De um ponto de vista

Crente. Católico. Cristão.

13 de Novembro de 2018, por João Bosco Teixeira 0

Depois de falar sobre a crença em Deus, sobre ser ou não católico, a indagação agora é sobre ser cristão.

Quem é o cristão? Os Atos dos Apóstolos falam dos primeiros cristãos como aqueles reconhecidos como adeptos do Caminho (At 9, 2), que é Jesus. Parece-me admirável: cristãos são os que se dispõem a percorrer o “caminho”, os que estão a caminho. Admirável, por quê? Entre outros motivos, porque quem está a caminho, está sujeito a tantas possibilidades: percursos fáceis e difíceis, planos e montanhosos, vislumbrantes e obscuros, gloriosos e derrotantes, carregados de esperança e desesperança. Quem faz o percurso, sabendo-o mais importante que o fim, já está no caminho da vida e da verdade. Isso é estupendo e determinante porque é manifestação autêntica da confiança naquele que nos pôs a caminho, independentemente da qualidade conseguida até o fim. Por isso, antes de mais nada, cristão é quem aceita percorrer o “caminho”, mesmo que às apalpadelas.  

O seguidor de Jesus, o cristão, é aquele que pelo caminho encontrou gente com sede e fome e a saciou; gente sem teto e nua, deu-lhe acolhida e a vestiu; gente doente e presa e a foi visitar (Mt 25, 31-46).

O seguidor de Jesus é aquele que a “caminho” sabe que cada um tem o seu caminho, na sua imensa variedade, com circunstâncias peculiares, às vezes indecifráveis. Por conseguinte, não se permite, em hipótese alguma, “julgar” a autenticidade ou não do caminheiro (Mt 7,1). Está sempre a caminho, inclusive à disposição de quem quer que seja, mas “não julga” nem diante de uma total divergência de orientação no caminho, pois sabe que só Deus conhece os corações (Lc 16,15).

O seguidor de Jesus conhece, ainda, a regra áurea daquele que percorre o “caminho”: Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. (Mt 7,12).

Enfim, o seguidor de Jesus é iluminado pela esperança que nasce da verdade proclamada por Jesus, ao nos dizer com que espírito percorrer o “caminho”. Percorrer o caminho na certeza de que dos pobres em espírito é o Reino de Deus; de que os mansos herdarão a terra; de que os aflitos serão consolados; de que os que têm fome e sede de justiça serão saciados; de que os misericordiosos alcançarão misericórdia; de que os puros de coração verão a Deus; de que os que promovem a paz serão chamados filhos de Deus.

Esses são os autênticos seguidores de Jesus. Encontram-se pelo “caminho”, com ou sem pertença a qualquer instituição religiosa. Percorrem o “caminho” iluminados por valores, cuja adesão supera qualquer limitação institucional, qualquer limitação de tempo e de espaço, de consciência e não. Movimentam-se e vivem na certeza de que caminham, na esperança de vida!

Por isso, até ateus podem estar no “caminho” de Jesus. Ser caminheiros com Jesus.

Católico?

17 de Outubro de 2018, por João Bosco Teixeira 0

Na edição passada, falei do encontro com um amigo de quem, depois de uma troca de ideias, indaguei se acreditava em Deus. Naquela ocasião, após responder à minha indagação, fiz-lhe outra pergunta: Você é católico?

O relato da resposta é o que segue.

