Contemplando as Palavras

Nós, os mortais

13 de Novembro de 2018, por Regina Coelho 0

Como de costume diário, ia descendo a Rua Moreira da Rocha em direção à Escola Conjurados, onde trabalhava, quando ouvi alguém me chamar justamente no momento em que eu passava no ponto que dá início à Rua Pedro Chaves. Era o Vicente do Zé Brás, que, em frente à sua casa, misturando afirmação e indagação, de lá mesmo me falou: “E aí, Regina, o Magalhães Pinto (1909-1996) bateu mesmo as botas?” Respondi a ele que sim. O tradicional político mineiro, ex-governador do estado e ex-banqueiro, havia morrido naquele dia.

A cena descrita acima não tem nada de excepcional. Guardo-a na memória, não sei exatamente por que razão. Talvez seja pela informalidade da linguagem usada pelo Vicente para uma situação séria, mesmo quando não se conhece ou não se conhece pessoalmente, seria esse o caso dele, a pessoa que bateu as botas. Nosso saudoso conterrâneo não devia saber, mas, falando daquele jeito, usava um eufemismo, recurso linguístico de que se lança mão para suavizar uma ideia considerada cruel, chocante ou desagradável.

Na linguagem popular há muitas expressões eufemísticas que substituem o verbo morrer. Da já citada há variações com o verbo bater: a caçoleta, a canastra, a pacuera, o pacau, com a cola na cerca, o prego, o trinta-e-um, o trinta-e-um de roda, o bloco na rua. Há outras mais: ir para a terra dos pés juntos, vestir o terno (ou o pijama) de madeira, fechar (ou abotoar) o paletó, espichar a canela, ir para a Cucuia, ir pro beleléu, comer capim pela raiz, virar presunto. Há quem prefira simplesmente dizer que fulano empacotou. Pode-se falar sério também, eufemisticamente, só que sem o viés cômico tão ao gosto de muitos. Algumas construções extrapolam o simples sentido de morrer: adormecer no Senhor, dar (ou entregar) a alma a Deus (ou ao Criador), desaparecer, descansar, dar o último alento, despedir-se da vida, partir desta para uma melhor... Depreende-se dessas palavras um certo sentido de compreensão e aceitação da morte.

E sem morrer de verdade, a gente pode morrer de amor (es), de fome, de sede, de calor, de frio, de raiva, de medo, de cansaço, de rir, de trabalhar... E nem precisa saber que essa forma de expressão feita de exagero é uma hipérbole.

Assim como a entidade morte, certos ditos populares com esse termo são inevitáveis na comunicação do dia a dia. A saber: chorar a morte da bezerra = lastimar-se de um fato irremediável. Pensar na morte da bezerra = estar distraído (a), alheio (a) ao que se passa em torno. Ser de morte = ser impossível de suportar; ser levado do Diabo; ser desconcertante, excêntrico.

Partes indissociáveis de um processo natural, vida e morte justificam a existência da arte como recriação livre da realidade. Lembro os poetas do Romantismo brasileiro da segunda fase e sua poesia de obsessão pela morte, muitos deles mortos tão jovens. No Pré-Modernismo, Augusto dos Anjos é considerado “o poeta da morte” dada sua forte inclinação pelo tema. Sem o traço mórbido de seus colegas de ofício, Manuel Bandeira admite talvez sentir medo “quando a Indesejada das gentes chegar”. Lembro ainda Saramago e seu romance As intermitências da Morte, ela própria personagem do enredo. Deixando ela de cumprir seu papel, uma tragédia se anuncia tomando a história rumos imprevisíveis.

A mortalidade nos acompanha desde sempre. O que muda é a maneira como é encarada. Choramos pelos que se foram, rendendo-lhes homenagens, principalmente no Dia de Finados. Nem todos procedem assim. Os mexicanos, por exemplo, festejam o Dia dos Mortos e se fantasiam de Catrina, que é a representação do esqueleto de uma dama da alta sociedade, para lembrar que diante da morte não existem diferenças sociais. Desde 2008, essa festa é considerada pela Unesco Patrimônio Imaterial da Humanidade.

