O Verso e o Controverso

Professora Maria da Luz Miranda – “Dona Nonó”: uma homenagem

19 de Janeiro de 2022, por João Magalhães 0

Professora Maria da Luz Miranda, a dona Nonó (foto arquivo pessoal)

Resende Costa, através da Câmara Municipal, homenageou esta sua filha ilustre, dando seu nome a uma de suas ruas. Nosso “Jornal das Lajes”, que tem se dedicado ao histórico de nossas ruas e sempre destacou pessoas que fizeram ou fazem história em nosso município, naturalmente se associa a essa homenagem.

Cedo a palavra ao Paulo Jesus Magalhães, filho caçula da “Tia Nonó”, que fez a pesquisa sobre a trajetória de sua vida. Tia porque foi casada com o tio Jesus Eduardo Magalhães, irmão de meu pai.

 

“Uma guerreira, uma vencedora”

“Filha de José Severino Miranda e Hipólita Áurea da Trindade, nascia na cidade de Resende Costa, em 13/07/1913, a segunda filha do casal: Maria da Luz Miranda, conhecida carinhosamente por Dona Nonó. Seus pais, de origem simples e humilde, lutaram com muita dificuldade para obter o sustento da família, constituída por cinco filhos.

Após concluir o primário, seus pais, sem medir esforços, decidiram dar continuidade aos seus estudos, realizando sua matrícula no renomado colégio “Nossa Senhora das Dores”, situado na cidade de São João del-Rei, o qual era administrado pela Irmandade das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. Por ser aluna interna, em suas férias escolares, partia de trem da estação central com destino à estação César de Pina, onde se encontrava com seu pai para trazê-la a cavalo até Resende Costa, sendo que o mesmo ritual ocorria no final do período das férias.

Com o passar dos dias, o corpo docente no colégio, observando seu jeito natural de fazer humor, convidou-a para fazer parte do grupo teatral ali existente, obtendo grande êxito. Após se formar, retornou a sua cidade natal, iniciando carreira como professora. Nomeada pelo Estado, lecionou aproximadamente 31 anos, conforme demonstrado no histórico anexo [esses dados biográficos foram enviados à câmara municipal para a aprovação do projeto, dando seu nome a uma rua da cidade].

Por volta de 1942, foi convidada por Gentil Vale para participar do grupo teatral juntamente com os amadores José Ramos de Melo, Prudêncio Gomes dos Santos, Francisco Peluzi, Nonó e Chiquinho Maricota (filhos de dona Hipólita), Maria de Melo, Olga Rios Pinto, Naná do Juquinha, André, Marfísia, Elzi Lara, Benedito Teixeira, José Nicodemos, Benedita Silva, Aílton, Zizi, Maria Ambrozina, Zezé de Melo, Arlindo Coelho, Sinval Reis, Jair do Josué, Gisélia Silva, Albertina Teixeira, Filomena Andrade, Quito, José Soares, os quais mencionados nos livros “Escavações no Tempo” e “Ecos de Ontem”, ambos de autoria de Gentil Vale.

Em 1944, casou-se com Jesus Eduardo Magalhães, natural de Resende Costa, constituindo uma família formada por onze filhos.

Nas horas de folga, “dona Nonó” lecionava em sua residência em caráter particular e gratuito, demonstrando assim o amor que sentia pela profissão. Apesar de ter sido rotulada como uma mulher muito brava, dona Nonó carregava consigo uma bondade infinita, jamais fazendo distinção de raça, cor, crença religiosa, classe social etc.

Em meados de 1969 a 1970, foi acometida pela enfermidade, interrompendo de vez a sua carreira. Em 1974, aos 61 anos de idade, veio a falecer, causando uma grande perda para todos.”

Acrescento ao texto do Paulo minhas vivências e recordações. “Tia Nonó” sempre teve muito xodó comigo. Quando se casou, em 1944, eu já lá ia pelos 5 anos de idade. Quando morava na casa na praça Dom Lara, aqui perto do cemitério, por muitas vezes me acolheu lá. Por meio dela, fui também muito acolhido pela dona Hipólita (“Sá Iporta”, como falávamos!).

Mais tarde, fazendo o curso primário no Assis Resende, embora não fosse aluno dela, pois a professora de nossa classe até tirar o diploma foi a saudosa dona Maria Ivone Sousa, filha do Alcides Sousa, o contato era direto.

Quando seminarista camiliano, nas férias, tinha que visitá-la frequentemente. Ela fazia questão. Participou muito da cerimônia e festejos de minha ordenação sacerdotal em 1964, na nossa igreja matriz de N. Sra. da Penha.

