Abrindo novos caminhos

Pandemia e economia: a reindustrialização

30 de Junho de 2020, por José Venâncio de Resende 0

Plataforma oceânica flutuante de energia eólica (foto: Frata/TN Petróleo).

Chamou minha atenção um comentário contundente, no “Jornal das 8” da TVI, nesta segunda-feira (29), do jornalista Miguel Sousa Tavares sobre a situação dramática para o setor do turismo em Portugal por causa da Covid-19. Se alguém acha que as coisas vão voltar a ser iguais rapidamente, que vamos ter o mesmo número de gente a viajar de avião, com a mesma tranquilidade e a mesma aposta no turismo de massas está errado.

Tavares referiu-se a um estudo recente do Ministério da Economia que indica que a aposta no turismo de massas é uma aposta errada para depois reiterar que devemos ir para uma aposta num turismo mais especializado. Não vamos voltar a ter 25 mil milhões de turistas e ainda bem que não vamos porque não é sustentável.

De fato, é uma cena chocante a frota de aviões da TAP parada no aeroporto de Lisboa. A pandemia surgiu quando a empresa ganhava musculatura (mais investimentos em novos aviões, funcionários e rotas de voos, inclusive para os Estados Unidos), sob a liderança do empresário do setor aéreo David Neelman, fundador da Azul Linhas Aéreas Brasileiras um dos donos da TAP Air Portugal através do consórcio Agrupamento Gateway.

De repente, o castelo desmoronou. O empresário e o governo português discutem nesse momento aumento de capital para a empresa voltar a funcionar ou, no pior dos cenários, a possibilidade de nacionalização da TAP, que assim voltaria a ser uma empresa modesta em termos de frota, pessoal e rotas. 

Tudo indica que o vírus acabou por fazer o “trabalho sujo”, como dizemos no Brasil. Em Portugal, já se percebia um certo desconforto com a crescente dependência da economia ao turismo de massa. O turismo de massas é vulnerável, é vulnerável a uma pandemia, a um atentado, um terramoto... de repente, a galinha dos ovos de ouro desaparece, conclui o jornalista Miguel Sousa Tavares.

A vez da indústria

Na mesma altura da declaração de Tavares, uma reportagem do Jornal Econômico, assinada por Lígia Simões, mostra a opinião de economistas sobre a oportunidade gerada pela pandemia de rever os rumos da economia portuguesa, que “estava em expansão com um perfil muito dependente do turismo e imobiliário, cuja recuperação vai depender de muitos factores como a confiança e a forma como vai evoluir a doença Covid-19”.

Os economistas ouvidos pelo jornal defendem o ponto de vista de que a crise é uma oportunidade para reforçar a indústria europeia, no seio da qual a indústria portuguesa poderá crescer. A ideia seria aproveitar os “recursos endógenos” (floresta, mar, agricultura, energias renováveis) e atrair IDE (investimento direto estrangeiro) industrial de maneira a diversificar a economia portuguesa, com foco em áreas como agroalimentar, produtos químicos, máquinas e aparelhos. “As transformações digitais, a economia circular ou a economia do conhecimento são também sinalizadas para Portugal poder responder à procura diversificada dos mercados.”

O presidente (bastonário) da Ordem dos Economistas, Rui Leão Martinho, enfatiza a oportunidade da crise para reforçar a indústria nacional. “A presente crise pode ser uma boa oportunidade para, com os fundos que serão postos à disposição das empresas, não só reforçar a indústria existente, mas proceder a um processo de reindustrialização, alterando as cadeias de produção, dando preferência à produção mais perto do mercado, numa rota de maior desenvolvimento, inovação e criatividade.” Ele ressalta que o plano deve ter na base “uma aposta estratégica que crie uma nova competitividade assente na inovação, na talentosa produtividade, na internacionalização e nas redes globais”.

Esta discussão está inserida no contexto de que a crise atual “terá servido para se perceber melhor que a Europa não pode depender tanto das importações. E que terá de aceitar passar a comprar alguns produtos europeus mais caros do que se fossem asiáticos”, como observa Pedro Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade.

Esta crise pode ser uma oportunidade para reforçar a indústria nacional, de acordo com o economista Joaquim Sarmento. A ideia seria aproveitar os recursos do Fundo de Recuperação proposto por Bruxelas, estimado em 750 bilhões de euros (entre subvenções e empréstimos), dos quais Portugal poderá ter acesso a cerca de 26 bilhões de euros. Para ele, “é possível que esta crise traga algumas alterações estruturais nas cadeias de valor a nível global. Se isso suceder, temos de saber captar algumas oportunidades. Principalmente se a nova realidade for uma maior integração Europa-América do Norte, a nossa localização torna-se privilegiada”.

Observem que o economista fala em América do Norte, não fala em Brasil. É neste contexto que se insere a entrevista do embaixador brasileiro em Lisboa, Carlos Alberto Simas Magalhães, ao mesmo Jornal Econômico (28/06), na qual ele diz que Portugal pode ser a porta de entrada de produtos brasileiros na Europa. Mais do que porta de entrada, falta é uma parceria estratégica em que ganham os dois países. È mais do que simples comércio, é também e sobretudo investir em cadeias de produção, em atividades complementares.

As dificuldades para a conclusão do acordo entre Europa e Mercosul devem aumentar com o exacerbamento do protecionismo gerado pela pandemia e de uma nova visão estratégica da União Europeia. Assim, há que se pensar em formas criativas de parcerias.

Portugal tem potencial imenso em áreas inovadoras como a produção de energias renováveis (solar, eólica etc.) para exportar para outros países europeus. Esta geração de energia poderia dar-se a partir de investimentos em plataformas oceânicas flutuantes de energia eólica, solar e das ondas no mar territorial português (é bom lembrar que mais de 90% do “território” português é mar). Está aí uma parceria interessante. 

