De olho na cidade

Transporte público em Resende Costa

14 de Novembro de 2017, por Edésio Lara 0

No último mês de outubro, a notícia de que a empresa de transporte coletivo Presidente, que opera a linha Resende Costa – São João del-Rei, faria uma redução no preço das passagens, deixou parte da população animada e outra, desconfiada. A Viação Sandra, recentemente, reduziu o preço da passagem de ônibus entre Belo Horizonte e Resende Costa, portanto, a intensão não nos pegou de surpresa, nem foi motivo de alarde. Essas “bondades”, vindas de empresários detentores de exclusividade nas linhas que operam, são resultado de fatos que as têm atingido em cheio.

Antigamente, até meados da década de 1960, ir de ônibus a São João del-Rei era uma coisa rara e, para nós meninos, uma festa. Quase ninguém possuía automóvel ou motocicleta e São João parecia longe quando a viagem era feita em ônibus precários em estrada de terra que cortava a vizinha Coronel Xavier Chaves (Coroas). No período chuvoso (e como chovia muito naquele tempo!), entre os viajantes uma pergunta era inevitável: será que a jardineira (ônibus) passa pela ‘cava amarela’? O aclive mais acentuado da estrada era como divisor de espaços, visto que os veículos nem sempre conseguiam vencê-lo. Para transpô-lo, era então necessário promover a baldeação: o coletivo parava ao pé do morro e os passageiros seguiam a pé até seu ponto mais alto para embarcar em outro veículo e seguir viagem até São João del-Rei, o que durava quase duas horas. As pessoas dependiam e muito dos serviços prestados pelos ônibus.

Na década de 1980, as coisas começaram a mudar e melhorar, quando uma estrada nova e asfaltada diminuiu o tempo de viagem e passou a oferecer mais conforto aos passageiros. O que se viu também, no mesmo período, foi a frota de veículos particulares dos resende-costenses crescer de forma expressiva. Os moradores da cidade, aos poucos, passaram a depender menos do transporte coletivo para circular entre as cidades. Desde então, a empresa de transporte começou a perder passageiros que passaram a considerar o conforto, rapidez e agilidade dos automóveis.

Alguns anos atrás, a Empresa Nossa Senhora da Penha (do Nísio), que operava o trecho, foi substituída pela Presidente. A nova empresa, apesar de operar com ônibus melhores e mais confortáveis, não viu crescer o número de passageiros em suas viagens. Pelo contrário, as poltronas vazias passaram a ser em maior número. Recentemente, com o uso do telefone celular e outros meios que aproximam e facilitam a comunicação entre pessoas, surgiram os “grupos de carona”. Basta um proprietário de veículo postar no Facebook ou encaminhar mensagens de oferta de cartona paga para grupos no WhatsApp para que esses circulem por aí transportando passageiros entre um lugar e outro. As empresas de ônibus, que décadas atrás eram únicas quando o assunto era transporte coletivo, perderam muitos passageiros nos dois últimos anos.

O caso da Presidente, que reduziu o preço da passagem entre RC e SJDR, com aval do Executivo Municipal, é reflexo disso: da concorrência informal, como exposto acima. Só não deu certo, porque a empresa resolveu trocar os ônibus de poltrona acolchoada e reclinável e bagageiro, por veículos que são utilizados para transporte municipal e que não oferecem conforto e segurança. Os bancos desses lotações, como chamamos esses veículos, são duros, não possuem cintos de segurança e nem dispõem de espaço adequado para a acomodação de bagagem. O que não era tão bom, ficou pior ainda. Os usuários “botaram a boca no trombone” e o prefeito municipal também se posicionou. Ante as manifestações de protesto, a empresa voltou atrás, isto é, recolocou os veículos mais confortáveis na estrada.

Atualmente, com o aprimoramento dos meios e veículos de comunicação, governos e empresários precisam rever estratégias de suas ações, quando o assunto é a prestação de serviços públicos de transporte de pessoas. Se nos assustamos com o progresso – e aqui não há como deixar a internet fora da reflexão – imagina como não estará o mundo daqui a cinco, dez, quinze anos? Certamente, e para o bem de todos, esperamos que os serviços de transporte coletivo, definitivamente, sejam mais eficientes e melhores dos que temos agora. Isto, porque a população necessita dele.

