A Teia do Mundo

Points

16 de Junho de 2017, por José Antônio 0

O point é um lugar-comum necessário. Mesmo que frequentado sempre pelas mesmas pessoas e as mesmas previsibilidades, precisamos do point. Ele nos torna familiares uns com os outros, pois quem frequenta point tem interesses iguais aos de todo mundo que está lá.

Entretanto, os points são mutáveis, uma vez que nossos interesses também mudam com o tempo. E aí, a gente deixa de frequentar um point e passa a frequentar outro.

Quando crianças, a escola é o nosso point de obrigação. Impossível deixar de frequentá-lo. Todos os dias as mesmas pessoas, as mesmas conversas e o mesmo tipo de roupa. Há outros points na infância também: a rua, o campinho, o clube, a casa de um colega... Como todo point, existe a hora de chegar, o tempo de ficar e o momento de ir embora.

Assim que os primeiros rascunhos de homem e de mulher já começam a se esboçar em nós, abandonamos esses points e partimos para outros.

E já somos adolescentes. Os locais de encontro agora são as festinhas, as baladas, os shows, o shopping... Mesmo que os interesses sejam confusos e atropelados, estamos sempre lá... com as mesmas pessoas, as mesmas conversas e o mesmo tipo de roupa. Barulho, som alto, conversa gritada, agitação... ainda assim, sentimo-nos confortáveis ali.

Porém, muvuca também cansa. Chega uma hora em que a adolescência dá um basta nela mesma. Mais um point se despede. Mais um point aparece: o barzinho. Violão, banquinho, um cara cantando pra ninguém prestar atenção, mesinhas lotadas, cerveja e todo mundo falando ao mesmo tempo.  Quem? As mesmas pessoas. O quê? As mesmas conversas. Como? Com o mesmo tipo de roupa.

Hora de chegar... tempo de ficar... momento de partir... Point novo! Somos adultos.

Agora é o restaurante, onde jantamos com um casal amigo. Ou a casa do casal amigo, onde as famílias se reúnem. Points mais tranquilos e refinados. Mas são points. São lugares de aglutinação dos mesmos interesses e das mesmas previsibilidades. Points.

E vamos ficando mais velhos. A idade chega apenas pra dizer que não fica. E lá vem mais point, este também reunindo interesses, necessidades e conversas semelhantes: o laboratório de exames... ou a farmácia. É onde a sanha do sonho dá lugar à senha. Sempre há os que estão assiduamente ali, com as mesmas previsibilidades e as mesmas angústias, as mesmas brincadeiras e os mesmos veredictos.

Até que chega a derradeira fase do último point. Ali reúnem-se, numa notável fidelidade ao lugar, aqueles que já não têm mais interesses nem necessidades. Talvez, quem sabe, alguma curiosidade silenciosa, perdida nas esquinas dos túmulos, de saber se a vida valeu a pena nos points anteriores.

Último point! É osso duro de roer, mas tem que ser roído. Viver é um ofício e não tem como fugir dos ossos do ofício.

A vida, pode até oferecer vírgulas, porém ela jamais termina em reticências...

E point final.

É PORQUE É

18 de Maio de 2017, por José Antônio 0

– Quer que registre o seu CPF na notinha da compra? Olhei, sem entender, para a garota do caixa do supermercado. Registrar o meu CPF na nota da compra? Com certeza era alguma ordem vinda de cima pra baixo.

 Mas... registrar pra quê?

A garota também não sabia. Depois de hesitar em algumas palavras desconectadas, assumiu a situação e me lançou um sorriso desolador:

– Uai, moço... pra ficar registrado.

Se você, leitor, nunca ouviu falar de tautologia, então aí vai: a tautologia é você explicar uma coisa por ela mesma. É um raciocínio circular, fica sempre onde está: essa música é chata porque demora... e ela demora porque é chata.

A tautologia é um tipo de autoritarismo. É isso aí e pronto!

Até o velho e bom Drummond apelou: Eu te amo porque te amo.

 E acabou. Não se discute mais.

Quando pequeno, eu morria de curiosidade para saber como é que o Seu Manuel fazia picolé. Não entendia como o picolé ganhava aquele formato e ficava colorido. Aí eu arrisquei:

– Seu Manuel, como é que o senhor faz picolé?

E ele, numa tautologia sucinta e congelada:

– Fazendo.

A bem dizer, a gente usa a tautologia toda hora. Veja só a matemática: quatro é par porque é divisível por dois... quatro é divisível por dois porque é par.

Tem ainda a história zoo-ontológica da galinha e do ovo: o ovo existe porque existiu uma galinha; a galinha existe porque existiu um ovo.

Explicar as coisas desse jeito é igual cachorro correndo atrás do próprio rabo. Roda, roda... e não sai dali.

Já viu aquela situação em que você se deleita com algum tipo de prazer e não encontra palavras para defini-lo? É aí que a gente se lembra da Coca-Cola: Isso é que é!

Talvez a tautologia esteja em nós até hoje como ecos freudianos das reprimendas da infância:

– Menino, desce daí agora!

