A Teia do Mundo

EX LIBRIS AD VIRUS (DOS LIVROS PARA O VÍRUS)

14 de Junho de 2020, por José Antônio 0

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO. Eles ainda guardam uma FELICIDADE CLANDESTINA. Vede... A PESTE do mundo não plantou entre eles AS FLORES DO MAL. Nem mesmo O TEMPO E O VENTO transformaram o prado vicejante em LAVOURA ARCAICA.

Do outro lado, AS CIDADES E AS SERRAS ecoam o que OS SINOS DA AGONIA choram. POR QUEM OS SINOS DOBRAM? O que pranteiam? E O VENTO LEVOU a resposta para cada recanto do planeta: TODOS OS NOMES de todos os homens e de todas as mulheres estão inscritos na lista ameaçadora das ILUSÕES PERDIDAS. Nunca esteve a RESSURREIÇÃO tão distante.

Ninguém poderia adivinhar O RISCO DO BORDADO que o FELIZ ANO NOVO preparou para depois do réveillon: a condenação universal a UMA TEMPORADA NO INFERNO, sorvendo o absinto de UM COPO DE CÓLERA.

É irônico, mas A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER de um vírus foi o APOCALIPSE da história, o enredo do LIVRO SOBRE NADA, a distopia que confundiu A VIDA COMO ELA É.

A coerência se contorce nos embates entre O SER E O NADA. Mesmo oprimido, o ser teima em olhar para o alto, pois O SOL TAMBÉM SE LEVANTA. Triste olhar... Do seu topo, O MORRO DOS VENTOS UIVANTES solfeja trágica melopeia para OS MISERÁVEIS recitarem suas queixas.       

Meu Deus, quantas VIDAS SECAS sepultadas na TERRA DESOLADA! A feroz FOME das covas devora os sonhos que jamais serão exumados. Enterros soturnos, sem o coro angelical do CÂNTICO DOS CÂNTICOS. A terra não consegue dormir, é TERRA SONÂMBULA, enfastiada de pesadelos despertos.

É tempo de LAMENTAÇÕES, de chorar o PARAÍSO PERDIDO, de tentar o impossível... mas o impossível vence: O BEIJO NO ASFALTO não faz MORANGOS MOFADOS brotarem novos.

Talvez penseis que tudo isso é CRIME E CASTIGO. Não sou Deus para julgar se é crime nem se merece castigo. Talvez imagineis que A CINZA DAS HORAS seja o ninho da fênix. Talvez a cinza seja o derradeiro farelo de um BAÚ DE OSSOS já desfeitos. Será? Afinal, o diário que o CEMITÉRIO DOS VIVOS guarda em suas tétricas alcovas é sempre inacabado.

No entanto, a ANGÚSTIA também pode gerar o broto GERMINAL de novos LAÇOS DE FAMÍLIA, evitando que sejamos condenados a CEM ANOS DE SOLIDÃO. Mesmo com o coração sufocado, temos que caminhar. Sem ÊXODO. As respostas virão nos passos que transformam. Sigamos juntos ON THE ROAD.

Olhai de novo para os lírios. Escutai: ALGUMA POESIA eles sussurram e colorem. Se os olhos sensíveis conseguem enxergar A COR DO INVISÍVEL, também podem entender o CLARO ENIGMA dos lírios. Mesmo sendo ceifados, eles voltam novamente, pois o impulso à vida faz com que os lírios não desistam de ser lírios.

A HORA DA ESTRELA virá. A noite vivenciará A METAMORFOSE da aurora e o céu mostrará a tão esperada ESTRELA DA MANHÃ. O que virá neste dia? Um ADMIRÁVEL MUNDO NOVO? Uma HISTÓRIA MEIO AO CONTRÁRIO? Como saber se será OU ISTO OU AQUILO?

Seja o que for, a lembrança não pode ficar apenas fixada no calendário. É preciso reinventar a história, fazer da lembrança uma QUASE MEMÓRIA para que o passado não se repita como um pêndulo trágico. Lembrar para recriar.

Os lírios... Olhai os lírios! Em cada reaparecimento, a invenção de um novo florir.