As ruas de Resende Costa e seus personagens

15 de Setembro de 2017, por Edésio Lara 0

Certa vez, conversando sobre música e músicos de Resende Costa com o maestro Geraldo Sebastião Chaves, ele me disse de Marcos Reis, que, vindo de outro lugar, esteve em nossa cidade e atuou, não sei se como instrumentista ou regente de banda. Procurei me informar sobre esta pessoa, mas, nada descobri sobre ela. Certo é que, como me apontou o maestro Geraldo Chaves, o nome de Marcos Reis permaneceu entre nós através de nome de rua que lhe deram. Atrás de alguma informação sobre ele, dirigi-me até a sede da Câmara Municipal à procura de notícias sobre o citado músico. Nada encontrei. Não há qualquer documento, segundo me disse uma funcionária do legislativo municipal, sobre esta pessoa e muito menos um registro sobre qual vereador coube a tarefa de propor aos demais um nome de rua em homenagem ao dito músico.

Pessoas importantes, em todos os lugares, permanecem na memória de muitas maneiras. É comum seus nomes serem perpetuados em prédios públicos, praças, ruas ou cidades. Em Resende Costa, não diferente de outras cidades, há um número significativo de logradouros que lembram pessoas importantes para a comunidade em sua época, tais como padres, artistas, médicos, políticos, professores, por exemplo. O nome da nossa cidade é exemplo desse fato, visto que mantém viva a memória de José de Resende Costa, um pai e outro filho, figuras centrais da Inconfidência Mineira.

Aqui, quero me referir a Gervásio Pereira Alvim. Fazendeiro, morador nos Campos Gerais, proprietário de rancho e pouso de tropas no caminho da Lage, ele era descendente do Inconfidente José de Resende Costa. Por isso mesmo, depois de morto, mereceu ter seu nome destinado a uma rua em nossa cidade. Não devemos confundi-lo com Dr. Gervásio, médico, que também recebeu a mesma homenagem pelos serviços prestados em nossa terra. Cito aqui o nome de Gervásio Pereira Alvim, falecido em 7 de março de 1837, por simples razão: em breve será lançado pela Editora Alameda, livro de autoria de Paula Chaves Teixeira Pinto, jovem historiadora resende-costense, bastante conhecida na cidade. O livro sairá em breve com o título “De Minas para a Corte. Da Corte para Minas: movimentações familiares e trocas mercantis (c.1790 – c.1880)”. Trata-se de tese defendida por Paula Chaves na Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. A obra tem como personagem principal Gervásio Pereira Alvim.

A publicação tornou-se possível através de uma parceria entre a Associação de Amigos da Cultura de Resende Costa (AMIRCO), Prefeitura Municipal e Câmara Municipal de Resende Costa.

Assim que o livro for lançado, o que deve ocorrer no início de 2018, e distribuído nas principais livrarias do país, Resende Costa será motivo de comentários. A própria Paula Chaves, ao citar com entusiasmo seu trabalho, diz que há muito por ser pesquisado sobre a região onde está nossa cidade. Certamente, seu livro servirá como fonte preciosa para outros pesquisadores que têm interesse em fatos ocorridos no passado e que ainda são pouco conhecidos.

Outros personagens, da forma como acontece agora com Gervásio Pereira Alvim, serão relembrados. Atualmente, nomes de alguns homens e mulheres nascidos no lugar ou que nele vieram morar estão registrados em edifícios, placas de sinalização de praças ou ruas da cidade, sem que os próprios moradores desses logradouros tenham notícia sobre os mesmos. O momento é oportuno, nos convida a voltarmos nosso olhar para conhecermos melhor fatos e pessoas de séculos passados, que são a origem do que somos hoje.

Notas sobre ações do Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura de Resende Costa/MG

13 de Julho de 2017, por Edésio Lara 0

Desde o último mês de abril, tornei-me membro do Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura de Resende Costa/MG. Este conselho é composto de quatorze membros entre titulares e suplentes e tem mandato com duração de dois anos. Cabe a este conselho que presido, a responsabilidade de acompanhar, analisar ou propor ações que preservem o patrimônio histórico e cultural do município. Destaco aqui, parágrafo de texto publicado pela prefeitura municipal e que descreve o conceito de patrimônio histórico: “Por patrimônio histórico entende-se o conjunto de bens móveis e/ou imóveis existentes em nosso território vinculados a fatos históricos memoráveis ou fatos atuais que agregam valor cultural ao patrimônio. Também são considerados patrimônio histórico os bens de natureza imaterial que constituem a cultura de nossa cidade e acrescentam valor ao nosso patrimônio. Esses bens devem ser protegidos contra ações de natureza prejudicial decorrente da atividade humana ou mesmo pelo decorrer do tempo”.

