A Teia do Mundo

Zebra

12 de Marco de 2019, por José Antônio 0

– E aí, meu bem? Que tal?

A primeira reação do marido foi de estranhamento. Depois que sua retina se apaziguou, Francinildo afinal pôde constatar o facilmente constatável: sua mulher parecia uma zebra.

– Gostou ou não gostou, meu bem?

– É... o... quer dizer... acho que se... isto é...

Darcilene era muito sensível. Qualquer crítica e era um Deus nos acuda. Chantagens, lágrimas, xingamentos... E aí, já era o jantar de bodas de prata do amigo senador. Mas a verdade é que Darcilene estava ridícula naquele vestido listrado. Nem mesmo em teatro infantil alguém se vestiu tão igual a uma zebra. E aquele chapéu? As franjinhas caídas de cada lado. Até crina a zebra tinha!

– Você está meio quieto, Francinildo. Acho que é o chapéu.

Até que enfim! Pelo menos, ela iria sem aquela escovinha mole em cima da cabeça. Porém, Darcilene apenas mudou a posição do chapéu, realçando ainda mais a crina. Francinildo já estava temeroso de haver alguém do Ibama na festa.

Quando chegaram à casa do senador, aquele clima chique. Muita gente, decoração requintada, música tocando, algumas rodinhas formadas, garçons que nem pinguins atarefados, petiscos variados e bebidas finas. O casal cumprimentou o senador e a esposa, que, por sinal, muito magra e alta e naquele vestido longo apertado, lembrava uma jiboia refinada. Depois dos abraços, beijinhos e elogios descarados, Francinildo e Darcilene procuraram se enturmar. E cada um foi pro seu lado.

De longe, Francinildo observava Darcilene. Ao lado dela, uma senhora toda de oncinha. Um tailleur e uma saia até o meio da canela, tudo imitando pele de onça. Uma outra usava uma echarpe peluda, igualzinho juba de leão. Uma zebra entre uma onça e um leão. Darcilene não sabia o risco que estava correndo.

O tempo passou e, lá pelas tantas, um grito. Francinildo imaginou o pior: a sua zebra acabara de ser devorada. Mas não. Era a jiboia do senador dando um grito de emoção quando o marido pegou o cavaquinho e começou a tocar o “Urubu Malandro”. Mais um bicho.

Depois disso, os músicos capricharam em outros ritmos e todo mundo começou a dançar. Francinildo dançou com a zebra, rodopiou com o leão, pulou com a onça e pisou no rabo da jiboia. Noite inesquecível. Francinildo era uma mistura de Noé profano e Tarzan folião. No momento, ele dançava com a Rosenda. Loura, toda de verde, quase parada e balançando apenas o pescoço: um papagaio. De repente, Darcilene:

– Você só dançou uma vez comigo. Vamos dançar de novo?

– É claro, minha zebrinha!

Não precisou de mais nada. A zebra virou jararaca e pisou duro. Darcilene fechou a cara e quis ir embora. Para ela, a festa tinha acabado.

No caminho, Francinildo ainda tentou contornar, dizendo que a zebra era um animalzinho engraçadinho, que as listras da zebra eram fantásticas, que o vestido era uma elegância só... Até inventou que no Bangladesh a zebra é o símbolo da sensualidade feminina. Não adiantou.

Tem uma semana que a Darcilene dorme sozinha no quarto e o Francinildo no sofá. Mas isso passa logo. Ontem mesmo ele viu a esposa chegando com uma porção de sacolas de compras. Havia algumas peças de couro.

Sadomasoquismo? Não... Darcilene nunca foi chegada nessas coisas.

Acho que está vindo um jacaré por aí.

PARA AS BRUMAS DE BRUMADINHO

12 de Fevereiro de 2019, por José Antônio 0

Não sei ressuscitar Lázaros. Nem sei abrir Mares Vermelhos levantando o meu braço. Mas consigo colocar atemporalidades em palavras que costumam frequentar meus textos. Não sei se com isso eu faço milagres ou sou apenas um dublê de profeta.

