A Teia do Mundo

ARRAZOADO DE PLUTÃO

01 de Julho de 2026, por José Antônio 0

Sou Plutão.

Você, com certeza, me conhece há um bom tempo. Conhece também a equipe da qual faço parte: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e eu… o Plutão. Fiéis às nossas órbitas, desempenhamos magistralmente o nosso papel gravitacional durante um éon.

No entanto, de uns tempos para cá, estive na iminência de ser cortado da equipe do Sistema Solar. Baixaram um parecer que quase me desapareceu: não sou mais planeta! Sabe quem decretou isso? A União Astronômica Internacional, conhecida como UAI. Uai digo eu!!! Como é que fazem isso comigo e, ainda por cima, sem me consultarem?

Não sou mais planeta.

Ou melhor, ainda sou planeta, mas “planeta anão”. Que coisa mais absurda! Como não sou planeta se na minha denominação continua a palavra “planeta”? Preconceito sideral, só pode ser.

O sol é uma estrela de quinta categoria… e ninguém diz que ele é anão. Por que essa implicância comigo? Será porque eu sou o último da lista e sou gelado? Planeta pé frio? Injustiça, pois nunca saí da minha órbita.

O Sistema Solar sempre funcionou bem do jeito em que está. Para que mexer no time que está vencendo?

Dizem que não atendo a certas características para ser considerado um planeta. Ora, ninguém é perfeito. Até mesmo os meus oito companheiros de equipe têm lá os seus defeitos.

Não sei se você me entende, eu me sinto como se fosse um fantasma: existo, porém não existo.

Eu resisto, insisto e persisto: continuo no Sistema Solar com todas as minhas letras, inclusive com as duas primeiras, o P e o L: é com essas duas letras que iniciam meu nome que eu expresso a minha indignação.

Estou PLuto da vida com essa história toda. Estão querendo amPLutar o Sistema Solar, talvez numa lamentável e vergonhosa disPLuta de vaidades, sem se importar com a rePLutação dos prejudicados. 

Isso é muito hostil.

Dá até vontade de rimar e mandar esse pessoal todo pra PLuta que…

Adianta?

Meia furada

27 de Maio de 2026, por José Antônio 0

Foi só eu enfiar o pé na meia que o dedão foi direto pro buraco. Ficou na janelinha. A meia foi à guerra, como diziam antigamente.

Meia furada é um constrangimento rasgado. É o atestado do desleixo, é andar descalço na pobreza desmazelada. E não adianta pensar que só pelo fato de o buraco estar escondido no sapato que ninguém vai ver. Uma hora o buraco aparece, transcende as muralhas do esconderijo íntimo e ganha a praça do olhar público.

Mané Cráudio, meu amigo pagador de micos. Vira e mexe, lá vai o Mané Cráudio credenciar o pequeno símio. Meu amigo apareceu com uma luxação no pé e foi procurar o médico. Nem bem chegou e o doutor já foi mandando deitar naquela caminha sem pé nem cabeça (nem travesseiro) que todo consultório tem. Quando o Mané Cráudio tirou o sapato pra mostrar o inchaço, mostrou também o rombo na meia. Tomando todo o diâmetro do rasgo, o majestoso dedão nu, alheio a qualquer luxo ou luxação, apresentou-se altaneiro e liberto. O médico fez uma pausa e, mais pedicure do que ortopedista, falou pro Mané Cráudio cortar a unha.

E o Leovaldo, meu amigo cismado e grilado? Arrumou uma namorada riponga: vestidão colorido de seda indiana, penduricalhos pelo corpo, bolinhas coloridas no cabelo, toda zen no fumacê do paz e amor. Dentro de casa, uma regra: somente descalço e assentado no chão. Na hora do chazinho, a moça acendeu uns incensos místicos e fechou os olhos pra buscar o nirvana. Quando abriu, encontrou foi o dedão do Leovaldo, preparado para o mantra.

Quanto a mim e ao buraco da minha meia... Olhei para o meu pé. Parecia um ciclope, com aquele único olho que ali se alargava. Ciclope que me fazia agora enxergar pelo pé, que me fazia ver a decadência humana no tecido puído da existência que sempre termina no buraco. Ciclope terrível que arregalava o seu único olho – único, mas é olho – sem piscar. Olho sem lágrima, que não se fecha nem pra dormir. Ciclope teimoso em olhar os andaimes do desgaste. Uns fazem disso desespero. Outros, literatura.

Meu pé, um ciclope. Meu caminhar olha pra frente e às vezes é tortuoso e feio, tal como o ciclope. Mas aprendi a fazer raios que rasgam o papel e o coração, que faíscam sentidos e não sentidos. Aprendi a olhar o que existe e a dar existência ao que olho. Meu pé é um ciclope. Ciclopé!

