A Teia do Mundo

ORAÇÃO ECO(LÓGICA?)

25 de Novembro de 2025, por José Antônio 0

Mãe natureza! Má natureza!

Natureza mãe, tu és mãe que gera. A vida é fecundada, nasce, cresce, reproduz e termina em ti. Natureza mãe, tu és mãe que nutre com teus frutos, grãos e folhas... és mãe que mata a sede e que refresca.

Natureza má, tu és egoísta quanto aos teus desígnios. Já nascemos todos encomendados à morte, que, por sinal, faz parte de tuas exigências para que existamos. Natureza má, que nos enfeita com o engodo da juventude, da vitalidade e da sedução apenas para nos aproximarmos uns dos outros a fim de que a vida se reproduza e continue. 

Natureza cruel: quando não somos mais úteis a ti, pois já não reproduzimos mais, tu nos viras as costas e nos entregas ao declínio.

Por isso, Natureza, nossa mamãe (má mãe), faço-te uma oração em nome dos pobres irracionais, pois eles não sabem rezar:

 

 Que o porco-espinho sempre encontre quem furar.

 Que o macaco-prego tenha sempre a sua madeira.

 Que o tatu-bola jamais deixe de encontrar o seu gol.

Que o cavalo manga-larga tenha quem ajuste a sua roupa.

Que o urso-polar não se torne bipolar.

Que o bicho-de-pé não ande descalço.

Que o tubarão-martelo não erre a pancada e preserve o macaco-prego.

Que o urubu-rei sempre tenha a sua majestosa carniça.

Que a cobra-coral não fique sem o seu refrão.

Que não falte a vitamina C para o sabiá-laranjeira.

Que o bicho-preguiça se liberte desse pecado.

Que o cachorro-fila não perca a sua senha.

Que o peixe-boi não vá com a vaca pro brejo.

Que o pombo-correio não erre seu endereço.

Que o tamanduá-bandeira fique sempre hasteado.

Que não falte a bainha para o peixe-espada.

Que todos os seres viventes sejam sempre joviais a fim de que não terminem fracos e envelhecidos como o tigre de bengala.

A saída... Onde é a saída?

29 de Outubro de 2025, por José Antônio 0

Detestamos o interno. O interno é a mesmice, o fluxo contínuo de nossos mesmos defeitos, de nossas mesmas virtudes, de nossas mesmas fantasias. Reduzir-se ao interno é ficar preso na carcaça. Quem vai lá fora aprende, cresce, vê novidades, vive o imprevisível. O mundo não se restringe a uma caverna, de acordo com o mantra do Platão.

Daí que o homem está sempre procurando sair. Sai em tudo e de tudo. Se o cara está deprimido, lá vem conselho: Você tem andado triste... procure sair um pouco.

Sair é diagnóstico moral também: Essa menina está muito saidinha. Ou ainda: Você sabia que o Fulano está saindo com a vizinha?

A gente sai até pra fazer levantamento de estoque ao verificar se a mercadoria tem... saída. A gente sai na foto, sai de fininho, sai do tom, sai do compasso, sai por aí...

Tem coisa melhor do que reunir os amigos? Só que esse encontro nunca é marcado para ser na casa de alguém: Vamos marcar uma saída pra gente conversar!

Talvez por isso o pobre verbo “entrar” carregue um fardo negativo. Sempre tem gente entrando numa fria. Outros entram bem (porque entraram mal!). Sem falar naqueles que dão entrada no hospital.

O negócio, amigo, é sair. Jamais entrar. Não é à toa que, de vez em quando, lá vem advertência: Cuidado, cara, não entra nessa não!

Sair é a solução. Todo problema tem solução, logo... qual é a saída do problema? Se a pessoa achou uma boa resposta, saiu-se bem.

A expulsão do paraíso deixou marcas profundas em nós. A partir daí, o homem ficou condenado a sempre sair. Até pra nascer ele nasce pra fora.

Já caminhei muito nessa vida. Ainda tenho muito que caminhar. E minhas trilhas sempre são traçadas para me levar a uma saída. Não nasci para labirintos. Mas, às vezes, viver pesa e o dia a dia se torna um emaranhado de corredores e portas sem sentido. É aí que eu salto de banda, junto as palavras e tento uma saída de mestre.

Hoje é meu aniversário

01 de Outubro de 2025, por José Antônio 0

Foi só eu virar a esquina da avenida e lá vinha ela em minha direção. Ao me ver, fixou o olhar e abriu um sorriso discreto, mas alegre:

– Quanto tempo!

