A Teia do Mundo

Menino lembrando uma noite de junho

22 de Junho de 2022, por José Antônio 0

Foi numa daquelas noites de junho, daquelas em que o céu já começa a se vestir de noite lá pelas seis da tarde. As nuvens ficam cor-de-rosa enquanto pelo chão as sombras se mostram compridas, longas iguais à solidão que gosta de acompanhar a gente por toda a vida.

Era uma dessas noites de junho. O vento cortava gelado as costas dos meninos e as pernas das meninas... queimava de frio os dedos finos das moças e as mãos ásperas dos moços. O vento vinha do morro e virava a esquina. Pegava todo mundo de surpresa.

Mesmo assim, com tanto vento e com tanto gelo, o pessoal da vila não se fez de rogado. Saiu todo mundo pra ir às barraquinhas da quermesse. Música tocando no alto-falante, vestidos estampados indo e vindo, rodinhas de rapazes conversando e rindo, meninos e meninas correndo pra tudo quanto é lado, um homem gritando números em uma das poucas barracas, cheiro de quentão embriagando a alegria simples de um povoado que se contentava com a simplicidade das poucas coisas.

Uma das barracas vendia salgados. A outra, doces e canjica. A última, perto do coreto e também cheia de luzinhas acesas, vendia bebidas quentes e fazia jogos de víspora e pescaria. Praça cheia, alegre e aconchegante. Acho que por isso ninguém tinha ficado sozinho em casa. As casas estavam frias e a praça quentinha. Havia vento, mas tinha quentão.

Resolvi tentar a sorte num dos jogos. Na verdade, eu queria era tirar um prêmio na pescaria e entregar pra Ana Clara, que estava na praça havia meia hora, mas no meu pensamento um montão de tempo. Ana Clara caminhava, passava perto da barraca e nem me via. Que vontade de pegar a sua trança e pescar com ela o seu coração...

Levei a mão gelada no bolso e achei lá uma solitária moeda. Fiquei por ali, encarapitado na cerca da barraca, atento à minha pescaria. Pescador de sonho... de sonho mergulhado na serragem e que não precisa de isca pra ser capturado. Fisguei o peixinho e o peixinho escorregou. Fisguei outra vez e o danado voltou pro chão. Na terceira vez, o peixinho veio pra mim. Não é que tinha um anel pendurado nele?

Peguei o anel, soprei a poeira e fui procurar a Ana Clara. Já imaginava sua trança sem Rapunzel, seu sorriso de princesa sem castelo, perdida ali naquele povoado sem grandes perspectivas, porém única e preciosa nas minhas vertigens de infinito.

Lá estava ela! Cheguei perto e... Ana Clara já tinha anel. Não só anel, mas também um namorado. Rapaz que eu nunca tinha visto na vila. Era gente da cidade. Garanto que foi ele quem deu o anel pra ela. O anel que Ana Clara ganhou do namorado não era de pescaria nem tinha poeira de serragem.

Desci os olhos, fechando as cortinas da minha esperança. Voltei pra barraquinha da pescaria. Joguei o anel na serragem, a serragem no meu sonho e pus meu sonho num balão que estava subindo pra sumir.

O vento continuava soprando frio.

As fotos do Mané Cráudio

18 de Maio de 2022, por José Antônio 0

Ontem eu me encontrei com o Mané Cráudio. Terno preto, cabelo impecável e, no rosto, leves resquícios de uma maquiagem que foi retirada há pouco. Mané Cráudio é o meu amigo pagador de mico. Autêntico financiador do pequeno primata.

– Que chique é esse, Mané Cráudio? Em plena tarde de terça-feira e você assim todo produzido?

– Me convidaram pra posar de modelo. Várias seções de fotos ao longo do mês. E o dinheiro é bom.

Tudo bem que o Mané Cráudio não é feio... mas posar de modelo?

– Pra quem você está trabalhando, Mané Cráudio? Qual foi a agência que descobriu você? Alguma revista ou site de moda?

Aí o Mané Cráudio raspou a garganta, olhou para o bico do sapato e falou baixo:

– É pra uma funerária.

– Funerária?! Como?

– Visto um terno, o pessoal me faz a maquiagem e eu me deito no caixão. Então eles batem as fotos. Tem foto de perfil, foto de cima, foto de frente... Cada seção é um modelito diferente.

– Do terno?

– Não. Do caixão.

Minhas palavras expiraram e deixaram meus argumentos sepultados pelo absurdo. Mas o Mané Cráudio continuava a falar. Aos poucos, seu constrangimento inicial ia sendo substituído pela empolgação.