Lembro-me muito das tratativas com ela quanto ao enxoval, quando encaminhei e levei para o seminário camiliano, em São Paulo, seu filho José Severino, que desejava ser padre.

Foi muito triste o dia em que (aí por 1969 ou 1970), já combalida pela doença, amparei-a junto com o tio Jesus e a acomodamos no meu fusca para levá-la a São João del-Rei para um exame, cujo resultado nos inquietou demais.

Como eu fazia na minha infância: “A benção” tia Nonó!  Sua vida agora está marcada numa rua da cidade, reforçando assim a memória dos que conviveram com a senhora.

Natal e seus símbolos: uma promessa de Esperança

16 de Dezembro de 2021, por João Magalhães 0

Novembro, o luto. Finados, o fim da vida. Dezembro: Natal, alegria, nascimento, início da vida, aniversário de Jesus. A comemoração mais alegre da liturgia católica, acho eu, tem numerosos símbolos. Sinais-símbolo, pois atingem nosso emocional. Cada pessoa tem suas preferências. –

Para nós dos velhos tempos, crianças pobres nascidas e criadas lá no velho Tijuco, quase um pequeno arraial, longe da cidade, a vila – como chamávamos, o Natal tinha pouco significado. A pobreza não permitia qualquer presente. A grande sensação era a Missa do Galo, quando podíamos, junto com os adultos, vencer os terrores da noite, sobretudo a assombrada cava do barranco do cruzeiro, fugindo da lamparina de querosene e usufruindo da iluminação de nossa matriz que o Azevedo (empresa que fornecia luz para a cidade durante um certo período) não desligava até o amanhecer.

O leitor poderá encontrar na internet os símbolos do Natal, com suas origens e seus significados: luzes - estrela - sinos - vela - anjo - missa do galo - bolas - árvore - Papai Noel - cartão de natal - peru - ceia - presentes – panetone - guirlandas.

As guirlandas merecem um ligeiro comentário. Surgiram na Roma antiga. Sinal de boas-vindas para os visitantes. Inicialmente um símbolo pagão, passaram a ser utilizadas pela Igreja Católica com a adaptação de velas, donde surgiu a Coroa do Advento (do latim, Adventus: vinda, chegada).

A Coroa do Avento é uma espécie de guirlanda onde se colocam quatro velas, uma para cada semana antes do Natal. Advento, na liturgia católica, são semanas de reflexão e ritos preparatórios para o dia de Natal.

Muito mais do que um bonito objeto de decoração, para os cristãos a Coroa do Advento é um pré-anúncio do Natal. O seu formato simboliza a eternidade e suas folhas verdes, a esperança. Nas igrejas, cada vela da coroa tem uma cor diferente e são acesas na seguinte ordem: verde, vermelha, roxa e branca. A data é 1839 e foi usada para as crianças que ansiavam pela chegada do Natal.

Mas, na minha preferência, o melhor símbolo do Natal é o presépio, criação de São Francisco de Assis, em 1223. Com a presença dos animais do estábulo que aqueceram Jesus, a estrela de Belém, que indicou a caminho para os reis magos: Baltazar, Gaspar e Belchior; o anjo que anuncia ao mundo seu nascimento, os pastores.

O presépio (do latim, praesaepium: curral, estábulo, manjedoura) traz didática e biblicamente mensagens importantes. Lições a nós, humanos. O nascimento de Jesus dá-se num presépio porque não havia lugar nas hospedarias. No meio de animais, portanto junto à natureza que nos acolhe. Os primeiros a saber do parto, avisados pelo anjo, pertencem à classe popular: os pastores trabalhando nas intempéries da noite a vigiar o rebanho. Não titubearam. Talvez a mãe e o recém-nascido precisassem de ajuda (Lc 2,6-20). O dever cívico levou os pais a Belém para o recenseamento. Os anjos anunciando paz às pessoas de boa vontade. A homenagem vem dos estrangeiros (os três reis magos, conforme a tradição). Do poder político de sua terra, corrupto e sanguinário, só vieram falsidade e perseguição!

Assim como em novembro, o apelo foi para um lamento saudoso e uma reverência às vítimas da Covid-19, anseia-se que o Natal seja uma celebração para desenvolver a paz; para uma movimentação social em defesa dos direitos humanos, atualmente tão vilipendiados; para a diluição de todo tipo de preconceitos; para que o Pão da Vida, o Pannis Angelicus da eucaristia católica, nutra nosso espírito de solidariedade a fim de que “o pão nosso de cada dia” não falte a todos os necessitados.

