O Verso e o Controverso

“Levantai-vos, soldados de Cristo...”

15 de Julho de 2021, por João Magalhães 0

Finalizando a série sobre a antiga poesia litúrgica católica, converso com os leitores sobre alguns hinos que cantávamos nas cerimônias religiosas de um passado já um tanto remoto. Hinos muito populares como: “Levantai-vos, soldados de Cristo”, “Queremos Deus”, “Coração Santo”, “A nós descei, divina luz”, “Eu quisera, Jesus Adorado”, “Louvando a Maria”, “Virgem Mãe Aparecida”, “Com minha mãe estarei”, “Viva a mãe de Deus e nossa”, “Bendito, louvado seja” e outros.

Atualmente, talvez devido às muitas gravações, os tenho ouvido nos alto-falantes de igrejas católicas, inclusive das de Resende Costa. Cito, como exemplo, a gravação do “Queremos Deus”, de Milton Nascimento e os Tambores de Minas, que acho um primor, sobretudo com o solo de flauta inicial. E, para quem gosta, recomendo também a gravação de “Coração Santo”, do recém falecido Agnaldo Timóteo.

Quem serão os compositores das letras e das melodias? Resposta difícil, pois muitas são muito antigas e algumas vêm de tradições populares. Do “Levantai-vos, soldados de Cristo” há gravações com uma letra bastante modificada, atribuída ao padre João Clá Scognamiglio Dias, fundador dos “Arautos do Evangelho”.

Os compositores do hino original por enquanto são desconhecidos. Para divertir um pouco: entre nós seminaristas, corria a história de um cantor de ouvido ruim que cantava o verso “O pendão de Jesus Redentor” assim: O cordão de Jesus rebentou!

 

“Queremos Deus”: hino muito antigo de tradição popular italiana. “Noi vogliam Dio” (Nós queremos Deus). Tornou-se hino oficial do Estado Pontifício a partir de 1800 e o foi até 1857. Difundiu-se, contudo, como melodia litúrgica num segundo momento. Daí sua imensa popularidade. Não consegui informação de quando foi traduzido para o português na versão tradicional.

 

“Coração Santo”: a composição é de Tiburtino Mondin, poeta santista do final do século 19.

 

“Eu quisera, Jesus adorado”: composição de Francisca Butler, de origem irlandesa – o que explica seu fervoroso catolicismo.

 

“Virgem Mãe Aparecida”: música do Pe. João Batista Lehmann, autor da “Harpa de Sião”, livro de cantos a uma ou mais vozes, com acompanhamento de harmônio, bastante popular e utilizado em todas as igrejas e capelas católicas do Brasil, até o Concílio Vaticano II. Da Congregação do Verbo Divino, foi também diretor do “Lar Católico”, jornal de larga influência na formação católica em nossa região. A letra é do poeta mineiro Belmiro Braga (1872-1937), nascido num povoado que, mais tarde, tornando-se município, adotou seu nome.

 

“Viva a mãe de Deus e nossa”: Em 1905, o conde José Vicente de Azevedo compôs sua letra e música numa viagem de São Paulo a Santos. Como não tinha papel, escreveu nas bordas de um jornal. Em 1951, o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Mota, tornou oficial o “Hino à gloriosa Padroeira do Brasil”.

Numa época litúrgica em que os presentes nas cerimônias eram mais ouvintes (quando ouviam) que participantes, esses hinos tiveram uma função importante. Um fator de participação. Suas melodias, muito orecchiabili, como dizem os italianos, muito entoáveis, sonorizando letras ritmadas, cheias de estribilhos e bis e rimadas, provocavam um clima emocional de participação nas missas e procissões.

Mais ainda quando acompanhadas pelo harmônio nos templos e pela banda de música nas procissões e rasouras. (Por falar em rasoura, sugiro assistir pela internet um vídeo da rasoura das Dores com a banda Santa Cecília em Resende Costa, ano 2019).

