A Teia do Mundo

Estratégias

12 de Dezembro de 2017, por José Antônio 0

Eu estava na minha, juro que estava. Aliás, ando ultimamente tão na minha que, se eu caísse no mar, a última coisa que eu iria perceber seria a água.

Por isso não entendi aquelas provocações gratuitas do outro lado da calçada. Eram pra mim que elas se dirigiam. Que mal eu tinha feito a ele? Fiz que não estava nem aí e continuei meu itinerário. Na minha. Mas as provocações continuaram. Intensificaram-se até.

De repente, ele atravessou a rua e veio vindo em minha direção, provocando-me. Desafiava-me para qualquer coisa. Deveria estar me ofendendo também, mas eu não conseguia decifrar a sua língua. Diga-se de passagem, linguajar limitado e sem criatividade, repetindo sempre o mesmo bordão irritado.

Cismou comigo do nada. Antipatia gratuita mesmo.

Não foi com a minha cara aquele cachorro preto e peludão. Não sei o que ele viu em mim pra ficar com tanta raiva... ou revolta. E como latia o danado!

Parei numa vitrine pra suavizar a situação. Quem sabe assim o bicho iria embora? Qual o quê! Ele parou ao meu lado e ficou olhando pra cima, na direção de meus olhos, e latindo muito. Aquilo já estava chamando a atenção dos outros.

O pior é que outros bichos também começaram a se juntar à cena, deixando tudo ainda mais complicado. O primeiro foi o mico. O outro bicho que chegou foi a pulga, que se alojou atrás da orelha de quem observava a cena. Veio um sapo também, mas eu não iria engolir: tratei de espantar o cachorro estressado.

Foi embora. Parou lá na frente, perto de uma esquina. Ficou latindo de longe.

Então, veio-me à lembrança a sabedoria do meu pai quanto à diplomacia com os bichos: “Se você quiser ganhar a simpatia de um animal, dê comida a ele.”

Saí da lanchonete com uma empadinha de frango e agachei, colocando-a no chão. O cachorro não pensou duas vezes: veio correndo e abanando o rabo. Comeu tudo e ainda lambeu o chão.

Resolvi a situação? Piorou. O bicho não podia me ver que já vinha logo fazendo festa. E me abordava nos lugares mais variados: posto de gasolina, fila da lotérica, padaria (mais empadinhas), banheiro da rodoviária... Às vezes eu saía de mansinho... outras vezes eu saía de repente. Sempre o despistava.

Havia já uns meses que eu não via o tal do cachorro. Confesso que ele entrou para a minha lista dos esquecidos. Pois ontem, já de tardinha, eis que me surge o cachorrão preto e peludo. Ainda estava vivo. Ainda estava bravo. Ainda estava do outro lado da calçada. Foi só me ver que começou a latir, olhando-me de modo ameaçador.

Não deu outra: empadinha de frango.

Comeu e foi embora.

Cada um tem a sua diplomacia pra conseguir as coisas. Eu com a minha, mais calma e estratégica, consegui acabar um dia com a sua raiva.  Ele com a dele, explosiva e com a cabeça quente, conseguiu ganhar empadinha de frango. Diplomacia esquentada pra ganhar lanche. O jeito é ter paciência, coitado. É cachorro de rua, nem nome deve ter.

Ou melhor... acabou de ganhar um: Cachorro Quente!

Unhas pintadas

14 de Novembro de 2017, por José Antônio 0

A mulher pinta as unhas. Ou pinta as garras? Como felinas cromáticas, sabem arranhar colorido. Cravam cores e matizes na pele vulnerável da vítima masculina. Então a corrente sanguínea vira esmalte.

E as tonalidades? E os nomes para as tonalidades? Covardia para os meus pobres bastonetes.

Foi num jantar que reparei quando ela erguia suavemente a taça de vinho até os lábios:

– Bonito o esmalte!

– Nunca fui santa...

– Hein?

– É a cor do esmalte: “Nunca fui santa”.

Outra noite, no concerto sinfônico. Ela se virou para mim... e falou baixinho e insinuante:

– Beijo roubado...

A ocasião fez o ladrão. Ela ficou brava:

– O que é isso? Ficou maluco? Estamos num concerto. Tem plateia aqui. Onde já se viu? Beijar...

– Mas você disse...

– “Beijo roubado” é o nome do esmalte.

Afundei-me na cadeira, mais vermelho que nariz de palhaço... que, por sinal, também é nome de esmalte.

Musas fiandeiras do coração do homem...

Mãos ágeis... mãos sagazes... mãos ternas... mãos sádicas...

Mãos esmaltadas.

As Mãos de Eurídice roubaram o pobre Gumercindo Tavares com o esmalte “Desejo”. Depois, Eurídice pintou as unhas com o “Destino dos sonhos”. E o roubado Gumercindo abandonou a família para enricar uma aventureira. Quando o Gumercindo acordou, já era tarde. Suas próprias unhas já estavam roídas e ele afundado na miséria. Eurídice, com o esmalte “Saia justa”, assim também deixou o homem. O final da história foi esmaltado com “Ponta de ira”: a acetona amargurada de Gumercindo arrancou a tinta viva da amante.

