Abrindo novos caminhos

Carta de Lisboa (2021): Livro, pandemia e clima

19 de Novembro de 2021, por José Venâncio de Resende 0

Volto ao Brasil, quase dois anos depois de minha chegada a Portugal nos primeiros meses da pandemia, com sensações contraditórias. De um lado, a satisfação de ter recuperado parte do atraso nos planos de lançamento do meu livro, e a constatação de que  a ciência está vencendo a guerra contra o novo coronavírus.

Foram realizados dois eventos de apresentação do livro “Cidades e Resendes”: um em outubro na cidade de Viseu, em parceria com a Associação Casa do Brasil; o outro em novembro na Vila Resende, em parceria com a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários e a Foto Ideal Resende. A receptividade deu-me ânimo para investir, nos próximos anos, em novas apresentações do livro (Açores, Cabanas de Viriato, talvez na cidade de Praia no Cabo Verde!) e no projeto de criação do site da Rede de Cidades Resendenses (RCR).

Quanto à pandemia, ciência e indústria, com apoio de alguns governos, cumprem a sua parte, ao produzir em tempo recorde vacinas e medicamentos para enfrentar o novo coronavírus (nova geração de vacinas mais eficientes deverá chegar em 2022). A pandemia ainda não acabou (a Europa já entrou na quarta onda), devendo estender-se por tempo indeterminado, o que é agravado pelo descompasso na vacinação, tanto internamente em países onde há grande contingente de negacionistas quanto na distribuição desigual entre países ricos, intermediários e pobres.

De outra parte, minha sensação é de que estamos perdendo a guerra contra o aquecimento global para os interesses políticos e econômicos. Frustração bem traduzida pela jovem ativista ambiental Greta Thunberg, que vê muito blá blá blá  e pouco resultado. Ouve-se muito a expressão “zero emissões” (meta de descarbonizar totalmente a economia), mas parece mais figura de retórica do que objetivo a ser alcançado neste século. “O sonho de um planeta de quase 8 milhões de habitantes viver em conforto material será inatingível se é baseado numa economia movida por carvão, petróleo e gás natural” (The Economist, 30/10/2021).

Uma coisa é certa: a maior parte da economia mundial está sujeita à meta de emissões zero, o que deverá traduzir em crescente aumento da dívida pública em relação ao PIB de cada país; sem a certeza de que estas metas serão atingidas. Dia desses, ouvi um especialista dizer, num debate, que o maior obstáculo está em enfrentar uma crise climática global com soberanias nacionais. E nesse contexto está presente o desafio de contrapor o nosso comportamento consumista, em geral apoiado/incentivado pelos governos, à necessidade de conter a rápida evolução do aquecimento global.

Basta ver a Torre de Babel em que se transformou a Conferência do Clima (COP 26), realizada em novembro na cidade escocesa de Glasgow, considerada, por muitos especialistas, insuficiente no seu objetivo de limitar, até 2100, o aquecimento da Terra em 1,5ºC acima da era pré-industrial (século 18). Estudo do Climate Action Tracker, um consórcio de pesquisadores, publicado em novembro, mostra que, se todos os planos de descarbonização em 2030 já anunciados fossem executados, haveria 68% de chance de as temperaturas a nível global, em 2100, ficarem entre 1,9ºC e 3.0ºC mais quentes do que nos tempos pré-industriais, com média estimada de 2,4ºC.*  

Se houve avanços na COP26, foram a conclusão do “livro de regras” do Acordo de Paris (sobre planos de ação dos países para alcançar um futuro de baixo carbono e resiliência climática) e a regulamentação do mercado mundial de carbono (redução das emissões globais de gases de efeito estufa por parte dos países vista como um valor econômico a ser transacionado, ou seja, empresa ou país que polui pode comprar créditos de carbono, uma espécie de “autorização”, daqueles que emitem menos e tem florestas; cada crédito corresponde a uma tonelada de dióxido de carbono - CO2). 

