COMPLETUDE
26 de Agosto de 2026, por José Antônio 0
A menina ficava na janela toda tardinha.
Olhava a lua e namorava o céu. Passava os olhos revistando as estrelas, comparando tamanhos e luminosidades. Tinha dentro de si uma borboleta que não sabia como voar entre as estrelas e escolher uma. A menina olhava o céu e ria festiva quando uma estrela cadente despencava do infinito. Pensava que a estrela caíra para ela e corria para o quintal. A estrela não estava lá. Menina bobinha, o que vem do infinito vai para o infinito.
A moça ficava na varanda toda noite.
Flertava com o céu e se envergonhava de ficar nua à luz da lua. As estrelas agora faziam parte de sua alcova. Brilhavam intensamente com espasmos luminosos na escuridão dos segredos da moça. Sua borboleta aprendera a voar e agarrar com suas asas vorazes qualquer estrela cadente. Moça flamejante, o desejo cria estrelas que caem mas que sempre se levantam.
A mulher fica no postigo toda madrugada.
Molha a lua com gotas de estrelas. A hora alta aprendeu a passear em sua pele e jorrar em seu firmamento íntimo os infinitos que fecundam mais infinitos. Sua borboleta pousa onde quer e recebe o pólen que ela mesmo elege. E nesses pousos, reaprende a voar entre as estrelas que lhe dão prazer na serenidade da lua. Mulher soberana, seu reinado persiste porque a menina-moça ainda existe.
Malandragem
29 de Julho de 2026, por José Antônio 0
A malandragem não é exclusividade do brasileiro. E vou mais: não é exclusividade do ser humano. O tigre tem listras e se confunde entre as ramagens, e se aproveita disso para garantir o almoço. As girafas, quando perseguidas, correm escoiceando pedras, que atingem a cara dos famintos predadores à caça da comida pescoçuda. Bichos que se fingem de mortos, outros que se fazem de pedras... tudo isso é malandragem.
Porém, a malandragem tem lá suas regras. O malandro tem que ser sutil, estratégico, simulador e, acima de tudo, elegante. Malandro que é malandro não é lambão nem se denuncia. O silêncio e o jogo de cintura são peças valiosas.
Acho que foi isso o que aconteceu comigo e um cachorro. A cafeteria estava cheia, com todas as mesas ocupadas. Consegui um lugar apertado no canto do balcão e pedi o meu costumeiro café com leite, acompanhado do pãozinho com manteiga. Ao longo do salão, bocas ocupadas com café, leite, biscoitos e pães, mastigando confeitos e cuspindo palavras. No chão, farelos do que foi aproveitado e engolido... no ar, ecos do que foi falado e excluído... Preferi o meu silêncio ruminante, meu tímido olhar do canto da vida.
Meu olhar rodou discretamente pelas mesas e parou frente a um outro olhar, também tímido, que me olhava de baixo para cima, num misto de medo e inferioridade. Era um cachorrinho, desses do tipo linguiça. Trajava uma roupinha de lã vermelha e uma espécie de bonezinho entre as orelhas caídas. Era cachorro de classe, pois refletia a sofisticação da dona, também ela bem vestida e elegante... só não tinha as orelhas caídas, mas sim os olhos.
E a dona falava das qualidades de seu amiguinho quadrúpede, suas brincadeiras e companheirismo. As amigas, bípedes, indagaram:
– Que gracinha! E ele come de tudo?
– Só ração.
O cachorro-linguiça nem aí. Continuava com os olhos cravados em mim e em meus movimentos. As mulheres desviaram o assunto para outra coisa. Olhei constrangido para o bicho. Seu olhar se iluminou, chegando até a lamber os beiços. A questão era o meu pão. Preso a frescuras e sofisticações, talvez o pobre cãozinho nunca tivesse experimentado o que é lambuzar-se na terra, correr atrás de carro e latir para bicicletas. E o meu pão com manteiga era um passaporte para ele conhecer, mesmo num vislumbre, um pouco de um mundo mais livre e de aventuras.
A dona do animalzinho não olhava para mim, as mulheres da mesa não olhavam para mim, ninguém olhava para mim. Quem olha para um par de olhos tímidos no canto de um balcão? Tirei um naco do miolo e joguei, malandramente, para ele. O cachorrinho ainda teve o cuidado de olhar para os lados antes de comer, sutilmente, o que lhe foi dado. E fiz isso repetidas vezes, cheguei até a pedir outro pão.