Antes que o buraco da minha meia virasse furo de comentários, comprei um par novo. Estreei hoje as meias novas. São bonitas, o tecido é bom e resistente. Parece que vai demorar bastante tempo até um outro buraco aparecer.  

Foi só eu sair pela porta do prédio que dei uma topada na sarjeta. Também... quem mandou colocar uma venda no olho do meu pé?

COQUINHO-BABÃO

29 de Abril de 2026, por José Antônio 0

Em vários sábados de 1987 tivemos aulas à noite. Reposição de uma greve da qual não entendi o resultado até hoje. De concreto, como já disse, apenas as aulas aos sábados. Os alunos iam todos arrumados, pois, afinal de contas, era sábado. Os garotos engomados e as meninas de longo e maquiadas.

O movimento na avenida começava, nesses sábados, depois das dez e meia. Era aquela porção de gente passeando pra lá e pra cá, todo mundo carregando livros e cadernos. De vez em quando, um namorado cavalheiro carregava a tralha colegial da namorada na mão esquerda e dava a mão direita à dama.

Os bares lotavam... depois das dez e meia; a avenida se alegrava... depois das dez e meia; a noite virava uma criança... depois das dez e meia. O toque de recolher fora trocado pelo toque de escolher, e todo mundo escolhia o barzinho, a esquina, a companhia, a conversa... Coisas que estão muito longe no tempo, que trazem uma saudade danada, como que nostalgia de uma inocência festiva que de repente aprendeu a ficar no passado.

Num desses sábados, Marcos Geraldo, Mário Márcio e eu resolvemos tomar uma cerveja no bar do Miguel. Pedimos também uma porção de azeitonas. A conversa rolava solta enquanto cada azeitona rolava dentro da boca de cada um até cair nuazinha em caroço chupado dentro de um pires.

Eis que entra um bebum. O cara parou de mesa em mesa que nem beija-flor etílico. De repente, olhou em nossa direção e disparou:

– Olha os professor bebeno! Olha os professor bebeno!

Todo mundo parou a conversa para ver qual seria a reação dos professor bebeno.

Mário e Marcos fingiram que não ouviram, ou melhor, fingiram que eram surdos, pois o cara gritou com tudo o que tinha na traqueia. Chamei o bebum para se reunir ao corpo docente e tudo voltou ao normal: as pessoas continuaram suas conversas, o bebum pediu uma pinga e meus dois amigos voltaram a escutar.

– Oceis é tudo gente fina. Me dá mais uma pinga. E eu quero comer também.

E enfiou a mão nos caroços de azeitona, chupados e cuspidos.

– Não! – gritei – Isso aí é...

Tarde demais. O bebum encheu a boca. Mastigava sem entender nada. Até que perguntou, com raiva:

– O que é que eu tô mastigano?

Revelar a verdade seria coragem ou, quem sabe, crueldade. Entabulei uns monossílabos desarticulados, que rodavam em minha boca do mesmo modo que os caroços na boca do bebum. Não consegui cuspir uma frase, mas o cara cuspiu tudo na mesa e saiu irritado:

– Detesto coquinho-babão!

Pedi mais uma cerveja para embriagar a minha consciência e afogar os meus escrúpulos. Prometi a mim mesmo comprar muitas azeitonas para o bebum.

Nunca mais vi o homem. Muitas vezes me sentei com o Mário e o Marcos para tomar cerveja, na esperança de vê-lo. Teve até uma noite em que bebi sozinho no mesmo bar, frente a uma porção de azeitonas, torcendo para que esse meu irmão aparecesse. Mas ele não veio. Cheguei a sonhar com os caroços rolando na boca dele, entupindo sua garganta e ele morrendo sufocado. Horrível.

Aos poucos, essas imagens foram sumindo até virar névoa.

No entanto, aprendi que às vezes é melhor um caroço de azeitona fantasiado de coquinho-babão do que um coquinho-babão se transformando em caroço de azeitona. O coquinho-babão provocou asco; o caroço chupado de azeitona provocaria ódio. Entre o asco e o ódio, nem mesmo bicarbonato de sódio: quero paz no coração. E viva o coquinho-babão!

REDAÇÃO DE CRIANÇA (A solidão)

25 de Marco de 2026, por José Antônio 0

Solidão é uma coisa que chega sem ninguém chegar. A solidão deixa todo mundo sozinho porque todo mundo fica longe.

Na solidão, tudo faz frio. Aí o coração fica gripado. Então a gente fica com o olho cheio d´água e pinga o nariz. Acaba chorando. O pior é que na solidão a gente chora sozinho.