– Velório agora é coisa chique. Você precisa ver os salões que andam inaugurando por aí. Tem até garçom e promoter. Com isso, os familiares do morto estão cada vez mais exigentes: só compram o caixão depois de averiguarem como é que o conjunto fica. Daí, a necessidade de um manequim deitado ali dentro, só para dar uma ideia.

– Mas, Mané Cráudio, e se o defunto for bem diferente de você? Obeso... outra cor... ancião...

– Photoshop!

Meu amigo fazendo ensaios fotográficos para a morte. Ensaio tétrico de um espetáculo que ainda virá, quando as cortinas se fecharem. Mané Cráudio é o típico modelo de passarela, posando para todos os que estão de passagem.

– E tem mais: também sou modelo de porta-retrato para túmulo. Estou ficando famoso. Preciso encontrar um nome artístico pra mim.

E me deu uma de suas fotos para porta-retrato. Meio de perfil, olhar tranquilo e um levíssimo esboço de sorriso no canto dos lábios.

Mané Cráudio se despediu, convencendo-me ainda mais da sua predestinação ao mico. Fiquei parado, olhando aquele manequim de funerária indo embora. Onde ele estava com a cabeça? Ser modelo de porta-retrato para lápide de túmulo.

Peguei a foto que ele me deu e fiquei reparando: aquele olhar... aquele sorriso sutilmente esboçado... lembrei-me do Leonardo da Vinci.

Vou ligar pro Mané Cráudio e dizer que já encontrei um nome artístico pra ele: “Mona Lousa”!

O homem que não sabia assoviar

20 de Abril de 2022, por José Antônio 0

Aquilo estava insuportável. Antes era chato, depois virou frustrante... agora já era intolerável mesmo. Ele não sabia assoviar.

O problema vinha desde criança, na escola. Os colegas todos assoviando com a maior naturalidade e ele ali, no esforço, tendo que se esconder dentro do banheiro pra treinar a técnica que nunca deu certo. Se soubessem que ele não assoviava, com certeza viraria chacota pra todo mundo.

Sempre que se pegava sozinho, contraía as bochechas, espremia a boca e tentava. Mas lá vinha aquele chiado chocho de chaleira chata.

Virou adulto e o assovio não compareceu. Andava pela rua e via gente imitando passarinho, chamando os outros pelo assovio. Um dia, numa festa, ele viu um cara assoviando maravilhosamente uma canção suave... o assovio tinha até eco! Naquela noite, ele dormiu triste. Nem seu ronco tinha o assovio como resposta.

Arrumou uma namorada. Jamais fez fiu-fiu pra ela, foi no papo mesmo. Ela então começou a se empenhar em fazer com que o namorado conseguisse realizar o seu suado sonho secreto.

O segredo, segundo ela, era fazer biquinho. Ele fez, mas o tal do biquinho ficou parecendo focinho de porco com uma narina só. Jamais sairia um assovio daquela fossa. Queria desistir.

– Relaxa e faz biquinho.

Pois ele começou a dormir com o bico armado, relaxando e fazendo biquinho. Se não fossem as massagens, só fisioterapia pra desfazer o bico.

O namoro terminou e a namorada – sacana! – sibilou a história dele pra todo mundo. O pobre coitado acabou ganhando o singelo apelido de Biquinho. Biquinho mudo.

Teve um dia em que o Biquinho, no desespero, pois o táxi já passava sem vê-lo, arriscou um assovio. Saiu um “psiu” que fez o motorista ficar desconfiado das intenções do Biquinho.

E aquela vez em que ele encontrou um menininho assoviando na rua? Naquela idade e já assoviava tão bem. Que inveja! Pensou em pedir umas aulas particulares para o menino, quem sabe... aprender ali na rua mesmo. Que loucura! Acabaria sendo preso ou internado. Sem chiar.

Até que num encontro, o Biquinho resolveu tentar novamente o silvo. O assunto acabou e ele começou a chiar baixinho uma canção. Talvez a garota gostasse. Mas ela perguntou se ele estava com asma.

– É que eu nunca consegui assoviar. Olha só que tristeza. – E chiou novamente.

– Terrível. Até parece que você tem alguma coisa agarrada no dente. Mas não se desespere não. É fácil. É só relaxar o peito.

Quem sabe ela ensinaria diferente?

– Relaxar o peito? E o biquinho? Eu posso ver o seu biquinho?

Ele voltou pra casa com um dente rachado. Tabefe violento. Porém, está feliz. É pela rachadura do dente que ele consegue agora assoviar. Não sai aquele assovio bonito, mas, pelo menos, ele não precisa mais fazer biquinho.

CRIANÇA LENDO A REDAÇÃO SOBRE O GATO

16 de Marco de 2022, por José Antônio 0

O gato é um bicho legal. Ele é nosso amigo. O gato é um bicho bichano. O nome do gato é gato.