Diante da finitude, quando as pessoas ficam encantadas (vide Guimarães Rosa), marcas são deixadas por aqui. Nas inscrições de certos epitáfios, a expressão de uma existência:

Foi poeta, sonhou e amou na vida (Álvares de Azevedo, escritor brasileiro).

Foco total nos consumidores

17 de Outubro de 2018, por Regina Coelho 0

Mexendo em meus papéis, dei de cara com um texto tirado talvez da internet. Na época, deixei de registrar a fonte, isso é imperdoável. O título, um convite à leitura. Confiram!

 

Os segredos das lojas que fazem você gastar mais

Comprar ouvindo música lenta. 2- Ver produtos coloridos. 3- Produtos essenciais no fundo da loja. 4- Carrinhos grandes de compras. 5- Comida grátis (cortesia). A pessoa se sente especial. E se sente compelida a comprar o produto depois de experimentá-lo. 6- Produtos expostos no caixa (efeito dominador). 7- Alterações no layout da loja. 8- Produtos mais caros nas melhores prateleiras. 9- Cartões de fidelidade. 10- Acessórios sinalizados. 11- “Venda” em destaque. 12- Frete grátis. 13- Oferta de cadeiras para o cliente sentar. 14- Produtos colocados no final ou no início das prateleiras. 15- Poder tocar nos produtos. 16- Vendedores persuasivos. 17- Ofertas. 18- Iluminação inteligente. 19- Preços terminados em 9: 5,29. 20- Produtos agrupados.

“Segredo” revelado, é bom esclarecer que, no consumo, o ato de comprar está diretamente relacionado à necessidade ou à sobrevivência. Já quando se trata do consumismo, essa relação está rompida, ou seja, a pessoa não precisa daquilo que está adquirindo, mas, por alguma ou nenhuma razão, gasta comprando produtos sem utilidade imediata, ou supérfluos.

Nas duas situações, estudiosos no assunto enxergam diferentes tipos de consumidores. Idem os especialistas em marketing. E quem está envolvido no mundo dos negócios também sabe disso. Assim, é compreensível que as estratégias de venda sejam usadas de forma a levar em conta essas diferenças, de acordo com a personalidade dos clientes. Um estudo realizado pela empresa de pesquisa Euromonitor classifica os seguintes tipos de consumidores:

 

O QUE SÓ COMPRA O MELHOR – Média de idade: 35 anos. Grupo composto de pessoas autoconfiantes, bem-informadas e muito tecnológicas que compram só aquilo que lhes dá status, adquirindo coisas bonitas e caras, ainda que tenham que se contentar com menos produtos.

O IMPULSIVO – É o sonho de qualquer vendedor. Aquela pessoa que não resiste a uma “boa” compra. Palavra mágica para ela: OFERTA.

O OTIMISTA EQUILIBRADO – Principal característica: analisa bem suas compras e não se deixa levar pela primeira impressão. Só adquire algo quando encontra um real benefício nisso.

O ASPIRANTE LUTADOR – Tem hábitos de compra altamente emocionais, podendo comprar muito ou nada, dependendo de seu estado de humor.

O CASEIRO CONSERVADOR – O mais feminino. É detalhista e atento a tudo. Não lhe preocupa se está atrasado nas tendências do momento ou se não tem o telefone da moda. Compra só o que realmente precisa. É o menos manipulável de todos.

O CÉTICO INDEPENDENTE – O mais masculino. Desconfia de comércio em geral. Há algo de marcante nesse grupo: são pessoas que odeiam comprar. Só adquirem produtos quando isso é absolutamente indispensável.

O TRADICIONALISTA SEGURO – Outro grupo masculino. Formado por pessoas que se sentem bem com o que têm, não sentindo necessidade de adquirir o que quer que seja.

 

Comprar é bom. Às vezes é até irresistível. Se bem que, observando essa classificação, há quem odeie essa prática. O problema é a indução forçada à compra. Contra isso, olho vivo! O bolso também agradece.