 

É o que penso. E você?

 

P.S: Não consegui, igualmente, informações quanto ao “A nós descei, divina luz”, “Louvando a Maria”, “Bendito, louvado seja” “Com minha mãe estarei” (que está, salvo engano, com a letra modificada). Se algum leitor souber, por favor informe-me: (jmagalhaes155@gmail.com).

A antiga poesia litúrgica católica – parte 4: “Tantum Ergo”

16 de Junho de 2021, por João Magalhães 0

Junho é caracterizado pelas festas religioso-folclóricas: Santo Antônio, São João Batista, São Pedro. O Nordeste brasileiro que o diga. Também pela festa eucarística por excelência: “Corpus Christi”. Festa da procissão das “três abenção”, como o povo simples falava aqui, em Resende Costa.

Falando da Bênção do Santíssimo Sacramento, na liturgia antiga católica, necessariamente tem-se que falar sobre o “Tantum Ergo”, praticamente seu hino oficial.

E o “Tantum Ergo” remete obrigatoriamente ao autor da letra: Santo Tomás de Aquino (1227-1274). Escreve o padre Heitor Pedrosa (“Nos Esplendores da Poesia Litúrgica”): “Quando o papa Urbano IV pediu a Santo Tomás, teólogo da Cúria Romana, que compusesse o ofício para a festa de Corpus Christi era de temer que um doutor escolástico, o que [ele] mais é, aristotélico, estivesse pouco preparado para compor em latim clássico e ornado, hinos”.

Deu-se o contrário. Ele, não só é um dos maiores teólogos do catolicismo, mas, igualmente, o melhor poeta latino da Eucaristia que a Igreja já teve: “Pange Lingua”, “Ó Salutaris Hostia”, “Panis Angelicus” “Lauda Sion” etc.

Uma análise literária – intuito aliás desta série – revela um pendor poético de origem (Reinaldo, irmão de Tomás de Aquino, foi um dos melhores poetas da corte de Frederico II). Sua veia poética mostra um talento para expressar conceitos teológicos profundos do catolicismo e seus dogmas numa forma rigorosa da poesia clássica latina: rimas, métrica, ritmo, estrofação.  Novamente, padre Pedrosa: “A poesia de Santo Tomás é uma poesia tônica que repousa na tríplice base do acento, da numeração das sílabas e da rima”. Alguém já comentou; “Doutor pelo pensamento e poeta pelo amor”

Na realidade, o “Tantum Ergo” constitui-se das duas últimas estrofes do hino eucarístico “Pange Lingua”. Ei-lo com a tradução muito livre e rimada do beneditino Dom Beda Keckelsen, autor do “Missal Quotidiano”, muito adotado pelo clero antigo.

Se traduzir poesia é muito difícil até para o próprio autor, segundo alguns teóricos, quase impossível, o poema aquiniano confirma em tudo a opinião.

Tantum ergo Sacramentum /veneremur cernui /Et antiquum documentum/ Novo cedat ritui; / Praestet fides supplementum / Sensuum defectui. (A tão grande Sacramento / Veneremos com respeito / Ceda o antigo documento / Ao rito novo e perfeito / Preste a fé o suplemento / Dos sentidos ao defeito)

Genitori, Genitoque / Laus et jubilatio, / Salus, honor, virtus quoque / Sit et benedictio; /Procedenti ab utroque / Compar sit Laudatio. Amen (Ao Pai, ao Filho amplamente / Louve, o mortal [nós mortais] e saúde [de saudar} / Junte ao louvor igualmente / Tributos de honra e virtude; / E de ambos ao Procedente {O Espírito Santo} / Louve em igual plenitude / Amém.