Quando o gato dorme, ele faz que nem rosca. Ele vira rosca dormida. Deve ser por isso que ninguém come a rosca do gato.

Você já viu o gato sentado? Ele vira um vaso.

Eu tenho um gato. O nome dele é Bidu. Às vezes, ele fica parado no meio da sala e fica olhando pra gente. Aí ele começa a miar.

Bidu sabe fazer uma coisa que todo gato sabe fazer, mas ninguém sabe fazer: lamber a barriga. Ele fica todo molinho e não tem dor na nuca.

O meu gato Bidu tem hora que é teimoso. Quando a gente quer tirar ele de um lugar, ele fica esticado que nem sanfona. E fica lá, agarrando o que pode com a unha.

Todo gato é preguiçoso: passa o dia dormindo, não entra debaixo do chuveiro, não trabalha pro dono e, ainda por cima, fala somente uma palavra pra não ter que falar mais: Miau.

Não sei se o gato existe pra correr atrás do rato ou o rato existe pra correr do gato. Só sei que eles não são amigos, mas o gato vive cheirando o rato.

Eu fiz pesquisa do gato. Você sabia que no Egito o gato era importante? Tem gato que hoje também é importante porque ganha prêmio.

O gato é ladrão. O Brasil tem muito gato importante.

Eu desenhei o gato pra pesquisa do gato. Tem duas orelhas, um rabo, dois olhos com risquinho no meio e um bigodão. Mostrei o desenho pro Bidu, mas ele cheirou e foi embora. Virou rosca e dormiu.

O gato enxerga no escuro. O olho dele vira luz que brilha de noite.

Tem gente que não deixa gato preto passar na frente porque senão dá azar. Aí fica correndo atrás do gato pra ultrapassar ele e a sorte voltar. O gato acaba pensando que a gente é doido.

Perguntei pro meu pai se o gato tem sete vidas. Fiz uma risca no chão. Era a risca da vida do gato. E apaguei um pedacinho. Se eu matar o gato, será que ele vive mais seis vezes? Meu pai respondeu que não, que o gato só tem uma vida mesmo.

Bidu estava dormindo, mas parece que ele escutou a conversa. Ele desmanchou a rosca e fugiu da risca.

O gato é sabido. Fica sempre em cima do muro, não faz nada e ainda ganha carinho de todo mundo.

Por acaso

16 de Fevereiro de 2022, por José Antônio 0

As casualidades são como estrelas cadentes. Têm origem desconhecida e enfeitiçam justamente pela sedução do acaso. Ver uma estrela cadente é sentir o privilégio de presenciar algo único; é imaginar-se escolhido para uma visão que se manifesta a poucos e por pouco tempo.

A graça da casualidade está no seu inesperado repente. O acaso não combina com preparações. Se for prevista, a estrela cadente vira estrela decadente.

E foi na graça do acaso que eu te reencontrei. Surpreendidos pela casualidade, ali estávamos. Por ironia do acaso (ou acaso da ironia), compartilhando a mesma mesa.

De frente para mim e ao lado de teu companheiro, conversavas polidamente com todos e comigo.

Discreta e bela.

Entre as muitas palavras trocadas à mesa, nossas frases íntimas – agora silenciadas – lutavam contra a mudez da conveniência, num esforço sutil de se fazerem lembradas.  

 O cardápio era variado, porém insuficiente para satisfazer um outro jejum, mais fundo, mais escravo da ausência.

O tempo passou, mudou algumas coisas em ti, porém não levou detalhes tão queridos para mim. Permaneceu o mesmo sorriso... o movimento da cabeça ao mexeres no cabelo... ainda os mesmos trejeitos das mãos...

Eras tu!

Acima da história e do discurso.

Poucas palavras trocamos, mas uma semântica secreta sussurrava sentidos codificados somente por nós dois.

Minha pele não abraçou a tua carne, porém nossos dedos se tocaram rápida e incidentalmente. Por acaso.

Não senti de perto o teu hálito, que sempre me trazia a fragrância lúbrica da tua língua. Eu que tanto invadi as tuas narinas com o meu desejo cítrico e prazer campestre...

Houve um momento, um momento só, em que consegui o travamento dos teus olhos na armadilha dos meus. Tu ficaste séria, porém meiga. Tuas pupilas pulsavam.

Na despedida, no meio de tantas pessoas e falas, ainda aconteceu um outro olhar. Teu sorriso conseguiu se esgueirar para um canto discreto de teus lábios.

A estrela cadente seguia a cadência do caso que há no acaso.

E saíste.

Sei que também fui embora contigo de algum modo. Peguei carona no teu aceno e me fiz passageiro de tua memória.