A Teia do Mundo

As fotos do Mané Cráudio

19 de Fevereiro de 2020, por José Antônio 0

Ontem eu me encontrei com o Mané Cráudio. Terno preto, cabelo impecável e, no rosto, leves resquícios de uma maquiagem que foi retirada há pouco. Mané Cráudio é o meu amigo pagador de mico. Autêntico financiador do pequeno primata.

– Que chique é esse, Mané Cráudio? Em plena tarde de terça-feira e você assim todo produzido?

– Me convidaram pra posar de modelo. Várias seções de fotos ao longo do mês. E o dinheiro é bom.

Tudo bem que o Mané Cráudio não é feio... mas posar de modelo?

– Pra quem você está trabalhando, Mané Cráudio? Qual foi a agência que descobriu você? Alguma revista ou site de moda?

Aí o Mané Cráudio raspou a garganta, olhou para o bico do sapato e falou baixo:

– É pra uma funerária.

– Funerária?! Como?

– Visto um terno, o pessoal me faz a maquiagem e eu me deito no caixão. Então eles batem as fotos. Tem foto de perfil, foto de cima, foto de frente.... Cada seção é um modelito diferente.

– Do terno?

– Não. Do caixão.

Minhas palavras expiraram e deixaram meus argumentos sepultados pelo absurdo. Mas o Mané Cráudio continuava a falar. Aos poucos, seu constrangimento inicial ia sendo substituído pela empolgação.

– Velório agora é coisa chique. Você precisa ver os salões que andam inaugurando por aí. Tem até garçom e promoter. Com isso, os familiares do morto estão cada vez mais exigentes: só compram o caixão depois de averiguarem como é que o conjunto fica. Daí, a necessidade de um manequim deitado ali dentro, só para dar uma ideia.

– Mas, Mané Cráudio, e se o defunto for bem diferente de você? Obeso... outra cor.... ancião...

– Photoshop!

Meu amigo fazendo ensaios fotográficos para a morte. Ensaio tétrico de um espetáculo que ainda virá, quando as cortinas se fecharem. Mané Cráudio é o típico modelo de passarela, posando para todos os que estão de passagem.

– E tem mais: também sou modelo de porta-retrato para túmulo. Estou ficando famoso. Preciso encontrar um nome artístico pra mim.

E me deu uma de suas fotos para porta-retrato. Meio de perfil, olhar tranquilo e um levíssimo esboço de sorriso no canto dos lábios.

Mané Cráudio se despediu, convencendo-me ainda mais da sua predestinação ao mico. Fiquei parado, olhando aquele manequim de funerária indo embora. Onde ele estava com a cabeça? Ser modelo de porta-retrato para lápide de túmulo.

Peguei a foto que ele me deu e fiquei reparando: aquele olhar... aquele sorriso sutilmente esboçado... lembrei-me do Leonardo da Vinci.

Vou ligar pro Mané Cráudio e dizer que já encontrei um nome artístico pra ele: “Mona Lousa”!

Sobre a felicidade

21 de Janeiro de 2020, por José Antônio 0

Foi semana passada. Duas crianças me pararam na rua. Brincavam de fazer entrevistas pra televisão. O menino segurava no ombro uma caixa de sapatos com um tubo aproveitado de um rolo de papel higiênico, imitando uma filmadora. A menina, maquiada e com um microfone de plástico, era a repórter.

– Por favor, moço, uma entrevista para a TV!

Parei e esperei a pergunta. O menino mirava meu rosto, como se fosse atirar em mim.

– A felicidade existe?

O que responder? Eu mesmo já me fiz essa pergunta tantas vezes e jamais encontrei uma resposta digna de ser gravada. Felicidade...

A felicidade não foi feita para esse mundo. Ela apenas dá sinais momentâneos e esporádicos de que existe, mas ela não é daqui. Nem pode ser, pois felicidade é completude... e nesse mundo somos sempre incompletos. Porém, é justamente essa incompletude que nos impulsiona a viver. É porque nos sabemos incompletos que nós nos esforçamos para preencher tantas lacunas em nosso existir.

