O Verso e o Controverso

A polêmica da telemedicina

12 de Marco de 2019, por João Magalhães 0

No final de fevereiro o CFM (Conselho Federal de Medicina) revogou a resolução que promulgara, regulamentando a prática da medicina a distância, via internet, computador, telefone etc. e que provocara grande polêmica. Dentro de seu espírito, que é um estímulo à reflexão ante assuntos controversos e tratando-se de resolução com importantes repercussões sociais, a coluna procurou sintetizar os argumentos pró e contra à telemedicina

Conforme a resolução revogada, a telemedicina seria voluntária para o médico e o paciente deveria consentir por escrito, além de estar acompanhado por um profissional de saúde durante a consulta. A primeira consulta deveria ser presencial, admitindo exceções em áreas de difícil acesso. No caso de atendimento por longo tempo ou de doenças crônicas, o paciente só poderia ficar sem consulta presencial por, no máximo, quatro meses.

A telecirurgia só poderia ser feita em ambientes com infraestrutura adequada e com, no mínimo, dois cirurgiões: um remoto e outro presente no local da cirurgia. Seriam permitidas trocas de informações sobre diagnósticos entre os médicos distantes entre si, o esclarecimento de dúvidas etc. E também a teletriagem, ou seja, que um médico avaliasse os sintomas do paciente, a distância, para depois encaminhá-lo ao especialista necessário. Também seria possível monitorar, remotamente, dados sobre saúde dos pacientes – como no caso daqueles que estivessem internados em casa.

De acordo com o que previa a resolução, imagens e dados deveriam ser gravados e mantidos sob sigilo. As informações, mantidas por 20 anos, e a forma de arquivá-las ficariam sob responsabilidade do médico.

Críticas e temores quanto às consequências dessa resolução emergiram de um princípio básico de uma medicina de qualidade: a relação médico/paciente, ou seja, a personalização.

A telemedicina foi tema predominante, aliás, da terceira “Summit Saúde Brasil”, realizada em São Paulo, em agosto de 2018. Nesse simpósio, acentuou-se muito que o avanço da gestão e das tecnologias no setor passam por trabalhar mais com o paciente e com as comunidades. “Os pacientes não querem ser pacientes, mas pessoas. Não querem ter um plano de saúde, mas saúde”, frisou o dr. Clay Johnston na conferência de abertura.

Inovação, sim; tecnologia, sim. São necessárias.  Mas o dr. Johnston insiste: “Estamos aqui para melhorar a vida das pessoas. Antes de pensar no paciente, temos de pensar para o paciente.” Segundo ele, “a proximidade traz resultados a curto prazo, cria uma zona de conforto e faz com que o indivíduo se sinta ‘abraçado.’”  

A coluna ouviu a opinião dos dois médicos de mais longeva atuação em Resende Costa e cercanias quanto à telemedicina.

Dr. Paulo Cezar Fortuna Dias é favorável, pois, de acordo com ele, facilita o contato com centros avançados para se discutir diagnóstico e tratamento; é importante para a atualização médica, principalmente para quem exerce a profissão no interior; o CFM exige o contato do médico especialista que atende a distância com um profissional junto ao paciente para troca de informações e definição do melhor tratamento; é um avanço fundamental no setor de imagens, uma vez que os exames realizados no interior poderão ser avaliados com emissão de laudos muito mais precisos por um especialista a distância;  dá segurança aos profissionais que trabalham em pequenas comunidades, ao fazerem contato com especialistas em casos complexos para se definir a melhor conduta.

Dr. Luiz Antônio Pinto tem sérias objeções: “Acho que descaracteriza a relação médico/paciente desejada, correta. Esse é o problema maior...” “É a desumanização da medicina. Você tem que estar frente a frente com o paciente, conversar, examinar. Na telemedicina, por exemplo, você não vai perceber as agruras dele, da família. E isso responde por uma grande maioria dos atendimentos que a gente faz hoje. Num consultório de atenção básica, hoje, há um percentual de 50 a 60 por cento que se relaciona a problemas ligados à família, à homofobia e a violências por várias razões. Coisas que na telemedicina você não vai discutir. É tudo mecanizado.”