Quanto à proposta de banir os combustíveis fósseis (petróleo e carvão), bem, aqui não se fala a mesma língua, principalmente se os interlocutores são os grandes produtores de petróleo (no âmbito da OPEP) e os maiores poluidores do planeta (China, Índia, Rússia etc.). Assim, limitou-se à vaga promessa de “reduzir” o uso do carvão “sujo e os subsídios ineficientes” para os combustíveis fósseis em geral. Também avançou pouco a promessa dos países ricos (feita no Acordo de Paris) de destinar 100 bilhões de dólares anuais em financiamento climático para os países mais pobres saírem da energia fóssil e enfrentarem as catástrofes provocadas pelo aquecimento global (secas, incêndios, enchentes, poluição, furacões etc.). 

O lado positivo da COP26 foi a marcante presença da sociedade civil, sobretudo os jovens. O pavilhão Brazil Climate Action Hub evidenciou a riqueza e a diversidade do País, relatou João Gabriel de Lima, do jornal O Estado de S. Paulo: Por lá passaram cientistas de alto nível (comprometidos em evitar a mudança climática); políticos (da nova geração) e ambientalistas; representantes dos movimentos indígena, negro e de jovens; CEOs de empresas e líderes do agronegócio, lado a lado com ativistas de organizações como o Greenpeace”. “Cada vez mais a nova geração cobra de seus líderes soluções concretas para o clima.” E as lideranças indígenas são cada vez mais ouvidas no cenário internacional sobre a preservação de florestas como a Amazônia. 

Contradições

Durante a COP26, ouviu-se inúmeras vezes a palavra “pobre”, em referência às maiores vítimas do aquecimento do planeta Terra. Porém, esta palavra está eivada de contradições, quer em relação a diferenças entre países quer quanto às populações mais ou menos afetadas pelos efeitos da crise climática. 

Propõe-se, corretamente, acabar com os subsídios (e aumentar impostos) aos combustíveis fósseis, mas como evitar que os mais pobres sejam os mais penalizados pelos aumentos nos seus preços? Há algum consenso, corretamente, de que, num prazo não muito longo, é preciso banir os combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás natural), mas como assegurar que os mais pobres tenham acesso a energias limpas e carro elétrico a preços acessíveis? Defende-se, acertadamente, que é preciso banir o carvão da produção de energia, mas como garantir empregos para os milhares de trabalhadores da exploração de carvão? Procura-se estimular a produção de energias solar e eólica, mas como garantir o lítio usado nas baterias se ambientalistas resistem à exploração deste mineral em seu território? E há também a resistência à instalação de reatores nucleares, que produzem energia limpa, sob a alegação de falta de segurança e de altos investimentos na sua instalação; isto por parte de países que possuem “estoque” de bombas atômicas.

Que é preciso substituir os combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão) por energia renovável (hidrelétrica, eólica, solar) poucos discordam. Mas os custos econômicos e sociais são tantos que há o risco de se criar a “pobreza energética”, o que torna a transição mais difícil, como alerta o analista econômico Celso Ming, do jornal O Estado de S. Paulo. Outros aspectos apontados por Ming são os elevados investimentos necessários, da ordem de US$ 4 trilhões por ano até 2030 (para garantir a neutralidade das emissões até meados do século), segundo estima a Agência Internacional de Energia (AIE); e a pressão enorme que já começa a existir sobre materiais e matérias-primas. “Essa transição exigirá o desmonte de trilionárias instalações de petróleo, carvão, gás natural e frotas de veículos e a substituição correspondente de mão de obra.”

Não apenas isso. Como abrir mão de combustíveis fósseis, que custam menos, e obrigar os mais pobres a adotar tecnologias mais caras que podem agravar ainda mais a sua subsistência? Ainda estamos longe de completar esta transição, mas bastou a pandemia para desorganizar o abastecimento mundial. Pelo menos por algum tempo, teremos de conviver com petróleo e gás natural escassos e caros no mercado global, o que, paradoxalmente, leva à reativação de termoelétricas a carvão mineral igualmente poluidoras (O Estado de S. Paulo, 31/10/2021).   