Eis uma pergunta difícil de ser respondida. Acho que sou. Aliás, mais que nunca. Ou, mais que nunca sou cristão, seguidor de Jesus. Mas, vamos lá. Uma das exigências para que alguém se considere católico é seguir a doutrina da Igreja. E, primordial na doutrina, a crença e a profissão de fé nos dogmas. Será, no entanto, que é preciso aceitar todos os dogmas da Igreja, na forma, na linguagem em que eles foram declarados? Será que a Igreja não deve rever a linguagem dos dogmas, dado que em todos eles o fator “história” é fundamental? Isto é, os dogmas foram declarados num tempo histórico, em condições determinadas. Será que a Igreja, diante do avanço das ciências e da própria teologia, baseada em estudos sérios, pode continuar a exigir adesão aos dogmas como exigia por ocasião de sua proclamação? Então, não refuto nenhum dogma da Igreja Católica, mas também não aceito nenhum na forma, na linguagem como foram proclamados há anos e, até mesmo, há séculos atrás. Faço a leitura dos dogmas de maneira bem diversa daquela em que eles foram expressos.  Posso dar um exemplo? O dogma da Assunção de Maria. Não cabe na minha cabeça, e acredito que na cabeça de pessoas do século vinte e um, que Nossa Senhora esteja no céu com seu corpo humano, material. Mas aceito e proclamo que ela foi elevada à plenitude da vida e, como dizia São Paulo, “transformada”, assim como aconteceu com o mesmo Jesus. Entendo que, ao fazer uma releitura das verdades da fé, não significa que alguém deixe de ser católico, mesmo porque a própria teologia católica faz isso. Em linguagem singela, pois, acho, sim, que continuo católico. E muito presente na instituição, que frequento regularmente. Sabe, não vejo chance alguma, hoje, de convencer quem quer que seja a aceitar os dogmas católicos na linguagem em que foram declarados. Aceitá-los como tais parece-me absoluta infantilidade, pois eles foram proclamados numa linguagem oportuna, consoante com o tempo. É preciso revê-los. Chamar Nossa Senhora de Mãe de Deus, do “Deus criador do céu e da terra”, como professamos no Credo, seria preciso ter de Deus uma noção bem precária. Não seria o Deus em quem acreditamos.

Tenho o amigo em plena consonância com minha visão teológica. A conversa, por isso, não se prolongou muito. Algumas considerações e partimos para outros temas, estes, sim, cheios de opiniões contrastantes, devidas, quase todas, ao fator idade. Falamos de política. E também de partidos políticos.

Nada mais natural que ter uma visão esquerda da vida, quando se pleiteia resposta imediata para os problemas. Do alto, porém, de certa idade, sabe-se que o tempo é fundamental para a sedimentação de projetos transformadores.

Acreditar em Deus

19 de Setembro de 2018, por João Bosco Teixeira 0

Um bom amigo dizia-me que acabara de ler A história do ateísmo, do francês Georges Minois.  Um livro de quase oitocentas páginas. Falamos sobre o assunto. Lá pelas tantas, indaguei dele:

– Você acredita em Deus?

E ele, na paz, me falou:

– Devagar. Primeiro, seria preciso saber o que é Deus. Não nos é possível alcançar isso, porque Deus, numa concepção genérica, não tem começo, não tem fim, é sumo em tudo e, por conseguinte, nós humanos não temos inteligência suficiente para projetar um conceito que fuja do tempo e do espaço, limites de nossa inteligência ou de nossa experiência. É como me dizia um físico a quem manifestei a dificuldade que me assaltava, relativamente ao conceito e à existência de Deus. Ele me falou:

Mas você quer entender o Deus a quem você cultua? Não é possível. Não nos é possível. Seria como um físico que quisesse compreender o universo. Nós, físicos, mal conhecemos o nosso universo. Há milhares de outros.

– Então, dizer que acredito ou não acredito em Deus, é uma profissão de fé no absolutamente desconhecido, porque indefinido.