Ainda segundo Luiz Pinto, “trata-se também de uma questão de mercado de trabalho muito clara. Neste difícil mercado de trabalho, vamos colocar tudo na internet porque facilita. Não vai ter que contratar tanta gente”. O médico alerta também para a venda de tecnologia: “A gente sabe que quem domina a tecnologia são as multinacionais. Vai passar muito dinheiro às multinacionais. Daqui a pouco, até o governo entra nisso. E quem não tem condição de acesso a essa tecnologia? E as prefeituras do interior sem recursos? Elas vão ter um computadorzinho fazendo uma consultinha ordinária”, conclui dr. Luiz.

Amor moderno

12 de Fevereiro de 2019, por João Magalhães 0

Vez por outra, gosto de apresentar ao leitor a filosofia desta coluna: “Numa perspectiva de ver-julgar-agir, posicionar-se opinativamente frente a temas que se julga ter importância nas diversas áreas sociais, sobretudo os polêmicos ou controversos, e estimular o leitor a fazer o mesmo”.

Tinha lido uma matéria, muito interessante a meu ver: “Escolas focam em ‘alfabetizar’ para vida online e em formar criadores digitais”, cujo breve resumo dizia: “Sem ter visto o mundo antes da internet, a geração de alunos que hoje está no ensino básico é cercada por uma nova preocupação por parte de educadores. Além do uso da leitura em plataformas tradicionais, está na mira das escolas particulares e públicas de São Paulo o chamado letramento digital ou multiletramento. Nesse caso, um dos focos é ensinar os estudantes a lidar com informações e plataformas digitais para se tornar não só usuário, mas criador”.

 Pouco depois chegou-me um artigo do jornal inglês “The Economist”: “Amor moderno”, com o subtítulo: “A internet transformou a procura pelo amor e a união; ao menos 200 milhões usam serviços de namoro online a cada mês”.

Como o uso das redes digitais para uma das mais importantes decisões de vida, que é a escolha de um companheiro, ainda é polêmico e o texto me parece mais favorável que contra, sintetizo-o para calçar mais a opinião de cada um.

Até aí pelos anos 90, a iniciativa de achar um parceiro online era algo extravagante, excêntrico, que provocava sorrisos de esguelha em grande parte das pessoas, sobretudo nós de geração mais antiga. Lembro-me ainda do dia (tinha uns 10 anos) em que um irmão meu, em nome de meu pai, montou a cavalo e foi até a casa do pai da moça para pedir-lhe consentimento para ela casar-se com outro irmão meu! Era um costume quase obrigatório na época.

 No entanto, hoje, o namoro via internet é uma realidade irreversível.  Nos Estados Unidos, mais de um terço dos casamentos começa hoje com um namoro online. A internet é o segundo recurso mais popular entre os americanos para travar conhecimento com pessoas do sexo oposto e vem se igualando às apresentações do amigo de um amigo” no mundo real.

Segundo o texto, “Encontrar um parceiro na internet é fundamentalmente distinto de um encontro offline. No mundo físico eles são encontrados em redes familiares ou em círculos de amigos e colegas...” As pessoas encontradas online provavelmente não se conhecem. Como resultado, o namoro digital oferece muito mais opções. Em um bar, um coral ou um escritório existem dezenas de parceiros potenciais para uma pessoa. Online são dezenas de milhares. “As relações digitais são feitas somente com consentimento mútuo [e] tornam o mercado de namoro digital muito mais eficiente que o off-line.”

E o estudo vai informando e exemplificando: favorece as pessoas de natureza tímida; aquelas com requisitos particulares, como mesma religião, mesma etnia, etc. Informa: 70% dos gays encontram seus parceiros online. “Esse aspecto de diversidade sexual é uma dádiva: mais pessoas podem encontrar o tipo de relação que procuram.”

Mostra também alguns inconvenientes: a ligação namoro digital com a depressão; o reforço de complexos: “Emoções negativas sobre a imagem do corpo que já existiam antes da internet, mas se amplificaram, uma vez que estranhos podem fazer julgamentos instantâneos sobre a capacidade de atração de alguém. No aplicativo chinês Tantan, os homens manifestam interesse em 60% das mulheres que eles olham, mas as mulheres se mostram interessadas em apenas 6% dos homens: essa dinâmica sugere que 5% dos homens nunca conseguirão marcar um encontro.”

