Contemplando as Palavras

Tributo a Resende Costa

16 de Junho de 2017, por Regina Coelho 0

Homenagear é demonstrar admiração, respeito ou gratidão por alguém. É também destacar fatos e feitos merecedores de distinção. Homenagens são feitas com flores, salvas de palmas, medalhas, troféus, estátuas, faixas, placas, monumentos, comendas, discursos, exposições, mensagens, dedicatórias, títulos, presentes... Homenageiam-se vivos e mortos. Homenageiam-se santos, personagens bíblicos e pessoas com nomes de ruas, praças, avenidas, prédios, sítios, escolas, cidades, músicas, estabelecimentos de comércio, áreas culturais... Nomes próprios de registros acrescidos de Júnior, Filho, Neto e Sobrinho contemplam homenageados em família. No calendário, não faltam datas comemorativas – cívicas, como o nosso 2 de junho; comerciais, como o Dia dos Namorados e religiosas, como o Corpus Christi. De certa forma, datas homenageantes também.

Motivada pela singela homenagem do pessoal da Banca Resende em inscrição nela própria, que lembra o Francisco Machado (o Chico), seu primeiro proprietário, fiz um giro mental pela cidade em busca de espaços públicos que representam parte importante da história de Resende Costa por si mesmos e pelos nomes que os identificam.

Desconsiderando a citação aos logradouros oficiais e devidas justificativas nominais, por absoluta impossibilidade de aqui mencioná-los, nosso ponto de partida é a E.E. Assis Resende, que leva o nome de seu fundador e abriga a Biblioteca Ana Rocha (D. Nininha, antiga diretora da escola). Em sequência, vem a E. M. Conjurados (uma referência aos inconfidentes), que conta com a Biblioteca Olga Rios Pinto (D. Olga, primeira diretora da escola) e a Quadra Esportiva Profª Carminha Mendes. Alojada em bonito prédio situado no Mirante das Lajes, a Biblioteca M. Antônio Gonçalves Pinto é criação daquele que lhe empresta o nome. Dentro dela, o Espaço Cultural Prof. Geraldo S. Chaves lembra o maestro e educador de incontáveis alunos. Bem próximo às Lajes, na Praça Cônego Cardoso, está erguido o Salão Paroquial Padre Adelmo, assim denominado como preito a seu criador, hoje mais conhecido como CPP (Centro de Pastoral Paroquial). Chega-se à Praça Profª Rosa S. Penido, de cujo centro um busto feminino justifica a denominação do lugar e de onde se avista o centenário sobrado do Fórum Des. Mello Júnior (presidente do TJMG, responsável pela manutenção da comarca de RC. quando da ameaça de sua extinção).

Alcançando outros pontos da cidade, o caminho tomado envolve três direções distintas: o Estádio M. Olíndio Argamim de Freitas, o Parque dos Trabalhadores Geraldo Magela de Resende e o Terminal Rodoviário José Pedro dos Santos. Esses importantes espaços estão respectivamente marcados com a lembrança do “Sô Bico” (dentista e esportista), do Geraldo do Lulu (professor, advogado e um dos idealizadores do Parque do Campo) e do “Gancho” (motorista e músico da Banda Santa Cecília).

Homenagem em quatro versões para um mesmo homenageado: Mons. Nélson, por 44 anos à frente da Paróquia N.S. da Penha de França, com atuação marcante na área da Educação. Sendo hoje nome de uma das principais avenidas de Resende Costa, de um ginásio poliesportivo e do escritório paroquial daqui, é igualmente reverenciado na figura de um busto inaugurado em 2014, por ocasião do centenário de seu nascimento.

De volta ao nosso estádio, o caminho agora, ou melhor, a caminhada é feita também pelo Campo do Expedicionário, clube cujo nome lembra os pracinhas resende-costenses. E dos já mencionados conjurados da Lage veio a inspiração para batizar como Rádio Inconfidentes essa outra forma de espaço na cidade, assim como também o é o JORNAL DAS LAJES, que carrega no nome sua identidade em forma de homenagem a Resende Costa.

E chega-se finalmente à estátua de José de Resende Costa, monumento erguido em 2012 próximo à histórica casa do inconfidente como marco dos 100 anos de emancipação política do município, de igual forma oportuna homenagem àquele de quem herdamos para esta terra o honroso nome de Resende Costa.