LINKS RELACIONADOS:

https://tvi24.iol.pt/opiniao/comentario/miguel-sousa-tavares-nao-vamos-voltar-a-ter-25-mil-milhoes-de-turistas-e-ainda-bem-que-nao-vamos

https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/a-reindustrializacao-nas-maos-da-economia-portuguesa-605881?fbclid=IwAR13dZeK9_0qsqtGWhH8SC7zdXZXvRLq_Q1UT-oPi4sv7tZjMiSFcf9IJhg#.XvpaKB4a_GY.facebook

https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/portugal-pode-ser-entrada-da-producao-brasileira-na-europa-defende-embaixador-do-brasil-em-lisboa-606435

 

Em tempo de pandemia: próximos passos da Europa, “e nós com isso”?

12 de Maio de 2020, por José Venâncio de Resende 0

Santuário de Fátima, vazio pela primeira vez no dia 13 de maio (Foto: Agência Ecclesia).

Há pouco mais de um mês do início do verão, vários países europeus começam, ainda timidamente, seu processo de desconfinamento diante do fantasma da pandemia de covid-19 que já infectou mais de 4,2 milhões de pessoas e já matou mais de 289 mil pessoas no mundo desde que surgiu em dezembro na China. Há sempre o temor de que haja novos aumentos da taxa de contágio ou mesmo uma nova onda de infecções à frente, o que deixa governos e instituições europeias alertas quanto ao rigor no cumprimento das regras atuais e ao mesmo tempo a exigir medidas adicionais. Ou seja, os países devem suspender as restrições existentes de forma gradual, sem perder de vista a evolução do quadro epidemiológico.

A partir desta segunda (11), a Espanha iniciou a primeira fase de ingresso no “novo normal”, com limitação de público para reuniões sociais, funerais e cerimônias religiosas; abertura controlada do pequeno comércio, de cafés e restaurantes ao ar livre (com metade das mesas) e abertura parcial de fronteiras (Galiza, Estremadura e Andaluzia com Portugal) apenas para circulação de mercadorias, bem como reservas para hoteis. Abrir fronteiras com França depende do presidende Emmanuel Macron. Nesta fase, a Espanha mantém as medidas mais restritivas em cidades com maior densidade populacional, como Madrid, Barcelona e Valência.

Em geral, o desconfinamento gradativo na Europa obedece critérios como abertura por regiões (as menos atingidas pela pandemia), por setores da economia (a partir de pequenos negócios) e por idade (horário especial para idosos). Tudo acompanhado de medidas rigorosas de distanciamento social e de higiene e limpeza. E sempre de olho nas curvas de cotágios e de fatalidades (mortes), para evitar recaída e, no futuro, alguma possível nova onda de incidência do coronavírus. Os novos tempos vão exigir novos hábitos, nada será como antes até pelo menos surgir uma vacina ou medicamentos eficientes.

Portugal

Em Portugal, que começa a voltar à normalidade, sinal dos tempos será o Santuário de Fátima vazio, pela primeira vez neste 13 de maio, de milhares de peregrinos. Já as associações de albergues discutem o futuro do Caminho de Santiago (veja reportagem no site do JL), que até a pandemia recebia milhares de peregrinos por ano, mas que agora depende da reabertura da Catedral de Santiago de Compostela e das fronteiras com a Espanha. Ao nível doméstico, há um otimismo contido por parte das autoridades com a redução no número de casos da doença e de mortes.

No relatório da autoridade de saúde do dia 12 de maio, o número de mortes era de 1.163 (abaixo dos 3.013 recuperados) para um total de 27.913 casos confirmados. Importante observar que o R0 (que indica quantas pessoas são infectadas por um único doente com covid-19) tem tendência decrescente e a taxa de ocupação das unidades de cuidados intensivos está estável em 53%. A prioridade é testar, testar, testar.

Neste momento, discute-se o retorno às escolas, com alunos organizados por grupos e zonas de ocupação, mantendo o distanciamento dentro e fora das salas de aula, uso de máscaras, muita ventilação e desinfecção à entrada e saída da escola.

Desde 4 de maio, funciona um plano desconfinamento, com medidas iniciais como lotação de 2/3 nos transportes públicos, manutenção do regime de teletrabalho e funcionamento do pequeno comércio local com porta aberta (lojas, cabeleireiros, manicures, livrarias); bibliotecas e arquivos; prática de esportes individuais ao ar livre (sem utilização de balneários nem piscinas).

A partir do dia 18 de maio, lojas com porta aberta para a rua (até 400m2), restaurantes, cafés e pastelarias inclusive ao ar livre; escolas e equipamentos sociais na área da deficiência, creches (com opção de apoio à família); museus, monumentos e palácios, galerias de arte e similares. Dias 30 e 31 de maio, cerimônias religiosas (celebrações comunitárias com regras pré-definidas). E, a partir de 1º de junho, teletrabalho parcial; lojas de cidadão; lojas (área superior a 400m2 ou inseridas em centros comerciais); creches e pré-escolar; cinemas, teatros, auditórios e salas de espetáculos; e o retorno do futebol, provavelmente em 4 de julho.

Sempre com uso obrigatório de máscaras, higienização e limpeza, distanciamento social, atendimento com marcação prévia (quando for o caso) e horários de funcionamento. Não deverá ser muito diferente em outros países, a não ser nas velocidades de implantação das medidas. Tenho a sensação de que nesse processo uns países vão aprendendo com os outros. Parece maçante falar destes detalhes, mas este é um aprendizado que, de alguma forma, nós brasileiros teremos de enfrentar em algum momento.

