A Teia do Mundo

YES, NÓS TEMOS VIRA-LATAS

27 de Janeiro de 2026, por José Antônio 0

O inteligente Rin-tin-tin, a corajosa Lassie, o trapalhão Beethoven e o impagável Marley são cachorros que se imortalizaram no cinema. Realizavam prodígios que faziam a plateia racional que fala sentir-se humilhada frente à cachorrada irracional que late.

Porém, eles foram adestrados para exibirem o que exibiam nas salas de exibição.

Na verdade, Rin-tin-tin, Lassie, Beethoven e Marley são muito pequenos se comparados a outros cães que também realizam prodígios. E não foram adestrados nem são celebridades: os cachorros de rua de del-Rei.

Temos por aqui cachorros instigantes, uns até emblemáticos.

Pode parecer absurdo, mas nossa cidade tem cachorros intelectuais. São poucos, é verdade, mas eles existem. Estão sempre nos pátios da universidade. Inclusive, moram lá. Devem ter aprendido alguma coisa por osmose, como, por exemplo, contar os postes, calcular a parábola da curva do xixi, analisar a composição química do lixo que reviram e latir em línguas diferentes.

E o cachorro socialite? Tem uns que são. Esses não perdem eventos esportivos, desfilam com o exército no Sete de Setembro, frequentam festas de casamento, acompanham enterros e até se entrosam com as escolas de samba na avenida.

Você pode não levar fé, mas tem cachorro que leva. São os cachorros religiosos. São vistos nas missas, saindo de cultos evangélicos, entrando em centro espírita e acompanhando procissão. Nem ligam mais para a barulheira dos sinos, a explosão dos foguetes ou a gritaria do pastor.

E os nomes? Esses vêm da convivência com a cidade. E mais: a gente sente falta quando um dos cachorros anda meio sumido.

– Você viu o Biscoito? Ele não está aparecendo mais.

– Parece que agora ele está andando em outro bairro.

Ou ainda:

– Sabe quem eu vi ontem?

– Quem?

– O Riscadinho. Estava no enterro do Seu Vavá.

Os cachorros que transitam pelas ruas de del-Rei são marcadamente urbanos. Andam na calçada, entram em lotação e fazem suas aparições nos bancos e correios. Deram até nome para logradouro público: a Ponte dos Cachorros!

Nossos cachorros sem dono são muito espertos. Já reparou como nenhum deles se envolve mais em acidentes de trânsito? Já experimentou comparar com os motoqueiros? Pois é... dá pra pensar.

Os cachorros do cinema se imortalizaram na tela do imaginário popular. Mas os nossos também são perenes. E vão viver muito, se depender da saúde deles. Já vi cachorro nas portas dos açougues, dos restaurantes, dos bares e das padarias. Mas nunca vi cachorro esperando alguma coisa em porta de farmácia. Apenas dormindo.

Natal de papel

24 de Dezembro de 2025, por José Antônio 0

O que dizer sobre o Natal? Todos esperam mensagens tocantes, recheadas de lembranças e esperanças, canções suaves que nos fazem chorar e rir ao mesmo tempo. Aí vem na memória um obituário de convivas que já se foram e não mais comemorarão Natal algum com a gente. E toca todo mundo a chorar. Mas sempre tem no Natal alguém com um bebê, e o bebê apronta uma porção de palhaçadas na hora de ceia. E toca todo mundo a rir.

Do alto do meu apartamento, estendo o olhar pela cidade e vejo inúmeros pisca-piscas. São desejos coloridos de que a alegria e a paz aconteçam na Terra. Como se as luzinhas não piscassem, mas sim pulsassem junto com os corações dos moradores, espalhando ternura.

Fico pensando na minha crônica sobre o Natal. Meu texto também mostra rapidamente luzes simples que devem ser enxergadas várias e repetidas vezes, como um pisca-pisca de palavras, alertando que algo mais profundo transcende o mero repetir automático do cotidiano. Meu texto procura o sumo do dia a dia, extraindo emoções e sensações contraditórias mas complementares, como o prazer e a dor, o imponente e o humilde... e nas suas linhas traçadas de literatura procura combinar riso e lágrima.

Meu texto procura nas palavras o inefável das expressões, assim como os sinos de Natal: simples badaladas, porém arautos dos nossos mais íntimos e inexplicáveis sentimentos.

A árvore de Natal... poético final de arco-íris, onde está o caldeirão de ouro: os presentes. São tão sedutores, com seus formatos e embalagens fantásticas, que nos esquecemos da mentira da neve sobre os galhos do pinheirinho falso. Bolas coloridas e de variados tamanhos tornam aquele cantinho da sala um caleidoscópio alegre e aconchegante.