Quando se é afeito a vaticínios, as coisas que abalam o cotidiano são meras surpresas previsíveis. Salário sarcástico de quem ousa trabalhar acima do tempo.

A bem da verdade, nem é preciso ser adivinho para acertar no país de Macunaíma. Por aqui, é possível há muito tempo conhecer as consequências sem saber das causas.

Era sabido que a lama da barragem de Mariana desceria pelo ralo, escoaria toda para o Fundão da impunidade. Quem errou? É fácil ser Nostradamus por aqui.

 Já é sabido que barragens ilegais trabalham sem ser barradas de maquiar com barro o bom senso que berra, sem fazer birra, contra a molecagem burra que borra a história de um povo que quer ser nação. Quem errará as consequências?

 Nostradamus? Esse já se desgastou de tanto prever o óbvio.

 Macunaíma? Que preguiça... ver sempre as mesmas coisas... Que preguiça!

E agora, de novo, mais uma surpresa previsível no país em que meio ambiente é apenas mero ambiente. Outra barragem desceu pela passarela funesta, num desfile sem dança, com alas de foliões defuntos, mestre-sala sem porta-bandeira, passistas esquartejados, alegorias atropeladas, enredo sem dizeres. Lá vai, morte a fora, o desfile sem aplauso da Escola de Sombra.

Sempre fica algo depois de todo desfile. No Brumadinho, ficou a bruma triste embaçando o olhar de quem perdeu tudo... na Mina do Feijão, nem mina nem feijão, pois as pepitas que se encontram são corpos que já não mais respiram, são bocas que pedem sustento... na região, um grito cavo – por baixo da lama – ruge exigindo reparação. 

 E quase que Inhotim vira museu de natureza morta!

A lama, quando secar, fará aparecer figuras de barro seco, imóveis e sinistras, que um dia viveram. Antes de sumirem do cenário, ainda conseguirão reescrever a história dos últimos dias de uma Pompeia que poderia não acontecer.

 Essa história já havia sido reescrita antes, no lamaçal de Mariana. Todo mundo leu, porém ninguém aprendeu. E agora Brumadinho reedita, sem revisões, a mesma história. E o pergaminho será corroído pelas traças da amnésia nacional.

Não sei ressuscitar nem sei abrir caminhos no mar.

Que minha crônica, pelo menos, possa soprar um pouco de vida sobre os desventurados bonecos de barro de Brumadinho, a fim que se convertam em Adões e Evas voltando ao paraíso da justiça, ganhando a redenção vivificante da memória que transforma.  

Não sei fazer cegos enxergarem em Jericó.

No entanto, posso aproveitar minhas lágrimas (mesmo que burguesas, porém sinceras) e misturá-las à terra, formando argila pura e colocá-la nos olhos da história.

Talvez o milagre da visão aconteça. Talvez assim eu possa profetizar sem ser dublê.

Bônus

15 de Janeiro de 2019, por José Antônio 0

Estou correndo o sério risco de aceitar uma sórdida filosofia: Gente ruim demora pra morrer.

Será que os maus têm bônus de vida? Já nascem com um lucro existencial embutido neles?

Nunca vi filme com bandido morrendo no começo. Inclusive, tem bandido que, bem no finzinho do filme, já dado por morto depois de uma saraivada de tiros, ainda inventa de soltar uns espasmos e ameaça matar mais. É o bônus!

Na tela da vida real, o filme não é diferente. Outro dia, deu na TV que um crápula invadiu uma residência, roubou tudo e sequestrou um casal de idosos e uma criança. Na fuga, o carro capotou. Apenas uma pessoa não morreu: o sequestrador. Bônus!

E o Frango D’água? Apelido do cara que pegou um fuzil e foi dar uns tirinhos no cinema. Entrou na sala de projeção, tirou a carabina de debaixo das asas e mandou bala em todo mundo. Foi tanta confusão e correria que o maluco da espingarda não teve tempo de fugir: foi tragado pela multidão em pânico. Pessoas morreram pisoteadas, outras sofreram fraturas graves... menos o Frango Atirador. Conseguiu sair ileso e ainda fugiu. Bônus!