Vou, no entanto, dar uma resposta à sua pergunta. Eu acredito no Deus de Jesus. Como assim? Você poderia me perguntar. É, acredito naquilo que Jesus veio nos oferecer, naquela imagem de Deus que Ele nos transmitiu. Então, quando falo que acredito em Deus, quero dizer que, por meio de Jesus, tento experimentar uma sensação de paz, de tranquilidade porque me sinto “nas mãos de Deus”, me sinto, em qualquer situação, mas sobretudo na morte, como lançado “nos braços” de Deus. Porque não consigo, não sei, o que Ele seja, como seja. Não tenho cérebro para isso. Mas experimento contar com Ele, confiar nele, saber dele acolhendo-me. Essa fé eu tenho, que não é objeto de estudo. De contemplação, de imaginação, talvez, porque a gente é isso também. Quero ainda lhe confessar uma coisa:  eu preciso de Deus. E sei porquê. Porque não quero morrer definitivamente. Porque preciso viver, mesmo depois de terminar minha história aqui na terra. Eu quero viver. E a única forma de viver depois da morte é em Deus.

A conversa continuou: sem uma definição de Deus, mas com a certeza de que meu amigo acredita em Deus, como: “Aquele que é”. E, mais ainda, Aquele que se pode “experimentar”, independentemente de qualquer humana explicação. Afinal, Deus é inefável.

Nessa altura, indaguei mais:

– E você é católico? Aí a conversa foi outra. Boa. Bonita. O resultado dela fica para depois, uma vez que me parece útil para nossas vidas de católicos.

Deus é invisível: “Ninguém jamais o viu”, segundo a Bíblia. Experimentá-lo, no entanto, sob mil formas, é a grande aventura da vida! E privilégio!

A fonte da informação diz de sua qualidade

15 de Agosto de 2018, por João Bosco Teixeira 0

Era num bar. As conversas aí têm características comuns: fala-se mais à medida que se bebe. Fala-se, igualmente, mais alto. Além disso, para não se passar por inoportuno, concorda-se com muita coisa que não se ouve bem. Responde-se a tanta pergunta que não foi feita. Declaram-se concordância e discordância com algo que depois se desmente abertamente. Falantes contumazes não são exceção. Silenciosos, quase nunca, pois o momento é de jogar conversa fora. Mas aparecem alguns calados que se divertem à custa dos falantes.   

No grupo daquela entrada de noite, eram seis os colegas. Juscelino, o silencioso. E sempre se discutia se seu silêncio era sinal de sabedoria ou de preguiça. A maioria opinava pela preguiça, pois Juscelino mesmo dizia que, ao falar, se desgastava muito. Mas foi nessa tarde que ele rompeu o silêncio e encerrou séria discussão.

Calado estava até quando a conversa voltou-se para uma novidade. Um colega da roda disse:

– Ouviram o que aconteceu com Francelino? Que papelão! Quem diria!

– Também pudera! – acrescentou outro. – Vai se meter nas coisas sem ser chamado, dá nisso; deu-se mal.

E os comentários se sucediam. Não havia, entretanto, concordância. Dois deles não acreditavam no que se dizia:

– É bobagem tudo isso que estão dizendo do Francelino; ele seria incapaz de fazer aquilo; como poderia mudar tanto, de repente?

Os que o condenavam, entretanto, insistiam na própria opinião, com palavras já assaz molhadas pela bebida; quase levavam os outros a concordar com a notícia apregoada. Foi quando Juscelino, saído de seu silêncio, sentenciou:

– Tem hora que eu não entendo vocês; falam, discutem, muitas vezes discordam sem ouvir o outro, pois falam ao mesmo tempo; até confesso que não só me divirto quanto chego a aprender muito com vocês; mas hoje, vocês estão dando uma de burro: emitem parecer sobre um possível fato ocorrido com o prezado amigo Francelino e ninguém se lembra de uma coisa fatal.

– Que coisa fatal é essa, Juscelino, tão importante numa mesa de bar?

– A coisa fatal é que eu não ouvi nenhum de vocês indagar quem foi que divulgou a notícia sobre o Francelino. Quem foi? Vocês estão sabendo quem foi?

