De olho na cidade

Transporte público de passageiros em Resende Costa

17 de Marco de 2020, por Edésio Lara 0

Muitos foram pegos de surpresa com a notícia de que uma empresa de ônibus passaria a oferecer transporte de passageiros na zona urbana de Resende Costa. Um outdoor instalado no pátio da Prefeitura Municipal, em fevereiro, anunciou a instalação do transporte coletivo organizado pelo Executivo Municipal. Rapidamente, imagens do outdoor começaram a circular pelo WhatsApp. A empresa que recebeu a concessão para explorar o serviço foi a Resende Turismo, sediada em Resende Costa e de propriedade do ex-prefeito Adilson Avelino de Resende. Notamos, de imediato, nos comentários, a aprovação dessa ação que deverá beneficiar muitas pessoas, a saber, idosos, mulheres grávidas, pessoas com alguma dificuldade de locomoção e comerciários, principalmente.

A cidade cresceu e as distâncias entre bairros e o centro, obviamente, tornaram-se maiores. Deixar a região central em direção a qualquer bairro é tarefa menos difícil; só há declives. Porém, para sair das partes mais afastadas e chegar ao centro a pé, todos sabemos, não é tão fácil assim. Portanto, o serviço é bem-vindo. Por isso, um micro-ônibus passou a circular no último dia 2, a partir das 6h, ligando o asfalto (entrada da cidade) ao bairro Tijuco. O último horário de circulação é o das 18h e a passagem custa R$3,00.

Para a Turismo Resende, desde sua fundação empenhada no transporte de universitários e no de turistas a passeio, esta é a sua primeira experiência com transporte urbano de passageiros. Isso não intimida o proprietário da empresa, pelo contrário, o deixa “confiante e disposto a trabalhar para ver a cidade bem atendida”. Sem saber como será o retorno financeiro advindo desse empreendimento, pelos próximos dez anos, Adilson disse que “o povo deve conhecer e se acostumar com esse serviço que chegou para ajudar a população, chegou para ficar”.

Resolvi, no último dia 5, acompanhar o micro-ônibus em parte do seu percurso. Chegando ao ponto final no asfalto, conversei com o motorista Márcio de Carvalho Ferreira, 35, que iniciou sua carreira profissional em São João del-Rei. Ele notou que “nesses primeiros dias, os passageiros estão assimilando os horários e se acostumando com o trajeto. E tem agradado bastante ao pessoal do Tijuco, Nova Resende, Santo Antônio, principalmente”. Sua irmã, Ana Paula de Carvalho Ferreira de Oliveira, 41, tecelã e passageira, disse que está “gostando bastante, que é uma inovação para Resende Costa. Era uma coisa que faltava. Eu nasci no Rio de Janeiro e estou aqui há um ano. Em termos de locomoção, saúde, pelo menos para mim, é o lugar perfeito. Eu me livrei do Rio de Janeiro, daquela onda de violência, confusão, da falta de paciência. Resende Costa é outro naipe, é outra coisa”.

Por fim, conversei com outras duas passageiras que precisavam atravessar a cidade para chegar ao trabalho. Evelyn Dias de Oliveira, 37, mora no bairro Nova Resende e trabalha no Mandacá Açaí. “Para mim, maravilhoso. Antes precisava vir a pé ou tomar um taxi, dividir taxi, o que ficava caro. Agora, o transporte, com o preço bacana, a gente não chega ao serviço cansada, suada e precisando tomar água, descansar um pouquinho. Agora, graças a Deus, o transporte público chegou e nós temos é que prestigiar e cuidar para que ele continue assim”, declarou Evelyn. A outra passageira, tal como a Evelyn – pizzaiolo no Mandacá Açaí – é a Lucimara Aparecida Santos, 20, que mora perto do Parque do Campo. Ela disse “estar adorando, ajuda a gente bastante. Antes eu vinha a pé, o que levava uns quarenta minutos. O dinheiro que a gente gastava por dia andando de taxi, quando precisava, agora dá para vir de ônibus a semana inteira. Foi ótimo terem instalado esse serviço”.