A realidade está aí. É progressiva e vai ficar. Julgo eu que o mais importante é uma educação para o uso da internet como estão fazendo alguns colégios, ou seja, o preparo que cada usuário deve ter para identificar falsos perfis, fraudes, engodos, acautelar-se quanto a sites profissionais, enxergar além das aparências, etc.

É o que penso. E você?

 

(Fonte: O Estado de S. Paulo, 5/8/18 e 19/8/18)

Estrangeirismos: por que não traduzir?!

12 de Dezembro de 2018, por João Magalhães 0

“Venha provar meu brunch
Saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch
Eu ando de ferryboat...

Eu tenho savoir-faire
Meu temperamento é light
Minha casa é hi-tech
Toda hora rola um insight
Já fui fã do Jethro Tull
Hoje me amarro no Slash
Minha vida agora é cool
Meu passado é que foi trash...(...)”.

(Samba do Approach – Zeca Baleiro)

 

Parabéns ao Zeca Baleiro pela ironia. Tive que abrir a internet para ver esses tais de Slash e Trash. Peço licença, também, para entrar no quintal “Contemplando as palavras” de nossa companheira de JL, Regina Coelho.

Os protestos são muito antigos. Antes contra o Galicismo, generalizado por causa do Iluminismo francês, Império napoleônico... “La vem o Dom Galicismo, que em tudo mete o nariz / e com todo seu cinismo, / transformou aqui em Paris” (Bastos Tigre?). Agora é o Anglicismo do império britânico e norte-americano.

Sala de espera de um hospital. Plaquinha com sinal indicativo “Back office”. Não sabia. Estava sem condições de internet. Tive que interromper a recepcionista que atendia outro cliente. Explicou: uma sala de atendimento, meio escondida, para assuntos administrativos. Você sabe?

Rua. Num prédio pré-moldado, uma placa grande: “Self Storage”. Que é isso? Com meu inglês já bastante zinabrado, em casa, tive que ir ao dicionário: Armazenagem por conta própria. Sistema de autosserviço para guardar coisas. O cliente aluga e só ele tem a chave.

Sozinho, na sala de espera para um ecocardiograma. Lá, uma máquina de café. Tudo em inglês, letrinhas miúdas: “Strong”?! A custo enxerguei o “light”. Será que entendi? Café forte? Café sem açúcar? Por que não traduzir? Ou será para deixar os analfabetos do inglês sem café?! Tudo isso em duas semanas, rodando pela cidade de São Paulo! O leitor encontrará muitos mais exemplos.

Desde que um povo domina outro povo, o dominador impõe sua língua e através dela sua cultura. Sobretudo nos grandes impérios. É o Grego (Helenismo) praticamente exigindo tradução para ele do Antigo Testamento e sendo, inclusive, língua original do Novo. O Grego comum (koiné) falado pelos comerciantes do Mar Mediterrâneo.

O Latim do longevo Império Romano. O latim popular alastrado para os povos conquistados, origem aliás de nossas línguas neolatinas: Italiano, português, espanhol, francês, romeno e outras.

Agora o Inglês do Império Britânico e, após a primeira guerra mundial, do domínio norte-americano. Portanto, a democracia linguística nunca existiu nem existirá em qualquer império! Sobretudo agora nesta era internética globalizante.

É óbvio que a língua é um elemento orgânico que está sempre se modificando. A língua é um órgão social, móvel, dinâmico, crescente. Por isso enriquece. Tentar coibir ou até mesmo proibir é enorme perda de tempo! Há que se receber bem as transformações linguísticas. Ampliam o idioma, aperfeiçoam e contribuem para a arte. Frequentemente precisa-se até de importar palavras ou expressões que dificilmente têm equivalentes no próprio vernáculo. Cito um exemplo: a palavra “Commodity” tão usada pelos economistas. Como traduzi-la? No fundo, quem decide ou quem descarta somos nós, os falantes. O que precisa é bom senso, evitando exageros.

Mas em nosso país, já é abuso. Está demais! Você tem palavras vernáculas que dão ideia perfeita do assunto, mas usam-se as estrangeiras. Por quê? Por exibicionismo, por elitismo, por esnobação, para mostrar status, etc. E os pernósticos mostrando sua cultura?!  Não se trata de proibir. É bobagem. Mas podem-se adotar medidas protetoras e auxiliadoras.