 

*Vidas idas que fazem falta

 

Alair Coêlho e Agenor Gomes Neto (Agenorzinho). Com a ida deles, a memória de Resende Costa fica empobrecida. Esta coluna os homenageia, pois devido à longeva participação deles da vida da cidade e a espetacular memória que tiveram, eram fontes permanentes de informação para o nosso JL. Alair deixou muita coisa escrita. Agenor, ultimamente, escrevia suas memórias no computador. A convite dele, eu as lia, o que estreitou mais ainda minha convivência com ele. Tomara que sejam impressas, pois são muito interessantes e muito bem escritas.

Crianças de até 4 anos mortas por agressão

19 de Maio de 2021, por João Magalhães 0

As cenas de tortura de uma criança de 4 anos, Henry Borel, impactaram a nação. Ao menos, em sua maioria, pois há sempre um grupo de insensíveis e até praticantes. Se tortura choca, choca o dobro quando resulta em morte. Choque inominável, quando acontece com pais ou responsáveis matando filho e vice-versa.

As estatísticas são apavorantes. O fenômeno é mundial. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde): um bilhão de crianças, vítimas de violência em 2015! O Brasil não está de fora. Levantamento feito pela SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) em conjunto com o SINAN (Sistema Nacional de Agravos de Notificação) do Ministério da Saúde: somente em 2019 foram 88.572 notificações: 71%, violência física (62.537); 27%, violência psicológica (23.693): 3%, tortura (2.342). Dez casos de agressão por hora!

Dados apontam 2 mil mortes de crianças de até 4 anos por agressão na década 2010-2020. Afora as subnotificações, que chegam provavelmente a 20 para cada caso denunciado. Um exemplo: em 2019, foram 188 óbitos. Provavelmente mais, por causa da subnotificação.

Ainda segundo a SBP, os autores de 80% das agressões são os pais ou responsáveis, e elas acontecem dentro de casa. Sobretudo agora, com a pandemia e o consequente fechamento das escolas, quando as crianças ficam mais reféns dos agressores.

Que sociedade é esta na qual vivemos!  Dói, mas não há como discordar do Dr. Marco Antônio Chaves Gama, presidente do Departamento Científico de Segurança da SBP: “A violência é uma doença que não vê distinção de classe, etnia, religião ou escolaridade dos pais e se perpetua nas famílias.”

Há que se romper o ciclo da violência infantil. Escreve a pediatra Luci Pfeiffer, de intensa formação também na área de psiquiatria e psicologia: “O abuso na infância e adolescência poderá transformar aqueles agredidos nos futuros pais que maltratarão seus futuros filhos, ou seus parentes, seus pais então idosos, amigos, desconhecidos, pequenos grupos em grandes populações, todos num jogo do poder do mais forte contra o mais fraco, do dominador sobre o dominado.” E o Dr. Marco Antônio acrescenta: “Precisamos interferir, interromper esse ciclo, salvar as vidas dessas crianças e impedir que cresçam com sequelas.”

Não há carência jurídica, ou seja, falta de legislação. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é considerado um dos textos mais avançados da América Latina e a lei 13.010 (apelidada de Lei da Palmada, ou lei Menino Bernardo) o aperfeiçoa.

Convém transcrever o artigo 18 A, parágrafo único: Para os fins desta Lei, considera-se: I - castigo físico: ação de natureza disciplinar ou punitiva aplicada com o uso da força física sobre a criança ou o adolescente que resulte em: a) sofrimento físico; ou - b) lesão.

II - Tratamento cruel ou degradante: conduta ou forma cruel de tratamento em relação à criança ou ao adolescente que: a)humilhe; ou b)ameace gravemente; ou c) ridicularize.

A carência está na prática. Há progresso, porém ainda é muito pouco. É necessário denunciar mais, notificar mais, ler melhor os sinais manifestados pela vítima, treinar mais os cidadãos para essa leitura, exigir mais dos Conselhos Tutelares. Segundo os especialistas, é preciso ouvir as crianças e levar a sério o que elas dizem. Qualquer problema, ou mesmo suspeita, devem ser denunciados à polícia.

