O Verso e o Controverso

Falando de Ansiedade

16 de Julho de 2019, por João Magalhães 0

Final de maio último, realizou-se na FAAP (Faculdade Armando Álvares Penteado), em São Paulo, um fórum com profissionais de diversas áreas com o lema: “Precisamos falar sobre ANSIEDADE”. Doutor Luiz Vicente Figueira de Mello, psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo, enfatiza a importância desse encontro: “A ansiedade nos prepara para os desafios do dia a dia e nos alerta dos perigos. Esse ‘serviço’ da natureza começou a desandar, no entanto, quando o ser humano passou a utilizá-lo a todo momento, sem controle. Alguém permanentemente ansioso perde a liberdade de ação e precisa de tratamento.”

Modernamente, a sociedade cria uma intensa atmosfera de ansiedades. Desemprego, trabalho precário, relacionamentos falsificados, criminalidade, acidentes climáticos, redes sociais, preconceitos e tantas coisa mais. Essas pressões vindas de todos os lados afetam a vida das pessoas, sobretudo das geneticamente predispostas. Um aviso de quem estuda o assunto: de uma situação de profunda ansiedade para a depressão é um pulo.

Concordando com o enunciado de um laboratório: “Ansiedade. Quando começa a incomodar, é hora de buscar ajuda. Ansiedade é considerada o mal do século. Precisamos ficar atentos para quando alguém precisar de ajuda. Precisamos estar atentos se nós mesmos precisarmos.” O doutor Daniel Martins de Barros, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, fala o mesmo: “Quando a ansiedade começa a mandar em você, é hora de buscar ajuda.”   

Segundo o doutor Neury Botega, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), com 37 anos de psiquiatria, antigamente não se viam jovens sofrendo sobre problemas de adulto. “Hoje, trato criança com síndrome do pânico.” Disse também que o drama não para por aí.  Em situações extremas, a vítima perde a esperança na vida e sua visão de futuro se estreita. “Se até Deus me abandona, pensa o paciente, o suicídio acaba sendo em sua cabeça a única saída.”

E mais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem o maior número de pessoas ansiosas do mundo: 18,6 milhões de brasileiros (9,3% da população) convivem com o transtorno. No entanto, permanece bem arraigado o tabu quanto ao uso de medicamentos psiquiátricos. Na cabeça de muita gente, ainda está: quem vai a psiquiatra é doido!

Novamente o doutor Daniel: “As duas frases que eu mais ouço na clínica são ‘eu não queria tomar remédio’, na primeira consulta, e ‘eu não queria parar de tomar os remédios’, na consulta seguinte. A gente tem muita resistência porque existem muitos mitos: ficar viciado, bobo, impotente, engordar.”

Acho que é bom identificar os tipos de ansiedade, definidos pela Associação Americana de Psiquiatria. Afinal, ninguém deve julgar-se livre deles. É importante para que o tratamento seja adequado.

1.  Transtorno de Ansiedade Generalizada: Preocupações excessivas e duradouras (pelo menos 6 meses) com as atividades da vida. Causam sofrimento e prejuízo na vida profissional, social, familiar. Inquietação, nervosismo, cansaço, irritabilidade, falta de concentração, tensão muscular, insônia.

2. Mutismo Seletivo: Em contextos sociais, situações de conversa, a pessoa não fala nem responde. Devido à ansiedade, costuma apresentar dificuldade no expressar-se ou até fracassa, sobretudo ao dirigir-se a algum público.

3. Transtorno de Ansiedade de Separação: Medo ou grande ansiedade de separar-se de pessoas, animais, objetos e locais aos quais se é muito apegado.

4. Transtorno de Pânico: Surto de pavor, acompanhado de palpitações, taquicardia, sudorese, tontura, sensação de asfixia, dores no peito, calafrios, náuseas, medo de morrer, de enlouquecer.