Também dos meus guardados vem a calhar a crônica O consumo e a preguiça, do jornalista Mário Ribeiro. Nela, segundo o autor, os economistas alertam que o capitalismo, na sua ânsia do lucro sem medidas, aproveita-se de uma tendência consumista cada vez mais forte beirando ao caos. Na contramão dessa ideia, ele lembra um parente, ao comentar:

“Bem que tio João deu o aviso, antes da metade do século passado, quando, deitado no balcão de sua venda em Curvelo, para fazer a sesta, após o almoço teve seu sono interrompido por um rapaz que lhe pediu para retirar da última prateleira um modelo de chapéu em exposição. Olhos empapuçados, antes de descer do balcão e pegar a escada para alcançar o chapéu, soltou a frase que ficou famosa: ‘Cês também não podem ver nada que querem comprar!!!’ ”

Preguiça à parte, há um fundo de verdade nesse comentário.

Justiça seja feita

15 de Agosto de 2018, por Regina Coelho 0

Fotografias dos juizes que trabalharam na Comarca de Resende Costa desde a sua criação (Painel de fotografias do Fórum de Resende Costa)

Resende Costa, já por muito tempo, vinha reivindicando sua relativa independência judicial. O que parecia finalmente se confirmar através do Decreto-Lei Estadual nº 148, sancionado pelo governador Benedito Valadares, em 17 de dezembro de 1938, frustrou-se. Ao ser publicada a lei que fixava a nova divisão administrativa e judiciária do Estado, nosso município, ainda sob a jurisdição da Comarca de Prados, simplesmente não figurava na relação dos termos judiciários criados para tal fim.

Inconformados com esse fato, não se deram por vencidos os resende-costenses na defesa de uma reivindicação de tal importância. Com esse propósito, foi instituída uma comissão representativa formada pelos senhores Dr. Costa Pinto, prefeito municipal; Padre Heitor de Assis, vigário; e Alcides Lara, secretário municipal, para cumprimento de missão especial em Belo Horizonte: o Termo Judiciário para Resende Costa. Na capital, contaram eles com a valiosa adesão dos ilustres conterrâneos professor Antônio de Lara Resende, Dr. Gastão Maia e Godofredo Macedo, os três lá residentes. E, numa eficiente conjugação de esforços, insistiram todos perante a Comissão Administrativa e Judiciária e junto aos políticos de real influência para que fosse satisfeita a justa aspiração de seus representados. Os esforços empreendidos não se fizeram em vão, pois nossa causa encontrou o apoio decidido do governador, que lhe deu o almejado deferimento na retificação da lei publicada em 28 de dezembro de 1938 no Minas Gerais, órgão da imprensa oficial do Estado.

No dia 1º de janeiro de 1939, com toda pompa e circunstância, instalou-se aqui o Termo Judiciário, tendo como eventual Juiz Substituto o resende-costense Saturnino Chaves de Mendonça, Juiz de Paz em exercício. Em 6 de março do mesmo ano, foi nomeado para o cargo o bacharel Antônio Maria Moreira Guimarães, ex-juiz do extinto Termo de Tiradentes, que não chegou a tomar posse por se aposentar logo. Ainda em 1939 (após exatos dois meses), assumiu o posto de juiz do Termo Judiciário, vindo de Coração de Jesus (norte de MG), onde exercia a mesma função, Dr. Pedro Muzzi do Espírito Santo, que aqui permaneceu até os meados de 1945. Veio a sucedê-lo, transferido de Capelinha (também norte mineiro), José Miguel Alves da Costa, que no Termo pouco se demorou. Seguiu-se a ele o Dr. Plácido Correia de Araújo, que foi empossado em 10 de janeiro de 1947.

A primeira audiência do Termo de Resende Costa ocorreu em 28 de junho de 1939, oportunidade em que o juiz (Dr. Pedro Muzzi) aproveitou ainda o ensejo para “apresentar os seus melhores cumprimentos aos dois ilustres advogados Doutor Matheus Salomé de Oliveira e Doutor Tancredo de Almeida Neves, que inauguraram os trabalhos desta primeira audiência para este Termo”, conforme se constata em Ata da qual foi extraído o trecho aqui destacado.