É o que penso. E você?

Novembro – Finados

17 de Novembro de 2021, por João Magalhães 0

Não ouso afirmar que seja universal, mas a História mostra que uma grande maioria dos povos cultua seus mortos. Cemitérios, arte funerária, monumentos, estátuas, ritos religiosos, relíquias, amuletos etc. são a prova.

O mês de novembro caracteriza-se por Finados. De finar. Aqueles cuja vida biológica chegou ao fim, naturalmente ou provocada. Para a teologia cristã, a morte não existe para vida humana, pois ela não tem fim. Apenas transforma-se (“Vita mutatur, non tolitur”: a vida não é tirada, {apenas} muda-se). Até a morte do corpo é provisória, pois a ressurreição é dogma de fé.

Quando estas linhas chegarem ao leitor, a data apropriada já terá passado (o feriado de 2 de novembro), mas, na minha opinião, uma meditação, no sentido de se fazer um ditado a si mesmo (me ditare) sobre a vida e sua finitude e também sobre as vidas que já se foram, é sempre recomendável.

O culto aos mortos é sobretudo um culto à vida. À vida que tiveram. Vidas idas que fazem falta a nós que continuamos vivos. De modo especial, acho eu, merece um culto mais intenso, mais dedicado, a vida dos humanistas. Pessoas que puseram sua existência a serviço da vida. Pessoas que sempre colocaram em primeiro lugar o ser humano. Pessoas que perderam até a própria vida para salvar a dos outros.

Agora, inesperadamente, chegou mais uma peste, a da COVID-19, dentre as muitas que já assolaram a humanidade. Cabe uma reverência profunda às vítimas fatais e uma solidariedade afetuosa e prática ao sofrimento de seus familiares. Mas urge também um lamento indignado e uma luta renhida contra as forças do mal que rapinaram muitas vidas por omissão, interesses escusos, negacionismo, ignorância culpada, egoísmo e outros mais. Pessoa cujas vidas seriam salvas se tivessem sido adequadamente cuidadas!

Há que se lutar pela vida de todos os entes e barrar seus destrutores: os vírus, bactérias, fungos... E, de modo especial, os seres humanos que agem na contramão. Em vez de cuidar, matam.

Para algum leitor que não tem muita familiaridade com a Bíblia: ela tem alguns livros, escritos no gênero literário apocalíptico (de: “apocalipse”, que significa revelação). Apresentam acontecimentos numa linguagem simbólica e cifrada, entrelaçada por visões, personagens misteriosas, cenas estranhas, gestos inusitados, julgamento final, punição dos ímpios etc.

O mais incisivo deles é o Apocalipse, livro final do Novo Testamento. O historiador, sociólogo e teólogo Jacques Ellul escreve sobre ele: “Podemos considerá-lo como um produto cultural que nos esclarece sobre a mentalidade, a ideologia de certos grupos cristãos do fim do século I e sobre as suas reações face a problemas políticos. E nada mais. Seguramente, nada mais!” (“Apocalipse. Arquitetura em movimento” p 6 – Ed. Paulinas – 1980). Seu capítulo 6, versículos 7 e 8, que descreve o poder das forças do mal, simbolizadas pelo cavaleiro-morte, na minha visão, parece escrito para hoje. Basta atualizar para o momento brasileiro de agora.

Antes, uma explicação para os versículos citados. Segundo a Bíblia de Jerusalém, os quatro seres vivos (leão – novilho – homem – águia) “representam o que há de mais nobre (leão), de mais forte (novilho), de mais sábio (homem), de mais ágil (águia) na criação”. O apelo é para Jesus Cristo: “Vem!” “Quando abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto Ser vivo que dizia: “Vem!”. Vi aparecer um cavalo [atualização: moto, cavalo de aço] esverdeado [é a cor do cadáver que se decompõe pelo efeito da peste]. Seu montador chamava-se “a Morte” e Hades o acompanhava [Hades:  na mitologia grega, o deus da morte, o deus do subterrâneo, portanto das covas]. Foi-lhe dado o poder sobre a quarta parte da terra, para que exterminasse pela espada [atualização: fuzis, metralhadoras, bombas, depredações...], pela fome, pela peste e pelas feras da terra [atualização: discurso do ódio, fakenews, calúnias...]”.

Seria forçar muito interpretar o quarto ser vivo (águia, símbolo da agilidade) chamando Jesus para derrotar o mal, como um apelo para agir o mais rápido possível contra a Covid?  O que, infelizmente, não foi feito pelos responsáveis pela nação.

É o que penso. E você?