Os atuais membros do conselho, já no dia em que tomaram posse, chamaram para si a incumbência de dar mais visibilidade às suas ações e, também, de discutir com os moradores da cidade sobre a importância do trabalho de tombamento e preservação de bens históricos do município. E há muito por ser feito.

Atualmente o conselho está empenhado em ver as obras fundamentais de preservação do que já foi tombado sendo iniciadas. Não basta tombar um imóvel, por exemplo, mas acompanhar e fiscalizar todas as ações que devam preservá-lo. Em paralelo, quer o conselho que seja feito um trabalho de esclarecimento, de conscientização da importância do que nos restou de épocas passadas e merece ser preservado. São imóveis, móveis, documentos, enfim, um conjunto de bens materiais ou imateriais que dizem respeito às nossas origens.

Cito uma ação que exemplifica bem o que pretendemos. Em 1944, o então Padre Nelson Rodrigues Ferreira, recém chegado à Resende Costa, notou que documentos importantes da paróquia estavam espalhados, completamente desorganizados. Eram tantos escritos, havia anotações de registro de batismo e de óbito, que datam dos séculos XVIII e XIX. Pois bem, o novo padre, preocupado com a conservação desses documentos, mandou encaderná-los. São seis livros e, em dois deles, registrou sua preocupação. No livro de óbitos deixou escrito: “Mandei encadernar este livro para não se perderem as folhas que se acham esparsas aqui e acolá quando assumi esta paróquia de Resende Costa”. Noutro livro, o de batismo, mudou um pouco o texto, deixando claro que, pelo mal acondicionamento do material, algumas folhas já haviam sido perdidas: “... as folhas como perdidas algumas estão que se acham soltas e espalhadas aqui e acolá”.  Por fim, como exemplo do que contém esses livros, transcrevo aqui um registro de batismo: “Aos 11 de maio de 1796 nesta capella da Lage baptismei solenmte a Thereza nascida a 27 de abril, filha natural de Vitória, escrava de Francisco José de Mesquita. Foram padrinhos Joaquim José de Aquino e sua mulher Maria Silveira desta aplicação. O Pe. João José”. Junto a este registro de batismo, o padre Nelson anotou ao lado do nome do pai da criança: “Envolvido na Inconfidência Mineira.”

Esses livros que pretendemos tombar são um patrimônio da cidade, precisam ser bem cuidados. Antes, porém, devem ser apreciados por especialistas para que seu conteúdo seja transcrito e disponibilizado. São informações importantíssimas e que interessam principalmente a estudiosos – historiadores, notadamente – que dependem muito dessas informações para o pleno desenvolvimento de suas pesquisas.

Desde meados da década de 1990, os livros antigos de batismo e de óbito se encontravam fora da Paróquia de Nossa Senhora da Penha. Uma ação conjunta da Paróquia e do Conselho de Patrimônio trouxe-os de volta para onde jamais deveriam ter saído. Um bem público como esse não pode ficar em mãos de uma pessoa mas, sim, guardados em local apropriado e à disposição de todos, para consultas. Agora, de posse desses documentos desde o último dia 16 de junho, iremos, na próxima reunião do conselho, encaminhar a indicação de tombamento dos mesmos.

A Biblioteca Municipal Antônio Gonçalves Pinto merece ser mais bem cuidada

16 de Junho de 2017, por Edésio Lara 0

Prédio da quase centenária Biblioteca Municipal Antônio Gonçalves Pinto (Foto André Eustáquio)

Uma biblioteca pública guarda, conserva, organiza e disponibiliza seu acervo ao público. Mais ainda, é espaço de fruição cultural e convivência importante para a comunidade. Assim é a biblioteca de Resende Costa que, em 2018 completará cem anos de existência. Além do acervo composto principalmente de livros e periódicos, possui sala de informática, sala para leitura e reuniões, bem como pequeno auditório onde podem acontecer minicursos, conferências ou outras atividades afins. Situada em prédio próprio e em lugar privilegiado, no ponto mais alto e belo da cidade, ela é resultado de uma ação de Antônio Gonçalves Pinto. Ele doou os livros que possuía para sua instalação no fim da década de 1910, seis anos após a emancipação do município. Até hoje nos valemos do seu gesto altruísta.    