Aos poucos, todos vão chegando a casa, onde está preparada a ceia. Crianças correm pelos cômodos, homens formam uma rodinha com cerveja, salaminho e azeitona, mulheres se juntam para trocar elogios e reclamarem de que precisam emagrecer. Há enfeites por toda a casa, todos os recantos estão acesos. Economizar energia? Pra quê? É Natal!

No presépio, o Menino Deus deitado com os bracinhos abertos, sorrindo para quem quiser tomá-lo consigo. José e Maria, ajoelhados ao redor da manjedoura, adoram piedosamente aquela criança que mudará o mundo.

E minha crônica... não é ela final de arco-íris, uma vez que é a própria combinação de cores e matizes. Cada um que escolha o que mais lhe agrade... ou rasgue e jogue fora. Minha crônica não chega a ter neve falsa, mas salpico em minhas histórias algumas purpurinas de invenção, pois quero que minha escrita seja sempre contemporânea, que volte continuamente com variadas novidades, assim como o Natal.

Minha crônica anseia por ser um espaço onde crianças, homens e mulheres se encontrem para brincar, saciar-se, contemplar-se e reconhecer as mesmas e surpreendentes procuras, conquistas e perdas dos pobres seres humanos.

Sei que minha crônica não é digna de servir de manjedoura ao Deus Menino, mas procura imitar um presépio, pois é pobre, limitada, simples e pequena. Daquela cena entre pastores e animais, brotou a figura mais exemplar do amor incondicional. Da minha crônica, entre palavras, ideias e solidões, espero brotar leituras e releituras, tonificantes da alma, alegrias para o espírito, contribuições para as mentes.

Acho que assim é minha crônica: um Natal sem lembranças e sem angústias, como quer o Dono da Festa: a cada dia basta o seu cuidado. Não me prendo às saudades nem às preocupações, pois passado e futuro são instâncias infinitamente menores que o presente.

O meu presente é a renovação do olhar e da vida a cada dia, a cada momento, a cada frase, a cada crônica, a cada canção... Minha crônica é um Natal de papel, onde estão escritas algumas e muitas pistas das peripécias do dilema humano. Minha crônica é um Natal de papel.

A você, desejo um Feliz Natal, um feliz papel em branco, espaço para você escrever a sua felicidade construída pela felicidade que você proporcionará ao próximo neste Ano Novo.  

ORAÇÃO ECO(LÓGICA?)

25 de Novembro de 2025, por José Antônio 0

Mãe natureza! Má natureza!

Natureza mãe, tu és mãe que gera. A vida é fecundada, nasce, cresce, reproduz e termina em ti. Natureza mãe, tu és mãe que nutre com teus frutos, grãos e folhas... és mãe que mata a sede e que refresca.

Natureza má, tu és egoísta quanto aos teus desígnios. Já nascemos todos encomendados à morte, que, por sinal, faz parte de tuas exigências para que existamos. Natureza má, que nos enfeita com o engodo da juventude, da vitalidade e da sedução apenas para nos aproximarmos uns dos outros a fim de que a vida se reproduza e continue. 

Natureza cruel: quando não somos mais úteis a ti, pois já não reproduzimos mais, tu nos viras as costas e nos entregas ao declínio.

Por isso, Natureza, nossa mamãe (má mãe), faço-te uma oração em nome dos pobres irracionais, pois eles não sabem rezar:

 

 Que o porco-espinho sempre encontre quem furar.

 Que o macaco-prego tenha sempre a sua madeira.

 Que o tatu-bola jamais deixe de encontrar o seu gol.

Que o cavalo manga-larga tenha quem ajuste a sua roupa.

Que o urso-polar não se torne bipolar.

Que o bicho-de-pé não ande descalço.

Que o tubarão-martelo não erre a pancada e preserve o macaco-prego.

Que o urubu-rei sempre tenha a sua majestosa carniça.

Que a cobra-coral não fique sem o seu refrão.

Que não falte a vitamina C para o sabiá-laranjeira.

Que o bicho-preguiça se liberte desse pecado.

Que o cachorro-fila não perca a sua senha.

Que o peixe-boi não vá com a vaca pro brejo.

Que o pombo-correio não erre seu endereço.

Que o tamanduá-bandeira fique sempre hasteado.

Que não falte a bainha para o peixe-espada.

Que todos os seres viventes sejam sempre joviais a fim de que não terminem fracos e envelhecidos como o tigre de bengala.

A saída... Onde é a saída?

29 de Outubro de 2025, por José Antônio 0

Detestamos o interno. O interno é a mesmice, o fluxo contínuo de nossos mesmos defeitos, de nossas mesmas virtudes, de nossas mesmas fantasias. Reduzir-se ao interno é ficar preso na carcaça. Quem vai lá fora aprende, cresce, vê novidades, vive o imprevisível. O mundo não se restringe a uma caverna, de acordo com o mantra do Platão.