Até no Calvário, os dois ladrões morreram depois de Cristo!!! Mais bônus.

Uma vez, comentando isso com minha querida Tia Zenóbia, macróbia sábia e sempre portadora de uns dizeres que tira de sua vasta experiência, ela me retrucou:

– Pode ser que os maus vivam muito para que ainda tenham tempo de se arrepender e de se emendar. Mistérios da misericórdia.

Teologia do conforto... ou conforto da teologia... Pode até ser, mas não descarto o mistério do bônus.

Fim de semana passada, jantei com uma amiga. No meio da conversa e do vinho, lá veio ela com uma história. A irmã dela e o marido fizeram dez anos de casados. Organizaram um jantar maravilhoso para muitos amigos, lá no sítio deles. Casão bonito, gente bem vestida e comida farta. Ressalte-se aqui que o casal tem lá os seus requintes e regalias financeiras. Entendeu, leitor? São ricos.

Na hora do parabéns, quando todos gritavam os vivas, um terrível grito de medo rasgou o ambiente e impôs o silêncio. A seguir, um corre-corre assustado pra dentro da sala de visitas. E todo mundo parou com as mãos para o alto. Um sujeito armado ameaçava tirar a vida dos convivas, que tinham acabado de gritar os vivas. E foi pegando relógio, colar, pulseira, carteira... o que coubesse na sua mochila.

Havia alguém no banheiro na hora do assalto: a filha do casal anfitrião. Saiu de lá bem de mansinho, com patas de gato, ninguém viu... e correu para o quintal do sítio. Soltou o feroz cachorro fila que, por sinal, já dormia, cansado de latir revoltado porque era o único que não estava comendo naquela festa.

O esfomeado e fulo fila invadiu a sala e, num acesso de ira, mordeu todo mundo. Sobrou dentada até para os donos. O único que o cachorro não mordeu foi o ladrão. Que fugiu.

O estrago foi geral. Gente que precisou costurar a perna... outros levaram pontos no braço... muitos hematomas... vacina por causa do cachorro...

Por falar no cachorro, ele está internado numa clínica veterinária. Na confusão, acabou mordendo o próprio rabo.

Prefiro não comentar...   

A Fada

12 de Dezembro de 2018, por José Antônio 1

“Sete anos de pastor Jacó servia Labão...” E quem era o Labão? Pai de Raquel, uma bela serrana. Mas o Jacó servia patavina ao Labão. Ele estava de olho era na bonita Raquel. Como é que essa história termina? Vai lá na bíblia e lê. Tem também uma versão mais curta: a do Camões. Só quatorze linhas.

Comigo, a coisa não deu soneto nem sonata. O meu Labão era um funcionário do... bem, digamos... trabalhava fora de Resende Costa. Tinha um sítio nas cercanias da cidade. Rico, enorme sítio, imenso patrimônio, uma linda filha e um inusitado sonho:

– Quero passar num concurso público. Sempre a mesma história: a prova vence e eu nunca ganho.

Ah, sim. O homem era chegadinho num cacófato.

– Nem precisa assumir nada. Só quero passar. É necessidade da alma minha.

Amigos seus já tinham passado em concursos e ele era o único que não. Queria só sentir o gostinho. Tanto insistiu que aceitei dar umas aulas pra ele... mas, na verdade, não servia a ele e sim a ela, e a ela só por prêmio pretendia: sua linda filha, que, por sinal, já andava arrastando asa pro meu lado.

Toda quarta-feira eu ia ao sítio dar aula de gramática pro homem. A filha sempre me trazia um café, deixando seu braço roçar o meu ombro. Eu não reagia, claro. O pai jamais viu isso, pois aquilo era um objeto indireto alcançado por uma regência oblíqua sem complemento. Coisa raríssima.