“Lições de Cigarra” do Evaldo

14 de Outubro de 2021, por João Magalhães 0

Resende Costa tem sido berço de bons poetas. Teve poetas que versejaram poemas até em latim. Caso do Zé Procópio, que foi meu paraninfo quando de minha ordenação sacerdotal. Seu discurso no salão do grupo escolar Assis Resende foi escrito e pronunciado num latim clássico em odes horacianas. Até hoje tenho a cópia ilustrada que ele me deu.

Caso também do Milled Hannas, que deixou belos poemas em latim, assinados com o nome poético: Theofilus a solitudine (Teófilo (amigo de Deus) da solidão). Era prefeito de Resende Costa quando se comemorou o cinquentenário de criação do município. No programa/convite paras os festejos, Milled saúda a cidade com “Carmen ad dilectissimam urbem Resendecostensem” (hino à diletíssima cidade resende-costense), poetando em latim a modo do “Carmen Saeculare”, de Horácio.

Para ilustrar, uma estrofe com livre tradução minha: “Carmine insignem celebrare festo/ Civitatem nunc decet ore pleno/Rupis aeternae positam perite// Culmine summo!” (Agora, faz-se necessário celebrar de boca cheia, com um festivo canto, a insigne cidade, assentada caprichosamente no supremo cume de uma laje eterna) E outros poetas, como o Abel Lara, Terezinha Hannas e José Antônio Oliveira de Resende etc.

Modernamente é o Evaldo Balbino, nosso colega e amigo aqui neste jornal. Meu vizinho até de página, pois, às vezes, nossas colunas saem no mesmo espaço.

Minha experiência com poemas infanto-juvenis foi longa, uma vez que por 22 anos fui professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira e também de Literatura Infantil no Curso Normal (atualmente Magistério). O quarto ano era de especialização para o pré-primário, com estágio acompanhado por nós professores. Implicava o estudo e a prática da Literatura Infantil.

Meu primeiro contato com o Evaldo poeta foi quando li seu livro de poemas “Moinho”, que acho um dos melhores que já publicou. Evaldo antecipava o que atualmente vem se chamando de “Escrevivências”, ou seja, o autor transforma suas vivências e influências em arte, em textos, pinturas etc.

Senti o Evaldo transpirando, “suando” numa criativa poesia, sua educação, seu ambiente, suas situações vitais, sobretudo lá no povoado do Ribeirão, onde nasceu.  Agora vem seu mais recente lançamento:“Lições de Cigarra”, publicado pela Ed. Helvetia.

Nos muitos anos de ensino de literatura para jovens, sempre insisti com eles que o método de avaliar uma prosa e até uma poesia épica não pode ser o mesmo para a poesia lírica. Se na prosa e na poesia épica você pode comentar as estruturas narrativas, a formação das personagens, a criatividade da trama, o vigor da ambientação, o fluxo da linguagem, na poesia lírica não vejo esta possibilidade.

A avaliação do poema lírico se dá mais pela intuição, pelas agulhadas que ele dá em nossa sensibilidade, pelo clima psicoemocional que cria, pelos versos inusitados, por uma sonoridade rítmica no momento e espaço certos.

Quanto ao poema para crianças – e aproveito para dizer que um poema bom para os pequenos é bom também para os grandes, porque em nós adultos existe uma faixa criança que nunca desaparece – há que se observarem muitas características para ponderá-lo.

Tomo emprestado o conceito de matéria e forma da metafísica aristotélico-tomista para apresentar algumas dessas características. Matéria (ou seja, os temas, os assuntos): animais, brinquedos, brincadeiras, árvores, flores, seres fantásticos, objetos curiosos, partes do corpo, choro, alaridos e tantos outros. No livro do Evaldo: Cigarra, sapo, tanajura, minhoca, saci-pererê, casa, flor, barco e muitos mais.

A forma (isto é, a criatividade na expressão dos temas.): são fundamentais a sonoridade e ritmo, que geram a musicalidade; o drama, que possibilita movimentação, encenação, figurinos; a comicidade, que provoca o riso, a gargalhada, as palmas; a facilidade para decorar (poema orecchiabile, como falam os italianos); a práxis: desenhos, modelagens, colagens; as ilustrações muito necessárias. De preferência, as metonímicas (apresentam só uma parte, a imaginação completa o restante).

E é o momento dos aplausos para a ilustradora Liss Thane. Belíssimas. Amplificam maravilhosamente a significância dos poemas.

Em tudo, o “Lições de cigarra” é opulento. Muito rico. Um primor.  Merece o sucesso que está obtendo.