5. Fobias Específicas: Medo quase incontrolável frente a objetos ou situações: altura, bichos, sangue, locais fechados etc.

6. Transtorno de Ansiedade Social: Quando a pessoa passa por situações de avaliação ou julgamento por parte de outras pessoas. Testes, por exemplo.

7. Agorafobia: Uma insegurança desproporcional ao perigo ou até pavor quando se está num local com muita gente.

8. Transtorno de Ansiedade induzido pelo uso de substâncias: Acontece pelo uso exagerado de substâncias: drogas, álcool, cafeína, anfetamina etc. Conforme o grau da ansiedade provocada, pode sobrevir o pânico.

9. Transtorno de Ansiedade devido a outra condição médica: Por exemplo, uma expectativa de gravidade ao surgir alguma doença ou uma intervenção médica de risco.

E há também outros transtornos que não se enquadram nos especificados acima.

 

(Fonte: O Estado De S. Paulo 5/6/19 – promotor do fórum)

Uma homenagem à aniversariante do mês

18 de Junho de 2019, por João Magalhães 0

Casa da Cida Mendes pertenceu ao primeiro administrador do munícipio de Resende Costa, Coronel Francisco Mendes de Resende (Foto Luana Chaves)

Nesta edição, a coluna homenageia nossa Resende Costa, em seu aniversário de 107 anos, passando a palavra para dois filhos seus, poetas, e duas “filhas” suas, mais velhas, ou seja, duas casas antigas, muito bem arquitetadas, perfeitamente preservadas e conservadas na beleza original. A primeira pertence atualmente à Cida Mendes e foi do Coronel Francisco Mendes de Resende, primeiro administrador público de Resende Costa. A residência localiza-se à praça Mendes de Resende. A outra casa, do Nélson Oliveira, pertenceu ao seu pai, Joaquim Batista, e situa-se à rua Assis Resende.

No aniversário de 50 anos da cidade, Miled Hannas (quando poetisa em latim assina com o pseudônimo Teophilus a Solitudine – Teófilo da Solidão), que foi seu prefeito entre 1959 e 1962, – excelente poeta e o maior latinista que o município já teve, ao lado do Zé Procópio – cantou suas virtudes numa belíssima ode em latim: “Carmen ad dilletissimam urbem Resendecostensem” (canto à diletíssima cidade de Resende Costa), seguindo perfeitamente o “Carmen Saeculare”, do grande poeta latino Horácio, contemporâneo e amigo do imperador Augusto, em cujo reinado nasceu Jesus Cristo.

Cito e traduzo a sétima estrofe: “Carmine insignem celebrare festo/ Civitatem nunc decet ore pleno/ Rupis aeternae positam perite/ Culmine summo!” (Agora, faz-se necessário celebrar com festivo canto a insigne cidade, assentada caprichosamente no cume supremo de uma laje eterna).

 Sua irmã, Terezinha Hannas, também poeta, belo estilo parnasiano, também cantou a cidade em “Terra Natal”.  Primeira e última quadras (são 6): “Resende Costa, cidade/ Repleta de encantamento/ Presépio que a encosta invade/ subindo em alinhamento. Recanto cheio de encantos/ Resende Costa é poesia/ Escrita entre incenso e cantos/ Que envolvem a serrania.”

 

As “Duas filhas”

Segundo Dulce Mendes, filha do coronel Francisco Mendes de Resende, a casa pertenceu, por volta dos anos 1900, a Joaquim Leonel, onde morava e mantinha uma farmácia, pois era praticamente o “médico” da cidade. Em 1910, o coronel Mendes a comprou e nela residiu até seu falecimento em1936. A viúva morou nela até 1943, quando se mudou para São João del-Rei. Vagando a casa, habitou-a José Jacinto Lara. Quando este também se mudou para São João, a casa passou para Francisco Mendes Júnior (Francisquinho Mendes), pai da atual proprietária, Cida Mendes, que faz questão de manter o imóvel sempre preservado e bonito.