Não varia muito de país para país europeu. Retomada gradual das atividades, inclusive do futebol (com muitos testes dos jogadores, isolamento e estádios vazios etc.); uso obrigatório de máscaras e limitação de passageiros nos transportes públicos; estímulo ao uso de transportes alternativos como bicicletas; distanciamento social e medidas rígidas de higiene e limpeza em escolas e restaurantes; controle de aglomerações em espaço públicos (praias, parques etc.), restrições à realização de festivais e eventos de massa; e retardamento na abertura de fronteiras entre países.

Diferenças

O governo alemão, que se caracteriza pela cautela, começa a atenuar o confinamento. Desde o início da crise, a estratégia alemã é a de realizar o máximo de testes, de maneira a monitorar a propagação do vírus e a imunidade de rebanho (IR), segundo o biólogo Fernando Reinach (em artigo no jornal O Estado de S.Paulo, de 20 de abril). Com isso, conseguiu manter um número proporcionalmente pequeno de mortes, em relação ao número de casos de covid-19, e não sobrecarregou o sistema hospitalar, tanto que emprestou respiradores para outros países e recebeu pacientes dos vizinhos.

Porém, justo no momento em que o país começa o abrandamento, as autoridades de saúde informam que a taxa de contágio voltou a subir para 1.1 (cada pessoa com covid-19 contagia 1,1 pessoas), em relação a 0,65 anteriormente. Com isso, acende o sinal amarelo em estados como Renânia do Norte-Vestefália, que começa a levantar restrições em setores como restaurantes e ginásios. Motivo de preocupação para a chanceler Angela Merkel, que já vinha relaxando as restrições, com a reabertura de lojas e das escolas primárias. E manifestações vem ocorrendo em várias cidades do país contra as medidas de contenção social ainda em vigor.

Já o Reino Unido, que titubeou no início pandemia, anuncia agora que vai manter as medidas restritivas pelo menos até 1º de junho. A evolução da situação será monitorada aos níveis local, regional e nacional, para evitar a surpresa de novo surto. A exemplo de outros países, a aposta é a retomada por etapas. Primeiro, abrir a indústria e a construção civil, mantendo o teletrabalho na medida do possível; segundo, a previsão é abrir o comércio e retomar as aulas; por fim, na terceira fase, restaurantes, pubs etc.. Com restrições, as pessoas já podem praticar exercícios ao ar livre, tomar sol nos parques ou em outros locais e até jogar futebol com os familiares. O primeiro-ministro Boris Johnson apelou ao “senso comum britânico” para limitar o contato com outras pessoas e manter a distância, lavar as mãos regularmente e usar máscaras em espaços fechados, além do isolamento em residência se alguém apresentar sintomas.

Em sua última aparição na TVI portuguesa, o analista Paulo Portas fez um paralelo entre entre Portugal e Suécia, cujas populações são equivalentes e o sistema de saúde não é muito diferente. Do ponto de vista econômico, também há semelhança, tanto em termos de queda do PIB quanto de aumento do desemprego. A Suécia apresenta, ligeiramente, menos casos de contágio do que Portugal, mas tem uma taxa de mortalidade de 32 óbitos por 100 mil habitantes, quase três vezes a portuguesa. O que torna discutível a decisão de confinar pouco, que custou ao país uma taxa de fatalidades mais alta, na expectativa de chegar a uma imunidade de grupo de 40%.

Portas destacou, ainda, a ação rápida (entre o primeiro caso e o confinamento) dos países escandinavos, do Leste europeu, dos Balcãs e do centro da Europa (Áustria), assim como da Coreia do Sul, no sentido de conter os contágios e as mortes por covid-19, o que permitiu que pudessem desconfinar mais cedo. Esses países, por exemplo, fecharam (e mantém fechadas) suas fronteiras à entrada de portadores do vírus.

Portas destaca que a Áustria começou o desconfinamento há várias semanas sem que houvesse qualquer novo surto da doença. A explicação é a existência da “cultura do medo” e a disciplina ao cumprir regras. Muitos desses países pertenceram ou fizeram fronteira com a antiga União Soviética, sem falar do trauma de guerras no passado. Além disso, em países como Áustria e Hungria, predominou o contágio em pessoas jovens, com taxa de sobrevivência mais elevada.

Citada como caso de sucesso, a Coreia do Sul viu-se de repente às voltas com o aumento inesperado nos casos de infecções, o que foi associado à reabertura dos estabelecimentos de diversão noturna em Seul. Sem perder tempo, as autoridades decidiram encerrar mais de dois mil bares e discotecas na capital sul-coreana. Este é um risco permanente.

Divisão

“Só podemos derrotar o vírus se assumirmos a responsabilidade de uns pelos outros. Se trabalharmos em conjunto para encontrar uma vacina. Se unirmos força para que nossa economia volte ao bom caminho.” Esta declaração da presidente da Comissão Europeia (CE), a alemã Ursula Gertrud von der Leyen, por ocasião das comemorações do “Dia da Europa” em 9 de abril, não esconde que a Europa é outra: um continente dividido, 70 anos depois da fundação da União Europeia.

Mais grave ainda, dividida em meio a uma crise monumental como não se via desde a Segunda Guerra Mundial. Tanto que o presidente do Eurogrupo (que reúne os ministros de Finanças da região), o português Mário Centeno, está defendendo um “plano poderoso” para recuperar a Europa, por considerar que a atual crise é mais do que um choque econômico: “Vivemos uma tragédia humana e um desafio à nossa forma de vida”.

Um poderoso plano cuja ideia talvez seja inspirada no “Plano Marshall” (oficialmente Programa de Recuperação da Europa), liderado pelos Estados Unidos para a reconstrução do continente nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Com a diferença de que, desta vez, não haverá dinheiro americano para bancar o plano.