É missão importante dos regentes da sociedade facilitar as comunicações para os cidadãos. Acho que deve ser obrigatória, por lei, a tradução de textos de utilidade pública escritos em outras línguas. Obriguem a traduzir. Multem quem não o faz.

Você dirá: pela internet acho tudo. Mas pergunto: e se eu não tiver acesso no momento à internet?

Meu voto é antibolsonaro!

17 de Outubro de 2018, por João Magalhães 0

Não pela pessoa, que não conheço, mas pela ideologia política que ela representa.

Pleno acordo com o jornalista Eugênio Bucci em seu texto Tortura e estupro na cultura política: “Bolsonaro representa uma cultura política para a qual a democracia não é um valor, mas um mero detalhe administrativo dispensável. Nessa cultura, a tortura tem serventia e o estupro é culpa da ‘beleza’ da mulher. Esta cultura política não vai acabar com a corrupção. Esta cultura é velha e nunca, em lugar nenhum, acabou com a corrupção. Cuidado. Não faça do seu candidato a presidente uma arma, a próxima vítima pode ser você.”

Seria uma afronta a mim mesmo agregar-me pelo voto a um líder com tal postura. Sobretudo, um acinte ao meu passado.

Recentemente, em conversa com uma jovem senhora que perdeu um ente querido, sua mãe, falou-me que votará em Bolsonaro. Instantaneamente veio-me em tela as ofensas à mulher, nos ataques à deputada Maria do Rosário, justamente a grande batalhadora da lei de proteção à mulher, que leva seu nome. Uma lembrança às eleitoras do Bolsonaro: numa entrevista ao jornal Zero Hora de Porto Alegre (em 2014), declarou: “Ela (deputada Maria do Rosário) não merece (ser estuprada) porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria”. Quer dizer que mulher bonita merece ser estuprada?!!

Respeitei, mas não resisti: Senhora, você votaria num candidato que, ao saber que você estava exumando os ossos de sua mãe, comentasse que “quem procura osso é cachorro”?!

Em visita à exposição da vida atuante do cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, visita emocionante porque eu participei de muitos eventos lá em amostra, vendo as fotos da exumação dos assassinados pela ditadura militar no cemitério de Perus/SP, lembrei-me dessa frase horrenda que alguma impressa da época atribuiu ao Bolsonaro!

Um extrato do longo voto de Bolsonaro quando do impeachment da Dilma Rousseff “Pelo nome que entrará para a história desta data, pela forma como conduziu os trabalhos desta casa, parabéns presidente Eduardo Cunha” (!)... Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff (por quem foi torturada), e por Deus acima de todos (que Deus será esse!?), o meu voto é sim.”

Ainda o jornalista Eugênio Bucci: “O nome de Carlos Alberto Brilhante Ustra, notório torturador e chefe de torturadores, está escrito com sangue alheio na História do Brasil. Ao exaltá-lo, Bolsonaro fez apologia do crime de tortura.”

Quem visitou presos políticos na época desse coronel, ou tem amigo torturado como é o caso do Antônio Soligo, amigo e colega meu de turma no sacerdócio católico, sente um arrepio generalizado frente a tal homenagem.

Já escrevi a respeito. Como faz algum tempo, relato novamente. Um dos dias mais terríveis de minha vida foi quando conheci (embora saiba, por ética e respeito à pessoa jamais revelarei seu nome) um torturador do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e ouvi em silêncio, à porta da igreja, esperando um casamento a oficiar, o relato minucioso das barbaridades que praticou. “São comunistas! Ateus subversivos! Têm que bater, tem que morrer!”

E falava sem remorso algum e ainda dizia: “Todo domingo comungo na igreja do Largo São Francisco! Lembrei-me de Cristo aos apóstolos (Jo 16,2)’”. Homenagear chefe de torturadores?!

Sabemos que o processo político tem seus balanços. Avanços e retrocessos. O tempo de agora está apontando para ditaduras e totalitarismos pelo voto. Partidos nazifascistas estão conseguindo o poder, mesmo em nações de forte cultura democrática, mas quem preza o humano, preza a liberdade, preza a participação construtiva e luta pela igualdade não pode se conformar.