– Por que, mãe?

– Porque você tem que descer!

E vai discutir...! O final dessa história é o típico chavão tautológico: E fica tudo por isso mesmo!

A própria vida é tautológica: nascemos para morrer e morremos porque nascemos.

Paguei a minha compra no supermercado. Quando ia saindo, pedi à garota:

– Você poderia colocar os pacotes de café em duas sacolinhas?

Ela me olhou sem entender. Acabou perguntando:

– Duas sacolinhas? Pra quê?

Nem hesitei:

– Pra serem duas sacolinhas!

Alguém quer ouvir a minha opinião?

13 de Abril de 2017, por José Antônio 0

Mês passado fui comprar um antigripal na farmácia. No caixa, a mocinha me perguntou sem olhar nos olhos:

– Débito ou crédito?

Enquanto ela tirava o recibo da maquininha do cartão, comentei simpaticamente sobre a qualidade do antigripal. Nem bem cheguei ao meio da frase e a mocinha já estava gritando pra uma colega do outro lado do balcão:

– A Jussara foi pro motel com ele? Isso vai dar rolo.

E me entregou o papelzinho sem nem me agradecer, nem me olhar nos olhos, nem querer saber da minha opinião sobre o antigripal.

Fui embora.

Ao longe ainda ouvia a voz da mocinha especulando sobre o acasalamento da Jussara.

Outra vez foi numa reunião. Tentei colocar a minha opinião, mas nada. Minhas frases morriam no nascedouro, as palavras se perdiam pisoteadas pelo tropel feroz da manada opinativa. Eu começava uma frase, e lá vinha alguém interrompendo... Eu iniciava uma sentença, e minha sentença era sentenciada ao silêncio pelo grito de um outro... Eu apresentava uma ideia, e o grupo enveredava para uma discussão acalorada sobre um outro assunto...

Fui embora.

Ao longe ainda ouvia uma confusão de argumentos desarticulados, interrupções sem pedidos de licença, brados passionais e impositivos... Todos se esquecendo de que o ouvido também é peça importante na etiqueta de uma conversa.

Ontem a coisa aconteceu na padaria. A garota me deu o pão e uma senhora atrás de mim comentou sobre o tempo:

– Tá vendo como está juntando nuvem escura hoje? Até o ventinho é de chuva. Acho que hoje cai.

Tentei entrar na conversa. Sabia que já havia visto aquele filme, mas mesmo assim tentei. E comecei a dizer que não achava que iria chover. Minha frase se resumiu a uns minguados pingos, pois a atendente já me cortou dizendo a opinião dela. Esperei terminar e tentei encaixar mais uns pingos, porém dessa vez foi a senhora que me tirou e falou o que pensava. Esperei a mulher terminar e lá fui eu de novo, tentando somente uma garoa. E aí, as duas me interromperam num temporal de frases somente entre elas.

Fui embora.

Peguei carona na enxurrada da indiferença e fui comer o meu pão em paz, sem relâmpagos nem trovões. A chuva acabou não vindo. Nem minhas frases.

Existe uma linguagem da opinião? Talvez seja não ouvir o outro... gritar em cima do que o outro diz... não olhar ao redor... aposentar o ouvido...

Se essa é a linguagem da opinião, prefiro a sabedoria da serenidade e a eloquência do respeito. No entanto, tenho coisas que gostaria de dizer... opiniões apenas.

Será que há interessados em, pelo menos, saber a minha opinião?

Ou terei que ir embora?

É pra rir?

16 de Marco de 2017, por José Antônio 0

A piada sem graça.... Em si, ela não irrita. O que irrita é o tempo que você perde ouvindo a pessoa contar. Pode ser um tempo perdido pra frente e um tempo perdido pra trás.

O tempo perdido pra frente é aquele que você perde por já conhecer a piada. Você sabe onde a piada vai chegar, sabe que vai perder tempo, mas mesmo assim embarca na do contador porque ele é gente boa. O tempo perdido pra trás é quando você não conhece a piada: o contador termina e você vê que a história é estúpida como estúpido foi o tempo perdido que ficou pra trás.

Fim de semana passada, num jantar de casais, perdi tempo pra frente e pra trás. A mulher do Mané Cráudio, meu amigo pagador de mico, resolveu dar o ar da graça... isto é, o ar da falta de graça:

– Gente, esta é demais! Soltaram esta piada ontem no salão. Sabem o que aconteceu com o policial quando ele se olhou no espelho? Ele civil.

Piada do policial civil... típica piada solta que deveria estar presa. Eu já conhecia, mas tinha me esquecido dela. Compreendeu por que perdi tempo pra frente e pra trás?

Ontem me pararam na rua pra perguntar o que o cavalo foi fazer no orelhão. Já sabia que o sujeito iria falar que o cavalo foi passar um trote... e falou mesmo. E caiu na gargalhada. Ri junto, no mesmo trote, daquela falta de graça equina. Ele ainda tentou emplacar mais uma, mas eu apertei o galope e fui embora. Já distante, olhei pra trás e ainda pude vê-lo parando mais um. Vai ver que estava explicando que as vacas argentinas ficam olhando pro céu pra ver se encontram um Boi nos Ares. Ou que o lugar mais rápido da casa é o corredor.