 

Casa muito antiga. Um exame de fotos da igreja do Rosário, ainda capela, e da rua Assis Resende, leva a crer que talvez o imponente sobrado seja do final do século 19. Há notícia de que residiu nela o primeiro juiz do Termo Judicial aqui instalado em 1/1/1939, Dr. Pedro Muzzi, vindo do norte de Minas.

Quando Joaquim Batista a adquiriu, morava nela o Tonico Chalé, de quem os mais velhos se lembram muito. A casa foi recentemente restaurada pelo atual proprietário, Nélson Severino de Oliveira (filho do Joaquim Batista), que manteve e valorizou, com gosto, as características arquitetônicas do imóvel.

Uma crônica do comércio antigo de Resende Costa

14 de Maio de 2019, por João Magalhães 0

Hoje, apenas o Verso, até para dar um tempo de decantação a tantas controvérsias que alagam o país.

A crônica é da resende-costense Terezinha Hannas, filha do Abrahão Turco. Conheci-a quando das pesquisas para a série no nosso jornal: Os “Turcos” em Resende Costa (entre aspas, pois são sírio-libaneses, chamados de turcos porque emigravam com passaporte do império turco otomano):

“Lembrando o título “Os ‘turcos’ em Resende Costa”, já exibido anteriormente no JL, faremos um resumido histórico da atividade comercial da família Hannas, nessa cidade.

Hanna Antunes, carinhosamente chamado de João Velho pelos resende-costenses, juntamente com seus filhos Calixto, Abrahão, Elias e Alfredo, iniciou sua atividade comercial assim que chegou ao Brasil, escolhendo Resende Costa para seu domicílio.

A princípio, estabeleceu-se numa casa dos ‘Quatro Cantos’ (hoje Avenida Monsenhor Nelson), depois na praça Rosa Penido e, finalmente, na Avenida dos Expedicionários (hoje Avenida Ministro Gabriel Passos). A loja, com quatro portas, era interiormente dividida em duas partes: na maior ficavam tecidos, armarinhos, cosméticos, calçados etc; e na outra, gêneros alimentícios.

A loja era abastecida com produtos comprados no Rio de Janeiro. Pelo menos uma vez por ano, os proprietários iam à então Capital do Brasil, onde adquiriam tudo, que era despachado em enormes caixas de madeira.

Futuros casais faziam a compra do enxoval na loja, incluindo até um penico, sabonete Leverou Dorly, Óleo Dirce...

Dentro da cidade era fraco o comércio, pois o poder aquisitivo da população era muito baixo. Portanto, as vendas maiores eram feitas nas fazendas e povoados adjacentes, com o uso de canastras com tecidos, no lombo de cavalos. Vida dura às vezes sob sol escaldante, outras vezes sob chuvas, tarefa exercida pelo filho Abrahão, autêntico representante da raça fenícia, pois era um excelente comerciante. Apesar de sua deficiência visual decorrente de uma faísca elétrica descarregada perto da loja, ele usava invejável memória para fazer uma espécie de livro de anotações das compras. Era também invejável sua capacidade para operações matemáticas sem o uso do lápis.

Alguns fazendeiros iam a Resende Costa, às vésperas da Semana Santa, para efetuarem suas compras de tecidos para o ano todo, e o pagamento, em época sem inflação, era feito só no ano seguinte!

Quando Abrahão viajava às cidades próximas para vender e receber contas atrasadas, jocosamente as pessoas faziam piada, por meio de um versinho: “Compre fiado/Vista-se bem:/Corra pro mato, /Que o turco já vem!”

Concomitantemente com a loja, Abrahão resolveu instalar um pequeno armazém na praça Rosa Penido, onde era o armazém do saudoso José Domingos (ficava pouco abaixo da antiga cadeia, atual Fórum). Mas, com o passar do tempo, desistiu da atividade e os gêneros alimentícios foram se escasseando. Já havia pouca coisa nas prateleiras. Foi então que uma de suas filhas passou lá e disse ao Julinho (o baixinho que tomava conta do armazém): ‘Me vende um quilo de vento?’ Muito espirituoso, o Julinho respondeu: ‘Não tenho papel pra embrulhar!’