Provavelmente o que escrevi e outros tantos também não vão mudar o voto de ninguém, mas cabe um alerta, porque, se algum dia formos vítimas, não o será por falta de aviso.

É o que penso. E você?

APAC: marcas de uma visita

19 de Setembro de 2018, por João Magalhães 0

Momento de partilha e encontro com os recuperandos

Cansei de ver, em letras grandes, APAC, nas vindas de São Paulo para Resende Costa, via Lavras. O que seria? Em conversa com o Dr. Luiz Antônio Pinto sobre sua atuação com estagiários de medicina, tive a explicação: APAC –Associação de Proteção e Assistência aos Condenados. Entidade com profundo senso humanitário. Mediante os detalhes da atuação dela junto aos presos, senti necessidade de abordar o assunto nesta coluna que tem, como um dos seus fulcros, o Humanismo. Implicaria uma visita. André Eustáquio, nosso editor-chefe, ampliou: Quem sabe uma reportagem especial? Fizemos a visita. E aconteceu.

A visita foi-me um sacramento que imprime caráter: marcas indeléveis no espírito.

Marca um: uma sensação intensa, bem resumida por dom Serafim Fernandes de Araújo, cardeal arcebispo emérito de Belo Horizonte: “Na APAC não é ter esperança, é ser esperança”, ou seja, o que se espera está-se realizando. Este sentimento encaminhou-me, também, para Dom Paulo Evaristo Arns, de cuja Pastoral fiz parte por muito tempo: “Ex spe in spem” (De esperança em esperança).

Marca dois: O Movimento Jesus. Chamo assim porque Jesus não institucionalizou nada. Sua ação consistiu em reformar e/ou inovar no estabelecido: “Foi dito aos antigos, eu, porém, vos digo...” De repente constato numa instituição um trabalho focado neste Movimento.

Da conversa com Antônio Carlos de Jesus Fuzatto, presidente da APAC de São João del-Rei e vice-presidente da FBAC (Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados), vieram as informações da origem da entidade. Surgiu de movimentos voluntários de católicos e evangélicos. Ou seja, grupos de pastoral penitenciária. Movimento iniciado no presídio Humaitá em São José dos Campos, em 1972, sob liderança dos advogados Mário Ottoboni e Franz de Castro Holzvarth, pais-fundadores da APAC.

O propósito: desenvolver um projeto voltado à recuperação do preso, suprindo uma deficiência do Estado. Ganhou personalidade jurídica em 1974 e passou a atuar como órgão parceiro da Justiça na execução da pena.

O melhor da conversa – agora fortificada pelo nosso cicerone na visita, Wellington Paixão, ainda cumprindo pena, mas já trabalhando com o presidente Fuzatto e com o Judiciário no apostolado apaqueano – foi o testemunho vivencial dos 12 Elementos Fundamentais do Método APAC.

  1. Participação da Comunidade: Significa usar de meios adequados para impedir uma ruptura da comunidade com a vida do preso. Desde o primeiro momento, acomunidade, ou seja, pessoas de seu meio (familiares, companheiros, amigos, colegas) devem estar presentes.

“Se mobilizarmos a sociedade por meio de audiências públicas, de convites às lideranças civis, de políticas religiosas e de grupos distintos da sociedade, utilizando-se dos meios de comunicação social, dos testemunhos de recuperandos, das apresentações de teatro, coral, etc. para conhecer in loco uma unidade da APAC, dar-se á, com o tempo, o rompimento das barreiras do preconceito, que, geralmente, estão arraigadas em nossa cultura. Ou seja, aquela ideia de que o preso tem que sofrer, tem que morrer precisa ser superada.”

  1. O recuperando ajudando o recuperando: “Despertar nos recuperandos os sentimentos de responsabilidade, de ajuda mútua, de solidariedade e de fraternidade e da importância de viver em comunidade.

Possibilita que o recuperando seja protagonista de sua própria recuperação. Dentro dessa visão, destaca-se o Conselho de Sinceridade e Solidariedade (CSS), constituído tão somente por recuperandos, cabendo-lhes as tarefas de limpeza, organização, segurança e disciplina.”

  1. Trabalho: Seu valor dentro e fora da unidade, dependendo do regime do internado. No regime fechado, o objetivo é a recuperação dos valores: despertar a autoestima, as potencialidades, o senso de estética e a criatividade. A ênfase vai para o trabalho artesanal, o mais diversificado possível.

