quando, na verdade, é preciso ouvir.
Oh! O tempo foge irreparavelmente “Fugit irreparabile tempus”. E, no entanto, o tempo continua sendo a grande riqueza que cada um tem. Ele possui novas dimensões; novas cores, pois manhãs e tardes continuam se sucedendo. E, no tempo, as esquinas continuam presentes. E, nelas, os encontros, pois, se assim não for, eliminem-se as esquinas.
Oh! Novos lindos tempos em que sapatos caminham, ainda que numa estrada de pó, mas também de esperança.
Drible de corpo
01 de Julho de 2026, por João Bosco Teixeira 0
Era véspera da finalíssima Brasil e Itália, em 1970. Euforia nos dois países. A mídia italiana trazia o depoimento de dois personagens ilustres. Um deles, o técnico da seleção italiana. Ele dizia ser impossível o ataque brasileiro superar a defesa italiana. E mais: “Estudamos, exaustivamente, a maneira de jogar do ataque e de cada atacante do Brasil.” Outro personagem ilustre: um técnico do Real Madri, convidado pela televisão italiana para comentar os jogos da Copa do Mundo. Ele dizia mais ou menos o seguinte: “Se o Brasil jogar quarenta por cento do que vem jogando, a Itália não terá chance alguma.” Os fatos, de um lado, fizeram valer a opinião do comentarista; de outro, deixaram o técnico italiano sem “defesa”.
De lá para cá, tudo na vida mudou muito. Na área esportiva também. Pense-se no uso da tecnologia da TV com cores: o que ela introduziu de novidade no mostrar o esporte, qualquer deles. Um dia ter a camisa de um time era uma aventura. Hoje os estádios se colorem com as cores do clube, porque cada torcedor já as traz consigo. Tudo muito mudado. E, em tantos aspectos, para melhor. Hoje não se faria mais gol “com a mão de Deus”. E a Inglaterra não teria sido campeã mundial com gol inexistente.
Do ponto de vista do “jogo”, da estratégia de jogo, da maior ou menor habilidade no trato com a bola por parte dos jogadores; da qualidade do material esportivo e dos gramados; da possibilidade de se ter vários craques num time... com tudo isso, não vale hipotetizar uma melhora ou piora na prática do futebol, pois, se colocada a questão, não se chegaria nunca a bom termo. E por quê? Porque todos esses aspectos ficam subordinados não à razão, mas à emoção com que se vive a paixão por algo que se considera importante na vida. A emoção desconsidera qualquer tipo de racionalidade que coloque a vida e suas manifestações em dúvida, quando não em risco.
Torcidas organizadas, estádios embandeirados, fogos luminosos, nuvens de fumaça invadindo o gramado, celulares fazendo apresentações luminosas, drones sobrevoando os gramados, nada de tudo isso qualifica, excepcionalmente, a participação dos torcedores, tomados que sejam de amor, de decepção, de raiva, de entusiasmo. As emoções não se enquadram em esquema algum, quando tudo é sinal de vida. E num estádio, com o próprio time em campo, tudo é plenitude de vida.
Quanta emoção vivida face a tanta beleza, grandeza, bravura. Aspectos positivos e negativos se sucederam e se sucedem. No entanto, para mim, há um lance, há um toque de bola que resta intocável.
Sei muito bem que já não se tem um meio de campo com “Andrade, Adílio e Zico”, Piazza, Dirceu e Tostão”. “Clodoaldo, Gerson e Rivelino” e tantos mais; já não se têm laterais quais Nilton Santos, Leandro, Cafu, Nelinho, Carlos Alberto; já não se vê uma “Folha Seca”; já não se fala de uma seleção de craques, apenas dois ou três incapazes de tanta coisa bonita que invadiu nossas vidas de torcedores de clubes e de nossa seleção. Mas, há uma coisa que me encanta, me encantará sempre, porque plástica, decisiva e fatal no futebol: trata-se do drible de corpo. É tão lindo, tão sublime, tão eficaz que, um dia, alguém o definiu dizendo: “o drible de corpo é quando o corpo tem a presença de espírito”. Que incrível definição identificadora dos incomparáveis Garrincha e Pelé: sublimidade pura.