 Precisamos da insatisfação para que haja mudança; precisamos da mudança para que haja transformação; precisamos da transformação para que haja satisfação. Há momentos para a insatisfação. Há momentos para o preenchimento. Esses dois universos se alimentam mutuamente e possibilitam a dinâmica da existência.

E a felicidade?

Sim, ela existe, mas ela é maior que nosso mundo, ela não cabe plenamente em mim nem em ti. No entanto, ela permite que nossos corações experimentem suas poucas gotas que ela deixa pingar em alguns momentos.

Experimento a felicidade naqueles momentos em que o pouco me basta, em que não preciso de nada, absolutamente nada além do sentido pleno do momento. Sinto a felicidade quando me vejo motivo de sorriso de uma criança... e não preciso de mais nada, apenas da poesia translúcida que o coração rabisca naqueles lábios infantis.

Degusto a gota da felicidade quando o resultado de meu imperfeito trabalho consegue virar gratidão em quem o recebeu; e não preciso de mais nada, isso me basta.

Experimento a gota da felicidade quando te amo, minha amada, e na intensidade do momento do orgasmo do corpo e da alma transformo a vertigem do teu desejo no espasmo arrebatador de vislumbrar o infinito... e não preciso de mais nada, a não ser de teus olhos úmidos e de teu corpo convite.

Sinto a gota da felicidade quando escrevo e meus escritos colocam, num caminhão de mudança, a alma de quem me lê, levando-a para habitar nos becos provocadores da palavra poética. E não preciso de mais nada... só isso.

Sinto a gota da felicidade quando converso com Deus e Ele me responde... e isso me basta, pois não preciso de mais nada além da certeza e da confirmação.

A felicidade é infinita, por isso ela é momentânea enquanto estivermos aqui. É nesses momentos de desapego e completude que vou aprendendo a ser feliz, que vou me aperfeiçoando no caminho dela, da felicidade plena: vou conhecê-la na sua plenitude quando eu finalmente me soltar de tudo o que me impede de ser pleno.

A felicidade é plena, logo eu também tenho que ser pleno. E a gente só é pleno quando não tem apego. São esses os momentos de felicidade em que acredito, que colocam um pouco de sentido nesse momento maior que chamamos de “vida”.

Quando, enfim, me virei para dar uma resposta aos dois repórteres, vi a câmera e o microfone no chão. As duas crianças já iam longe, cada um numa bicicleta, correndo um atrás do outro, gritando e rindo. Não eram mais repórteres. A plenitude agora era outra.

Sabiam ser felizes.   

Criança lendo a redação sobre o Natal

18 de Dezembro de 2019, por José Antônio 0

O Natal 

O Natal é uma festa de fim de ano. Perguntei pro meu pai o que é a palavra “Natal”. Ele me falou que quer dizer nascimento. Então eu pensei: se Natal é nascimento, então Natal é festa de uma vida que começa. Natal não é festa de fim de ano... mas de começo de ano porque alguém nasceu.

Minha mãe gosta de enfeitar o apartamento com uma porção de coisas coloridas. Ela fala que é Natal. Ela também prepara umas coisas legais da gente comer. Tem peru assado, fruta, refrigerante, rabanada, farofa, vinho... esse último eles não deixam porque criança não pode ficar tonta.

Fica tudo alegre e o apartamento cheio. Todo mundo conversando na sala, todo mundo com roupa nova, cabelo esticado, copo na mão e cheiro de banho.

A gente também brinca de Amigo Oculto. O Amigo Oculto é uma brincadeira. A gente brinca dele. Olha num papelzinho picado o nome da pessoa e então a gente tem que dar presente pra ela. O nosso Amigo Oculto é sem graça porque todo mundo já sabe o que é que vai ganhar. Minha mãe tem uma listinha com os presentes de todo mundo. Mas é só ela que sabe quem.

O Amigo Oculto tem umas coisas que a gente nem espera. Ano passado, eu saí com o meu pai, o meu pai saiu com a minha mãe, a minha mãe saiu comigo e nós três saímos da brincadeira porque travou tudo. Teve que começar de novo.