Setembro Amarelo: Posvenção do suicídio

15 de Setembro de 2021, por João Magalhães 0

Isto mesmo, como está escrito: “Posvenção”. Palavra não dicionarizada, mas é o termo que se está usando para significar o trabalho que se faz com os familiares de pessoas que praticaram o suicídio, ou tentaram praticá-lo.

Esta coluna, dada a gravidade dos acontecimentos aqui em nosso município, normalmente no mês de setembro, tem abordado o preocupante problema do autocídio (“Suicídio, você já pensou nisso?- “Setembro Amarelo” -“Setembro Amarelo e a morte autoinfligida”, respectivamente nos números 23, 162 e 197 deste jornal).

Fala-se muito de prevenção; não tanto, porém, da preocupação que se deve ter com os pais, irmãos, familiares e amigos do suicida.

A psicanalista Mônica Marchese Damini (“Setembro Amarelo: pósvenção (sic) do suicídio. Você sabe o que é isso?”) escreve: “Pósvenção (sic) é o suporte ao luto e a prevenção do suicídio aos enlutados e suas futuras gerações. Os sobreviventes são principalmente os familiares, mas também os amigos, os provedores de ajuda, como os bombeiros que prestaram socorro, médicos que fizeram o atendimento, os terapeutas e a comunidade toda que foi impactada pelo suicídio.”

Mônica, que têm experiência nesse trabalho de posvenção, apresenta dados que engendram preocupação. Cinco a dez pessoas são impactadas diretamente pelo suicídio de alguém próximo; as pessoas enlutadas por suicídio costumam ter um luto mais longo e mais difícil, tanto em intensidade como duração, é diferente do luto normal. Existe muita dificuldade em compreender os motivos e atitude do suicida. Os familiares sentem-se abandonados e questionam o porquê de a pessoa não ter sequer pensando neles; os sobreviventes sofrem impactos físicos, sociais, cognitivos e psicológicos e muitas vezes se torturam com a crise do “e se” (E se eu tivesse feito isso? E se eu não tivesse feito aquilo? E se eu tivesse percebido? Etc.).

No suicídio, a dor de quem tirou a vida é transferida para quem ficou. Ficam para a família as culpas, a vergonha de falar no assunto e o afastamento que a própria comunidade acaba fazendo com ela por não saber como lidar com isso ou como falar com ela. E essas pessoas, que precisam tanto de apoio e acolhimento, acabam ficando cada vez mais isoladas. A vida é muito diferente antes e depois do suicídio de alguém amado.

Como a posvenção é basicamente prevenção, uma vez que um suicídio pode motivar outros, há que se desfazer mitos, tais como: os indivíduos suicidas estavam mesmo determinadosa se matar; toda pessoa que pensa em suicídio tem transtorno psiquiátrico; quem fala em se matar quer apenas chamar a atenção; que falar com alguém sobre suicídio pode encorajar a praticá-lo; os suicídios, em sua maioria, acontecem de repente; quando um indivíduo melhora ou sobrevive, não o praticará mais... Há que se diluir preconceitos, como: quem consulta psiquiatra é doido.

Segundo o instituto Vita Alere (latim: “alere”: alimentar, nutrir) de Prevenção e Posvenção do Suicídio, cabem aos sobreviventes do suicídio os direitos seguintes:

  • Enlutar-se a seu modo e conforme o tempo que for necessário.
  • Saber a verdade sobre o suicídio, ver o corpo do falecido e organizar o funeral, considerando suas necessidades, ideias e rituais.
  • Considerar o suicídio como resultante de causas inter-relacionadas que provocaram uma dor insuportável na pessoa que cometeu o suicídio: o suicídio não foi meramente uma escolha.
  • Viver plenamente, com alegria e tristeza, livre do estigma ou julgamento.
  • Respeitar sua privacidade e a do morto.
  • Receber apoio de parentes, amigos, colegas e outros sobreviventes, assim como de profissionais habilitados, com o conhecimento e o discernimento da dinâmica do processo do luto, dos potenciais fatores de risco e suas consequências.
  • Entrar em contato com o médico ou cuidador (se houve) que acompanhou a pessoa que cometeu o suicídio.
  • Não ser considerado como um candidato ao suicídio ou como um doente mental.
  • Compartilhar sua experiência com outros sobreviventes, cuidadores e com todos que buscam a ampliação do conhecimento acerca do suicídio e do luto por suicídio.
  • Não se exigir ser a mesma pessoa de antes: há uma maneira de se viver antes do suicídio e outra depois dele.

É o que penso. E você?