A plena emancipação judiciária de Resende Costa deriva do artigo 25 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição do Estado de Minas Gerais, segundo o qual se converteriam em comarcas de entrância inicial todos os Termos anexos. Considera-se o ano de 1948 como o de criação de nossa Comarca. A leitura da Ata de sua instalação revela algumas curiosidades. Chama primeiramente a atenção a data de realização da “Sessão Solene” ocorrida no “Salão Nobre do Edifício do Fórum local”: oito de outubro, em desacordo com a data convencional de sua inauguração, ou seja, quinze de agosto. Questão de trâmites legais, provavelmente. Noventa e nove cidadãos foram os signatários desse documento histórico. Entre eles, autoridades da época e figuras de destaque na sociedade, como o cidadão João Gonçalves Pinto, Juiz de Paz em exercício de Juiz Municipal; o Revmo. Padre Nélson Rodrigues Ferreira (vigário da Paróquia N. S. da Penha); e o Dr. José de Alencar Teixeira, médico em Resende Costa. Também como orador, José Procópio da Silva “em frases entusiásticas fez bela oração alusiva ao auto”. Do mesmo modo, Miled Hannas enalteceu o ato e a “novel Comarca”. Vinte e oito nomes femininos, quase um terço do total, compuseram a lista dos presentes naquela ocasião. Ana Resende Lara, por afetiva e, portanto, óbvia razão particular, é nome que se destaca entre os outros. Trata-se de minha queridíssima tia Ana, à época, uma jovem com seus incompletos 20 anos, hoje, uma forte senhora com seus quase 90 anos e residente há muitos anos em Barbacena.

Percorrendo a linha do tempo, a Comarca de Resende Costa alcança hoje a significativa marca de seus 70 anos de vida. Desde então, como empossados, estiveram à frente dessa circunscrição judiciária os seguintes representantes do Poder Judiciário:

  • Dr. Doorgal Gustavo Borges Andrade – Agosto/1993
  • Dr. Sérgio Bittencourt Siqueira – Outubro/1985
  • Dr. Aloízio Silva – Novembro/1966
  • Dr. Nicanor Neto Armando – Maio/1949
  • Dr. Plácido Correia Araújo – Janeiro/1947 (que já atuava aqui como juiz do Termo, como se disse acima)
  • Dr. José Guido de Andrade – Dezembro/1961
  • Dra. Ana Maria de Oliveira Fróes – Julho/1977
  • Dr. José Afrânio Vilela – Maio/1990
  • Dr. Donizetti Nogueira Ramos – Abril/1998 (atual juiz)

 

NOTAS:

  1. Serviram de base ainda para o presente artigo os textos da Ata de instalação da Comarca de Resende Costa e do Termo de audiência de 28/6/1939.
  2. Grande parte das informações aqui apresentadas foram extraídas do Memórias do Antigo Arraial de Nossa Senhora da Penha de França da Lage, atual cidade de Resende Costa, desde os proêmios de sua existência, até os dias presentes – obra de José Maria da Conceição Chaves (Juca Chaves).
  3. Foi consultado também o Livro de Tombo da Paróquia de Nossa Senhora da Penha, ano 1948. Consta, em registro do Padre Nélson, novembro como mês de instalação de nossa comarca. Não obstante a confiabilidade desse raro e notável material de pesquisa (e de seu autor) sobre o passado de Resende Costa, por convenção, a época escolhida pelo JL para lembrar esse fato é agosto. De qualquer forma, o principal é que permaneça viva nossa história.

Duplas e sua curiosa nomenclatura

18 de Julho de 2018, por Regina Coelho 0

Em ensaio musical com os Irmãos Pérez, Capitão Furtado (Ariosvaldo Pires), apresentador de rádio paulista e divulgador da música sertaneja, determinou que uma dupla tão original, com vozes tão boas, não poderia ter nome espanhol, “batizando” João e José de Tonico & Tinoco, respectivamente. Era o início (1945) de uma carreira vitoriosa, alçando os dois artistas à condição de dupla mais importante do país, recordista de venda de discos, também cognominada de “a dupla coração do Brasil”.