Ariadne, com unhas do esmalte “Avista”, deixou o fio para Teseu avistá-lo e sair do labirinto. Penélope, com o esmalte “Deitar na rede”, passou anos tecendo e destecendo a mesma coisa todos os dias à espera de Ulisses.

A malfadada Eva, com o esmalte “Causei”, fez jus à cor da unha. Vai ver que não viu que a serpente usava o esmalte “Malícia”...

Unhas coloridas... São belas. São perigosas. Sabem traçar possibilidades nos riscos. Sempre que a unha pintada coça o meu desejo, eu me entrego aos arranhões da “Garota Verão” e... “Deixa beijar”!

A mulher pinta as unhas, as garras e as guerras.

E vencem.

Numa folha qualquer não desenho um sol amarelo

11 de Outubro de 2017, por José Antônio 0

O desenho sempre foi o traço (torto!) da minha incompetência frente à figuração da realidade. Risco e arrisco contornos ridículos, tentando trazer o real para o meu papel. Jamais consigo. Ou o real não é captado ou o real é decapitado.

Sei que o problema não é só comigo. Tive uma namorada cujo pai trabalhava desenhando retrato falado para a polícia. Era realmente um caso de cadeia. Seus retratos falados eram verdadeiras calúnias à fisionomia dos retratados. A polícia sempre ia atrás do cara errado.

Acabou demitido, pois precisavam de quem soubesse fazer retrato falado... e não retrato falhado.

Quanto a mim, sou erudito em aquarela do tosco. Nem sol eu sei desenhar direito. Fica igualzinho moeda que caiu em cima de inseto.

É difícil de acreditar, mas na minha mocidade cismei de participar de um concurso de desenhos. Criei um personagem e fiquei semanas a fio burilando a sua forma. Mandei para a banca avaliadora. Quem vencesse teria a sua obra transformada em desenho animado.

Se o concurso fosse de desenho desanimado, eu até acho que teria alguma chance. Mas não deu. Talvez o nome do meu personagem não tenha ajudado, sei lá: Xapotó!

Porém, uma coisa me consola: meus desenhos são dinâmicos e têm vida própria. Isso é uma vantagem minha sobre quem desenha bem.

Se o bom desenhista mostra o seu desenho de uma casa, todos irão dizer que se trata de uma casa. Bem desenhada, tudo bem, mas não passa de uma casa. Comigo é diferente. Meus desenhos vivem suscitando visões diferentes: quando eu desenho alguma coisa, todos pensam que é outra coisa. Meus desenhos transcendem a si mesmos.

Uma vez, desenhei um cavalo e teve gente que disse estar vendo uma ponte de madeira. Desenhei um jacaré e mostrei para o meu filho:

 – Puxa, pai, eu não sabia que você desenhava tão bem um regador...

Mas eu não desisto. Sei que meus desenhos são feios. No entanto, eles provocam mais o artista que vê do que o artista que desenha. Já me conformei com o meu jeito torto de ver as coisas. Vou capengando atrás das formas, tentando entender o traçado de cada uma. O que consigo é do meu jeito.

 Não sei... se eu desenhasse de modo fiel ao real, eu trairia a mim mesmo. Prefiro ser fiel a mim mesmo e trair a previsibilidade do real. Acredito que assim eu consigo surpreender sensibilidades perante desenhos esdrúxulos.

Eu não queria dizer, mas nem gosto de pensar como seria se eu desenhasse o meu próprio autorretrato...   

Vai encarar?

15 de Setembro de 2017, por José Antônio 0

Já ouvi por aí que a verdade é a perfeita correspondência entre a realidade e seu conceito. Ora, se cada um busca a sua própria perfeição, vive a sua própria realidade e se orienta pelos seus próprios conceitos, então a verdade é relativa. E isso tem até uma certa vantagem. Se a verdade é relativa, nada está definido e as situações não são inflexíveis. As situações se situam. Entenderam bem, radicais de viseira?

Tem vezes que a própria verdade nos obriga a assumir seu lado relativo e mostrar que ela pode ser interpretada de modos diferentes... e inesperados.

Outro dia, fiquei sabendo mais uma do Mané Cráudio, meu amigo pagador de mico. Mané Cráudio tem a alquimia do peru: engraçado, constrangedor, desajeitado... e aquela sensação de “não é que é mesmo?”.

Pois é. O Mané Cráudio resolveu comprar – escondido – umas revistas masculinas. Entrou na livraria e foi direto aos jornais. Enquanto folheava alguns, varria com o canto do olho tais revistas dentro dos pacotinhos de plástico. Discretamente, apanhou umas cinco, cujas capas concentrariam a circulação sanguínea na face de qualquer ser humano que tenha um só pingo de vergonha.