Como contribuição: Dra. Luci Pfeiffer, depois de orientar como descobrir os sinais de violência física, escreve também (Violência contra crianças e adolescentes): “A criança e o adolescente sempre vão demonstrar de alguma forma este sofrimento e se consideram como sinais de alerta de que existe violência psicológica quando apresentam: comportamentos extremos de apatia ou agressividade  - irritabilidade ou choro frequentes sem causa aparente - sinais de ansiedade ou medo constantes - dificuldades na fala,  gagueira, tiques ou manias - sinais depressivos - aumento injustificável da incidência de infecções de repetição - manifestações alérgicas de difícil controle - baixa autoestima e autoconfiança - falta de controle de  urina e ou fezes em crianças maiores de quatro anos  - distúrbios alimentares importantes, como inapetência persistente, obesidade, anorexia, bulimia; - destrutividade e ou autodestrutividade  - uso de drogas - dependência química - comportamento delinquente - tentativas de suicídio e o suicídio”.

É o que penso. E você?

A antiga poesia litúrgica católica – parte 3: “Stabat Mater”

14 de Abril de 2021, por João Magalhães 0

O Hino

Escrevo às vésperas da Semana Santa. Claro que o tema será a dor de uma mãe que presencia seu filho morrendo numa cruz: o “Stabat Mater”, considerado um dos sete maiores hinos latinos de todos os tempos.

O texto é baseado na profecia de Simeão, quando da apresentação de Jesus no templo: “E a ti, uma espada traspassará tua alma” (Lc 2,35). Trata-se, portanto, de um hino em honra a Nossa Senhora das Dores, composto no século XIII, auge da devoção franciscana a Jesus Crucificado.

 

O Autor

Embora atribuído a outros, grande parte dos pesquisadores considera Jacopone de Todi como o autor real. Jacopone nasceu em Todi, Itália, região da Úmbria. Nobre por parte paterna e materna. Vida surpreendente, com aspectos novelescos. Filho de mãe protetora e de pai severo, ele estudou direito em Bolonha. Aí, leva uma vida dissoluta, acompanheirando-se com os estudantes da Universidade. Enriquece como advogado dos abonados. Casa-se com uma rica e muito piedosa jovem de Todi, mas, em 1268, sua vida sofre uma reviravolta. Num dia de jogos públicos em Todi, o palanque de madeira dos assistentes privilegiados desmorona. Entre as vítimas mortais, sua jovem esposa.

Ao socorrê-la, tira suas vestes e percebe, na cintura dela, um cilício (cordão de crina de cavalo com farpas, amarrado no corpo para fazer penitência). Mortificação, assim interpretada, para expiar os pecados do marido Giácomo (Jacopone).

Sente-se culpado e modifica radicalmente seu comportamento. O excesso de dor praticamente o enlouquece. Vende todos os bens e distribui tudo aos mais pobres. Homem de rua, coberto de andrajos, ridicularizado pelos meninos que o chamavam pejorativamente de “o doido Jacopone”!

Dedica-se ao catolicismo popular, mas estuda profundamente a teologia. Entra para a Ordem III Franciscana e após dez anos – 1278 – foi admitido entre os Frades Menores Franciscanos.

A Ordem de São Francisco e a Igreja Católica vivem profunda crise. A Ordem, uma divisão: uns querem uma regra (leis que regem uma instituição religiosa) mais branda, outros propugnam uma vida disciplinar e práticas severas. Os primeiros eram chamados de conventuais, os segundos, Irmãos Espirituais.

A Igreja, com 27 meses de vacância do papado, elege o eremita Pedro Murrone, que adota o nome de Celestino V, mas que renuncia poucos meses depois. Sucede-o Bonifácio VIII, que governa sob intensa oposição.

Jacopone está entre os opositores ferrenhos. Preso e excomungado por críticas, só em 23/12/1303 o sucessor de Bonifácio, o Papa Bento XI, revoga sua prisão e excomunhão.