Agora, a prefeitura municipal precisa instalar os pontos de ônibus e a sinalização necessária para bem acomodar e informar os usuários. Aprimorar e ampliar o serviço prestado é o que desejamos.

Investimentos em preservação do patrimônio cultural de Resende Costa

19 de Fevereiro de 2020, por Edésio Lara 0

No mês passado, nesta coluna, destaquei a criação do Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura de Resende Costa (CMPC), ocorrida quinze anos atrás. Agora, quero comentar alguns atos que tornaram possível a realização de inventários e consequente tombamento de bens móveis, imóveis, bens materiais e imateriais e conjuntos paisagísticos no município. Em Minas Gerais os Conselhos são muitos e todos eles atuam de acordo com a legislação vigente, organizada em leis federais, estaduais ou municipais.

Em âmbito nacional, Minas Gerais é o Estado com o maior número de bens tombados e é, também, o que tem uma legislação que “premia” aqueles municípios que possuem ações de preservação do patrimônio histórico cultural. Trata-se da Lei 12.040, de 1995, também conhecida como Lei Robin Hood. Ela alude a Robin Hood, suposto herói britânico, que viveu no século XIII e que, com seus seguidores, tinha por hábito dividir entre os pobres aquilo que roubava dos nobres, dos muito ricos. Pois bem, esta lei faz com que o governo estadual encaminhe aos municípios parte do ICMS arrecadado para investir em patrimônio histórico e cultural. Assim, é possível dizer: quanto mais recursos aplicados na proteção do patrimônio cultural, maior a arrecadação a título de ICMS Cultural.

Só para se ter ideia do que isso significa, nos últimos quatro anos (2016-2019) Resende Costa recebeu R$ 631.940,19, montante superior à arrecadação própria de ICMS que foi de R$ 480.327,46 para o mesmo período. O que chegou aos cofres da prefeitura municipal ao longo dos quinze anos de atuação do CMPC ultrapassa a quantia de um milhão de reais – recursos que o Executivo Municipal deveria aplicar em ações de preservação do patrimônio cultural do município. Mas não é o que acontece. O dinheiro arrecadado cai no caixa único e é aplicado em outras ações que nada têm a ver com as questões de preservação dos bens citados acima. E o nosso município perdeu com isso. Os resultados nós vimos quando o Jornal Gazeta de São João del-Rei, em notícia do dia 6 de julho de 2019, mostrou quanto o Estado distribuiu para os 16 municípios da Região do Campo das Vertentes até aquela data. Lamentavelmente, Resende Costa ficou em penúltimo lugar, ficando à frente somente de Madre de Deus de Minas.  

Então, o que precisa ser feito? É recomendável que o valor integral dos repasses recebidos pelo município a título de ICMS Cultural (Lei Robin Hood) seja destinado ao Fundo Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural (FUMPAC). É necessário que o município se volte para políticas públicas em prol do patrimônio cultural. Isso não tem sido feito. Nossas ações são poucas, tímidas e não correspondem às riquezas que temos e que precisam ser inventariadas e tombadas. Outra ação de extrema relevância e que não tem sido levada a sério diz respeito a projetos de educação patrimonial.  Se não reagirmos, correremos o risco de figurar em último lugar no próximo relatório a ser publicado pelo Governo do Estado de Minas Gerais. Mais que vergonhoso, esse último lugar é o atestado de incompetência e de descaso para as ações destinadas à preservação do Patrimônio Cultural da cidade.