De pão em pão

18 de Maio de 2017, por Regina Coelho 0

O abel já tinha prática naquilo. Afinal de contas, com 11 anos já trabalhava com o Aldair, padeiro do Antônio (do Sérgio Procópio). E depois com o Jesus “Barbeiro”, então envolvido com padaria. Mais tarde, no Regimento, foi ser... padeiro. O Heitor trabalhava em SP, num outro serviço. Foi aí que o Abel o convidou para abrirem uma padaria em Resende Costa. Nascia assim a Panificadora Vale LTDA em fevereiro de 1963, numa época em que, segundo seus fundadores, “nenhuma padaria ia pra frente na cidade”.

Instalado na rua Assis Resende, o empreendimento passou a enfrentar os primeiros problemas. Um deles era a forte concorrência com São João del-Rei, aonde o pessoal daqui, por dependência quase total do município vizinho, ia com grande frequência e, como hábito, quase como obrigação, trazia de lá o pão. O produto feito aqui encontrou no comércio local seu principal comprador. Entregue em enormes balaios a donos de botequins e armazéns que o revendiam ao consumidor, foi chegando à mesa do resende-costense. Outra grande dificuldade era conseguir a farinha de trigo. Através da obtenção de cotas, os concorrentes já estabelecidos conseguiam comprá-la diretamente dos moinhos pagando menos, enquanto eles a compravam no mercado atacadista. Concorrentes também, carros vindos de BH e Barbacena, principalmente, chegavam a Resende Costa vendendo a praticidade e a durabilidade do pão embalado. Tempos difíceis aqueles! De resistência.

Típico da profissão, o trabalho dos dois começava cedo, às 3, 4 horas da manhã, no máximo. As funções eram divididas meio a meio, diferentemente da ideia inicial do Heitor de atuar somente como administrador do negócio. A quatro mãos, tudo era feito manualmente. Usavam cilindro, masseira e, como não tinham modeladora, faziam um por um o pão. Para garantir a produção do dia seguinte, a fermentação tinha início às 17h do dia anterior. Ofertando ainda roscas, rosquinhas, biscoitos de polvilho e demais quitandas, estendendo suas vendas até Coroas (Cel. Xavier Chaves), a padaria tinha uma particularidade interessante: num único ambiente, quem chegava lá via todo o processo de preparação dos produtos.

Em funcionamento até 2005, o estabelecimento dessa dupla empreendedora é agora página importante na história da panificação do município. Hoje, Heitor Vale, 78, padeiro aposentado e Abel R.Vale, 72, padeiro ainda em plena atividade por pura devoção a seu ofício, muito têm para contar sobre aqueles anos. E destacam, entre tantas passagens marcantes, as idas constantes de mães e crianças carentes até a padaria pedindo-lhes pão, que eles nunca negavam. Mas Heitor afirma que resolveu estipular um “regulamento” para disciplinar aquela situação. Ou seja, quem quisesse sua sacola de pães teria que contribuir com um feixe de lenha. E mais. Para evitar possíveis desavenças com terceiros, ficava claro que mourões e pedaços de madeira não seriam aceitos. O reconhecimento pelo que faziam vem hoje de muita gente que garante a eles jamais se esquecer daquele gesto de ajuda a quem muitas vezes não tinha o que comer.

“Uma experiência de vida muito boa”, assim Heitor resume o que representa para ele esse trabalho. E, sem falsa modéstia, garante: “a gente deixou boas lembranças”. E quem vem construindo outras histórias profissionais é o Abel, há cinco anos trabalhando no Supermercado N. S. da Conceição, para o Marquinhos, a quem elogia muito. Sobre a importância da Panificadora Vale, não deixa por menos: “estudei meus três filhos”, diz com natural e indisfarçável bom orgulho. Provocado a dar uma dica para se fazer um bom pão, esse vocacionado padeiro não vacila ao citar em primeiro lugar o capricho como requisito obrigatório, para depois acrescentar que é preciso colocar o pão no forno “na hora certinha”. E, palavra de quem entende, fazê-lo corar com o vapor.

O pão é símbolo do alimento e de todo esforço para consegui-lo. O ritual da massa formada e transformada tem a conduzi-lo mãos hábeis de padeiros. De gente como os irmãos Vale.