No regime semiaberto, objetiva-se a profissionalização. É preciso atentar-se para não transformar este trabalho numa empresa.

  1. Espiritualidade: Ferramenta de recuperação de valores morais. O método vê o homem como um ser biopsicossocial e espiritual.

“Por esta razão, deverão ser organizadas equipes de evangelização cristã para que, por meio de um trabalho ecumênico, possa ajudar o recuperando a dar-se conta de que o ser humano também é espirito. Contudo, não se pode afirmar que somente a espiritualidade resolve o problema”, mas contribui muito.

  1. Assistência jurídica: “Segundo dados estatísticos, 95% da população carcerária não reúne condições financeiras para contratar um advogado, por isso é preciso que a APAC ofereça uma assistência jurídica gratuita, especificamente na fase de execução da pena, atentando-se, para que essa assistência jurídica se restrinja apenas aos condenados que manifestem adesão oferecida pela APAC e que possuam mérito.”
  1. Assistência à saúde: Referindo-se às condições insalubres de cumprimento de pena, diz Mário Ottoboni: “O condenado, geralmente quando não entra doente na prisão, fatalmente irá sair doente dela.” “É importante que esse atendimento seja, sempre que possível, realizado por voluntários, permitindo que o recuperando possa entender, com mais facilidade, que alguém se preocupa com sua sorte eque ele não está abandonado.”
  1. A família: Considerando as dificuldades e sofrimento das famílias para firmar presença junto aos detentos; considerando que a família por total falta de estrutura contribui, juntamente com outros fatores, para o surgimento do crime e da violência, inútil será o esforço da equipe se, ao preparar o recuperando para o retorno à sociedade, não trabalhar concomitantemente a família.

“Assim como os familiares dos recuperandos necessitam receber a atenção, a instituição deve ficar atenta em relação às vítimase/ou familiares das vítimas, oferecendo programas e assistências que objetivem minimizar o sofrimento e prejuízos.”

  1. O voluntário e o curso para sua formação: “Nada, absolutamente nada, substitui o trabalho dos voluntários que, por meio de gestos concretos de caridade, revelam aos recuperandos o amor gratuito, constante e incondicional.”

Importante observar que toda equipe, constituída de voluntários e de funcionários contratados para trabalhar tão somente no setor administrativo, precisa ser devidamente treinada, uma vez que um trabalho dessa natureza, de difícil execução, não pode ser pautado pelo amadorismo e improvisação.

No conjunto dos voluntários, destacam-se os ‘casais padrinhos’, que, ao adotarem os recuperandos como afilhados, contribuem para que sejam refeitas, em nível psicológico, as imagens desfocadas e negativas queos recuperandos possam ter em relação à figura do pai, da mãe ou de ambos, ou ainda das pessoas que os substituíram em seu papel de amor.”

  1. Centro de Reintegração Social: “A Comunidade poderá construir prisões denominadas Centro de Reintegração Social– CRS – de pequeno porte, compreendendo os regimes previstos na Lei, devidamente separados um do outro, o que não modifica a obrigação constitucional do Estado de construir, equipar e manter as prisões.”
  1. Mérito: Todas as conquistas, elogios, cursos realizados, saídas autorizadas etc., bem como as faltas e as sanções disciplinares aplicadas deverão constar do prontuário do recuperando para oportunamenteser anexado a pedidos de benefícios jurídicos. Insere-se nesse contexto a importância de se constituir a CTC – Comissão Técnica de Classificação.
  1. Jornada de Libertação com Cristo: “A jornada apresenta-se nesse contexto como sendo um dos pontos altos da metodologia. Momento forte de reflexão e encontro consigo mesmo, em que, ao longo de quatro dias, pautados por palestras de cunho espiritual – misto de valorização humana e testemunhos –, expõe o recuperando à terapia da realidade, levando-o, ao final, a um encontro pessoal consigo mesmo e com o ser superior.”

APAC: “Amando ao Próximo, Amarás a Cristo.”

  1. Valorização humana: É a base do método APAC.

(Citações extraídas da bibliografia gentilmente oferecida. Procurou-se transmitir o mais perto possível o fraseado dos autores)