Daí que o homem está sempre procurando sair. Sai em tudo e de tudo. Se o cara está deprimido, lá vem conselho: Você tem andado triste... procure sair um pouco.

Sair é diagnóstico moral também: Essa menina está muito saidinha. Ou ainda: Você sabia que o Fulano está saindo com a vizinha?

A gente sai até pra fazer levantamento de estoque ao verificar se a mercadoria tem... saída. A gente sai na foto, sai de fininho, sai do tom, sai do compasso, sai por aí...

Tem coisa melhor do que reunir os amigos? Só que esse encontro nunca é marcado para ser na casa de alguém: Vamos marcar uma saída pra gente conversar!

Talvez por isso o pobre verbo “entrar” carregue um fardo negativo. Sempre tem gente entrando numa fria. Outros entram bem (porque entraram mal!). Sem falar naqueles que dão entrada no hospital.

O negócio, amigo, é sair. Jamais entrar. Não é à toa que, de vez em quando, lá vem advertência: Cuidado, cara, não entra nessa não!

Sair é a solução. Todo problema tem solução, logo... qual é a saída do problema? Se a pessoa achou uma boa resposta, saiu-se bem.

A expulsão do paraíso deixou marcas profundas em nós. A partir daí, o homem ficou condenado a sempre sair. Até pra nascer ele nasce pra fora.

Já caminhei muito nessa vida. Ainda tenho muito que caminhar. E minhas trilhas sempre são traçadas para me levar a uma saída. Não nasci para labirintos. Mas, às vezes, viver pesa e o dia a dia se torna um emaranhado de corredores e portas sem sentido. É aí que eu salto de banda, junto as palavras e tento uma saída de mestre.

Hoje é meu aniversário

01 de Outubro de 2025, por José Antônio 0

Foi só eu virar a esquina da avenida e lá vinha ela em minha direção. Ao me ver, fixou o olhar e abriu um sorriso discreto, mas alegre:

– Quanto tempo!

– Pois é, quanto tempo!

– Você sumiu. Por onde anda?

– Tenho saído pouco.                                                            

Era ela. Mais madura, penteado diferente, marcas sutis do tempo ao lado dos olhos... Ainda estava bonita.

– Hoje eu me lembrei de você.

Que bom que ela ainda se lembra de que hoje é o meu aniversário! Fingi-me de desentendido:

– Ah, é? Por quê?

Li uma crônica sua ontem no jornal. Você falava da primavera e hoje é primavera.

Será que ela esqueceu o meu aniversário? Culpa da primavera. Por outro lado, seria pior se eu tivesse nascido em estação de chuvas. Não suportaria vê-la dizendo que toda vez que tem raio e trovão ela se lembra de mim.

– Na crônica, você falou tão bonito das flores... Fiquei encantada.

A primeira flor que dei a ela... Quanto tempo! Era começo de namoro. Depois, vieram muito mais flores, mas aquela primeira era a mais linda e a mais pura, justamente porque era a primeira. Lembro-me do primeiro presente de aniversário que ela me deu: uma camisa da cor daquela flor.

– Mas eu me lembrei de você por um outro motivo também.

Que alívio! Eu sabia que ela iria lembrar que hoje é meu aniversário.

– Há um momento engraçado na crônica. Eu ri muito. Você sempre me fez rir, lembra-se?

Como esquecer? Era gostoso vê-la alegre, ouvir sua gargalhada de menina sapeca, sentir seus tapas e beliscões carinhosos me mandando parar de fazê-la rir, pois já não tinha mais fôlego. Que saudade daquele meu aniversário em que a velinha não acendia de jeito nenhum. Depois de acesa, por mais que eu soprasse, ela não apagava nunca, o foguinho sempre voltava. Como rimos juntos!

– Parabéns!

Ufa! Lembrou.

– Parabéns pela crônica! Amei, apesar de ter uma passagem que me fez chorar.

Lembro-me das suas lágrimas quando não pude mais ficar. Escorriam como dois riachos sem destino e sem consolo. Minha passagem a fez chorar... passei e não fiquei quando ela queria que eu ficasse. Agora é ela quem passa e eu quero que fique sem ela poder. Tudo é passagem. Meu aniversário também é passagem. Daqui a algumas horas não será mais meu aniversário.

– Bem, já vou indo.

– Some não.

– Tenho saído pouco.

E desci a avenida como uma lágrima sem destino e sem consolo.

Hoje à noite, amigos e amigas irão lá em casa para o meu aniversário. Levarão presentes e eu abrirei cada um, com gratidão, alegria e carinho. Mas ficará, no canto da minha lembrança, um presente que um dia ganhei e jamais abri. Um presente que floriu, encantou, riu, chorou... e foi embora.