Vimos ultimamente, mesmo que ainda fraca e distante, uma luz no fim do túnel. No início de 2018, foi criada em Resende Costa a Secretaria Municipal de Turismo, Artesanato e Cultura (SETAC). Mesmo nova e com equipe reduzidíssima, percebemos sinais de melhora. Iniciamos obras de restauro da Fazenda das Éguas, temos tudo pronto para demarcar e sinalizar as ruínas de outras duas fazendas do século XVIII e atuamos no sentido de fazer com que os proprietários de imóveis antigos ou que estão em situação de influir na percepção estática ou dinâmica dos conjuntos históricos e tombados, dialoguem com o CMPC. Ver a comunidade voltar seu olhar para as questões de preservação e buscar o diálogo é, para nós do CMPC, sinal de esperança e de dias melhores para a cidade.

15 anos do Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura

21 de Janeiro de 2020, por Edésio Lara 0

Em 25 de abril de 2002, a Câmara Municipal aprovou e o prefeito Gilberto Pinto (1948-2015) sancionou a Lei 2.662, que “estabelece as normas de proteção do patrimônio cultural do Município de Resende Costa e seus procedimentos”. É uma lei importantíssima que deve ser amplamente divulgada e cumprida na sua íntegra. Dela, que dá cumprimento ao mandamento constitucional de proteção do patrimônio cultural, bem como das normas federais e estaduais pertinentes, destaco os artigos 2º e 3°. O 2º diz: “Ficam, na forma desta Lei, sob a proteção especial do Poder Público Municipal, os bens de propriedade pública ou particular existentes no Município que, dotados de valor cultural, aí compreendidos os valores histórico, estético, científico e outros, justifiquem o interesse público em sua preservação”. O 3º, por sua vez, esclarece que “os bens declarados de valor cultural serão assim constituídos pela inscrição em Livro do Tombo que será aprovada pelo Conselho Municipal de Patrimônio Cultural e homologada pelo Chefe do Executivo Municipal”.

A instalação do Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura (CMPC) se deu três anos após a promulgação da referida Lei. Em 28 de fevereiro de 2005, através do Decreto nº 95, o prefeito municipal Gilberto Pinto nomeou o grupo de conselheiros para cumprir mandato de dois anos. Em fevereiro de 2020, o Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura (CMPC) completará 15 anos de atividades. Para sua composição, são escolhidos dois vereadores, dois representantes do Poder Executivo Municipal e representantes de associações, tais como: AmiRCo, Asseturc, Iris, Acradatec e Orquestra Mater Dei.

Naquele momento, a primeira reunião do grupo de conselheiros aconteceu no dia seguinte, isto é, em primeiro de março de 2005. No segundo encontro do CMPC, começaram a ser elencados bens que deveriam ser tombados pelo município: a imagem de Nossa Senhora do Carmo, pertencente ao Museu de Arte Sacra da paróquia, e o Teatro Municipal. Logo em seguida, foi a vez da Fazenda das Éguas, erigida no século XVIII e que se localiza no Povoado do Ribeirão de Santo Antônio. Os bens de patrimônio que podem ser tombados são vários, não somente imóveis, como se vê.

O tombamento poder ser municipal, estadual ou federal. O primeiro imóvel da cidade a ser tombado foi a Casa do Inconfidente José de Resende Costa, o pai. Localizada na Praça Cônego Cardoso, centro da cidade, seu tombamento foi decretado pelo Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1950.

Atualmente, o CMPC trabalha no sentido de dar continuidade aos processos de tombamento de três edificações de importância histórica no município: a sede da Câmara Municipal, a Escola Estadual Assis Resende e o prédio do Fórum.

Ao longo desses quinze anos de atividades, foram inventariados bens materiais e imateriais que devem ser protegidos por lei e cujos procedimentos devem ser encaminhados pelo CMPC. Por exemplo, os Saberes Tecelagem Artesanal, o Livro de Cartas da Câmara Municipal, os Livros de Tombo da paróquia, as Ruínas das Fazendas Campos Gerais e da Laje. Mas há muito mais. Por isso mesmo é que gostaríamos de convidar todos para participarem dos trabalhos do Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura de Resende Costa. As reuniões, bem como todas as atas, relatórios e demais documentos produzidos pelo Conselho, são públicos. E para todas as ações positivas, o governo do Estado de Minas Gerais responde com o envio de recursos advindos do ICMS para o município.