A utilização de nomes artísticos ainda hoje é prática comum em várias áreas do entretenimento. Só isso, no entanto, obviamente não garante o sucesso de ninguém. Adotar esse recurso deve ter mesmo importância como marca a ser profissionalmente explorada. No caso específico das duplas sertanejas, o nome escolhido passa pela aplicação de alguns critérios. Um ponto a ser observado é a questão da sonoridade. Nesse sentido, há certas preferências como, por exemplo, os dois nomes começados com a mesma letra, parecidos ou que combinem entre si. É o que se vê, ou melhor, se ouve em Tonico & Tinoco. Atualmente, estão em alta os nomes de fácil apelo popular com muita mistura de João, Felipe, Henrique, Mateus... formando combinações incontáveis para incontáveis pares de cantores que surgem por aí. Não muito distante, houve uma época de nomes engraçados e, vá lá, até criativos para duplas que se lançaram no mercado nacional. Aqui vai uma amostra desses arranjos linguísticos. Abel & Caim, Azul & Azulejo, Atleta & Treinador, Bátima & Robson, Belo & Horizonte, Cacique & Pajé, Canário & Passarinho, Cativante & Continente, Chanceler & Diplomata, Choroso & Xonado, Conde & Drácula, Cruzeiro, Tostão & Centavo (ops! um trio), Domyngo & Feryado, Faceiro & Fascinante, Feitiço & Feiticeiro, Franco & Montoro, Galã & Granfino (sic), Gavião Moreno & El Condor, Industrial & Fazendeiro, Juscelino & JK, Leal & Legal, Leyde & Laura (provável inspiração em Lady Laura, mãe de Roberto Carlos), Lírio & Lário, Marechal & Rondon, Marlboro & Hollywood, Monetário & Financeiro, Nem Ly & Nem Lerey, Oceano & Porto Rico, Patrão & Funcionário, Praião & Prainha, Preferido & Predileto, Priminho & Maninho, Poliglota & Porta-Voz, Rocky & Santeiro, Simpatia & Gente Fina, Sorriso & Sincero, Tubarão & Seresteiro, Zezinho & Zorinho, Zilo &Zalo, Zum & Zito.

Abrangendo uma diversidade vocabular impressionante, havia gosto (ou falta dele) para todo tipo de nominação desses grupos. Daí, a dupla do cigarro (Marlboro & Hollywood), hoje certamente improvável com essa denominação; a indígena (Cacique & Pajé); a 2 em 1, ou seja, um nome para duas pessoas (Juscelino & JK, Franco & Montoro, Marechal & Rondon, três pessoas que se destacaram na história do país); a dos sinônimos (Monetário & Financeiro, Preferido & Predileto) e por aí vai. Seguindo essa linha de interpretação, Rio Negro & Solimões formam já há algum tempo a dupla fluvial amazônica pela lembrança dos dois rios que correm lado a lado sem se misturarem até se tornarem um só – o Amazonas.

Pertence ao anedotário popular uma situação divertida envolvendo a cantora Sandy (também vinda de uma dupla com o irmão, Júnior, já desfeita), muitas vezes mencionada como filha de Chitãozinho & Xororó (o último, o pai dela) pela junção quase inseparável desses termos. Inseparável também é a denominação “Anavitória” para o duo musical pop romântico formado pelas garotas Ana e Vitória, um sucesso recente pelo país. No feminejo (mulheres no sertanejo), Maiara & Maraísa, Simone & Simaria são figuras onipresentes no momento com seus reais e característicos nomes de duplas de irmãs.

Longe da fama e da música, guardados na memória afetiva de Resende Costa, Caraco (lembrado pelo uso invertido das botinas, virando expressão local: “calçar caraco”) & Carrinho (Carlinhos), criaturas lendárias do passado, formaram uma boa dupla de companheiros no existir inocente de suas vidas pelas ruas da cidade.