Tem hora que eu sinto solidão. Aí eu penso que sou uma estrela sozinha lá no céu, dando tchauzinho sem ninguém responder.

Pra acabar com a solidão, a gente tem que abraçar outra pessoa. Se a gente abraçar a gente mesmo, a solidão fica pior porque ela não sai de dentro desse abraço.

A solidão é chata, mas tem gente que é mais chata do que a solidão. Só que gente chata pode ficar legal um dia e a solidão não fica legal nunca.

A companhia termina com a solidão. Mas será que ficar mal acompanhado é pior do que ficar sozinho? Não sei. Se a companhia é ruim, então não tem companhia e a gente continua do mesmo jeito: sozinho.

Minha prima vive sozinha. É louca pra arrumar um namorado. Vive falando que solidão é coisa que dói. A minha prima quer ter alguém. Mas ela também vive falando que ficou com alguém, que fica com outro, que gosta de ficar. Se fica, então tem. Por que ela fica dizendo que ficar é uma coisa que fica chato? A gente fica pensando que é mentira.

Essa redação que eu fiz falando da solidão ficou pequena porque não tinha ninguém perto de mim pra me dar mais ideia. Então ela ficou pequena. Pequena e sozinha.

O que é a solidão? Solidão é só uma coisa que é uma coisa só.

FELICIDADE XAROPE

25 de Fevereiro de 2026, por José Antônio 0

 

“Todas as famílias felizes são parecidas entre si.” Assim Tolstói começa o seu romance Anna Karenina. Não pretendo aqui ater-me ao romance dessa frase, mas a essa frase do romance.

Quando a parecença é muito repetida, vira igualdade. Toda igualdade muito repetida vira mesmice. Não há algo mais enfadonho do que o óbito da surpresa. Quando ela morre, seu fantasma de vez em quando aparece fazendo-se de novidade. Ridículo. Até mesmo os seus sustos são sem graça, pois é tudo previsível.

A família de Jamil Perdenari é o protótipo de um gordo álbum de felicidades. Jamil, vistoso e bem sucedido empresário, casou-se com Linda Wunderbar, filha de pai alemão e mãe italiana, radicados no Brasil. Um monumento de mulher bonita. Jamil e Linda se conheceram no Carnaval, em Veneza. Daí em diante, o namoro seguiu seu curso e desaguou numa exuberante cerimônia de casamento em Mônaco.

Nasceram dois filhos: Victor e Zuleika. Victor Wunderbar Perdenari hoje é famoso por suas ótimas gerências e aplicações no mercado financeiro. É dono de um banco em Boston. Casou-se com a filha de um senador norte-americano, proprietário de uma grande rede de TV. Victor nada em dinheiro com sua deliciosa Enya. Ah, sim, sua esposa se chama Enya. Vivem viajando pelo mundo. Já conhecem setenta e oito países. No ano que vem, pretendem ir a mais dez.  

Os dois lindos e saudáveis pimpolhos do casal – gêmeos – estudam numa escola particular cuja mensalidade é astronômica. Poucos alunos em sala de aula, grandes oportunidades de progresso em Paris e saem falando cinco idiomas. Coisa para pouquíssima gente e não para gente pouquíssima.

Zuleika, a irmã de Victor, nasceu arrebatando os corações do médico, das enfermeiras e dos funcionários da maternidade, de tão linda. Cresceu e a formosura acompanhou-a. Muito estudiosa. É a típica boa moça de família. Foi miss de seu estado duas vezes, miss Brasil e iria representar o país no concurso de Miss Universo, com grandes chances de ser premiada como a mulher mais bonita do mundo. Porém, desistiu. Casou-se com Heinrich, um bonito e milionário médico alemão, detentor de uma rede de hospitais em três países. Foi sorteado com uma polpuda bolsa para desenvolver suas pesquisas. Zuleika é a vice-presidente da rede hospitalar de seu marido, o tal bonitão e rico.

 Na semana passada, Jamil e Linda (pais dos irmãos Victor e Zuleika) completaram quarenta anos de casados. Como presente, os dois filhos deram aos seus pais uma casa de veraneio na Suíça. O velho casal amou a surpresa… ops!... o presente. Foi uma festa linda. Farto jantar, gente bonita e bem vestida. A alegria era a convidada especial. Houve um momento em que Jamil leu para Linda um poema que fez para ela. Concluiu dando-lhe um anel de esmeralda, pois as bodas eram de esmeralda. Linda sorriu e chorou. O casal se beijou com tanta ternura que todos ali se emocionaram e cantaram. Uma fofura só!

Tudo dentro da previsibilidade feliz das famílias felizes.

……….

Ai… como são chatas, leitor, as histórias dessas pessoas que nasceram com a bunda virada pra lua…