Muitos livros, alguns publicados nos séculos 18 e 19, que temos como obras raras estão, em parte, bem conservadas, depois de a Associação dos Amigos da Cultura de Resende Costa (AMIRCO) ter se incumbido de buscar recursos para recuperá-los. Outros aguardam nova frente de trabalho para que não sejam destruídos pela ação do tempo ou mesmo pela falta de cuidado específico. Esses livros antigos, todos guardados em sala especial, não são emprestados. Mas, há outros que são costumeiramente retirados para leitura que demandam, também, reparos, antes de serem considerados sem condição de uso. Manutenção, portanto, é um assunto que precisa ser colocado em pauta e a biblioteca não possui pessoal capaz de realizar este trabalho.

Ao observar os muitos livros que precisam ser retocados, entre os quase 10.000 exemplares que a biblioteca possui, fica uma pergunta: qual tem sido a ação da prefeitura municipal da cidade para cuidar deste acervo? Qual tem sido o investimento para compra de novas obras? Digo isso, pois conheço bem este ofício. Eu aprendi a lidar com a recuperação de livros quando fui bolsista do Colégio São João em São João del-Rei. Lá, para poder pagar pelos meus estudos, trabalhei na biblioteca do colégio. Aprendi a recuperar, dar manutenção adequada aos livros e recolocá-los em boas condições para leitura e empréstimo. Por que não treinar jovens estudantes oferecendo-lhes uma bolsa para efetuar esse trabalho?

Outra questão que precisa ser colocada, diz respeito à compra de livros. Prefeitos e seus secretários, ao longo do tempo, não foram capazes de reservar uma verba específica para esse fim. Assim, a atualização do cúmulo depende de pessoas que, periodicamente, fazem doações. São aquelas pessoas, depois de ler, não têm interesse em manter as obras em suas casas, preferindo deixá-las à disposição de outras pessoas em lugar adequado, como é o caso da nossa biblioteca.  

Outra questão relevante diz respeito à modernização dos serviços oferecidos à comunidade. Os computadores enviados pelo governo federal há quase uma década, pasmem, só agora estão sendo instalados. A informatização dos serviços de controle e empréstimo de livros e sua divulgação através do site da prefeitura deveria ter sido realizada em 2008 quando a biblioteca passou a ocupar o prédio construído naquela época. É preciso colocar na internet o que tem a biblioteca de forma que consulta e reserva de livros possam ser feitos à distância. O sistema de controle do acervo, cadastro de leitores e empréstimos através de fichinhas é coisa do século passado.

Por fim, a obtenção de novos títulos para o acervo poderá fazer com que o interesse pela biblioteca se amplie, possibilitando aumento de público interessado com benefícios incalculáveis para o desenvolvimento do gosto pela leitura. Considero ainda que o horário de atendimento ao usuário seja revisto, senão ampliado. Muitos, por motivos diversos, poderiam frequentar a biblioteca em horários em que ela encontra-se fechada. Espaços públicos como esse precisam ficar abertos ao longo do dia e à noite. E, para tanto, é preciso convocar a bibliotecária aprovada em concurso público para ocupar a vaga. A melhora no atendimento ao público e realização de obras no edifício é urgente. Nossa expectativa é a de que o atual prefeito, sensível às demandas colocadas, reaja e dê atenção às ações que apontamos para biblioteca.  