O prefeito e o verbo

10 de Maio de 2020, por José Antônio 0

O doutor Paulo Pontes era conhecido como exigente e pragmático. Quando venceu a eleição para prefeito, fez questão de levar essas duas características para o gabinete. Seu pragmatismo exigente e sua exigência pragmática faziam do fordismo um mero projeto de preguiça. Paulo Pontes era fissurado em resultados.

 – Os fins justificam os meios, doutor?

Que meios? O negócio do doutor Paulo Pontes era com o fim. No singular. Sem essa de fins diferentes, pois a sua exigência pragmática não admitia discussões sem fim.

Era o típico prefeito “coito de galo”:  rápido e com resultado.

Como todo homem público, o doutor Paulo Pontes também tinha apelido: Doutor PP. E foi com esse apelido que ele emplacou a sua candidatura a prefeito:

PPPP – PAULO PONTES PREFEITO PRONTO

Rápido e com resultado.

O PP do Doutor PP foi ganhando significados novos, sempre elogiosos. Nas inaugurações das obras, lá estava o Doutor PP (Prefeito Proativo)... nas reuniões administrativas, via-se o assíduo e pontual Doutor PP (Prefeito Presente)... se convidado para culto evangélico, prontificava-se o Doutor PP (Prefeito Protestante)... se era convite para evento de ateus, não se furtava o Doutor PP (Prefeito Pagão)... caso fosse ritual em igreja católica, olha lá o Doutor PP (Prefeito Pontifício)...

Um dia, o Doutor PP chamou todo mundo e lascou pragmaticamente:

– A partir de hoje, acabou o gerúndio aqui na prefeitura. Nada de fazendo... terminando... preparando... Quero tudo pronto. Agora é só verbo no particípio. Fez? Feito! Terminou? Terminado! Preparou? Preparado! Entenderam?

– Entendido! – responderam todos, agarrando-se ao emprego e à forma do verbo.

Não demorou muito e o prefeito já era o Doutor PP (Particípio Passado).

Um vereador dos mais entusiasmados tentou inovar a sigla: Doutor PQP (Prefeito Que Potencializa). No entanto, o entusiasta edil conteve o arrebatamento, pois PQP poderia ofender o alto escalão com uma sigla de baixo calão. Seria o seu definitivo adeus à câmara. Se o desrespeito se lhe imputa, o voto não se computa, logo é vã a disputa. PQP!

Enredo bom tem que ter complicação. E ela apareceu. Foi quando o Doutor PP recebeu o Secretário Estadual de Educação para a inauguração de uma escola. O prefeito já ficou irritado com o nome do secretário:

– Armando? O nome dele tinha que estar no gerúndio?

O segurança sugeriu:

– Chama ele pelo sobrenome, Doutor PP.

– E qual é o sobrenome do homem, Massa Grossa? – era o apelido do segurança.

– Venvindo

– Armando Venvindo? – espinafrou o prefeito – Esse cara é uma eterna continuidade!!!

Não teve jeito. Chegou o dia. Banda de música, crianças com banderinhas na mão, fita pra ser cortada. O Secretário Estadual de Educação começou o seu discurso. Depois de saudar todos os presentes, pigarreou e iniciou a sua oratória:

– É com alegria que estou aqui discursando e inaugurando esta escola que estará funcionando e recebendo alunos e alunas que estarão estudando e se formando para estarem construindo este nosso país que está se desenvolvendo e...

De repente, um susto e todo mundo horrorizado. O Secretário caiu sentado, depois de um pescoção do Doutor PP. Era gerúndio demais.

Rolou processo na justiça. E tome prejuízo: escola cancelada, cidade difamada, prefeito afastado... E o Doutor PP com medo de engolir mais um amargo particípio: cassado!

O vereador entusiasta até pensou em voltar com a sigla PQP. Mas deixou pra lá.

Doutor PP está gastando com mais de um advogado, todos cobrando caro... está escrevendo mil justificativas para os jornais... dormindo mal... comendo pouco... temendo ameaças...

Tudo no gerúndio.

“VIRUS MUNDI”

12 de Abril de 2020, por José Antônio 0

E o VÍRus VIRalizou.