– Pois é, quanto tempo!

– Você sumiu. Por onde anda?

– Tenho saído pouco.                                                            

Era ela. Mais madura, penteado diferente, marcas sutis do tempo ao lado dos olhos... Ainda estava bonita.

– Hoje eu me lembrei de você.

Que bom que ela ainda se lembra de que hoje é o meu aniversário! Fingi-me de desentendido:

– Ah, é? Por quê?

– Li uma crônica sua ontem no jornal. Você falava da primavera e hoje é primavera.

Será que ela esqueceu o meu aniversário? Culpa da primavera. Por outro lado, seria pior se eu tivesse nascido em estação de chuvas. Não suportaria vê-la dizendo que toda vez que tem raio e trovão ela se lembra de mim.

– Na crônica, você falou tão bonito das flores... Fiquei encantada.

A primeira flor que dei a ela... Quanto tempo! Era começo de namoro. Depois, vieram muito mais flores, mas aquela primeira era a mais linda e a mais pura, justamente porque era a primeira. Lembro-me do primeiro presente de aniversário que ela me deu: uma camisa da cor daquela flor.

– Mas eu me lembrei de você por um outro motivo também.

Que alívio! Eu sabia que ela iria lembrar que hoje é meu aniversário.

– Há um momento engraçado na crônica. Eu ri muito. Você sempre me fez rir, lembra-se?

Como esquecer? Era gostoso vê-la alegre, ouvir sua gargalhada de menina sapeca, sentir seus tapas e beliscões carinhosos me mandando parar de fazê-la rir, pois já não tinha mais fôlego. Que saudade daquele meu aniversário em que a velinha não acendia de jeito nenhum. Depois de acesa, por mais que eu soprasse, ela não apagava nunca, o foguinho sempre voltava. Como rimos juntos!

– Parabéns!

Ufa! Lembrou.

– Parabéns pela crônica! Amei, apesar de ter uma passagem que me fez chorar.

Lembro-me das suas lágrimas quando não pude mais ficar. Escorriam como dois riachos sem destino e sem consolo. Minha passagem a fez chorar... passei e não fiquei quando ela queria que eu ficasse. Agora é ela quem passa e eu quero que fique sem ela poder. Tudo é passagem. Meu aniversário também é passagem. Daqui a algumas horas não será mais meu aniversário.

– Bem, já vou indo.

– Some não.

– Tenho saído pouco.

E desci a avenida como uma lágrima sem destino e sem consolo.

Hoje à noite, amigos e amigas irão lá em casa para o meu aniversário. Levarão presentes e eu abrirei cada um, com gratidão, alegria e carinho. Mas ficará, no canto da minha lembrança, um presente que um dia ganhei e jamais abri. Um presente que floriu, encantou, riu, chorou... e foi embora.

Dois sorrisos

27 de Agosto de 2025, por José Antônio 0

De repente, senti a mão sendo roçada por algo macio. Era a mãozinha de um bebê. Confesso que até já havia me esquecido da minha mão pousada no encosto do banco à minha frente, na lotação.

Quando o bebê percebeu o contato inesperado, tirou depressa a mão. Resolvi levar o negócio adiante e, desta vez, fui eu que toquei a mãozinha dele. Mais uma vez o bebê se desvencilhou, me encarando sério e bochechudo. A mãe não via nada, ninguém via nada, só eu e o bebê estávamos naquela perseguição.

Ele chegava a mãozinha pra lá, e lá ia eu atrás, como que em busca de algo puro e bom que pudesse tornar cristalina minha escrita, que muitas vezes dialoga com o sussurro do íntimo de quem me lê. Olhei disfarçadamente para os lados. Ninguém nos olhava. De novo, estava a minha mão correndo atrás da do bebê. Ele me olhou fixo. Não sorriu. Senti um frio na espinha: É melhor eu parar com isso. Esse bebê vai chorar. 

Nesse momento, a mulher deu o sinal e o lotação parou. Levantou-se com o seu filhinho e foi saindo do ônibus. O bebê ainda continuava olhando para trás, lá no colo dela. Não tirava os dois olhões dos meus olhos. Antes que saíssem, me lançou um sorriso. Sorri também, mesmo não sendo puro como ele.

O ônibus partiu e eu fiquei estacionado no sorriso do bebê. Cheguei à conclusão de que não devo ser tão miserável, pois mereci ganhar um sorriso da pureza. Tão puro que nem dentes mostrou.