Não bastasse a falta de recursos, voltou à tona a clara divisão entre as “Europas” do norte e do sul, que coloca em risco o projeto europeu (que acaba de perder o Reino Unido) diante da emergência de enfrentar a greve crise econômica decorrente da pandemia. A Alemanha, que bem poderia ser comparada à formiga no conto da “Cigarra e a Formiga”, e a Holanda lideram a resistência contra a proposta, defendida por Itália, Espanha e Portugal, de emissão de dívida comum (os chamados “coronabonds”) pelo Banco Central Europeu (BCE) para financiar a recuperação da economia. Ou seja, há uma clara divergência sobre a maneira como os países europeus vão lidar com esta emergência, colocando em xeque a “solidariedade” europeia. Diante de medidas de restrição e da sobrecarga dos sistemas de saúde e de segurança social, os países europeus terão de financiar enormes déficits públicos, num momento de queda no PIB (Produto Interno Bruto) de até 10% e do aumento insuportável do desemprego.

Um desses momentos de divergência explícita ocorreu no final de março em reunião do Conselho Europeu (por videoconferência) que congrega os 27 países. O ministro holandês das Finanças, Wopke Hoekstra, manifestou oposição à emissão de títulos de dívida europeus (os chamados “coronabonds”), defendida por Itália, Espanha e Portugal, a exemplo dos “eurobonds” que financiaram a recuperação europeia da crise financeira de 2007-2008, com a injeção nos sistemas financeiros europeus de cerca de US$ 1,58 trilhão (valores correntes da época).

Após a reunião, o primeiro-ministro português foi questionado sobre declarações de Hoekstra, que teria sugerido que a Comissão Europeia devia investigar países como Espanha por alegar não ter margem orçamental para lidar com os efeitos da crise provocada pela pandemia da covid-19. Antônio Costa indignou-se, denominando o discurso “repugnante”, “uma absoluta inconsciência” e uma “mesquinhez recorrente”, que “mina completamente aquilo que é o espírito da União Europeia e é uma ameaça ao futuro da União Europeia”.

Posteriormente, em entrevista à estação holandesa RTL Z, Hoekstra reconheceu que foi infeliz nas suas posições em resposta econômica à pandemia, que mostrou pouca “empatia” com os países do sul da Europa, sobretudo no momento que vivemos. Porém, o ministro das Finanças reiterou a oposição da Holanda sobre os ‘coronabonds’ e insistiu que a mutualização da dívida reclamada por vários Estados-membros é uma má ideia. 

Passados mais de dois meses da polêmica, as negociações continuam difíceis, de acordo com o analista Paulo Portas, que alerta: até agora a Comissão Europeia não apresentou o quadro financeiro plurianual (que define o plano de despesas a longo prazo da União Europeia e deverá ser modificado com a crise) e o plano de recupeção da economia. “Permanece a divisão entre as duas Europas” sobre o plano de recuperação, que está atrasado em relação à China e aos Estados Unidos. 

O ponto de discórdia está entre empréstimos (que implicam garantias e portanto dívidas) e subvenções (subsídios). Portugal depende desses apoios para superar suas dificuldades, assinala Portas. O destino das economias do sul da Europa, mais atingidas pela pandemia, está atrelado à aprovação deste fundo de recuperação, cuja necessidade de recursos é estimada em 1,1 trilhão de dólares, de acordo com a revista britânica The Economist.

Há alguns meses do início da pandemia, a proposta está sendo discutida pelo Eurogrupo (ministros de finanças) por solicitação do Conselho Europeu. Mas até agora não há propostas concretas para uma resposta comum aos choques provocados pela pandemia de covid-19 nas economias europeias. “Todos os países vão sair aleijados dessa situação”, resume Portas. Vão ser um “salve-se quem puder”, pois vão ter de “definir planos de competitividade muito agressivos” para buscar investimentos e aumentar exportações, a fim de superar os efeitos da pandemia e da brutal recessão (queda no PIB e aumento do desemprego).

“E nós com isso?”

Apesar dos antiglobalistas, estamos todos no mesmo barco. A saúde da economia europeia é de fundamental importância para o Brasil, tanto como fonte de receitas de exportações como de oportunidades para investimentos produtivos, por ser o espaço europeu um dos maiores mercados consumidores do mundo.

É de se lembrar que, na pós-pandemia, deverá haver um rearranjo das cadeias de produção, principalmente em setores estratégicos como medicamentos e tecnologia da informação, de maneira a se reduzir a dependência da Ásia, sobretudo da China.

Fontes: Euronews, TVI, Observador e Jornal de Negócios

O cotidiano da retomada das atividades na Europa pode ser acompanhado em: https://www.facebook.com/pt.euronews

LINK RELACIONADO: 

Desconfinamento em Portugal e Espanha e o futuro do Caminho de Santiago - https://www.jornaldaslajes.com.br/integra/desconfinamento-em-portugal-e-espanha-e-o-futuro-do-caminho-de-santiago-/3034

 

 

 

 

 

Esforço econômico contra a pandemia do vírus covid-19

29 de Marco de 2020, por José Venâncio de Resende 0

Aluízio Barros: as contas do esforço de Estados Unidos e Brasil.

Em longa reportagem publicada na sua última edição, a revista britânica “The Economist” considera que as intervenções dos governos, como resposta econômica à pandemia do vírus covid-19, são muito maiores e mais radicais do que as da crise financeira de 2007-09 que já foram enormes.

Os bancos centrais, ao redor do mundo, estão cortando taxas de juros em mais de 0,5 ponto percentual desde janeiro e estão lançando um profundo esquema de “quantiative easing” (afrouxamento monetário ou criação de quantidades significativas de dinheiro novo). Os políticos estão abrindo as torneiras fiscais para apoiar a economia. O Congresso norte-americano aprovou proposta do governo de gastar duas vezes mais do que o pacote de 2009 do presidente Barack Obama.