Houve silêncio. E certo mal-estar. É que sabiam quem era o autor da denúncia. Sabiam quem era o colega que andava batendo com a língua nos dentes.  Aí Juscelino jogou pesado:

– Então, vocês sabem quem foi que contou essa história, não é? E vocês, sabendo quem foi, e quem ele é, gastam tempo em discutir tamanho absurdo? Vocês ignoram que a qualidade e o valor de uma informação depende da sua fonte? Pô! Essa história é desqualificada porque na origem dela está um mentiroso e, nesse caso, eu quase diria, um mau caráter. Vale nada.

Ninguém disse mais nada. Depois de algum tempo: “Uma saideira, por favor!”

Juscelino recolheu-se em seu silêncio, rico e severo. E Francelino, o informado, “voltou” para a roda dos amigos, honrado. O outro, o informante, “saiu”, sem honra.

Escravidão

18 de Julho de 2018, por João Bosco Teixeira 0

Ilustração Elimar do Carmo

Jessé de Souza, em seu livro A Elite do Atraso, dedica-se a dar “uma resposta crítica ao clássico Raízes do Brasil, do historiador Sérgio Buarque de Holanda, eternizado por incontáveis intelectuais de todas as colorações ideológicas e partidárias”. É o que está escrito na orelha do livro.

O autor defende uma tese fundamental: somos o que somos não por nossa herança portuguesa, mas porque a escravidão não terminou. Ele subordina a permanência de tal movimento social a três fatores ou aspectos: o capital econômico, o capital cultural e o capital social das relações pessoais.

O primeiro capital, sumamente importante, “dado que a elite econômica pode comprar as outras elites não econômicas”. O capital cultural, entendido como “a incorporação pelo indivíduo de conhecimento útil ou de prestígio”. E o social, caracterizado pelas “relações pessoais”.

Interessante como o notável pensador e escritor enfatiza a permanência da escravidão ligada a esses três fatores capitais. A cada um deles corresponde uma forma de escravidão: a econômica, a cultural e a relacional.

A escravidão econômica salta aos olhos de qualquer um nesse país das desigualdades. A escravidão cultural tem origem nos primórdios da vida daquelas pessoas que nascem sem a devida assistência, sem o devido amparo afetivo, sem a alimentação necessária, com mães impossibilitadas de dar o apoio afetivo aos filhos e, muitas vezes, distantes deles, sem poder lhes garantir a certeza de um amor indispensável para sua formação. Tais crianças crescem impossibilitadas de adquirir os conhecimentos que a vida exige. Tudo isso a confirmar a insuficiente educação, que caracteriza nossa gente e que nos impede de ser um povo à altura de suas possibilidades. Com essa escravidão cultural, é pouco o que se pode esperar das pessoas ao viver em sociedade. Essa escravidão, essa vida sem condições mínimas favorecedoras de uma autoimagem positiva, prolonga-se ao longo dos dias, deixando as pessoas incapazes de ocupar e exercer papéis a que teriam direito na sociedade. Tornam-se pessoas realmente pobres, escravas das condições mínimas de uma vida digna.

A escravidão das relações pessoais caracteriza aqueles que “não têm com quem contar”: vivem na tremenda escravidão da solidão existencial, apesar de sermos um povo “cordial”, marcadamente focado nas pessoas. A ausência de tais relações não só empobrece a vida, como dificulta a existência decente nas diversas redes que a sociedade constrói para seus cidadãos. 

Li o livro de Jessé, satisfeito com a análise que apresenta “outras formas de escravidão”. Identifiquei-me com o pensamento-chave do autor, que apresenta nossa herança escravocrata “usada para oprimir todas as classes populares, independentemente da cor da pele”. 

Uma grande discordância, entretanto, mantenho com o autor:  não consigo ver na Lava-Jato “o pacto dos donos do poder para perpetuar uma sociedade cruel forjada na escravidão”. Vejo nisso uma clara adesão à ideologia que nos levou onde nos encontramos: caos político e econômico.

Prefiro manter minha independência intelectual a sujeitá-la a uma ideologia político-partidária.