Sobre esse assunto, vamos nos debruçar na próxima edição do Jornal das Lajes. Antes, porém, para os interessados nas ações do CMPC, basta acessar o site da Prefeitura Municipal de Resende Costa: www.resendecosta.mg.gov.br (clique em “Municipal” e, por fim, em “Patrimônio”). Feito isso, quaisquer cidadãos têm acesso ao que o CMPC tem realizado, podendo contribuir com críticas e sugestões às ações voltadas para a salvaguarda do patrimônio cultural da cidade.

Dona Eunice: recordações de aluna e professora da Escola Estadual Assis Resende

18 de Dezembro de 2019, por Edésio Lara 0

Professora Eunice (centro) e suas alunas (Foto arquivo pessoal)

Ao longo deste ano, demos atenção especial às comemorações pelo centenário da Escola Estadual Assis Resende. Ouvimos alunos, muitos deles matriculados nos anos iniciais de funcionamento do educandário. Através dos seus depoimentos, foi-nos possível ter ideia de como funcionava a escola na primeira metade do século passado. Nesta edição, a última do ano, voltamos nossa atenção para a pessoa de Eunice de Sousa Gomes, que teve sua vida de estudante e de profissional ligada à escola.

Ela nasceu em 23 de junho de 1938 e, sete anos depois, iniciou seus estudos. Concluídos os primeiros quatro anos de escola, fez o “admissão”, curso oferecido em Resende Costa, na época, pelo professor Geraldo Sebastião Chaves e que durava um ano. Imediatamente após o curso, ela se transferiu para São João del-Rei para ficar, em regime de internato, no Colégio Nossa Senhora das Dores, onde cursou o ginásio e o magistério, durante sete anos. Em 1961, já com vinte e três nos de idade, ainda fez um curso de especialização em matemática com a professora Beatriz Alvarenga em São João del-Rei. Terminado esse curso, Eunice sentiu-se preparada iniciar a carreira de professora, o que aconteceu após de ter sido aprovada em concurso público e ser nomeada como efetiva na Escola Estadual Assis Resende, em 1963.

Dona Eunice, como é chamada por muitos, além de professora também foi diretora da escola. Noutro momento, atuou como supervisora da merenda escolar e, também, como inspetora pedagógica, o que a fez viajar por todos os povoados do município. Muitos a viam como diretora dessas escolas, o que era um erro. Suas idas às escolas rurais do município eram periódicas, portanto completamente diferente de quem exerce a função de diretor (a) e que exige presença diária da pessoa no local de trabalho. No Assis Resende ela permaneceu até se aposentar.

Da sua vida na escola como aluna, ela se lembra, com gosto, das trocas de merenda que fazia com os colegas de classe. José Peluzzi, seu pai adotivo, como bom cozinheiro que era, fazia questão de deixar sua lancheira cheia de doces, queijos, salgados e sucos que ela não dava conta de consumir. Por isso mesmo, não titubeava em doar ou fazer trocas de lanches com os colegas. Uma dessas trocas era bastante curiosa: o lanche era permutado por cipós. Isso mesmo, cipós que eram utilizados para a brincadeira que conhecemos de “pular corda”, um dos divertimentos mais apreciados pelas crianças na hora do recreio. Enquanto educadora, seu maior orgulho reside no fato de ter conseguido alfabetizar um aluno que havia chegado à escola com deficiência auditiva. “Eu o coloquei sentado na primeira fileira da sala e ele conseguiu estudar, aprender a ler e escrever. Era um menino muito pobre, cuja família não tinha condições de comprar pilhas para o aparelho de escuta que conseguira. Foi quando o Gilberto, casado com a Anália, minha irmã, começou a trazer as pilhas de Belo Horizonte. Ele doava as pilhas e o menino usava o aparelho somente em sala de aula, para economizá-las”, conta dona Eunice.