Reino Unido, França e outros países estão garantindo créditos de até 15% do PIB (a soma em dólares de tudo o que é produzido na economia), procurando evitar inadimplências em cascata. Uma das medidas mais conservadoras, os estímulos das despesas governamentais vão exceder este ano 2% do PIB global, muito acima do que foi visto em 2007-09. Mesmo a Alemanha, cuja retitude fiscal é motivo de piada para os economistas, está gastando mais.

O resultado é o aumento do tamanho do Estado. No último ano, a despesa governamental geral girou em torno de 38% do PIB nos países mais ricos. O esforço de estímulo, combinado com a queda no PIB nominal nos próximos meses, vai empurrar esta relação bem acima dos 40%, talvez o seu mais alto nível já visto.

Ainda segundo “The Economist”, os bancos centrais tem prometido imprimir tanto dinheiro quanto for necessário para manter baixos os custos dos empréstimos governamentais. O Banco Central Europeu está prometendo comprar tudo o que os governos emitirem; isto deve reduzir a distância nos custos dos empréstimos entre os mais fracos e os mais fortes membros da euro-zona, que se tem ampliado nos primeiros dias da pandemia.

Recentemente, o Federal Reserve ou Fed (Banco Central norte-americano) prometeu comprar ilimitadas quantidades de títulos governamentais, se necessário. É como se fosse imprimir moeda para financiar débitos, ou aumento dos empréstimos causados pelos estímulos do governo. O banco central anunciou ainda novos programas de apoio ao crédito para empresas e consumidores. O Fed é agora um emprestador direto de último recurso para a economia real, não apenas para o sistema financeiro.

Os políticos também estão agindo. Os governantes esperam impedir totalmente que empresas interrompam operações e trabalhadores percam o emprego. Enfim, os governos nos países mais ricos estão canalizando vastas somas para empresas, provendo-as com subsídios e empréstimos baratos numa tentativa de preservar empregos e impedí-las parar. Em alguns casos, o governo está pagando salários de pessoas que não podem trabalhar em segurança. A União Europeia, em particular, tem encampado esta política, enquanto o governo do Reino Unido vai pagar até 80% dos salários de trabalhadores licenciados. O pacote norte-americano inclui empréstimos a pequenos negócios que serão perdoados se trabalhadores não forem despedidos. Famílias estão recebendo alívio temporário em hipotecas, outros débitos, aluguel e contas em geral. Norte-americanos também vão receber cheques no valor de até 1.600 dólares.

America Latina

Em outra reportagem, a revista “The Economist” aborda o impacto do covid-19 nas economias já enfraquecidas da América Latina. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, que prevê queda de 1,8% na economia da região, acredita que o número de pessoas pobres vai subir de 185 milhões para 220 milhões (numa população total de 650 milhões).

Em reação a esta situação, os bancos centrais de Chile, Brasil, México e Peru fizeram cortes emergenciais de taxa de juros. Vários estão disponibilizando linhas de crédito para empresas (o Banco Central do Brasil, por exemplo, anunciou que vai injetar 230 bilhões de dólares no sistema financeiro, cerca de 11% do PIB) e auxílio para os serviços de saúde e para trabalhadores.

A dificuldade é que a maioria dos latino-americanos trabalham em pequenos negócios e estão na economia informal (sem registro). Pagamentos emergenciais podem alcançar trabalhadores formais e, através de programas de transferência de dinheiro, os mais pobres. Isto deixa de fora um amplo segmento da baixa classe média e de classes trabalhadoras. O governo do Peru, por exemplo, decidiu pagar 108 dólares por família, mas está difícil de distribuir o dinheiro.

Outra dificuldade é como esses governos vão pagar por tudo isso. Governos podem imprimir dinheiro, mas historicamente isto está associado à hiperinflação. Apesar de que, atualmente, a deflação parece maior do que o fantasma da inflação. Países que podem ainda ter acesso ao mercado financeiro devem deixar claro que seus gastos são temporários e que não implicam em perder o controle sobre as finanças públicas. Outros podem procurar o Fundo Monetário Internacional (FMI) que está preparando medidas de emergência financeira.

Brasil

O governo brasileiro decidiu assumir um papel ativo e indutor frente à pandemia do covid-19, de maneira a aumentar a circulação de dinheiro. O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou a liberação de R$ 200 bilhões de compulsórios, pelo Banco Central; R$ 150 bilhões de caixa do BNDES e mais R$ 150 bilhões de antecipação de benefícios e diferimentos de recolhimento de impostos e FGTS.

Outra medida foi a criação do plano de auxílio emergencial aos informais, para os próximos meses, pelo qual vão ter acesso a R$ 600 por mês. O custo total será de quase R$ 50 bilhões. E, além de assumir o pagamento de parte dos salários das empresas, o governo pretende gastar mais R$ 50 bilhões para ajudar o empresário a pagar a folha. A ideia é o governo pagar parte do salário e o empresário financiar a outra parte, segundo Guedes.

O governo ainda pretende anunciar a rolagem da dívida dos municípios, estendendo um benefício dado aos estados, de acordo com o ministro. Com estas iniciativas, Guedes estima o incentivo direto e indireto em mais de R$ 750 bilhões.

O economista Aluizio Barros, professor aposentado da UFSJ, fez alguns cálculos para comparar o tamanho do esforço no Brasil e nos EUA para ajudar empresas, famílias e hospitais no enfrentamento da crise. “O pacote brasileiro mobiliza 700 bilhões de reais - cerca de 10% do PIB de 7,3 trilhões. O norte-americano 2.2 trilhões - ou seja, 10 % do PIB de 21.4 trilhões de dólares. O maior da história do país.”

Estes 10% do PIB dão uma ideia aproximada do esforço governamental dos dois países, resume Barros. “A meu ver, o esforço brasileiro é maior porque os EUA vem de um longo período de expansão econômica. Ao passo que o Brasil vem de um período da maior recessão da sua história produzida pelo PT.”