  P.S. Agradeço à minha tia Stela, irmã do Abel e do Heitor, a mediação essencial na produção do presente artigo.

A música como pauta

13 de Abril de 2017, por Regina Coelho 0

Música, música (Sueli Costa/ Abel Silva)

Música, música/ Companheira do quarto dos rapazes/ Entre revistas e fumaça/ Confidente do quarto das meninas/ Entre calcinhas e sandálias/ Música, música/ Farol na cerração dos grandes medos/ A força que levanta os bailarinos/ Elétrica guitarra entre os dedos/ Aflitos e quentes dos meninos/ Música, música/ Irmã, ímã, irmã/ Feroz como a ira do Irã/ Ou mansa como o último carinho/ Quando já chega a manhã/ Música, música.

Interpretada pela baiana Simone, a canção acima encontra na poesia uma bonita forma de definir o que é anunciado já a partir do seu título. Ouvi-la, é óbvio, faz toda a diferença. Aliás, música, acima de tudo, é som, é melodia. E como essa manifestação artística toca a maioria das pessoas! Uma exceção famosa é o grande poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), que declarava não ser apreciador de música e abominava concertos.

Desgosto dele. Gosto meu e de tanta gente. E vamos combinar o seguinte: a vida movida a música é bem mais interessante. No nosso dia a dia, ela chega de todas as formas. Pelas trilhas sonoras que embalam as cenas de novelas, filmes e peças de teatro ou pelos sucessos do momento que movimentam as academias de ginástica, muitos de qualidade duvidosa, é verdade. Via internet. Pelo rádio, celular ou pela tevê. Em casa, nas ruas, nos shows, bares, carros, estádios e ginásios com seus tradicionais hinos, nas escolas de dança e canto. Em tudo está a música. Nas festas profanas e religiosas, no anúncio fúnebre da igreja, na expressão solitária de alguém que canta enquanto trabalha ou apenas canta. Ou toca. E compõe. De tribos, estilos e línguas diferentes, ou somente instrumental, a linguagem da música é mesmo universal.

Durante a celebração da Semana Santa, a comunidade católica de Resende Costa revive a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, mantendo vivas as tradições desses rituais. Para tanto, a música se faz presente muitas vezes. Sacerdotes, público acompanhante, orquestra, banda e corais garantem a beleza musical de mais uma Semana Santa em nossa terra.

Passado esse período impregnado de religiosidade, novos cenários vão se formando pela cidade. Em praticamente todos eles, não podem faltar as músicas de cada ocasião, para cada emoção ou disposição. Considero oportuno destacar o trabalho corajoso de algumas de nossas meninas cantoras já mostrado por minha colega Vanuza Resende em excelente matéria neste mesmo Jornal das Lajes (set./2016). Louvável também é a iniciativa do Ângelo Márcio com o surgimento da Vibratos Escola de Música, em 2013. Segundo ele, de eventos musicais anteriores “foi detectado o potencial artístico da cidade e a ideia inicial foi a criação de um local onde o ensino da música pudesse ser desenvolvido bem como a formação, estruturação e a produção de grupos artísticos”. Ter feito na UFSJ disciplinas isoladas em Música o fez decidir pela entrada definitiva nesse curso, expandindo seus horizontes e projetos. “Atualmente, ensinamos vários instrumentos e mantemos, gratuitamente, um coral juvenil. Possuímos cursos de violão, bateria e baixo (o último, no Tijuco). Curso de violão nos Curralinhos- dos Paulas e dos Maias. Também já tivemos curso de violão no Cajuru. Temos também, além de outros alunos que se apresentam regularmente, as bandas de alunos Symples Acordes e Mariana & Banda Relikário”, diz Ângelo com justificado orgulho. E não é que Resende Costa conta hoje com uma loja de instrumentos musicais? Situada ao lado da igreja do Rosário, que tenha vindo para ficar a WM Musical.

É muito bom ver os músicos jovens renovando a nossa centenária Banda Santa Cecília, as meninas e os meninos montando seus grupos e ainda o pessoal de todas as idades exercitando o seu talento musical por toda parte.

Está na voz, no instrumento e até mesmo no assobio o que nossos ouvidos captam como música, essa onipresente expressão dos nossos sentimentos e pensamentos.

Foi mal!