 

A Estética

O poema se organiza em 10 estrofes de 6 versos. Sextilhas rimadas no esquema AAB – CCB. AA: e CC: rimas perfeitas: B: rimas imperfeitas. Estrutura poética que agradou aos ouvidos populares. Poesia cantada não só nas igrejas, mas também nos grupos de romaria, nas rezas grupais etc.

A força poética do poema-hino é uma pedra lançada num lago, formando ciclos e interagindo com outras formas de arte: pintura, escultura, arquitetura, teatro. Sobretudo, intumesceu as veias melódicas de compositores renomados, gerando inúmeras composições sacras, ditas eruditas: Pergolesi –Vivaldi – Rossini – Dvorak – Alessandro Scarlatti – Karl Jenkins – Fedele Fenaroli – Brunetti – Rheinberger – Perosi – Zoltan Kodaly – Agostino Stefani – Boccherini – Caldara – Tartini – Juan Mathias (compositor indígena mexicano). São os que conheço. Deve haver mais.

O padre Heitor Pedrosa (“Nos Esplendores da Poesia Litúrgica”), na extensa análise de cada verso, comenta: “Jacopone, com um senso muito agudo e profundo do coração humano, alterna e combina as considerações psicológicas com intuito sensível, isto é, com contemplação direta e espontânea: análise objetiva com a prece, o presente com o futuro, a fé com o misticismo, a alma com o corpo, o tempo com a eternidade.”

Prossegue o padre Pedrosa em sua análise: “O Stabat é o poema imortal das augustas dores de Maria, o poema que todos os cristãos jovens e velhos, grandes e pequenos, sábios e ignorantes, repetem com as mais suaves emoções da alma; é o poema cujo ritmo, quando embebido na música popular, nas notas profundamente patéticas da cantilena eclesiástica, em sua simplicidade ingênua faz reverdecer a esperança em tantas almas desconsoladas e reanima a fé em tantos espíritos abatidos pelo infortúnio.”

Versão integral, em latim e português, do Stabat Mater

 

Tradução: João Magalhães

 

Stabat Mater dolorosa (Estava a mãe dolorosa))

Juxta crucem lacrimosa (Junto à cruz, lacrimosa)

Dum pendebat filius (Enquanto pendia o filho)

Cuius animam gementem (Cuja alma que gemia)

Contristatam et dolentem (Aflita e em dor)

Pertransivit gladius (A espada traspassou)

 

O quam tristis et afflicta (Oh quão triste e aflita)

Fuit illa benedicta (Esteve ela, bendita)

Mater unigeniti (Mãe do unigênito)

Quae maerebat et dolebat (Que lamentava e se afligia)

Et tremebat cum videbat (E tremia, enquanto via)

Nati poenas incliti (Os sofrimentos do ínclito nascido)

 

Quis est homo qui non fleret (Qual é o homem que não chore)

Matrem Christi se videret (Se vir a mãe de Cristo)

In tanto suplicio? (Em tanto suplício?)

Quis non posset contristari (Quem não se entristecerá)

Piam matrem contemplari (Ao contemplar a piedosa mãe)

Dolentem cum filio? (Padecendo com o filho?)

 

Pro peccatis suae gentis (Pelos pecados de seu povo)

Jesum vidit in tormentis (Viu Jesus em tormentos)

Et flagelis subditum. (E submetido aos flagelos)

Vidit suum dulcem natum (Viu seu doce nascido)

Morientem desolatum (Morrendo desolado)

Dum emisit spiritum. (Enquanto entregava o espírito)

 

Eja mater fons amoris (Oh mãe, fonte de amor)

Me sentire vim doloris (Faça-me sentir a força da dor)

Fac ut tecum lugeam, (Faça que com você eu lamente)

Fac ut ardeat cor meum (Faça que arda meu coração)