Na VIRada do ano, a canoa VIRou. Se eu fosse um peixinho e soubesse nadar, não haveria canoa VIRando no mar. Sonho ingênuo o meu sonho, quando a esperança ameaça a ficar VIRada pelo avesso.

O VÍRus VIRa-mundo encadeou uma corrente de vidas e enforcou a história. Nas agendas violentadas, os dias reVIRaram os olhos e tombaram com voz falecida.

Para que clamar? O VÍRus nada escuta em sua silente absurdez.

VIRavolta no que é real e no que é VIRtual. Certezas penduradas por um tênue fio da meada:

 “O que há de ser?”

Talvez outra humanidade esteja sendo gerada do barro novamente. Ou mesmo outra humanidade esteja sendo formada após a inundação do dilúVIRus. Homem e mulher, macho e fêmea, VIRil e VIRago em edição renovada.

Adão e Eva substituídos por VIRiato e VIRidiana?

Enquanto o deVIR não se revela, mortes se enunciam em orações subordinadas a uma sintaxe VIRulenta e cruel. Não há ponto final no discurso das lágrimas... apenas VÍRgulas e mais VÍRgulas.

A linguagem, aos poucos, vai sendo invadida por metáforas de coronorfandades: palavras, ai, palavras... conVIRsar com as palavras é uma estranha potência: mesmo nas calamidades, as palavras desafiam VIRdades nos interditos da poesia.

Embora as flores da minha primaVIRa estejam descoloridas, o sol do meu VIRrão esteja anêmico, a neve do meu inVIRno esteja cinzento, eu creio no outono: uma nova estação com outonalidades alegres.

Folhas secas irão embora e aparecerão outras folhas, alimentadas pela clorofila dos campos saudáveis, clorofila dos abraços atrasados, dos beijos sequestrados, dos sorrisos renovados.

Clorofilha da esperança e do bom senso.

Olho minhas palavras espalhadas pelos canteiros do meu texto. Olho-me enquanto olho.

Olho também para os teus olhos, tu que me lês.

Deposito minha íntima crônica na superfície do lago onde as tuas pupilas flutuam. Sopro de leve para que o lago crie redemoinhos que consigam mergulhar a minha escrita.

E no ir e vir das ondas que dão cadência aos nossos oceanos secretos, longínquas sereias possam entoar um refrão chamativo que inspire futuros:

– O que há por VIR?

Por vir...

Porvir!   

Garçom, faz favor!

17 de Marco de 2020, por José Antônio 0

Leovaldo, meu amigo cismado e cheio de angústias, já foi garçom. Um dia, comentei-lhe que às vezes fica difícil chamar um garçom à mesa. Existe o gesto padronizado de se levantar o braço. Porém, há garçons que nunca veem, e a gente fica ali toda vida, com o braço pra cima, que nem Estátua da Liberdade assentada. Estalar os dedos? Nem pensar! Isso irrita o garçom.

Por outro lado, há garçons que são naturalmente psicólogos: sabem a hora de chegar e a hora de se retirar. Sabem até o que falar... e o que não falar. São garçons finos e bem preparados para o mise-en-scène. No entanto, há outros que seriam ótimos garçons se estivessem jogando futebol ou cantando pagode.

É o caso do garçom beija-flor: passa rapidamente de mesa em mesa, sempre deixando alguma coisa e nunca parando para coisa alguma. Impossível fazer um pedido.

Existe também o garçom caminhão de lixo: passa pelas mesas recolhendo copos sujos, restos de pizza, pratos por lavar, guardanapos usados... e vai embora em busca de mais coisas nas outras mesas.

Você já deve ter visto o garçom toureiro: aproxima-se de sua mesa, abre uma toalha e fica balançando-a na sua cara, como se você fosse um touro. Depois, dá uma rodada na toalha e cobre a mesa.

Há o garçom secretário: ele para ao lado de sua mesa, abre o bloquinho, empunha a caneta e fica empertigado à espera do seu pedido. A gente se sente como se fosse ditar uma carta. É característica do garçom secretário só dizer “boa noite” e “pois não”. Mais nada.

Já o garçom repórter é diferente: pergunta pelo seu pedido, dá opiniões e pergunta mais ainda. E todo mundo fica sabendo o que você vai comer, pois a conversa vira entrevista coletiva.