Que saudade do Julinho! Tinha pouco mais de um metro de altura. Trabalhou para a família durante muitos anos, fazendo mandados, labutando na fábrica de laticínios... Era como da família. Todos o amavam.

João Velho deu exemplo de trabalho aos filhos. De tanto ombrear mercadorias num pesado baú, ficou marcado com calosidades nos ombros. Supertranquilo e bondoso, era também muito bravo quando necessário.

Certo dia, aparece-lhe um valentão na loja, exigindo que seu filho lhe desse bebidas de graça. Impávido, João salta do balcão, agarra a orelha do valentão e atravessa com ele as ruas do povoado, mostrando que não tinha medo de ninguém

Uma cena cômica. Ao fazer a fábrica de laticínios na Avenida dos Expedicionários, faltavam 10cm na altura dos azulejos. Quando o fiscal apareceu para conferir, meu pai se lembrou de um metro velho faltando exatamente 10cm. Com ele o fiscal mediu e viu que estava de acordo com as normas... e saiu feliz: dever cumprido!

A família Hannas, apesar da discriminação racial existente naquela época, procurou o convívio amistoso com a população de Resende Costa, mas, apesar disso, havia perseguição política, orquestrada principalmente por um prefeito, cujo nome preferimos não registrar aqui.

Aos que sempre se demonstraram amigos, nossa imorredoura gratidão”.

Massacres. Como interpretar?

16 de Abril de 2019, por João Magalhães 0

Uma das características humanas é a ânsia por explicações para os mistérios que nos rodeiam. Raiz, aliás, de muitas religiões e impulso para as pesquisas científicas.   

Acompanhamos recentemente o massacre de alunos e funcionários da Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano/SP. Dois ex-alunos, um – 17 anos – com arma de fogo, outro – 25anos – com arco e flecha, besta, machadinha – invadem a escola. Em 15 minutos, matam a esmo duas funcionárias e cinco estudantes e deixam 11 feridos. E o massacre da Nova Zelândia, com um atirador matando 49 pessoas, invadindo duas mesquitas e transmitindo o ataque ao vivo no Facebook, com uma câmera no capacete.

Frente a tais acontecimentos subanimalescos, assassinatos frios contra indefesos, aleatórios, muitos terminando com suicídio, buscam-se explicações. Cérebros criminosos natos, conforme a famosa teoria do criminologista italiano Cesare Lombroso (1835-1909)?  Psicopatas de estrutura gélida, cruenta, sádica? Pessoas incrustradas de ódio, fanatizadas e orientadas por grupos do mesmo jaez?

Uma contribuição informativa: há estudos científicos recentes analisando o teor de dezenas desses atiradores pelo mundo que portam informações inesperadas, contrariando, inclusive, explicações de senso comum. Revelam que, na maioria dos casos, não havia indícios de psicopatia. Experiências de vida, traumas, abusos de vários tipos e outros fatores sociais desenvolveriam tais comportamentos, mesmo em pessoas biologicamente sadias que passam por tais fatores.

Segundo o psicólogo americano Peter Langman, um dos maiores estudiosos do assunto no mundo, na pesquisa que fez em 150 ataques (site schoolshooters.info), os perfis psicológicos dos atiradores são diferentes. Dividiu-os em três grupos: os traumatizados, os de transtornos psicóticos, os psicopatas. As motivações também são diversas. Contudo, há semelhanças: maioria homens (94%), brancos (63%), armas vêm da própria casa e são de posse dos pais, a maioria suicidou-se e 38%  são menores.