Transição

Há especialistas que acreditam que haverá uma transição dos combustíveis fósseis (petróleo e carvão) para as energias chamadas limpas (solar, dos ventos, hidroelétrica, etc.), passando pelo gás natural e pelo hidrogênio. Philipp Hauser, associado sênior da think tank alemã Agora Energiewende, admite que é uma mudança complexa; por isso, defende que é preciso garantir que todos os países tenham condições de fazer a transição energética quase que simultaneamente, a fim de evitar que a desigualdade desencadeie graves problemas econômicos e sociais. De qualquer forma, ele reforça que o momento é de investir de forma decisiva na geração renovável e no uso eficiente da eletricidade em setores importantes, como a indústria e o transporte.

Vejamos os casos quase extremos de Índia e Coreia do Sul. A Índia é um país com  desigualdade social gritante, e altamente dependente do carvão para produzir energia, o que o torna um dos maiores poluidores (e poluídos) do mundo; não tem tradição de produzir energia a partir de reatores nucleares, mas possui bombas atômicas. Esta mesma Índia quer postergar ao máximo (para 2070) a eliminação do carvão. Já Coreia do Sul tem planos mais ousados de fazer a transição de indústrias manufatureiras de carbono intensivo para uma economia de baixo carbono, mas terá de conciliar reduções de até 80% nas emissões com prazo relativamente curto (três décadas).
 
The Economist apresenta um cenário futuro para a Coreia do Sul bastante elucidativo: “Fábricas que fazem carros a gasolina e diesel terão de mudar para baterias e veículos elétricos. Estaleiros terão de produzir navios que utilizem combustíveis mais ecológicos, e a indústria petroquímica terá de fornecer estes combustíveis. Fornos metalúrgicos terão de substituir o coque feito a partir do carvão. A eletricidade para a indústria e as famílias, produzida atualmente na maior parte por usinas a carvão, vai ter de mudar para fontes renováveis”. E completa: “No futuro, imaginam os governantes, lugares como Ulsan (cidade metropolitana na costa sudeste do país) e Gunsan (cidade localizada na província de Jeolla do Norte) serão conectados por grandes parques eólicos e cobertos por painéis solares. O hidrogênio verde vai abastecer a próxima geração de navios de cargas e fornos de produção de aço serão neutros em carbono”.  

Certamente, estamos todos no mesmo barco. 

Dinossauro contra a extinção, na voz de Milton Nascimento: https://www.youtube.com/watch?v=KGJgQ4_eStc

*The Economist (13/11/2021)

 

 

 

Rota Lisboa (4/2021): De armas e livros

30 de Junho de 2021, por José Venâncio de Resende 0

Alguns livros doados à Biblioteca Municipal de Resende Costa.

Acabo de ter um grande dissabor com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Algumas semanas depois do envio de um pacote de livros (Lucrécia Bórgia: A Princesa do Vaticano, de C. W. Gortner, e O Egipto, de Eça de Queirós) de Portugal para o Brasil, a Biblioteca Municipal de Resende recebeu, em 16 de junho, um aviso da estatal: “Sua encomenda, referenciada acima (UA0058445573PT), encontra-se no Centro Internacional dos Correios e, para liberá-la, é necessário que você realize o pagamento do Serviço de Despacho Postal”.

Mas, como? Não se trata de “encomenda” nem de mercadoria importada. Ao despachar o envelope em 05/05/2021, na forma de doação, paguei o valor de 15,79 euros, o que equivale a R$ 93,55 (conversão em 30 de junho).

Inconformado, reclamei ao “Fale Conosco” da estatal (protocolo 142095352) e, pelo visto, fizeram ouvidos de mercador, a julgar pela resposta: “Caro Cliente! Como o prazo para o pagamento do despacho postal expirou, a encomenda em questão, encontra-se em processo de devolução ao país de origem. Nessas circunstâncias, não há possibilidade de resgate do objeto”.

Não satisfeito, acionei a Ouvidoria da estatal, tendo minha demanda sido acatada no dia 29 de junho. Mas não alimento muita esperança quanto ao destino desta correspondência, especificamente, pois temo que, a esta altura, ela já esteja em trânsito de volta ao remetente em Lisboa. 

Há algum tempo encaminho livros, a título de doação, para a Biblioteca Municipal de Resende Costa, minha cidade natal. E nunca tive problema com as remessas anteriores. Em meio a este “incidente de percurso”, nova remessa de livros já estava a caminho do Brasil. Em alguns dias, saberemos se o ocorrido foi uma “barbeiragem” ou se a prática de cobrar doações de livros no destino veio para ficar. 