Na hora de pagar, Mané Cráudio, querendo sair logo dali, alegou que estava com pressa. O caixa não sabia quanto as revistas custavam, pois haviam mudado de preço. Foi aí que o rapaz, levantando aquela porção de pernas, bocas, seios e otras cositas más, gritou para o colega lá no fundo da loja:

– Piu-Piu! Ô Piu-Piu! (Até o apelido contribuiu para o requinte da coisa.) Qual é o preço dessas revistas de mulher pelada? É pro rapaz aqui, ele tá com pressa.

Mané Cráudio quase botou um ovo.

Foi logo se desculpando, assumindo a verdade num outro viés, diante de uma loja inteira que olhava para ele. Nessa hora, todo mundo vira pesquisador:

– É que eu estou fazendo uma pesquisa sobre o comportamento sexual dos habitantes do...

Foi embora sem terminar a frase, deixando nas mãos do amigo do Piu-Piu toda aquela ginecologia embalada em plástico.

A verdade tem suas exigências. Como esta outra que presenciei numa cerimônia de formatura no ginásio da escola. Lotado. Foi quando uma voz anunciou nos alto-falantes:

– Há um fusca cor-de-abóbora, com as portas azuis e um autocolante do Mickey no vidro de trás estacionado em frente a uma garagem. O proprietário, por favor, queira retirar o veículo, pois o dono da garagem precisa entrar.

O recado foi dado repetidas e cansativas vezes, mas o tal proprietário do fusca cor-de-abóbora jamais apareceu. Se estava lá na cerimônia, preferiu assumir a verdade de modo relativo e deixar que o guincho levasse embora seu jerimum de quatro rodas. Mais tarde, ele se explicaria na polícia.

Talvez fosse melhor.

Escada rolante

10 de Agosto de 2017, por José Antônio 0

No começo, a notícia ganhou fama de boato. Onde já se viu? Uma cidade tão pequena... pra que escada rolante? Porém, quando todo mundo viu a bateção de estaca na loja do Amadeu, a coisa mudou de figura: a cidadezinha de Pinta Mansa iria ter a sua primeira escada rolante.

Como os negócios iam bem, o Amadeu subiu mais um andar. E quis incrementar com uma escada rolante! A loja ia de vento em popa para um evento em pompa.

O assunto em Pinta Mansa era somente a escada rolante da loja do Amadeu. Entre os pintamansenses, havia um grupo favorável à escada. Agora sim, a cidade teria seus degraus para galgar a uma posição no mapa. Por outro lado, havia o grupo do contra: Pra que escada rolante? De onde o Amadeu tirou essa ideia? É tudo mania de ser chique.

E tinha também a ala dos desinformados:

– Escada rolante? Pra que ficar rolando numa escada?

– E eu? Subir escada rolando? A minha labirintite vai me matar de vez.

No dia da inauguração, a rua estava entupida com tanta gente querendo andar de escada rolante. Amadeu caprichou nos aparatos: carrinho de pipoca e algodão-doce na porta, palhaços pintando a cara das crianças, banda de música... Tinha até uma mulher que fora contratada pra ficar cuspindo fogo no meio da rua, mas não pôde comparecer.

Amadeu abriu a loja e a multidão avançou curiosa. De repente, todo mundo parou estatelado em frente à geringonça cheia de degraus, já funcionando. E aí? Quem vai primeiro?

Amadeu ficou ao pé da escada rolante, organizando as viagens para o andar de cima. E naquele vai-não-vai, alguém que ia-não-ia decidiu ir: o Crispim. Octogenário, bisavô e cabeça mais branca do que neve com anemia, Crispim meteu respeito na turba agitada. Todo mundo ficou quieto para assistir ao embarque do respeitável senhor.

Nem bem Crispim colocou a sola do pé na esteira, já perdeu o equilíbrio e entrou enviesado. Não deu outra: o primeiro passageiro chegou caindo no andar de cima. Crispim tinha realizado um fato impressionante: ignorou a lei da gravidade e caiu pra cima. Na volta, Crispim desceu de barriga.

Em pouco tempo, uma fila se formou e todos subiam e desciam. Davam tchauzinho, tiravam fotos, soltavam risinhos nervosos. Teve até gente que tentou se equilibrar no corrimão, dando uma de surfista de escada rolante.

Com o passar dos dias, Amadeu começou a se arrepender do investimento. As pessoas subiam, davam uma voltinha no andar de cima, desciam... e não compravam coisa alguma. E o pobre do Amadeu ainda gastando com a manutenção da escada rolante. Tocando pandeiro pros outros dançarem.

Hoje a escada está desativada. As compras voltaram a crescer e os negócios melhoraram.

Novidade é assim mesmo. Tem prazo de validade. Novidade pra continuar a ser novidade, tem que possibilitar descobertas. Senão enjoa. Mas tem que ser descobertas que transformam. O Crispim descobriu que pode cair pra cima. E daí?