Tem também o Papai Noel. Ele aparece no Natal. Vem numa carrocinha. As renas são animais bonzinhos. A carrocinha do Papai Noel é o trenó. As renas puxam o trenó do Papai Noel. Ele é velho, tem barrigão, barba branca, touca na cabeça e anda de vermelho. Faz “Rô-rô-rô”. Eu nunca ouvi a risada dele. Nem sei do que ele fica rindo.

Como é que o Papai Noel entra no meu apartamento? Lá não tem lareira nem chaminé. Também não sei como é que ele sai. Só sei que ele vai.

O Papai Noel deixa uma porção de presentes na árvore de Natal. A árvore fica piscando a noite toda. O Papai Noel pode entrar nas casas de madrugada. Ele não leva nada das casas. Só deixa. É de confiança.

O Natal é festa do nascimento. Não é nascimento do Papai Noel porque ele já é grandão e velhinho, não dá pra ele entrar na mãe dele de novo e nascer outra vez.

Minha mãe me contou que quem nasceu no Natal é o Menino Jesus. Mas ele nunca nasceu lá em casa. Nunca vi o Menino Jesus. Todo mundo fala que ele é amigo, alegre e muito inteligente. Sabe fazer milagres e ama todo mundo. Perguntei pra minha mãe por que o Menino Jesus nunca nasceu no nosso Natal. Ela ficou quieta. Acho que não sabia.

Então eu falei pra minha mãe que eu vou falar pro Menino Jesus que ele vai poder nascer lá em casa. Acho que ele nunca nasce lá porque não encontra espaço.

Minha mãe passou a mão no meu rosto com ternura. Depois saiu de perto, enxugando os olhos.

O Natal tem dessas coisas. Mas não era pra ninguém chorar.

Bicho de papel

12 de Novembro de 2019, por José Antônio 0

Vai aí uma crônica para a criança que me lê. Principalmente para a criança que está dentro de você, meu leitor amigo, minha leitora confidente.

Criança que me lê, gostaria eu de deixar alguma coisa para a sua vida, para a vida do ainda de sua existência. Difícil tarefa com poucas palavras e uma crônica. Mas literatura é isto: buscar o muito mexendo com o pouco.

Você, com certeza, gosta de bicho. Bicho é divertido, companheiro, simples e... ensina muito. Faça de conta que minha crônica é bicho: diverte-se com as palavras, companheira das reflexões, simples no despojamento de frases chiques e – quem dera! – procurando ensinar algo. Vamos soltar os bichos pra gente entender o que é o bicho da crônica!

A crônica, criança, tem que aproveitar o momento, sem grandes pretensões, pois mais vale um pássaro na mão que dois na gaiola. A inspiração é assim: chega sedutora, mas exige trabalho. O jeito é escrever: o dono do boi é quem pega no chifre.

Às vezes, sai um texto bom e fico alegre como se tivesse visto o passarinho do rabo verde; outras vezes, sai um texto pobre, chato, conversa pra boi dormir. É aí que a gente tem que ser macaco velho: quando a crônica não está aparecendo como devia, é hora do cronista dar uma parada, ler, conversar, ouvir e prestar atenção, igual coruja. Assumo essa cautela, pois, como sou macaco velho, não meto a mão em cumbuca.

Por outro lado, já escrevi porcarias... e alguns gostaram. Também já aconteceu de eu escrever coisas ótimas... e poucos entenderem. Uma vez, quase me processaram. Que fazer? Os cães ladram e a caravana passa. Sabe? Cachorro que muito late não morde.

O desafio da crônica vale a pena: a pena de brigar com as palavras feito cão e gato; a pena de acordar no meio da noite, que nem galo pontual, e escrever para não perder a ideia; a pena de colocar risos e lágrimas, vidas e mortes em linhas contidas, para que o texto supere as palavras. Sempre soube disso e, quando escrevo, não posso pensar nessas coisas senão a crônica não sai. Eu quero é a minha crônica. Pode ser ela engraçada ou lírica, não me interessa. Tenho que abrir o curral das minhas angústias e soltar a embriaguez do meu coração. Não quero saber se o pato é macho ou fêmea, o que eu quero é o ovo.