Em caso de se confirmar a segunda opção, aí então saberemos que terá sido implantado de vez no Brasil a política de valorizar mais as armas do que os livros, mais o militarismo do que a cultura. 

Texto de 30/06/2021

        
    

Rota Lisboa (3/2021): Quarenta anos em defesa da língua galego-portuguesa. E um desafio!

22 de Maio de 2021, por José Venâncio de Resende 0

Catedral, o símbolo de Santiago de Compostela.

Acabei de me tornar sócio da AGAL (Associaçom Galega da Língua) que, no dia 17 de maio, celebrou 40 anos de vida e fez um desafio. A mais antiga associação reintegracionista lançou o plano ambicioso de “galgar o rio Minho”, o que significa “invadir” Portugal e mesmo ir para o além-mar (Brasil) e o continente africano. “É no âmbito lusófono extragalaico que a AGAL tem menos músculo e, por isso, decidida a resolver essa carência, decidiu que associará cidadã(o)s provindas/os de qualquer país lusófono (excetuando a Galiza), por uma quota simbólica de 94 cêntimos de euros durante um ano de associação desde o momento em que se torne efetiva a adesão à associação”, diz comunicado da instituição em sua página na internet.

E por que este valor (inferior a 1 euro), que na moeda brasileira representa pouco menos de R$ 6,45? “Esta quantia simboliza o número de pessoas associadas com que partiu a entidade em 31 de outubro de 1981, após meses de trabalho de uma comissão fundacional desde o mês de maio. Com a AGAL nascia também o movimento reintegracionista organizado que já estavam a antecipar os debates normativos acontecidos ao longo dos anos (19)70.”

Sempre fui fascinado pela Galiza, e todo ano (com exceção do período pandêmico) vou a Santiago de Compostela, pelo menos uma vez no ano. Meu interesse pela Galiza pode ser visto em artigos e reportagens que publiquei.

Por exemplo, em outubro de 2014, em “Reintegracionismo”, Galiza, Portugal e nós…, destaco que José Ramom Flores das Seixas, Joseph Ghanime Lopes, Beatriz Peres Bieites, Valentim Fagim Rodrigues e Eduardo Sanches Maragoto, apresentam no livro Quês e porquês do reintegracionismo (1ª ediçom, Junho de 2014. Associaçom Galega da Língua, Através Editora, 2014) duas estratégias para inverter o estado atual da língua galega, ou seja, a autonomista (galego é só a língua da Galiza) e a reintegracionista (galego é a língua da Galiza e de vários países mais).

“Eles consideram a segunda estratégia mais eficaz, por três razões: 1) apoiar nas variedades de Portugal e Brasil (cujas línguas são soberanas) permitiria à Galiza “soberanizar” a sua variedade em relação ao castelhano; 2) as variedades da língua, principalmente do Brasil e Portugal, permitiriam à Galiza superar muitas das carências do seu idioma (livro técnico e literatura universal, versões de filmes, canais de TV, software e versões de sites, música etc.); e 3) haveria maior difusão da cultura galega a partir da sua inserção na cultura lusófona, bem como reforço da identidade da língua galega como independente do castelhano.”

Em dezembro do mesmo ano, no artigo A Galiza, o galego-português e a busca por independência, relato a conversa que eu tive, em Santiago de Compostela, com Camilo Nogueira, deputado três vezes (1981-93 e 1997-99) no Parlamento da Galiza e um mandato no Parlamento Europeu (1999-2004). Segundo Camilo, os nacionalistas galegos reivindicam a identidade entre o galego e o português, o galego-português, e trabalham por esse reconhecimento oficial.

Na ocasião, Camilo Nogueira enfatizou a necessidade de reconhecimento da língua-mãe. “O Estado espanhol nem sequer reconhece o galego-português, negando uma riqueza evidente. (…) Esquece que, através do Brasil, também se fala o galego-português nascido na Galiza histórica.” Ao que acrescentei: Por isso, Camilo não parece muito otimista. Acha que a Galiza deve inspirar-se na Catalunha, no País Basco e na Escócia, e lutar pela independência. ´A Galiza quer separar-se de um império europeu´.