16 de Marco de 2017, por Regina Coelho 0

Todo cuidado é pouco com as palavras, mesmo com aquelas que, sendo só ditas, segundo o dito popular, “o vento leva”. Isso nem sempre acontece. Elas podem ficar gravadas na memória de quem as ouviu pelo bem ou pelo mal. Nesse último caso, a situação ainda é pior quando são registradas, presentes materialmente como prova de que foram proferidas ou escritas um dia. O descuido do momento e/ou a incompetência linguística podem explicar o mau uso de certos termos, mas existem casos de intenção deliberada ou disfarçada na defesa e na propagação de ideias que levantam polêmica. Quando o recado tem como alvo o grande público, como acontece nas campanhas educativas, nas propagandas comercias e nos pronunciamentos de figuras ditas públicas e em circunstâncias igualmente públicas, responsabilidade social é o pressuposto a ser observado, sob pena de que equívocos de informação e avaliação prevaleçam. Vamos aos fatos.

Uma campanha recente do Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil chamou a atenção de muita gente a partir de seu slogan: Gente boa também mata. Nos anúncios propriamente ditos, crimes de trânsito são relacionados a cidadãos que praticam boas ações, com o alerta de que todos podem cometer imprudências ao volante. A abordagem é confusa por associar atitudes negativas a pessoas bem-intencionadas.

Em três outras campanhas dirigidas ao universo feminino, os questionamentos foram inevitáveis. Na primeira delas, o conceito Gentileza urbana é: não assediar as mulheres nos pontos ou dentro dos ônibus é incorreto por afirmar que não assediar mulheres é uma forma de gentileza. Responsável pela série de frases conceituais inseridas no Jornal do Ônibus em BH, a BHTrans, com boa intenção, parece, chama de gentileza o que, na verdade, é uma obrigação ou um dever.

Na segunda campanha, o assédio às mulheres se repete, pelo visto, incentivado. É o que dá a entender a propaganda lançada pela Skol para o Carnaval 2015 com frases como: Esqueci o ‘não’ em casa e Topo antes de saber a pergunta. Considerado por muitos como um estímulo à perda de controle e ao desrespeito contra mulheres, principalmente numa época em que certos tipos de crimes contra elas aumentam, a mensagem enviesada contida nessas falas só poderia causar reação negativa nas pessoas. Percebendo o vacilo, a empresa recuou substituindo o texto polêmico por outro e reafirmando seu repúdio a todo e qualquer ato de violência.

A série de discursos infelizes se completa com a iniciativa da marca de roupas masculinas Aramis. Ao promover uma campanha paralela ao movimento Outubro Rosa (de 2016), o vídeo sugere greve dos homens para pressionar as mulheres a fazerem exame preventivo de câncer. Nas mensagens, eles aparecem dizendo coisas como: Eu não desligo o vídeo-game. Eu não tiro a camisa do meu time.(...) Sinceramente, homens, com honrosas exceções, não têm esse tipo de moral para fazer essa forma de chantagem com suas companheiras. Mulheres vivem mais do que eles, entre outras razões, porque vão mais aos médicos, fazem mais exames e cuidam mais da saúde.

Mantendo certa relação com o último exemplo, o que vem a seguir é uma declaração totalmente infeliz do ministro da Saúde do Governo Temer. Durante o lançamento em Brasília (agosto de 2016) de uma campanha para o aumento do número de homens atendidos pelo SUS, Ricardo Barros disse que os homens procuram menos o atendimento de saúde porque “trabalham mais do que as mulheres e são os provedores das casas brasileiras”. Se o que Barros disse fosse apenas uma opinião, seria o caso de respeitá-la, mesmo discordando dela. Acontece, porém, que a fala dele não procede em relação às duas justificativas nela presentes. A dupla carga de trabalho feminino e os mais de 40% dos lares brasileiros comandados por mulheres são fatos que desmentem o desinformado e atrapalhado ministro.

Sem mais palavras, liberdade de expressão, acima de tudo. Com bom senso, é claro!