Um bom cidadão

12 de Junho de 2018, por Regina Coelho 0

“Se vem uma pessoa precisando de ajuda, a gente dá uma força”, afirma o Zezinho Brechó ao ser indagado por mim sobre o trabalho que faz junto aos moradores do Tejuco. Como prova disso, acrescenta ter sido procurado por alguém (exatamente no dia da nossa entrevista) pedindo-lhe que o ajudasse a conseguir pagar um certo exame médico. E aí, recolhendo de um, de outro ou de um confrade da Conferência de São Vicente o dinheiro necessário para tal, vai o Zezinho levando sua vida.

Nascido há 63 anos na região conhecida como Samambaia, na divisa com Lagoa Dourada, José Rosário Belchior Maia, divorciado, 2 filhos e 5 netos, é chamado em família de “Rezinho”. O “Brechó”, incorporado ao apelido Zezinho, veio de “Belchior”. As primeiras letras ele aprendeu com D. Sebastiana, professora leiga da escola rural que funcionava na Fazenda Samambaia. Em 1965, quando a família se mudou para Resende Costa, foi matriculado na Escola Conjurados, onde completou o então curso primário.

Ao falar sobre sua vida profissional, Zezinho lembra seus 21 últimos anos de trabalho na propriedade do Toninho do Açude. “Fazia de tudo lá, menos tirar leite. Não achava muita graça nisso não”, comenta. Mas, bem antes desse tempo, andou buscando serviço por aí, ainda menor de idade, o que era comum naquela época, sem as exigências da legislação trabalhista atual. Assim, voltou à Samambaia, e foi trabalhar por uns 4 anos na fábrica de doce de leite Marfim (que não existe mais), do Antônio Procópio. Depois foi candeeiro na Vinte Alqueires, mata virgem do mesmo proprietário. E encarou mais serviços em outras roças do município. Fora daqui, Zezinho arranjou emprego nas obras de construção da Ferrovia do Aço (no Rio das Mortes). E esteve na Açominas, agora Gerdau Açominas (em Ouro Branco). Nas duas situações, atuando como marteleteiro.

Zezinho está aposentado, no entanto, não para. Já foi Ministro da Eucaristia. Atualmente, é Irmão do Santíssimo e tesoureiro duas vezes: da AMAT (Associação de Moradores e Amigos do Bairro Tejuco). E da Associação N.S. da Conceição, que abrange a capela de mesmo nome e de cuja construção esteve à frente juntamente com a “Mirinha”, a Mírian do Betinho.

Quis saber dele o que lhe falta fazer, ao que ele me respondeu que tem intenção de ampliar a Capela de N.S. da Conceição (antes uma sala usada para aulas de catecismo). E fazer uma guarita perto dela que sirva principalmente para a criançada aguardar com segurança o ônibus escolar e lá desembarcar. Isso tudo com a participação do pessoal de lá e a aprovação de quem de direito. Mas o Zezinho tem uma frustração: pedindo em favor dos que ele representa, não conseguiu a volta do ônibus circular em Resende Costa, pensando, naturalmente, nas necessidades dos ‘tejucanos’.

Em sua casa, que mais parece uma chácara, morando com suas duas irmãs, ele é pura simpatia. A família é o bem que mais preza. Só tem uma coisa: ficar parado enrolando novelo de retalho, como tentou fazer logo que se aposentou, não é com ele. Zezinho Brechó gosta mesmo é de se mexer. E nessa sua movimentação pela cidade diz ter aprendido a lidar com as pessoas, não tendo receio de pedir em nome dos outros coisas que julga importantes para eles. Comunicação é com ele mesmo. “O que faço passa a ser uma diversão, a gente já não tem nada mais pra fazer”, explica, com uma simplicidade desconcertante.

Provocado por mim a falar sobre o que Resende Costa significa em sua vida, Zezinho é objetivo: “é a minha terra natal. Nunca saí daqui. Não consigo. Nunca passei mais de dois meses fora”, declara ele dessa forma seu amor pela cidade. Não por acaso, no mês de aniversário de R.C., ocasião em que homenagens são devidas a prestadores de bons serviços à nossa comunidade, destaca-se aqui a figura popular desse resende-costense dos bons, que confessa ter vontade de que as pessoas se reúnam mais e busquem soluções para seus problemas comuns. Na prática mesmo, cidadania é com o Zezinho Brechó.