Neste artigo, concluí: Seja o movimento social pela regeneração do galego-português, seja a luta pela independência da Galiza, o fato é que entidades como a Associaçom Galega da Língua (AGAL), a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) e o Parlamento de Galicia terão papel cada vez mais importante neste processo. 

Comecei a ler o livro História do Português desde o Big Bang, de Marco Neves, editora Guerra & Paz. No capítulo “1000 d.C. Do Latim à nossa Língua”, o autor lembra o papel dos senhores feudais do Norte na chamada Reconquista Cristã, “que se foram assumindo os títulos de reis, príncipes, condes, imperadores”. Era o ano 711 d. C., a noção de país era algo distante. “Eram todos cristãos, todos hispanos, todos da sua região…”

A noroeste da antiga Hispânia, a Galécia era um território que correspondia, aproximadamente, à atual região do norte de Portugal e a Galiza, Astúrias e Leão, na Espanha. O então território, inicialmente denominado Astúrias, passou a usar os nomes de Leão, Castela, Aragão, entre outros reinos, observa Marco Neves. “Mas há um nome importante de que nos esquecemos muitas vezes e que vem no seguimento da província romanda da Galécia: a Galiza.” Esse território, a noroeste da província, “é muito importante para a história da nossa língua, uma história que não conseguimos compreender sem olhar para o território de toda a península”.

O autor publica em seu livro um mapa sobre a situação linguística na península na altura do ano 1000 d. C. Por este mapa, encostado ao Mediterrâneo, desenvolveu-se a língua hoje conhecida como catalão, “muito próximo do occitano, uma língua falada no Sul da França”, prossegue Marco Neves. “O catalão foi a língua principal da corte dos soberanos da Coroa de Aragão.” Ao meio do mapa, falava-se o castelhano que se expandiu para sul e começou a ser chamado também de “espanhol”. “Com esses dois nomes, é a língua de muitos países e oficial em toda a Espanha.” Na faixa encostada ao Atlântico, “o latim desenvolveu um sabor especial”, conta o autor. No final do primeiro milênio, “a língua na rua já seria muito diferente da língua da escrita”.

Já no século XII, “a língua na rua era o tal romance da Galécia, designado pelos seus falantes usando a palavra ´linguagem´ - era a linguagem a fala dos galegos e dos novíssimos portugueses”, relata o autor. “A linguagem dos documentos oficiais era, ainda, o latim. Na oralidade, teríamos um romance próprio, a língua que provavelmente sairia da boca de Afonso Henriques (o primeiro rei). Hoje, chamamos a essa língua ´galego-português´, mas é um termo inventado muito depois.”

Fiquemos por aqui. Vale a pena ler o livro de Marco Neves.

Telhado de vidro

A implementação, no início de maio, de cerca sanitária nas freguesias de S. Teotônio e de Longueira/Almograve, no município de Odemira, interditando deslocações e a circulação e permanência de pessoas na via pública para conter surtos de covid-19, trouxe à luz do dia aquilo que todo mundo já sabia que existia, mas fazia de conta que ignorava. Só para situar o leitor, Odemira, na região do Alentejo, é o maior município português em extensão territorial (1.720,60 km² de área). Desenvolve uma “agricultura moderna” em estufas (simbolizada pelas framboesas), baseada na mão-de-obra barata de imigrantes principalmente asiáticos e no superconsumo de água.

Alguns dias depois, ao visitar o local para anunciar o fim da cerca sanitária, o primeiro-ministro Antônio Costa levou na bagagem dois protocolos para assinar com a autarquia e com as três associações de empresários “dito agrícolas”, publicou o jornalista Miguel Sousa Tavares, em artigo no jornal Expresso (14 de maio). Prevê-se que, até março de 2022, comecem a pensar em “como substituir os contentores transformados em habitações condignas pela resolução do Conselho de Ministros de 2019 por qualquer coisa mais decente, talvez casas, daquelas em que vive gente”.

A questão da precariedade das habitações desses trabalhadores imigrantes ficou evidente na pandemia, com a superlotação das moradias. “Não foi difícil convencer os ditos empresários a assinar os protocolos: as casas vão ser pagas com verbas da ‘bazuca’ (da União Europeia) e de outras origens — ou seja, na totalidade ou em parte, os contribuintes vão chamar a si a solução de alojamento dos trabalhadores destes empresários visionários”, observou o jornalista.