Tempos de Anunciação

16 de Fevereiro de 2017, por Regina Coelho 1

Dona Anunciação tornou-se uma figura lendária em Resende Costa e deixou muitas saudades

eu me lembro bem. Na rodoviária de São João aguardando o ônibus que me traria de volta a Resende Costa, avistei em frente ao Supermercado Monte Rey a Anunciação gritando meu nome a plenos pulmões para me perguntar em seguida, com uma certa apreensão, se tinha havido reunião na Delegacia de Ensino. Ao fazer aquilo, ela dava a entender que poderiam não ter lhe avisado sobre o encontro. Disse-lhe então que estava ali por outras razões, tranquilizando-a. Minha “colega de trabalho” abriu um sorriso aliviado. Isso mesmo! Anunciação era professora, diretora, inspetora, delegada, juíza, promotora... O que ela quisesse ser.

Por muito tempo, ela desfilou sua figura simpática pelas ruas de sua cidade. Sua, sim, pois mandava em tudo por aqui. Em suas visitas à E. Conjurados para “conferir” se estavam em ordem as coisas por lá, a festa dos alunos estava garantida com a sua alegria. Sem atrapalhar o andamento das aulas, passava pelo corredor, dava uma espiadinha pelas salas, puxava uma conversa rápida e divertida com a meninada e ia embora feliz. E assim prosseguia, passando também pela Minas Caixa (extinta em 1991) e pelo Cartório do Tonico, lugares onde era recebida como “autoridade” que era, assinando e carimbando papéis. E assim acontecia pelos lugares por onde ia.

Querida pelos adultos e pela criançada, havia, porém, em algumas pessoas uma vontade incontrolável de provocá-la com certas brincadeiras de mau gosto como quando, por exemplo, a chamavam de Maria Fumaça, Ponte Preta, coisas desse tipo. Ela ficava brava, fora de si e retribuía as provocações com xingamentos tão fortes que pareciam lhe saltar do pescoço as veias. Mas, certa vez, presenciei uma cena, no mínimo, digna de análise. Vítima constante de uma certa turma de meninos que jogavam bola diariamente na rua e não a deixavam em paz, ela reagiu de forma surpreendente ao perceber que eles, naquele dia, entretidos na brincadeira, não deram por sua presença. “Ô, menino, cê não tá vendo eu aqui, não?”, indagou a Anunciação a um deles.

Em 1992, o Lar São Camilo passou a ser sua nova casa. Brincalhona, ela só se irritava mesmo, como já foi dito, se insistiam em tratá-la pelos apelidos, que detestava. Aí, ameaçava chamar o “seu Inácio Polícia”. É o que diz a cuidadora de idosos Cida M. Lima, 54, há 17 anos no Lar, escolhida como sua madrinha de consagração em pedido da Anunciação ao padre Claudir.

história interessante sobre essa marcante criatura ouvi do Dr. Donizetti (juiz de direito da comarca de Resende Costa). Era sua primeira ida, a trabalho, ao Lar São Camilo. Recebido pela Irmã Judith, teve a oportunidade de ser apresentado à D. Maria (como se refere a ela), que cantou para ele uma música em latim. Imagino que tenha sido o canto da Verônica, que acompanha bonito ritual da Sexta-Feira Santa. Conversa vai, conversa vem. “E a senhora gosta daqui?”, ele pergunta. “Não”, responde ela. Constrangimento, ao que a “cantora” emenda: “A comida daqui não tem sal”. Alívio geral, explicações da Superiora sobre os cuidados com a saúde dos moradores da Casa e a promessa dele de enviar para sua nova conhecida um doce de leite. Promessa esquecida. Passados uns dois anos, por dever do cargo, ele voltou ao Lar e quis rever a D. Maria. Ao lhe perguntarem se ela se lembrava dele, a resposta foi direta: “É aquele que me prometeu um doce e não me deu”. Depois dessa, doce mandado. Promessa cumprida.

Maria Anunciação de Jesus nos deixou no último dia 20. Lúcida o tempo todo, cega há um bom tempo, boa saúde. “Mas já conversava bem fraquinho”, afirma Jhennifer, 21, técnica em enfermagem do LSC, parecendo explicar a inevitabilidade de sua partida. Tranquilamente, aos 90, quase 91 anos, de acordo com os registros do Lar mostrados por Josielle Chagas, 23, recepcionista. Controversa idade – mais de 100 anos? Dizem. Isso não importa.

Parafraseando Manuel Bandeira, com seu singelo poema Irene no céu, imagino Anunciação entrando no céu: - Licença, meu branco! E São Pedro bonachão: - Entra, Anunciação. Você não precisa pedir licença.