Os cruzeiros da cidade

18 de Maio de 2017, por Edésio Lara 0

Resende Costa, conforme tantas outras cidades, possui grandes cruzeiros nas ruas das suas principais entradas. Chamamos de cruzeiro uma construção singela que abriga no seu interior uma grande cruz. A cruz, poderoso símbolo do Cristianismo, nós vamos encontrar, além das igrejas, em capelas, cemitérios, passinhos, nas portas de entrada e no interior de casas e edifícios. Vamos notá-la, também, estampada em livros, em muitos outros lugares, tais como à beira de estradas, indicando o lugar em que pessoas morreram acidentadas, por exemplo. Muitos vão carregá-la no peito ou em terços, senão, através do sinal da cruz feito antes e após orações e para benzer. Nas artes, principalmente no cinema, é o símbolo empregado para combater vampiros e afastar o demônio, o espírito mau. Tal como as cruzes que os católicos deixam afixadas nas portas de suas casas, muitas cidades têm construídos os cruzeiros nas suas principais entradas. 

O cruzeiro acima está localizado naquela que já foi a principal entrada de Resende Costa. Todos os que chegam de São João del-Rei, pela estrada de terra, passando por Coronel Xavier Chaves, se deparam com ele. A grande cruz, erguida no ponto mais alto da rua está cercada por grossas paredes de pedras. Os outros cruzeiros estão no Tijuco, no Beira-muro e na Praça Cônego Cardoso, em frente a Matriz de Nossa Senhora da Penha de França. Esses são os principais e mais antigos. Um quinto cruzeiro foi erguido na saída para o povoado do Barracão, mas, deste, já não há mais vestígios.

Além de demarcar o lugar onde começava a cidade, de deixar clara a religiosidade do povo do lugar, os cruzeiros tinham a função de barrar a entrada de demônios. Assim, todos os cristãos se sentiam mais protegidos.  O poder do grande símbolo da Igreja é o de blindar, dar segurança e tranquilidade aos que querem estar distantes do capeta. No seu entorno, os moradores têm por costume promover rezas, missas e festas em que não podem faltar a banda de música, o coral, o leilão de prendas e barraquinhas.  

Manifestações de fé, como a que narro agora, dão o tom da importância dessas construções. Na primeira metade do século XX, década de 1940, Dona Bernadeta [pronuncia-se com ê], casada com o senhor Tomás, tinha por costume realizar rezas nos cruzeiros. Sempre que a cidade enfrentava dificuldades com a estiagem, lá ia esta senhora, com sua fé e preces, solicitar aos santos, a vinda da chuva. Moradora da Rua Dr. Gervásio, onde também residia minha tia Almira, ela reunia alguns meninos, todos de pés descalços, calção e dorso nu, para acompanhá-la aos três cruzeiros. Dona Bernadeta, usando um turbante branco e os meninos uma lata contendo água e flores que seguravam com a mão direita sobre o ombro esquerdo, conduzia a pequena procissão, entoando uma música lamentosa que era respondida pelos garotos. Segundo o relato que me chegou, o que cantava esta devota senhora negra, gorda e de vestidos longos e sobrepostos, ninguém entendia direito. Chegando ao cruzeiro, lá deixavam as flores ao pé da cruz com os pedidos para que a chuva não tardasse. Ao que parece, suas súplicas eram atendidas e este gesto de fé se repetia toda vez que a seca afligia e trazia desalento aos moradores do município.

Notamos que em Resende Costa, o cruzeiro do Pau de Canela e os outros dois construídos nos limites da cidade não foram bem cuidados nas últimas décadas. Tanto é que, mediante sua precariedade, o cruzeiro do Pau de Canela passa por reforma. A cruz estava podre e os paredões danificados, principalmente pelas grossas raízes de árvore que foi plantada ao seu lado. Diante da situação de abandono do mesmo, moradores e comerciantes próximos se reuniram e decidiram trabalhar pela sua recuperação. Madeira de lei para nova cruz e retirada do reboco para deixar à vista as enormes pedras utilizadas para a edificação dos paredões que circundam o cruzeiro estão entre as ações do grupo voluntário.

Mais do que isso, para além da recuperação, há o compromisso de dar ao espaço o cuidado e a manutenção permanentes. Esse grupo age bem e indica que não devemos esperar que a prefeitura municipal ou a paróquia se incumbam, sozinhos, desses serviços. Nossa esperança é a de que esta boa ação sirva de exemplo e sugestão para outras pessoas poderem, também, ajudar o município a manter limpo e conservado os demais cruzeiros que são patrimônio da nossa cidade.

Que possamos, com esses monumentos revitalizados, manter viva a tradição de muitas rezas, procissões, missas e festas de santos seguidas de leilões e barraquinhas nos cruzeiros de Resende Costa.