In amando Christum deum (Para amar Cristo Deus)

Ut sibi complaceam (Para que eu o agrade)

 

Sancta mater, istud agas (Santa mãe, faça isso)

Crucifixi fige plagas (Fixe as chagas do crucifixo)

Cordi meo valide! (Validamente em meu coração)

Tui nati vulnerati (De seu nascido ferido)

Tam dignati pro me pati (Tão disposto a sofrer por mim)

Poenas mecum divide! (Divida comigo os sofrimentos)

 

Fac me vere tecum flere (Faça-me chorar com você verdadeiramente)

Crucifixo condolere (Condoer-me com o crucificado)

Donec ego vixero. (Enquanto eu viver)

Juxta crucem tecum stare (Estar com você junto à cruz)

Te libenter sociare (Associar-me com você de bom grado)

In plancto desidero. (No pranto, desejo)

 

Virgo virginum praeclara (Virgem das virgens luminosa)

Mihi jam non sis amara (Agora, não se amargue comigo)

Fac me tecum plangere. (Faça-me chorar com você)

Fac ut portem Christi mortem (Faça que leve comigo a morte de Cristo)

Passionis eius consortem (Consorte de sua paixão)

Et plagas recolere (E suas chagas venerar)

 

 

 

Fac me plagis vulnerari (Faça que eu seja vulnerado por suas chagas)

Cruce hac inebriari (Inebriar-me por esta cruz)

Ob amorem filii. (Por causa do amor do filho)

Inflammatus et accensus (Inflamado e elevado)

Per te virgo sim defensus (Por ti, Virgem, seja defendido)

In die judicii. (No dia do juízo)

 

Fac me cruce custodiri (Faça-me ser guardado pela cruz)

Morte Christi praemuniri (Ser premunido pela morte de Cristo)

Confoveri gratia (Confortado pela graça)

Quando corpus morietur (Quando o corpo morrer)

Fac ut animae donetur (Faça com que seja dada à alma)

Paradisi gloria. (À glória do paraíso)

 

Amen (Amém).

 

Versão livre de João Magalhães da letra do Stabat Mater

 

Quem poderia não

Compadecer

Vendo amãe de Cristo

Condoída com o filho?

 

Quem é o homem que não choraria

Se visse a mãe de Cristo

Em tanto suplício?

 

Oh mãe, fonte de amor

Faça-me sentir a força da dor

Para que eu lamente (?) com você.

 

Faça com que meu coração arda

Ao amar Cristo Deus

Para que ele se compadeça.

 

Santa mãe, faça isso

Funde as chagas do crucifixo

No meu coração com força

 

Divida comigo os

Sofrimentos

Da ferida do seu filho tão

Gentil a sofrer

Por mim.

 

Faça com que eu chore

Piedosamente com você

Com que eu condoa com o crucifixo

Enquanto eu viver

 

Esteja com você junto a cruz

Me uma com você

No pranto pelo luto

 

Faça-me guardado pela cruz

Fortalecido pela morte de cristo

Confortado pela graça

 

Quando meu corpo morrer

Faça com que a alma seja dada

À gloria do paraíso

Amém.

 

 

 

A antiga poesia litúrgica católica – parte 2: Te Deum

17 de Marco de 2021, por João Magalhães 0

É, pelo que se vê, o hino litúrgico mais usado nos ritos católicos. Também em alguns não católicos que o celebram, como as igrejas luterana, anglicana e metodista. Sua propagação se deve muito aos monges beneditinos, que o introduziram em seu hinário no século VI. Tornou-se até uma cerimônia de agradecimento à parte. Por exemplo, cantar um Te Deum pelo fim de uma epidemia.

A origem do Te Deum é muito antiga. Aí pelo século III. Até hoje se pesquisa sobre seu autor, mas são atribuições: Santo Ambrósio? Santo Hilário de Poitiers? Nicetas de Ramesana? Sua autoria, contudo, permanece incerta.

