Opinião

As novas tecnologias e as profissões: o futuro do jornalismo

19 de Fevereiro de 2020, por Fernando Chaves 0

Assistimos, nas últimas décadas, à expansão do acesso à internet por meio dos chamados dispositivos móveis e à consolidação da web 2.0 com as novas mídias sociais, os aplicativos digitais e uma onda de novas tecnologias da comunicação. Por um lado, mais entretenimento, acesso à informação e ao conhecimento, uma explosão de conteúdos gerados descentralizadamente. Por outro, uma transformação radical de hábitos e da cultura, com a midiatização das relações cotidianas e mudanças essenciais no mercado de trabalho para diversas áreas e campos profissionais. 

A cultura se transforma, o mercado também muda. Somos, geralmente, levados a cultuar o avanço tecnológico, ícone da dominação da natureza pelo homem. De fato, o desenvolvimento da técnica proporciona conforto, segurança e vida mais aprazível para o homem ao longo de séculos. É fácil ser entusiasta das novidades tecnológicas. Mas as transformações abruptas da cultura, dos hábitos e costumes sociais, das identidades profissionais, de padrões econômicos e de consumo são transições árduas para uma sociedade, para alguns segmentos e gerações em especial.

Diversas profissões são tensionadas atualmente pelas novas tecnologias de comunicação e passam por uma revisão rápida de paradigmas, modelos e padrões de produção, de venda, de consumo e de acesso à informação. As novas relações humanas midiatizadas, estabelecidas à distância, automatizadas, mediadas pela inteligência artificial têm forçado a adaptação de várias áreas do mercado profissional.

 

“O jornalista contemporâneo deve assumir uma função crescentemente interpretativa, opinativa e investigativa”

O jornalismo tradicional vive uma crise em razão das novas mídias digitais e do surgimento de um novo regime de visibilidade dos fatos sociais. O jornalista antes exercia a função de mediador social e as mídias tradicionais funcionavam como um palco, onde era gerida e administrada a visibilidade pública dos diversos temas e atores sociais. Com a emergência das novas mídias digitais, houve uma mudança no regime de gestão da visibilidade na esfera pública e as mídias convencionais perderam espaço.

No campo da política, por exemplo, o atual presidente da república, Jair Bolsonaro, se elegeu quebrando os paradigmas anteriores da disputa presidencial, ao adotar um regime de visibilidade que prescindiu dos veículos de comunicação tradicionais e que estabeleceu um contato direto com os seus eleitores via dispositivos móveis e aplicativos de mensagem individual, sem a mediação dos veículos tradicionais como a TV. Aconselhada por Steve Bannon, um dos mentores da comunicação política de Donald Trump, a campanha de Bolsonaro se apropriou bem das linguagens e dispositivos de comunicação das novas mídias digitais.

Portador de um discurso de ruptura e de pretenso porta-voz de uma “nova política”, o presidente tem atacado seus opositores com veemência. É o que tem feito com a classe jornalística. Em um dos vários episódios de conflito com a imprensa, Bolsonaro mencionou em resposta aos repórteres que “os jornalistas são uma classe em extinção”.

A fala do presidente suscitou a discussão sobre o futuro da profissão jornalística. Certamente, o jornalismo passará por uma reformulação profunda, mas extinção jamais. Uma das mudanças em curso está na própria função do jornalista, que é cada vez menos a de noticiar, de trazer as novidades à tona, de dar o furo de reportagem, de exercer a gestão da visibilidade pública. Essa função informativa de dar as notícias ou de prover a visibilidade dos fatos agora ocorre de forma mais descentralizada. Os cidadãos em geral trazem os fatos e as notícias a público por meio das novas mídias sociais.

O jornalista contemporâneo deve assumir uma função crescentemente interpretativa, opinativa e investigativa. Deve ajudar o cidadão a interpretar melhor a avalanche de fatos e informações a que as novas mídias nos submetem, deve auxiliar a audiência na separação do joio e do trigo, ajudando a diferenciar o que tem lastro e veracidade daquilo que é fake. Deve lidar de forma ética e profissional com a gestão de dados institucionais, com o vazamento de dados públicos, zelando pela transparência pública, pelo direito de acesso do cidadão às informações de interesse público, resguardados os direitos de privacidade e sigilo da fonte.

Eis alguns aspectos relevantes do futuro jornalístico. Afinal, apesar das severas transformações que as novas tecnologias provocam nos diversos campos profissionais, e apesar dos palpites do presidente Jair Bolsonaro, muito dificilmente o papel social e a relevância democrática da atuação profissional do jornalista serão extintos, mas sim reconfigurados.