Na mesa do cachorro, a conta foi paga, as mulheres se retiraram e a dona saiu puxando o pobre cãozinho sofisticado. No entanto, seu rabo abanava alegre. Na saída, o cachorrinho-linguiça empacou. A mulher puxou e ele cedeu. Mas ainda lançou um olhar em minha direção, olhar que já não era mais tímido, e latiu.
Sorri sutilmente, e disse baixinho para ele, que já sumia na esquina:
– É isso aí, malandro!
ARRAZOADO DE PLUTÃO
01 de Julho de 2026, por José Antônio 0
Sou Plutão.
Você, com certeza, me conhece há um bom tempo. Conhece também a equipe da qual faço parte: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e eu… o Plutão. Fiéis às nossas órbitas, desempenhamos magistralmente o nosso papel gravitacional durante um éon.
No entanto, de uns tempos para cá, estive na iminência de ser cortado da equipe do Sistema Solar. Baixaram um parecer que quase me desapareceu: não sou mais planeta! Sabe quem decretou isso? A União Astronômica Internacional, conhecida como UAI. Uai digo eu!!! Como é que fazem isso comigo e, ainda por cima, sem me consultarem?
Não sou mais planeta.
Ou melhor, ainda sou planeta, mas “planeta anão”. Que coisa mais absurda! Como não sou planeta se na minha denominação continua a palavra “planeta”? Preconceito sideral, só pode ser.
O sol é uma estrela de quinta categoria… e ninguém diz que ele é anão. Por que essa implicância comigo? Será porque eu sou o último da lista e sou gelado? Planeta pé frio? Injustiça, pois nunca saí da minha órbita.
O Sistema Solar sempre funcionou bem do jeito em que está. Para que mexer no time que está vencendo?
Dizem que não atendo a certas características para ser considerado um planeta. Ora, ninguém é perfeito. Até mesmo os meus oito companheiros de equipe têm lá os seus defeitos.
Não sei se você me entende, eu me sinto como se fosse um fantasma: existo, porém não existo.
Eu resisto, insisto e persisto: continuo no Sistema Solar com todas as minhas letras, inclusive com as duas primeiras, o P e o L: é com essas duas letras que iniciam meu nome que eu expresso a minha indignação.
Estou PLuto da vida com essa história toda. Estão querendo amPLutar o Sistema Solar, talvez numa lamentável e vergonhosa disPLuta de vaidades, sem se importar com a rePLutação dos prejudicados.
Isso é muito hostil.
Dá até vontade de rimar e mandar esse pessoal todo pra PLuta que…
Adianta?
Meia furada
27 de Maio de 2026, por José Antônio 0
Foi só eu enfiar o pé na meia que o dedão foi direto pro buraco. Ficou na janelinha. A meia foi à guerra, como diziam antigamente.
Meia furada é um constrangimento rasgado. É o atestado do desleixo, é andar descalço na pobreza desmazelada. E não adianta pensar que só pelo fato de o buraco estar escondido no sapato que ninguém vai ver. Uma hora o buraco aparece, transcende as muralhas do esconderijo íntimo e ganha a praça do olhar público.
Mané Cráudio, meu amigo pagador de micos. Vira e mexe, lá vai o Mané Cráudio credenciar o pequeno símio. Meu amigo apareceu com uma luxação no pé e foi procurar o médico. Nem bem chegou e o doutor já foi mandando deitar naquela caminha sem pé nem cabeça (nem travesseiro) que todo consultório tem. Quando o Mané Cráudio tirou o sapato pra mostrar o inchaço, mostrou também o rombo na meia. Tomando todo o diâmetro do rasgo, o majestoso dedão nu, alheio a qualquer luxo ou luxação, apresentou-se altaneiro e liberto. O médico fez uma pausa e, mais pedicure do que ortopedista, falou pro Mané Cráudio cortar a unha.
E o Leovaldo, meu amigo cismado e grilado? Arrumou uma namorada riponga: vestidão colorido de seda indiana, penduricalhos pelo corpo, bolinhas coloridas no cabelo, toda zen no fumacê do paz e amor. Dentro de casa, uma regra: somente descalço e assentado no chão. Na hora do chazinho, a moça acendeu uns incensos místicos e fechou os olhos pra buscar o nirvana. Quando abriu, encontrou foi o dedão do Leovaldo, preparado para o mantra.
Quanto a mim e ao buraco da minha meia... Olhei para o meu pé. Parecia um ciclope, com aquele único olho que ali se alargava. Ciclope que me fazia agora enxergar pelo pé, que me fazia ver a decadência humana no tecido puído da existência que sempre termina no buraco. Ciclope terrível que arregalava o seu único olho – único, mas é olho – sem piscar. Olho sem lágrima, que não se fecha nem pra dormir. Ciclope teimoso em olhar os andaimes do desgaste. Uns fazem disso desespero. Outros, literatura.