Um grande avanço, considerando que “ainda há pouco o ministro da Administração Interna e a secretária de Estado da Imigração garantiam que Odemira era um caso exemplar de humanidade e integração de populações migrantes”, disse Tavares. E acrescentou: “Embora, como é óbvio, se tudo se cumprir, aqueles infelizes ainda tenham de esperar muitos anos e de apanhar muitas toneladas de framboesas até conseguirem viver num local a que se possa chamar casa e dormir numa coisa a que se possa chamar cama”.

Tavares complementou, ainda, que há duas questões por resolver: laborais e ambientais. “Quanto às primeiras — as situações em que os trabalhadores pagam à cabeça milhares de euros pelo privilégio de virem trabalhar para Portugal, os contratos em que lhes garantem vir ganhar mil euros e depois lhes entregam 200, as empresas que os subcontratam e depois desaparecem, a falta de protecção social a todos os níveis —, tudo isso é matéria de investigação remetida para um futuro sem data.”

Quanto à questão ambiental, “Odemira são 7000 hectares (e o triplo dessa área previsto), que, por si só, representam 15% das exportações de frutos, legumes e flores do país”, como disse o primeiro-ministro no Parlamento. Já “destruição da paisagem de um Parque Natural, a contaminação dos solos e o uso intensivo de água onde ela escasseia e em Rede Natura e Zona de Reserva Agrícola, isso pouco importa. Os discursos sobre a agricultura sustentável e amiga do ambiente são bons para os programas de Governo, mas não servem para governar”, criticou o jornalista.

Ah, sim, a dita “agricultura moderna” não existe apenas em Odemira e no Sudoeste alentejano, mas também em Alqueva (distrito de Évora), Beiras (região do centro do país), Algarve. 

LINKS CITADOS:

https://pgl.gal/pessoas-lusofonas-poderao-unir-se-a-agal-com-uma-quota-simbolica-ao-longo-de-2021/?fbclid=IwAR28w3XlaeK45r_hL6u2FzT67LITCvPmza1T9cJ_j-UyHY0Qjcukhpdeu_w

https://www.jornaldaslajes.com.br/colunas/abrindo-novos-caminhos/a-galiza-o-galego-portugues-e-a-busca-por-independencia/722

https://www.jornaldaslajes.com.br/colunas/abrindo-novos-caminhos/-reintegracionismo-galiza-portugal-e-nos-/711

 

 

Rota Lisboa (2/2021): Pandemia, máscaras, armas e vacinas

15 de Fevereiro de 2021, por José Venâncio de Resende 0

Carnaval ou coronavírus? (Foto: revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios)

Este ano, as máscaras carnavalescas foram substituídas por máscaras anti-coronavírus. Mas, se não há blocos nem escolas de samba, as aglomerações continuam principalmente em praias, bares clandestinos e sítios. E o Brasil continua em posição desconfortável (9,8 milhões de casos) no ranking mundial da pandemia, que soma o recorde de quase 300 mil novos casos a cada dia.

Por aqui, chega a notícia de que o Brasil alcançou a maior média de mortes (1.105) por semana, desde o início da pandemia. Enquanto isso, o presidente Bolsonaro comemora os decretos que facilitam a compra de armas por cidadãos nacionais. A arma da vacinação continua chegando a estados e municípios em ritmo lento, por falta de vacinas. E pelo visto, só depois do carnaval que não houve, será aprovado o novo auxílio emergencial, que deverá ficar em 250 reais por mês em três parcelas – a partir de junho, só Deus sabe.

Europa

Na Europa, os países continuam em confinamento e com restrições nas fronteiras para conter a terceira onda da pandemia, e a vacinação continua a conta-gotas devido à oferta insuficiente dos imunizantes. A região aspira tornar-se o primeiro continente em produção de vacinas em 18 meses, mas por enquanto tem de se contentar com as três vacinas aprovadas (mais duas nas próximas semanas) e com o reforço das fábricas na Europa e na Suíça, segundo o comissário europeu Thierry Breton.