Cobrava barato dele. E ele topou pagar:

– Topei dar vinte pratas!

Era finzinho dos anos oitenta. O Edílson Daher iria inaugurar um scotch bar em cima da padaria Sobrado, com Paulinho Pedra Azul e tudo. Porém, o Labão das Lajes me convidou para almoçar naquele fim de semana. Aceitei o convite e convidei a garota para o show.

Depois do almoço, o homem me contou a história dele.

– ... e aí, o sítio ficou pra mim. Eu fiquei como herdeiro. Eu havia dado o contra, mas acabei aceitando.

Parou de falar e olhou ao redor, como que procurando alguém. E gritou:

– Fada! Vem cá! Traz os cavalos!

Chegou a linda filha com dois cavalos arreados. Arrepiei, pois eu nunca tinha subido num cavalo. Nem de carrossel. O pai, num pulo só, já estava em cima do bicho. Tentei o imitar o giro do Labão e subi. De repente, a cabeça do cavalo sumiu.

– Você montou ao contrário. – disse o irmãozinho.

O cavalo já me olhava de lado, como que cismado. No que tentei descer, escorreguei e caí deslizando e agarrando as ancas do cavalo. O equino, desconfiado das minhas intenções, despachou um coice que raspou a minha orelha.

– Tenta de novo – era o irmãozinho outra vez. – Esse cavalo nunca foi montado e você também nunca montou. É bom que vocês dois aprendem juntos.

À noite, fui com a garota ao show do Paulinho Pedra Azul. A fada me beijava e flertava com outros. A fada abraçava outros e me flertava. Quer saber? Resolvi colocar uma pedra azul em cima do assunto. Fui embora sozinho, porém em paz.

De vez em quando, eu meu lembro de tudo isso. Será que o Labão conseguiu passar em algum concurso? E a garota? Linda! Essa fada...!

Cinismos sociais

13 de Novembro de 2018, por José Antônio 0

Se o mundo é um imenso teatro onde homens e mulheres desempenham variados papéis, bem que Shakespeare podia ter completado que tais papéis são desempenhados com máscaras. Os papéis são variados para cada ser humano, assim como as inúmeras máscaras que ele tem que assumir para que a sociedade não morra por causa da implosão das conveniências.

Nossas mais primitivas intenções e necessidades viram negações cretinas proferidas pela ditadura do disfarce. Talvez tenha que ser assim mesmo, pois se tirarmos as máscaras, o rosto que vai aparecer é terrível demais para ser visto. Na vida social, a verdade é igual à Medusa: atrai, mas não é bom que seja encarada.

Já pensou se aparecessem estabelecimentos com cara de Medusa? Já pensou se surgissem anúncios que tirassem a máscara?

 

Uma casa de velório:

NOME: O ponto do velório

SLOGAN: Guardamos a sua visita.

 

Um dentista:

NOME: Dr. Jacinto Nascimento das Dores

SLOGAN: O martírio que alivia.

 

Um açougue:

NOME: Açougue Vaca Morta

SLOGAN: Matando a sua fome.

 

Um motel:

NOME: Paga & Geme

SLOGAN: O gasto do gosto.

 

Uma farmácia:

NOME: O refúgio do doente

SLOGAN: Douramos a pílula.

 

Uma funerária:

NOME: Funerária Alças do Adeus

SLOGAN: Mais de três décadas sepultando possibilidades.

 

Seguro de vida:

NOME: A alegria do alheio

SLOGAN: Toque o pandeiro para os outros dançarem.

 

No fundo, esses títulos e slogans estão certos. Mas as conveniências os transformam em metáforas suaves, maquiando a cara da Medusa. Talvez a literatura seja um pouco disso também: cruel e cínica. Cruel ao cutucar na inexorável e dolorida peregrinação do homem rumo ao seu próprio fim. Cínica ao se fantasiar de estética verbal.

Que me desculpe o Shakespeare, mas o “Ser ou não ser, eis a questão” não passa de um simples “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.