Pois é... mas como conseguir isso, perguntarão alguns. Sinto muito, não ensino o pulo do gato. Apenas procuro organizar o que penso e o que escrevo, cada macaco no seu galho, apesar da minha crônica ser uma árvore em que cada leitor põe o seu próprio galho. No entanto, os macacos sempre variam de galho e a escrita leva a universos imprevisíveis. Por isso, meu texto parece um bicho, um bicho de estimação: revela mas não confia, brinca mas pode ferir. É um bicho, mesmo que de papel.

Aí vai mais uma crônica... ou será que aí fica mais uma crônica? Um dia, pretendi a permanência e a efemeridade me feriu. Gato escaldado tem medo de água fria. É melhor dizer que aí está mais uma crônica. Se vai ou se fica... só vou saber quando galinha tiver dente.  

Aniversário

15 de Outubro de 2019, por José Antônio 0

Estou fazendo aniversário. Consegui viver mais 365 dias. Dias pares e dias ímpares, dias solteiros e dias casados. Foram 365 dias marcados num calendário que só tem o hoje. Mas foram 365 hojes.

Tem gente que se esconde no dia do aniversário. Não atende nem telefone. Pelo menos, essa atitude é econômica para os amigos: não é preciso comprar presentes. Outros fingem que se esquecem do próprio aniversário. Você chega, dá os parabéns e o cara se faz de desentendido: Ah, sim... obrigado. Eu nem estava me lembrando.

 Não lembrar do aniversário é esquecer que nasceu. Eu prefiro lembrar. Pode parecer piegas, mas eu curto os meus aniversários. Gosto de receber os parabéns, adoro os abraços, os beijos, os e-mails, os telefonemas, as mensagens... É todo mundo sabendo que ainda estou por aqui e por aí.

Costumo dar presente pra mim mesmo neste dia: uma roupinha melhor, um perfume mais caro, um bom vinho... Meus amigos me chegam com pacotes e embrulhinhos coloridos. E lá vem disco, livro, camisa, meias (vários pares!), carteira (umas cinco... não tenho tanto dinheiro assim), pijama... Já me deram até uma pipoqueira usada. Não faz mal, lembraram-se de mim. E coloco todos os presentes em cima da minha cama... todo mundo faz isso. É brega, mas não é briga. Sei que ninguém vai entrar lá pra ver os meus presentes em cima da minha cama. Sei que minha exposição ficará aberta para a visitação pública de mim mesmo. No fim do dia, recolho todos e vou guardando um por um, com um sorriso que sabe misturar alegria, esperança e solidão.

Sinto o cheiro da infância voltando e deixo o meu coração seguir o ritmo feliz de um coral improvisado dentro de mim, cantando o parabéns pra você. E vou dormir em paz. Por isso comemoro os aniversários que faço. Eles me garantem as realizações do meu ainda. Vou abrindo os meus dias do novo ano que começo a viver. Manhãs embrulhadas em cores e laços que devo desatar logo que me levanto. Cheirinho bom do novo, da chance de sempre recomeçar, de não cometer os mesmos erros, apesar de eu ser tão errado.

Cada dia do novo ano da minha nova idade é perdão e oportunidade que a vida me oferece, é confiança que ela me deposita: Vai, filho, você tem mais uma chance de ser melhor. E lá vou eu, consertando, atrapalhando, consertando outra vez... E lá venho eu, arrumando, bagunçando, arrumando outra vez... Pêndulo de carne, osso, sangue e alguma coisa além do farelo que fica no túmulo. Sou eu nascendo, morrendo e renascendo. Fênix cambeta, que escreve com sua própria pena a respeito de suas penas e das penas dos outros.

É meu aniversário. Não conto os dias, pois detesto matemáticas irredutíveis. Procuro vivê-los como criança quando vê mágica. Acho que é isso o que me faz tirar coelhos de cartolas vazias.