Portugal vive a pior fase da pandemia, mas começa a mostrar sinais de alívio -  depois do pico de 12.778 casos na média em final de janeiro, caiu para a média de 3.636 casos em 12 de fevereiro; o número de mortes que estava entre 200 e 300 no seu pior momento caiu para menos de 200 embora continue elevado; e os cuidados intensivos nos hospitais permanecem sobrecarregados, sendo os últimos indicadores a baixarem.

Embora em curva descendente, Portugal ainda continua no topo pelos piores motivos: 1.190 casos por 100 mil habitantes em 14 dias, seguido da República Checa (915) e de Espanha (843), para a média europeia de 359 casos. Para o futuro, enquanto a vacina não atende o esperado, a ordem é aumentar a capacidade de testagem, rastrear ao máximo os contatos e isolar os infectados. Só assim será possível pensar em retomar segurança a economia.

Enquanto isso, a Comissão Europeia começa a estudar medidas para reduzir as restrições a viagens e estimular o turismo no próximo verão, como certificado de imunidade ao coronavírus e teste rápido. Em outras palavras, garantir que os viajantes não sejam portadores do vírus.

Bem à frente da União Europeia, o Reino Unido comemora a vacinação de 15 milhões (ou 22%) dos britânicos, as pessoas mais vulneráveis, com a primeira dose. Com a vacinação e a queda drástica nas taxas de infecções, hospitalizações e mortes, o governo britânico já fala em aliviar as medidas de confinamento, em vigor desde o início de janeiro.

Exportador de nova variante do vírus até 70% mais mortal, a Inglaterra inicia hoje uma quarentena para passageiros de 33 países, entre eles Brasil, Portugal e África do Sul, na tentativa de barrar a entrada de novas variantes mais infecciosas como as de Manaus e da África do Sul. Só entram no país os cidadãos britânicos e residentes; antes de voltar para suas casas passarão 10 dias fechados num hotel perto do aeroporto e pagarão por isso quase 2000 euros mais os custos de dois testes covid e refeições em regime de takeaway.

Estados Unidos

Apesar da idade, Joe Biden é o presidente americano mais rápido em tomar decisões nos primeiros dias de governo, comparado aos anteriores, de acordo com levantamento do analista global Paulo Portas, da TVI portruguesa. Ações que vão desde a gestão da pandemia (aceleração da vacinação e anúncio de plano fiscal de US$ 1,9 trilhão para recuperar a economia) até ações que revertem decisões do antecessor sobre alterações climáticas, imigração e política internacional, como retorno ao acordo do clima e à OMS, fim da construção do muro na fronteira com o México, mudança nas regras de entrada de imigrantes e renovação por cinco anos do tratado de desarmamento nuclear com a Rússia.

A parte ruim, embora não tenha havido surpresa, foi que o Senado rejeitou, pela segunda vez, o impeachment de Donald Trump. O ex-presidente era acusado de incitamento à invasão do Capitólio, em 6 de janeiro, por parte de seus apoiadores, que ameaçaram membros do Congresso, inclusive republicanos, reunidos para formalizar a vitória de Biden nas eleições de novembro. Com 57 votos a favor e 43 contra a absolvição, os demecratas não conseguiram a maioria de dois terços necessária, o que deixa o caminho livre para Trump continuar na vida política e inclusive se candidatar de novo. Ele já se manifestou: O nosso movimento histórico, patriótico e belo ainda só começou.

O curioso é que, mesmo republicanos que votaram contra o impeachment, reconheceram a culpa de Trump na invasão do Capitólio. O líder dos republicanos no Senado, Mitch McConnell, votou pela absolvição, embora tenha considerado o ex-presidente culpado pela “incitação à insurreição. Resta saber qual será o futuro do Partido Republicano, dividido entre os trumpistas e os que rejeitam o populismo do ex-presidente.  

 

Rota Lisboa (1/2021) Pandemia, terceira onda e vacinas

04 de Janeiro de 2021, por José Venâncio de Resende 0

O bom exemplo da vice-presidente Kamala Harris que toma posse este mês nos EUA.