A maioria dos economistas apoiam estas medidas, diz a revista “The Economist”. Acreditam que elas sejam temporárias, destinadas a manter a economia num coma induzido até que a pandemia passe.

O economista Affonso Celso Pastore, ex-professor da FEA-USP e ex-presidente do Banco Central, considerou, em artigo publicado no jornal “O Estado de S. Paulo” (29/03/2020): “Esta não é uma crise que possa ser eliminada usando só o arsenal dos bancos centrais, como em 2008/09. É preciso salvar vidas e ajudar a recuperação dos mais atingidos. Primeiro, porque a recessão que já está em curso derrubará a receita tributária bem mais do que a queda do PIB. Segundo, porque diante da pobreza da população e da cessação de sua renda é impossível não desenvolver o que Armínio Fraga chamou de rede de solidariedade social”.

Pastore ainda lamentou a falta de um estadista na Presidência da República “capaz de formular um diagnóstico coerente sobre como enfrentar uma epidemia”. Para ele, o presidente deveria encampar as medidas, “com total apoio do Congresso, com ambos ficando plenamente conscientes de que esta conta terá de ser paga por todos nós, aumentando nos próximos anos o esforço necessário para o equilíbrio fiscal”. E disse mais: “As medidas até aqui anunciadas para minimizar as consequências econômicas da crise são claramente insuficientes. É preciso muito mais.”

Tanto é verdade que o economista e ex-professor da FEA-USP Eduardo Gianetti da Fonseca, em entrevista ao programa “De volta pra casa da Rádio Cultura FM, defendeu a implantação temporária da renda mínima no país, mesmo que haja necessidade de emissão de moeda. No entanto, ele admitiu que é uma proposta “perigosa” por causa do risco da volta da inflação e também do seu uso político. 

 

 

Carta de Lisboa (2)

28 de Novembro de 2019, por José Venâncio de Resende 0

Com Padre Joaquim, especialista nos Resendes e um dos apresentadores do meu livro, ao lado de Guilherme Rezende (Foto: Marcos Rodrigues).

Este foi um ano particularmente difícil para mim. Perdi meu pai já beirando os 91 anos de idade, mas que nos deixou como herança, a mim e meus irmãos, o exemplo de um cidadão lutador, humilde e honesto.

De outra parte, apresentei ao público o meu novo livro – Cidades e Resendes: uma viagem por Portugal continental, arquipélago dos Açores, Minas Gerais e Cabo Verde. Trata-se de uma coletânea de textos (reportagens, notícias e artigos) publicados no Jornal das Lajes e que está chegando ao mercado.

Este é um livro que procura construir pontes… Ponte entre continentes. Ponte entre cidades. Ponte entre comunidades… No caso, busca promover uma aproximação entre as comunidades de cidades ligadas aos Resendes (em Portugal, no Brasil e no Cabo Verde), tanto no seu aspecto cultural e histórico quanto no econômico e social.

O tear manual de madeira – presente no Museu Municipal de Resende (norte de Portugal) – é um dos fios condutores desta história, embora não explicitamente. Este tear, usado para produzir colchas (mantas), tapetes e outros produtos artesanais a partir de retalhos de tecidos usados e novos, é o mesmo utilizado por cooperativa e associação de mulheres na Ilha de Santa Maria (Açores) e centenas (ou milhares) de empreendedores que ajudaram a tornar pujante a economia de Resende Costa (Minas Gerais).

Não parece pura coincidência que este tear tenha acompanhado a trajetória dos Resendes, que emigraram de Portugal continental para a ilha de Santa Maria nos Açores e, de lá, para Lagoa Dourada e posteriormente Resende Costa.

A Parte V deste livro é uma homenagem singela ao meu amigo e mestre Rosalvo Pinto – maior especialista nos inconfidentes José de Resende Costa (pai e filho) – com uma seleção de alguns dos seus artigos publicados no Jornal das Lajes.

Mas três questões estão presentes neste livro. Uma delas é como tirar do papel o acordo de cidades-irmãs (ou geminadas) entre Resende Costa e Vila do Porto. Faço eco às palavras do jornalista Domingos Barbosa, editor do Jornal O Baluarte de Santa Maria, para quem as lideranças políticas precisam agir para dar sequência a este acordo. O impulso ao intercâmbio histórico-cultural entre os dois municípios certamente gerará frutos.

Outra questão é o pouco conhecimento da origem dos Resendes dos Açores. Sabemos que emigraram do continente. Com o auxílio do historiador e genealogista José de Almeida Mello, de Ponta Delgada, chegamos ao casal Francisco Curvello e Felipa Faleiro de Resendes, do final do século XVI. Francisco era neto de Antônio Curvello, mestre catalão que foi enviado a Santa Maria pelo Infante D. Henrique, para introduzir na ilha a cana-de-açúcar e seu processamento. Resta saber a origem de Felipa, daí a necessidade de novas pesquisas.

Por fim, anseio por ver colocada em movimento minha proposta de criação de uma rede de cidades resendenses. Algo simples, sem burocracia e grandes custos, a começar por um espaço, a ser inserido nos portais de prefeituras e câmaras municipais, com informações básicas (breve histórico de cada município, agenda anual dos principais eventos e informações de hoteis, restaurantes, transporte etc.).

Consciência ambiental

Ao mesmo tempo em que este foi um ano de dor e de conquista, também foi um período em que aumentou minha consciência ambiental. Fiquei mais globalista porque o planeta é um só, estamos todos no mesmo barco. O que não significa que fiquei menos patriota; aliás, é sempre bom não confundir patriotismo com nacionalismo.