Por fim, outra boa lembrança que tem dos muitos anos de trabalho na Escola Estadual Assis Resende foi ter feito muitos amigos. As professoras, naquela época, atuavam com uma mesma classe durante o segundo, terceiro e quarto anos do grupo. Terminados esses três anos de trabalho com a mesma turma, o que se via era a amizade travada entre a professora e seus alunos. Eu, que sou filho de uma professora, sou testemunha disso. São muitos, mas muitos mesmo, os que me abordam para dizer: fui aluna(o) da sua mãe. Tenho muita saudade dela. Assim acontece com dona Eunice e tantas outras professoras que tivemos e das quais temos saudade, guardando respeito e admiração pelo resto de nossas vidas. A dedicatória anotada atrás da fotografia que escolhemos para ilustrar este texto é prova disso. Na pequena fotografia em preto e branco do Foto Scylla, vem escrito: “A D. Eunice uma recordação de suas alunas Aparecida e Maria Geralda. Saudades. 5/11/65.”

Darci Terezinha de Resende na cidade e na Escola Estadual Assis Resende: memórias de infância

12 de Novembro de 2019, por Edésio Lara 0

Dona Cici, ex-aluna do Grupo Escolar Assis Resende (Foto Edésio Lara)

Quando dona Darci nasceu, a Escola Estadual Assis Resende estava em seu oitavo ano de fundação. É conhecida na cidade por Cici, ou Cici do Geraldo Procópio, de quem ficou viúva há vinte e quatro anos. Estatura mediana, franzina, pode-se dizer, Darci Terezinha de Jesus (27/05/1927), de 92 anos de idade, com voz clara, firme e fluente, é de uma vivacidade de dar inveja. Certa vez, perguntou para sua mãe o motivo de não ter em seu nome os sobrenomes Barros (da mãe) e Vieira (do pai), como os dos seus irmãos. A resposta foi: “Achei seu nome bonito assim e pus.” O Resende, com a supressão do Jesus, foi acrescentado após o casamento.  

Darci iniciou os estudos aos sete anos. Depois, houve uma interrupção quando foi morar em Belo Horizonte. A rematrícula se deu ao retornar a Resende Costa para concluir os quatro primeiros anos do grupo, aos treze anos de idade, em 1930.

As lembranças da época de aluna são de dedicação à escola e ao trabalho. Antes de terminar o curso, buscava duas latas d’água na Fonte João de Deus para entregá-las na casa do senhor Geraldo (Porteiro), que fica ao lado da Matriz e da Câmara Municipal. Outra incumbência era a de “acordar às 4h para catar lenha destinada ao fogão de sua casa.” Na Escola Estadual Assis Resende, todos os dias e na hora do recreio, outra tarefa: ir até a casa da sua professora Dona Célia, buscar café para ela. Na escola, Cici ficava assentada na fileira da frente, em carteiras destinadas aos mais adiantados. “Era boa aluna. Fui aluna de dona Nair, dona Mariinha, dona Célia e dona Dulce Mendes, com quem tirei o diploma”, disse. “Dona Dulce colocava os melhores alunos pertinho dela, para aprender. Quando chegou o dia do exame (exame final, prova oral), ela colocou um tanto de papelzinho em cima da mesa. Eu tirei o número cinco. Eu então estudei tudo do número cinco, decorei tudo e não estudei mais nada. Então eu rezei muito, muito mesmo, para Nossa Senhora da Penha. No dia da prova, no sorteio do ponto, tirei o número cinco. Eu nunca mais esqueci isso.”