Ano novo, problemas velhos, temperados por grande dose de esperança. O mundo caminha para os dois milhões de óbitos decorrentes da pandemia do novo coronavírus. As explicações mais comuns são o surgimento de novas variantes mais infecciosas no Reino Unido e na África e os excessos cometidos nas festas de fim de ano.

O brutal aumento de infecções já está colocando em risco de colapso o sistema de saúde de vários países. Fala-se inclusive em terceira onda, tanto assim que governos europeus estão apertando o cerco, quer com restrições à circulação das pessoas, quer com ameaça de confinamento total.

As vacinas começaram a ser aplicadas no final do ano na Europa, nos Estados Unidos e em alguns países asiáticos. Mas ainda em quantidades modestas, em geral destinadas aos profissionais de saúde e funcionários e idosos de lares, e esporadicamente em pessoas de mais idade fora destas prioridades. Especialistas acreditam que dificilmente os resultados aparecerão antes do verão europeu (a partir de junho).

Um dos problemas principais é a escassez de doses, uma vez que a demanda é enorme e a produção limitada no curto prazo. A Pfizer, por exemplo, já alertou que terá dificuldades de cumprir o cronograma de entrega aos países europeus. Assim, corre-se para aprovar a vacina da Astrazeneca/Oxford, de maneira a ampliar a oferta. Só Portugal espera receber cerca de 20 milhões de doses este ano, o suficiente para vacinar toda a sua população (duas doses) e ainda deixar parte em estoque.

O Brasil continua sem um plano nacional de vacinação, o que transforma numa balbúrdia o combate ao coronavírus. O Instituto Butantan de São Paulo informou ter fechado o ano com quase 11 milhões de doses da vacina Coronavac (importadas ou em produção local), para vacinar prioritariamente os profissionais de saúde e idosos no âmbito do Estado. Mas já há uma corrida por parte de vários municípios brasileiros, ou consórcios de municípios, para encomendar a vacina.

O Butantan ainda aguarda informações da parceira chinesa Sinovac Biotech para entrar com solicitação de aprovação na Anvisa. Aliás, é impressionante o ruído de comunicação em torno desta vacina, com idas e voltas sobre o anúncio da taxa de eficácia, o que acaba por reforçar o discurso negacionista e preconceituoso do presidente Bolsonaro. De qualquer forma, o plano do governo paulista é iniciar a vacinação em 25 de janeiro, aniversário da capital.

Já a Fiocruz foi autorizada pela Anvisa a importar dois milhões de doses da Astrazeneca/Oxford, que começou a ser usada nesta segunda-feira (4) no Reino Unido, e, tão logo seja possível, iniciar a produção da vacina no Brasil. Esta vacina esteve envolta em polêmica por ocasião do seu anúncio em novembro passado. A farmacêutica Astrazeneca revelava eficácia entre 62% e 90% em análise preliminar. Alguns dias depois, nova análise apontou dúvidas, inconsistências e erros relacionados ao estudo clínico da fase 3, a última etapa antes da aprovação pelas agências regulatórias. A justificativa da empresa foi que uma parte dos voluntários recebeu apenas meia dose na segunda aplicação.

Agora, insinua-se que o governo britânico teria pressionado a agência reguladora para acelerar a liberação da vacina para o uso. Em comentário na noite de domingo (3) na TVI portuguesa, o analista Paulo Portas acrescentou que o governo britânico decidiu, à revelia do regulador, ampliar o intervalo de aplicação das duas doses, de 14 ou 21 dias para 12 semanas, a fim de tentar vacinar o maior número possível; o que parece uma medida de desespero diante dos mais de 50 mil casos diários de covid-19. Cautelosos, os reguladores europeu e norte-americano resolveram adiar para fevereiro/abril a avaliação da vacina, na expectativa de mais informações.

De qualquer forma, há esperança de que novas vacinas sejam aprovadas este ano, como a da farmacêutica Johnson & Johnson (vantagem de uma única dose). No Brasil, por enquanto, a esperança está depositada nas vacinas Coronavac e Astrazeneca/Oxford. Enquanto isso, a orientação dos especialistas é no sentido de continuar adotando as medidas preventivas (distanciamento social, máscaras etc.), tudo aquilo que Bolsonaro abomina e desrespeita, ostensivamente, dando um sinal trocado para seus admiradores e seguidores.