Estou, de fato, sensibilizado com os níveis alarmantes do aquecimento global – nas suas mais diversas formas de manifestação, como o degelo no Ártico e na Antártica; secas e enchentes mais drásticas; ondas de calor mais intensas e extensas; tsunamis e tempestades tropicais (furacões, tufões, ciclones); desertificação etc. –, não apenas vistos a olho nu como também amplamente respaldados pela ciência. Trata-se de uma verdadeira “Marcha da Insensatez” (para utilizar o título do livro da historiadora Barbara Tuchman).

Os gases de efeito estufa, responsáveis pelas alterações climáticas, atingiram níveis de concentração recordes na atmosfera em 2018, com aumento superior à média dos 10 anos anteriores, alerta em relatório a Organização Meteorológica Mundial – agência das Nações Unidas. Entre as principais causas, 85% da produção global de energia provém de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás); apenas 15% é energia nuclear, hidráulica e renováveis. O que é pior: não há sinais de que vá haver uma desaceleração, e muito menos uma diminuição, da concentração dos gases com efeito estufa na atmosfera. Assim, as gerações futuras terão que enfrentar consequências cada vez mais graves das alterações climáticas. A China tornou-se o principal emissor, superando Estados Unidos e Europa. A concentração média de dióxido de carbono (407,8 partes por milhão) é 146% superior à verificada na época pré-industrial.

O jornal digital Observador (22/09) resume em dois os tipos de problemas que limitam nossa qualidade de vida e mesmo a longevidade. De um lado, o excesso de poluentes, especialmente evidentes nas grandes cidades, que passa pelo enxofre e por tudo o mais que os motores de combustão emitem. De outro, a queima de combustíveis fósseis, que emite dióxido de carbono (CO2), o principal responsável pelo efeito estufa e o aquecimento global.

Alguns países, especialmente europeus, estão assumindo a liderança de declarar guerra aos combustíveis fósseis, por meio de medidas como a adoção de maior percentagem de fontes renováveis na produção de energia elétrica, em substituição à queima de carvão e de derivados de petróleo, bem como metas muito apertadas de emissões de CO2 dos veículos. Mas há contradições como o fato de existirem empresas que sozinhas emitem mais CO2 do que muitos milhões de veículos. Basta ver que entre os maiores poluidores estão as próprias empresas petrolíferas.

Países como Alemanha e Portugal estabeleceram metas de neutralidade carbônica, cujo objetivo é zerar (ou quase) as emissões de gases com efeito estufa. Porém, esta solução por país acaba por apresentar problemas. Ocorre que para atingir esta meta dever-se-iam levar em conta fatores, como por exemplo o impacto das transações comerciais e das cadeias de suprimento, que extrapolam as fronteiras de um país.

A revista The Economist chega a falar em “exportadores de emissões de carbono”, entre os quais se destacam China, Índia e Rússia. Curioso é o caso da Arábia Saudita, que não é um grande emissor porque as estatísticas de produção e consumo colocam as emissões do petróleo no país onde ele é processado, e não onde ele é extraído. Uma das dificuldades é medir o impacto das complexas cadeias globais de produção, considerando aspectos como o tipo e a origem da matéria prima ou da componente importada, bem como o tipo de transporte.

Entre as importações que carregam as mais elevadas emissões de carbono estão matérias-primas industriais (ferro, aço e químicos) e produtos de consumo (carros, eletrônicos e têxteis). Esses produtos respondem por cerca de 30% das emissões relacionadas com o comércio, segundo o Global Trade Analysis Project, da Pardue University, citado pela The Economist. O mesmo estudo mostra que os carros e suas componentes exportados pela China são responsáveis por nove vezes mais CO2 do que os exportados pela Alemanha.

Outro exemplo são os milhares de voos aéreos e de circulações de navios de cruzeiro, cuja emissão de carbono também não entra na contabilidade da neutralidade carbônica de cada país. Tanto que, recentemente, a Easyjet anunciou que será a primeira grande companhia aérea a operar voos de carbono zero. A ideia é compensar a excessiva poluição pelo combustível utilizado nos voos com o investimento em projetos florestais e de produção de energias renováveis e comunitários.

Não há caminho fácil

Como se vê, o caminho não é facil para desafios de tal magnitude em relação à emergência climática. Não acredito em soluções drásticas e imediatistas, principalmente determinadas verticalmente por governos ou pela burocracia estatal. Creio, sim, que a tecnologia ajudará a superar grande parte do problema, mas o sentido de urgência leva à necessidade de ações que envolvam todos (governos, empresas, sociedade civil, famílias e indivíduos) e de políticas públicas bem delineadas e realistas.

Mas isto não é suficiente. Acredito que teremos de avançar na substituição dos combustíveis fósseis (petróleo e carvão). Mais urgente é “abolir” quaisquer tipos de plástico da face da terra. Uma coisa parece certa: “a era da energia barata chega ao fim”, constatou um grupo de economistas contratados em 2018 pela Organização das Nações Unidas (ONU) em relatório sobre desenvolvimento sustentável. Assim, manifestações contra aumento nos preços dos combustíveis fósseis parece que vão na contramão da urgência climática.

Faço eco ao alerta do secretário geral da ONU, o português Antônio Guterres. É preciso mudar o paradigma energético centrado nos combustíveis fósseis (petróleo e carvão). Evidente que, quando as empresas petrolíferas estão entre as que mais poluem no mundo, elas terão de deixar de ser parte do problema para ser parte da solução, daí a necessidade de seu envolvimento.

Incêndios. Imagens assustadoras de grandes incêndios nos diferentes continentes (que além de destruir florestas são altamente poluidores) circularam o mundo este ano na velocidade da própria propagação dos incêndios. No caso da Amazônia, não me iludo. Só vejo uma saída para que a floresta não desapareça em poucas décadas: consolidar a soberania sobre a Amazônia a partir de uma visão supranacional.