A fé inabalável em Nossa Senhora da Penha e que começou ainda na infância, segundo ela, a salvou de grave acidente em agosto de 2011. “Foi um dia em que faltou luz na cidade, estava tudo escuro e a minha cozinha estava cheia de gente. Eu acendi duas velas e comecei a subir a escada de quatorze degraus para ir até o quarto onde estava meu neto Gustavo jogando no computador, o filho dela que morreu, bateu o carro (nesse momento ela apontou para a filha Lúcia, que, ao nosso lado, já estava com os olhos cheios de lágrimas). Quando ia descendo a escada, faltando três degraus, eu confundi, achando que faltava um. Foi quando meu neto correu, me abraçou e disse: ‘Vó, uma coisa cutucou na minha cabeça (para ele, o neto, era Nossa Senhora) para ir aonde a senhora estava.’ Quando eu levei o pé, ia embarcar, estaria quebrada até hoje, né? Ia ser uma coisa terrível. Ele me salvou”, afirma dona Cici.

Quando completou quinze anos de idade, a filha de dona Adalgisa Barros, professora do estado, optou por seguir os passos da mãe e lecionar principalmente em fazendas do município. Sua primeira experiência como professora foi na Capelinha dos Machado. “Lá, além das aulas, a gente socava arroz e ainda catava lenha para a casa do João de Lima. Eu dava aula no Curralinho dos Machado, Curralinho dos Paulas, Barro Vermelho e Barracão. Depois eu fui chamada a dar escola (sic) na Fazenda do Retiro”. Nesta fazenda dona Cici conheceu Geraldo Procópio de Resende, filho do fazendeiro, que seria o seu futuro marido.

A vida da jovem, que teve outros namorados antes de se casar, não foi fácil. “Eu tinha dezenove anos e minha mãe não queria que eu me casasse.” Geraldo Procópio, na época, com trinta e oito anos de idade, ficara viúvo e com a responsabilidade de cuidar dos dez filhos que tivera com a primeira esposa, que faleceu durante o parto do décimo segundo filho. Dona Cici, depois desse fato, voltou para Resende Costa. No entanto, os dez filhos do Geraldo tomaram amor por ela, durante sua estada na fazenda. Não teve jeito. Mediante o choro e o chamado das crianças, ela retornou à fazenda para se casar e assumir a responsabilidade de cuidar do marido e das dez crianças. Casada com o Geraldo, ela teve outros catorze, sendo nove homens e cinco mulheres, fazendo dele pai de vinte e quatro filhos vivos, não incluídos aqui outros dois que faleceram.

Na plenitude dos seus noventa e dois anos de idade, dona Cici esbanja vivacidade e simpatia. Participa do grupo de terceira idade, assiste à missa todos os dias, e de joelhos, do início ao fim da celebração. Ela sabe de cor – na ponta da língua, como se diz – vários poemas e a tabuada, que recita numa rapidez incrível.  

Eu a encontrei no Hospital Nossa Senhora do Rosário para a entrevista. Lá, durante quatro dias, ela se recuperou de uma queda que sofrera em casa. Estava pronta para receber alta e querendo, a todo custo, retirar um colete que o médico, doutor Paulo, mandara colocar no pescoço da paciente para proteger a coluna cervical.

Antes de nos despedirmos, dona Cici recitou de cor quatro poemas dos vários que começou a decorar desde os treze anos de idade. Um deles deixo transcrito aqui e com uma reflexão bem particular: a dedicação à família numerosa e ao trabalho nunca a abateu, tampouco a fez esmorecer. Muito pelo contrário, tornou-a uma senhora especial, cujo gosto pela vida nota-se facilmente refletido em seus gestos e em seu rosto. 

Senhor, o dia terminou, a noite se aproxima
Venho ajoelhar-me aos teus pés, Senhor
Para meditar e refletir.
Tão pouco fiz para te oferecer
Trabalhei, diverti, sofri, aqui chorei
Sem muita paciência e, talvez, sem merecimento.
Mesmo assim, dou-te pequenina parcela da minha vida.
Prometo me esforçar para ser fiel
À minha vocação de filha tua.
Amanhã farei tudo para entregar-te um dia melhor
Abençoa a todos que me deste por amigos
Até amanhã, obrigado, Senhor.