O “Te Deum” é um hino de louvor e agradecimento de intensa qualidade poética. Muitas ideias em poucas palavras.

“Louvamos-te Deus; confessamos-te, Senhor. A ti, eterno Pai, toda Terra venera” (“Te Deum laudamus, te Dominum confitemur, te aeternum Patrem omnis terra veneratur”).

“A ti todos os anjos, a ti os céus e todos os poderes, a ti Querubins e Serafins com voz incessável proclamam: Santo, santo, santo é o Senhor Deus do Sábado. Céus e Terra estão cheios da majestade de tua glória” (“Tibi omnes Angeli, tibi coeli et universae potestatis, tibi Querubim et Seraphim incessabili voce proclamant: Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabaoth. Pleni sunt coeli et terra majestatis gloriae tuae”).

“A ti o glorioso coro dos apóstolos, a ti o louvável número dos profetas, a ti louva o exército em vestes brancas dos mártires, a ti a Santa Igreja confessa por todo orbe terrestre como pai de imensa majestade, [bem como] teu venerando filho único e também o Espírito Santo paráclito” (“Te gloriosus Apostolorum chorus, te prophetarum laudabilis numerus; te martirum candidatus laudat exercitus. Te per orbem terrarrum sancta confitetur Ecclesia. Patrem immensae majestatis: venerandum tuum verum et unicum Filium, sanctum quoque Paraclitum Spiritum”).

“Tu, Cristo, rei da Glória. Tu és filho sempiterno do Pai. Tu para amparar o homem não temeste o útero da virgem. Tu, vencido o aguilhão da morte, abriste aos crentes o reino dos céus. Tu sentas à direita de Deus, na glória do Pai. Crerás ser o juiz a vir” (“Tu Rex gloriae, Christe. Tu Patris sempiternus es Filius. Tu ad liberandum suscepturus hominem non horruisti Virginis uterum. Tu devicto mortis acúleo, aperuisti credentibus regna coelorum. Tu ad dexteram Dei sedes, in gloriam Patris. Judex crederis esse venturus”).

“Pedimos-te, portanto, acode os teus servos que remiste com teu precioso sangue. Faz que sejamos contados entre os santos na eterna glória” (“Te ergo, quaesumus, tuis fammulis subveni, quo spretioso sanguine redimisti. Aeterna fac cum sanctistuis in gloria numerari”).

“Salva teu povo, Senhor, e abençoa tua herança e dirige-os e levanta-os por toda eternidade” (“Salvum fac populum tuum, Domine et benedic hereditati tuae et rege eos et extolleillosusque in aeternum”).

“A cada dia te bendizemos e louvamos teu nome no século do século” (“Per singulos dies benedicimus te et laudamus nomen tuum in saeculum saeculi”)

“Digna, Senhor, este dia, nos guardar sem pecado. Tem misericórdia de nós, Senhor.  Vive conosco. Faz misericórdia, Senhor, sobre nós do mesmo modo como esperamos em ti”. (Dignare, Domine, die isto, sine peccato nos custodire”. Miserere nostri, Domine, morerere nostri. Fiat misericórdia, Domine, super nos, quemadmodum speravimus in te)

Em ti esperei, não serei confundido na eternidade (“In te, Domine, speravi, non confundar in aeternum”).

Restringindo-se ao aspecto literário, que é o propósito desta série, percebem-se: uma salmodia em nenhum momento monótona; a musicalidade dos enunciados, daí o grande número de compositores que o musicaram; a súplica plangente; a exploração de sentimentos.

O beneditino Dom Cagin, em seu estudo sobre o Te Deum, cita Hugueny: “Melhor do que a inteligência é o coração que comentará o Te Deum. O comentário do coração não se escreve sobre o papel, mas na alma em tratos de amor e na vida em atos de caridade.”

Acho que só a grande poesia consegue isso. É o que penso. E você?