E a piada que o Leovaldo me contou? O Leovaldo é marcado a ferro e fogo pela angústia. Vive cismado com tudo. Na verdade, ele não me contou uma piada, mas um acontecimento. E acabou rindo do que contou.

– Ontem assaltaram a pizzaria aqui da praça. Sabe como é que o ladrão fugiu? A pé, cara! A pé!!!

E riu até lacrimejar.

Eu não derramei uma lágrima sequer. Fiquei mais indiferente do que a calabresa da pizza. Não tinha ouvido coisa mais sem graça.

O Leovaldo acabou indo embora, coitado, cismado com a pizzaria:

– Será que o dono vai colocar algum produto nas pizzas? Se alguém roubar e comer, cai duro logo adiante. Você já pensou nisso? Acho que não vou voltar mais lá.

Pois você acredita que de uns dias pra cá eu estou vendo um vestígio de humor nessa história do Leovaldo? O ladrão carregando uma pizza, correndo da polícia com aquele enorme pratão de papelão. Quem vê de longe, pensa pelo menos em duas coisas: deve ser uma pizza bem gostosa, pois está sendo disputada... ou... o cara vai ser preso, mas não vai dar em nada, pois tudo acaba em pizza, ele até já está avisando.

Ainda não dei sorriso de canto de boca pra essa história. Estou longe de derramar uma lágrima de tanto rir disso. Mas que tem um fundo engraçado, tem.

Talvez algumas piadas sem graça não sejam sem graça. São iguais a vinho: a gente tem que dar um tempo pra elas.

Por falar nisso, como é mesmo aquela piada do cara que gostava tanto de matemática que, quando pedia um x-burguer, ele comia o burguer e calculava o x? É isso mesmo?

Sedução

16 de Fevereiro de 2017, por José Antônio 0

Havia tempos que eu desejava uma aproximação. Mesmo nessa correria louca de cidade grande, sempre a percebi. No meio de buzinas, asfalto, prédios e neon... ela sempre lá. No mesmo lugar: bonita e austera.

A curiosidade em conhecê-la me atiçava, mas seu porte imponente me intimidava. Além disso, eu precisava de um motivo plausível para chegar até ela.

Até que um dia eu ganhei coragem.

– Pois não, senhor!

Um sujeito elegantemente vestido com um terno preto me recebeu na mais requintada formalidade.

– Olhe, amigo – retruquei – eu apenas queria conhecer a casa de velório. Dizem que é a mais chique do país. Todos os dias passo aqui em frente e hoje eu decidi ver como é.

O sujeito esboçou um sorriso acolhedor, porém discreto. E começou a fazer as honrarias da casa fúnebre. Enquanto adentrávamos o recinto, eu disse que tinha morado um tempo ali no bairro, que aquele local era um campinho, que eu estava impressionado com o luxo da casa...

– Aqui é a sala de convivência!

Era um cômodo confortável, com sofás grandes, mesinhas de centro, bebidas, cafezinho, quitutes, música ambiente, TV por assinatura e internet liberada com senha e tudo. Velório é chato e cansativo. Porém, o conforto da sala colocava a chatice na sola.

Soube de gente que foi pro velório e parou antes na tal da sala. Conversou, comeu, bebeu, viu TV, arrumou namoro pela internet e foi embora sem nem mesmo saber se o morto estava deitado de costas ou de lado.

O cara do terno preto ainda me mostrou os banheiros, a cozinha, fraldário e uma outra sala lá no fundo, com uma mesa de sinuca. Um luxo só.

– Nossa missão é que a separação do ente querido não seja tão desgastante.

Nem quis perguntar o preço daquilo. Não quero que minha partida seja desgastante nem gastante.

Por fim, ele me mostrou uma outra sala. Era central, mais espaçosa, arejada, com banquetas estofadas, ar condicionado e flores. Era a sala do velório. Até esqueci que ali tinha que ter sala pra isso! Ele falou sussurrando:

– Há um corpo aí para o velório. Morte por acidente. Os familiares estão chegando.

Entrei na sala e me aproximei daquele defunto granfino e solitário. Era uma mulher.

Coisas estranhas sempre me perseguem. Ao olhar aquele corpo, um frio me bambeou as articulações: eu conhecia aquela mulher. Tinha sido minha namorada num passado já distante, naquele bairro mesmo. Conferi o nome. Era ela. Reencontro na tangente de dois planos intransponíveis.

A casa com as janelas e portas abertas, lar das coisas findas... a mulher com os olhos fechados, aconchego morto de lembranças infindas. Acho que a sedução é o drama sofrido entre o nunca e o ainda.

Ontem eu passei em frente à casa. Austera, bonita e imponente. Desviei os olhos. Certas seduções são muito malucas. Malucas mesmo.