O garçom viseira? É aquele que apenas enxerga a mesa que está servindo. Ele traz o prato olhando para a mesa, serve olhando para a mesa e vai embora olhando para um ponto qualquer, que só ele vê. Nem aí pro freguês da outra mesa, que quer fazer um pedido ou mesmo pagar a conta.

O extremo oposto é o garçom periscópio: olha pra tudo quanto é lado, menos para quem quer pedir algo.

O garçom zangado também aparece: cara amarrada, não olha pra ninguém da mesa, não diz boa noite, não agradece, não se despede. Quando a gente pede a conta, ele a deixa na mesa, vira as costas e... some.

Ainda existe o garçom inventário: é aquele que nem espera o pedido. Vai logo dizendo o que o restaurante tem para oferecer. É um autêntico cardápio oral.

Foi numa dessas que o Leovaldo se estrepou: ele se aproximou de uma mesa ocupada por uma família e foi logo disparando o que tinha para oferecer:

– Boa noite! Eu tenho língua de vaca, costela de carneiro, asa de pato, peito de peru, coxa de galinha e pé de porco.

O menino arregalou os olhos e disse, entusiasmado:

– Quanto é que você cobra pra ficar pelado meia hora na Feira de Ciências da minha escola

As fotos do Mané Cráudio

19 de Fevereiro de 2020, por José Antônio 0

Ontem eu me encontrei com o Mané Cráudio. Terno preto, cabelo impecável e, no rosto, leves resquícios de uma maquiagem que foi retirada há pouco. Mané Cráudio é o meu amigo pagador de mico. Autêntico financiador do pequeno primata.

– Que chique é esse, Mané Cráudio? Em plena tarde de terça-feira e você assim todo produzido?

– Me convidaram pra posar de modelo. Várias seções de fotos ao longo do mês. E o dinheiro é bom.

Tudo bem que o Mané Cráudio não é feio... mas posar de modelo?

– Pra quem você está trabalhando, Mané Cráudio? Qual foi a agência que descobriu você? Alguma revista ou site de moda?

Aí o Mané Cráudio raspou a garganta, olhou para o bico do sapato e falou baixo:

– É pra uma funerária.

– Funerária?! Como?

– Visto um terno, o pessoal me faz a maquiagem e eu me deito no caixão. Então eles batem as fotos. Tem foto de perfil, foto de cima, foto de frente.... Cada seção é um modelito diferente.

– Do terno?

– Não. Do caixão.

Minhas palavras expiraram e deixaram meus argumentos sepultados pelo absurdo. Mas o Mané Cráudio continuava a falar. Aos poucos, seu constrangimento inicial ia sendo substituído pela empolgação.

– Velório agora é coisa chique. Você precisa ver os salões que andam inaugurando por aí. Tem até garçom e promoter. Com isso, os familiares do morto estão cada vez mais exigentes: só compram o caixão depois de averiguarem como é que o conjunto fica. Daí, a necessidade de um manequim deitado ali dentro, só para dar uma ideia.

– Mas, Mané Cráudio, e se o defunto for bem diferente de você? Obeso... outra cor.... ancião...

– Photoshop!

Meu amigo fazendo ensaios fotográficos para a morte. Ensaio tétrico de um espetáculo que ainda virá, quando as cortinas se fecharem. Mané Cráudio é o típico modelo de passarela, posando para todos os que estão de passagem.

– E tem mais: também sou modelo de porta-retrato para túmulo. Estou ficando famoso. Preciso encontrar um nome artístico pra mim.

E me deu uma de suas fotos para porta-retrato. Meio de perfil, olhar tranquilo e um levíssimo esboço de sorriso no canto dos lábios.

Mané Cráudio se despediu, convencendo-me ainda mais da sua predestinação ao mico. Fiquei parado, olhando aquele manequim de funerária indo embora. Onde ele estava com a cabeça? Ser modelo de porta-retrato para lápide de túmulo.

Peguei a foto que ele me deu e fiquei reparando: aquele olhar... aquele sorriso sutilmente esboçado... lembrei-me do Leonardo da Vinci.

Vou ligar pro Mané Cráudio e dizer que já encontrei um nome artístico pra ele: “Mona Lousa”!