Meu pé, um ciclope. Meu caminhar olha pra frente e às vezes é tortuoso e feio, tal como o ciclope. Mas aprendi a fazer raios que rasgam o papel e o coração, que faíscam sentidos e não sentidos. Aprendi a olhar o que existe e a dar existência ao que olho. Meu pé é um ciclope. Ciclopé!
Antes que o buraco da minha meia virasse furo de comentários, comprei um par novo. Estreei hoje as meias novas. São bonitas, o tecido é bom e resistente. Parece que vai demorar bastante tempo até um outro buraco aparecer.
Foi só eu sair pela porta do prédio que dei uma topada na sarjeta. Também... quem mandou colocar uma venda no olho do meu pé?
COQUINHO-BABÃO
29 de Abril de 2026, por José Antônio 0
Em vários sábados de 1987 tivemos aulas à noite. Reposição de uma greve da qual não entendi o resultado até hoje. De concreto, como já disse, apenas as aulas aos sábados. Os alunos iam todos arrumados, pois, afinal de contas, era sábado. Os garotos engomados e as meninas de longo e maquiadas.
O movimento na avenida começava, nesses sábados, depois das dez e meia. Era aquela porção de gente passeando pra lá e pra cá, todo mundo carregando livros e cadernos. De vez em quando, um namorado cavalheiro carregava a tralha colegial da namorada na mão esquerda e dava a mão direita à dama.
Os bares lotavam... depois das dez e meia; a avenida se alegrava... depois das dez e meia; a noite virava uma criança... depois das dez e meia. O toque de recolher fora trocado pelo toque de escolher, e todo mundo escolhia o barzinho, a esquina, a companhia, a conversa... Coisas que estão muito longe no tempo, que trazem uma saudade danada, como que nostalgia de uma inocência festiva que de repente aprendeu a ficar no passado.
Num desses sábados, Marcos Geraldo, Mário Márcio e eu resolvemos tomar uma cerveja no bar do Miguel. Pedimos também uma porção de azeitonas. A conversa rolava solta enquanto cada azeitona rolava dentro da boca de cada um até cair nuazinha em caroço chupado dentro de um pires.
Eis que entra um bebum. O cara parou de mesa em mesa que nem beija-flor etílico. De repente, olhou em nossa direção e disparou:
– Olha os professor bebeno! Olha os professor bebeno!
Todo mundo parou a conversa para ver qual seria a reação dos professor bebeno.
Mário e Marcos fingiram que não ouviram, ou melhor, fingiram que eram surdos, pois o cara gritou com tudo o que tinha na traqueia. Chamei o bebum para se reunir ao corpo docente e tudo voltou ao normal: as pessoas continuaram suas conversas, o bebum pediu uma pinga e meus dois amigos voltaram a escutar.
– Oceis é tudo gente fina. Me dá mais uma pinga. E eu quero comer também.
E enfiou a mão nos caroços de azeitona, chupados e cuspidos.
– Não! – gritei – Isso aí é...
Tarde demais. O bebum encheu a boca. Mastigava sem entender nada. Até que perguntou, com raiva:
– O que é que eu tô mastigano?
Revelar a verdade seria coragem ou, quem sabe, crueldade. Entabulei uns monossílabos desarticulados, que rodavam em minha boca do mesmo modo que os caroços na boca do bebum. Não consegui cuspir uma frase, mas o cara cuspiu tudo na mesa e saiu irritado:
– Detesto coquinho-babão!
Pedi mais uma cerveja para embriagar a minha consciência e afogar os meus escrúpulos. Prometi a mim mesmo comprar muitas azeitonas para o bebum.
Nunca mais vi o homem. Muitas vezes me sentei com o Mário e o Marcos para tomar cerveja, na esperança de vê-lo. Teve até uma noite em que bebi sozinho no mesmo bar, frente a uma porção de azeitonas, torcendo para que esse meu irmão aparecesse. Mas ele não veio. Cheguei a sonhar com os caroços rolando na boca dele, entupindo sua garganta e ele morrendo sufocado. Horrível.
Aos poucos, essas imagens foram sumindo até virar névoa.
No entanto, aprendi que às vezes é melhor um caroço de azeitona fantasiado de coquinho-babão do que um coquinho-babão se transformando em caroço de azeitona. O coquinho-babão provocou asco; o caroço chupado de azeitona provocaria ódio. Entre o asco e o ódio, nem mesmo bicarbonato de sódio: quero paz no coração. E viva o coquinho-babão!