Acredito que a melhor forma de enfrentar a destruição da Floresta Amazônica é a criação de um conselho permanente de alto nível, envolvendo os Estados dos países que dividem fronteiras na região. Por meio de ações coordenadas, estes países priorizariam um plano de desenvolvimento sustentável, prevenção de catástrofes e combate a incêndios. Uma instância – para além de questões partidárias e ideológicas - que coordene projetos e receba recursos internacionais, com capacidade técnica de gerir esses recursos sem os ruídos demagógicos de políticos populistas. Alguns dirão que sou um sonhador. Paciência!

 

O Real, o câmbio flutuante e o futuro

19 de Julho de 2019, por José Venâncio de Resende 0

Quem testemunhou o fracasso do Plano Cruzado (Governo José Sarney) teria sérias dúvidas em acreditar no sucesso do Plano Real (Governo Itamar/FHC). Afinal, o que inviabilizou o primeiro plano de estabilização econômico-financeira da Nova República, para além de sua novidade, foram medidas demagógicas como prolongamento do congelamento de preços e adoção de juros artificialmente negativos, visão protecionista da economia e, sobretudo, exploração eleitoral do Plano Cruzado por parte do antigo MDB. Dessa forma, não apenas não contribuiu para debelar a inflação herdada dos militares como também gerou a maior inflação (hiperinflação) da história do Brasil.

Parece que a lição foi aprendida, tanto que, recentemente, muito se falou e se escreveu sobre os 25 anos do Plano Real. O economista Gustavo Franco*, presidente do Banco Central à época, em artigo recente citou três lições proporcionadas pelo Real: introdução da URV para trabalhar com públicos “irritados tanto com a inflação quanto com o combate à inflação”; “tratar da infecção e não tanto dos sintomas” (diferença em relação aos “choques heterodoxos”); e “não ceder à complacência” (“levar o trabalho até o fim, pois não existe meia estabilização”).

É neste contexto que é oportuno citar o livro “O Colapso do Real em 1999 – Lições de uma crise cambial”, publicado, recentemente, pelo economista Aluizio Barros**, professor aposentado da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Trata-se de narrativa inédita de uma viragem, corajosa e decisiva, na forma de gerir o Plano Real, como resume o próprio autor: “Vinte anos atrás o Brasil mudou o regime cambial, abandonando a paridade fixa do valor da moeda em relação ao dólar. A pilotagem desta transição – sempre traumática para qualquer país – teve um final feliz. O real foi salvo e o regime de câmbio flutuante assimilado pelos agentes econômicos.”

Embora publicado agora, o livro foi escrito em 1999, “quando não havia completado um ano do novo regime cambial e de suas repercussões na economia brasileira”, como destaca Aluizio Barros no Posfácio. Qual é a avaliação que se pode fazer dos acontecimentos da época vinte anos depois? O próprio autor responde: “Após muitos anos de inflação elevada e instabilidade monetária, que ocasionaram cinco trocas de moeda de 1986 a 1994, o Brasil vem tendo uma invejável estabilidade de preços (especialmente se comparado com a vizinha Argentina) há mais de duas décadas. O câmbio flexível foi incorporado ao arcabouço da política macroeconômica e não é rejeitado pelas eventuais autoridades do Banco Central ou da presidência da República.”

O professor enfatiza os benefícios da flutuação cambial brasileira de 1999, que “foi benigna, com custos sociais bastante reduzidos na comparação com outros países emergentes como México, Tailândia, Rússia e Argentina. A economia brasileira fechou o ano não com recessão, mas com crescimento de 0,47%, superior ao registrado em 1998 (0,34%). No ano seguinte (2000), o PIB exibiu crescimento robusto de 4,39%. A inflação foi controlada ao sair de 1,65% em 1998 para 8,9% em 1999, e 5,97% no seguinte. A taxa média mensal de desemprego aberto das seis áreas metropolitanas pesquisadas pelo IBGE registrou 7,6% em 1998, 7,5% em 1999 e 7,1% no ano 2000. Ou seja, a previsão de agravamento do desemprego devido à mudança do regime cambial não se concretizou.”

Entretanto, Aluizio Barros lamenta a “ longa e penosa batalha judicial” travada pelo economista Francisco Lopes e dois diretores do Banco Central, que felizmente foi vencida com a absolvição nos processos civis em 2018 pelo Tribunal Regional Federal de Brasília.

O futuro em suspense

Não fosse a instabilidade gerada por um sistema político caótico - de muitos partidos e pouca representatividade – a situação econômica do Brasil poderia ser bem melhor. De um lado, temos inflação sob controle, reservas cambiais elevadas e uma balança comercial favorável. De outro, a economia não cresce e o desemprego/subemprego/desalento atinge 25 milhões de pessoas.

Assim, em termos econômicos, o país vive numa encruzilhada entre dar o salto à frente ou se sucumbir às forças do atraso. Além das grandes reformas tão enfatizadas (da Previdência, Tributária, etc.) – que abririam espaço para investimentos em infraestrutura -, faltam medidas microeconômicas e legais (para baixar juros de mercado, diminuir custos e reduzir o cipoal burocrático das empresas, etc.) que facilitem e estimulem a produção e os negócios.

E oxalá o acordo entre União Europeia e Mercosul traga um arejamento para o ambiente nacional, em termos de aumentar a eficiência e a competitividade da nossa economia em benefício do consumidor final.

*25 anos do Real: três lições - https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,25-anos-do-real-tres-licoes,70002896174

**O Colapso do Real em 1999 - https://www.amazon.com/Colapso-Real-1999-cambial-Portuguese-ebook/dp/B07VBZ8HN7/ref=sr_1_1?keywords=aluizio%20barros&qid=1563487717&s=books&sr=1-1&fbclid=IwAR2mYHDDmZfs3hpV9Xpir6uLJc4KPqpbQgenYbdInHtxComl42lYeJn10iY