Ontem, a coisa aconteceu de novo. Parei o carro num cruzamento e dei preferência para duas adolescentes passarem. Elas passaram sérias, nem aí. Quase no fim do trajeto, uma delas olhou para mim e sorriu serena, num misto de gratidão e paz.

Aqueles poucos segundos me fizeram sentir que a bondade humana ainda teima em se mostrar, mesmo que num desfile rápido e fugaz. Dei a partida enternecido com aquele sorriso que nunca mais esqueci, vindo de quem nunca mais eu vi.

Faço contorcionismos com as palavras, tentando segurar pela mão os momentos puros da vida. Mas eles sempre se vão, partem no colo do efêmero... e deixam um sorriso de criança nova, um jeito de sorrir que faz uma cócega gostosa na alma da gente.

Faço malabarismos com as palavras. E quando consigo equilibrá-las no papel, o que deixo ali ensaia sorrisos. Mesmo que com dentes afiados, o sorriso no meu papel procura revelar um pouco da alegria que fica escondida e humilde nos fragmentos despercebidos do dia a dia: a alegria de que tudo pode ser renovado quando a gente passa a ver diferente. Para percebê-la é preciso brincar como criança e ter uma gratidão serena para com as coisas pequenas.

LA BELLE JOU-JOU

04 de Agosto de 2025, por José Antônio 0

O nascimento de Vênus!!!

Foi isso que o Rosinaldo viu quando aquela mulher escultural saiu da piscina. Molhadinha, cabelos escorridos, seios firmes, cintura aviolada, gotículas se misturando com os arrepios de sua barriga e coxas… 

Do corpo, escorriam filetes de líquida perdição que se empoçavam ao lado da cadeira de sol. 

Se a beldade era quadro vivo de Botticelli, Rosinaldo era estátua de Michelangelo: ficou petrificado.

A bela se deitou em sua cadeira, colocou seus óculos escuros e ficou gostosamente exposta à visitação pública. Quem era ela? Como se chamava? Jamais fora vista no clube até então.

Não deu outra. Rosinaldo atirou-se ao barzinho e voltou com dois drinks:

- Um para você e outro para mim!

A Vênus recém-nascida tirou os óculos escuros e lançou um olhar de gostoso abismo para Rosinaldo. Depois, iluminou o rosto com um sorriso penetrante:

- Oh!… Que gentil! Aceito sim.

E, a partir daquele dia, passou a aceitar todos os drinks e presentes que Rosinaldo lhe dava. 

Fazia questão de ser chamada de Jou-Jou. 

- Sim, meu bem. Pronuncia-se “Juju”. Meu pai, comerciante de joias francês, me pôs o nome de Bijou. Sabe o que significa Bijou em francês? Joia! Daí o meu apelido carinhoso: Jou-Jou. Ai… ai…

E fez um beiciinho de Brigitte Bardot.

Rosinaldo pulou de ponta-cabeça. Durante muitos dias ele beijou a Bijou.

E assim caminhava a histoire d’amour…

Beijos… loucuras… gritinhos franceses… viagens… joias… mais gritinhos franceses ainda… roupas caras… cartão de crédito em conjunto… gritinhos franceses e franceses gemidos… Que loucura, meu Deus!

Uma noite, Rosinaldo levou a sua Jou-Jou a uma exposição de doces exóticos. Ela olhou languidamente para ele e sensualizou:

- Benzinho, compra um docinho para a tua Jou-Jou! Põe um docinho na boquinha da somente tua Jou-Jou…

Os preços dos doces eram salgados. Quase que Rosinaldo teve de penhorar dois bastonetes e sua retina para pagar os doces exóticos. Mas valiam as penas por Jou-Jou…valiam as pernas de Jou-Jou…

- Você sabe como adoçar a minha vida tão só! Às vezes, choro porque sou tão sozinha… 

 E a Jou-Jou fazia um biquinho no tamanho exato de uma moeda.

Rosinaldo, comovido, fazia promessas e promessas de nunca deixá-la só.

Um dia, Jou-Jou sumiu. Não deixou rastos nem restos. Nunca mais foi vista. Rosinaldo fez de tudo para reavê-la. Em vão.

 Por causa de ficar perdido nos fundos da Jou-Jou, o investimento não passou de fundos perdidos. O dinheiro jamais voltou. 

 Jou-Jou era apenas uma Bijou… teria!