Ainda conforme o estudioso americano: “Entre os atiradores traumatizados, os pais são os principais problemas na vida dos filhos. Para os outros perfis, não é que os pais estejam falhando. Muitas vezes, eles (atiradores) escondem deliberadamente os seus pensamentos e sentimentos dos pais. Mesmo quando os atiradores estiveram em psicoterapia, ocultaram suas intenções violentas.” Prossegue Peter Langman: “Há sinais, no entanto, demonstrados previamente pelos atiradores que podem servir de alerta para pais e docentes, como obsessão por armas ou mídias violentas, postagens sobre ataques e comportamentos agressivos ou depressivos, entre outros.”

Fala o doutor em Psicologia e professor do Instituto Federal de Goiás, Timoteo Madalena Viera, em artigo sobre o assunto: “O que sabemos é que mesmo pessoas biologicamente saudáveis podem desenvolver problemas assim quando submetidas a condições adoecedoras, ou quando inseridas numa cultura doente, pelo fato de que nossas crenças, nosso modo de interpretar e compreender a realidade não são algo imutável, fixo, rígido. No senso comum, a ideia de um monstro, um psicopata tresloucado, é muito usada para dar a resposta que procuramos. Isso simplifica as coisas. Explicações assim falsificam a realidade e nos ajudam a evitar a percepção de que podemos ter responsabilidade na expansão desse fenômeno.”

Não digo que se resolva tudo, pois tais acontecimentos continuarão a ter aspectos imprevisíveis, mas uma tomada de posição da sociedade que transita por práticas socioeducativas, legislação sobre mídia internética, política de desarmamento etc. melhora bastante. A sociedade não pode jogar para debaixo do tapete tais acontecimentos. Eles devem gerar reflexões fundamentadas, estudo de práticas pedagógicas, um olhar cuidadoso para a cultura da paz e sua implementação em todos os níveis sociais: família, religião, política, integração de refugiados e demais problemas.

Distribuir a verdade é a melhor arma. É o que penso. E você?

 

Fonte: Fabiana Cambricoli in O Estado de S. Paulo.

A polêmica da telemedicina

12 de Marco de 2019, por João Magalhães 0

No final de fevereiro o CFM (Conselho Federal de Medicina) revogou a resolução que promulgara, regulamentando a prática da medicina a distância, via internet, computador, telefone etc. e que provocara grande polêmica. Dentro de seu espírito, que é um estímulo à reflexão ante assuntos controversos e tratando-se de resolução com importantes repercussões sociais, a coluna procurou sintetizar os argumentos pró e contra à telemedicina

Conforme a resolução revogada, a telemedicina seria voluntária para o médico e o paciente deveria consentir por escrito, além de estar acompanhado por um profissional de saúde durante a consulta. A primeira consulta deveria ser presencial, admitindo exceções em áreas de difícil acesso. No caso de atendimento por longo tempo ou de doenças crônicas, o paciente só poderia ficar sem consulta presencial por, no máximo, quatro meses.

A telecirurgia só poderia ser feita em ambientes com infraestrutura adequada e com, no mínimo, dois cirurgiões: um remoto e outro presente no local da cirurgia. Seriam permitidas trocas de informações sobre diagnósticos entre os médicos distantes entre si, o esclarecimento de dúvidas etc. E também a teletriagem, ou seja, que um médico avaliasse os sintomas do paciente, a distância, para depois encaminhá-lo ao especialista necessário. Também seria possível monitorar, remotamente, dados sobre saúde dos pacientes – como no caso daqueles que estivessem internados em casa.

De acordo com o que previa a resolução, imagens e dados deveriam ser gravados e mantidos sob sigilo. As informações, mantidas por 20 anos, e a forma de arquivá-las ficariam sob responsabilidade do médico.

Críticas e temores quanto às consequências dessa resolução emergiram de um princípio básico de uma medicina de qualidade: a relação médico/paciente, ou seja, a personalização.

A telemedicina foi tema predominante, aliás, da terceira “Summit Saúde Brasil”, realizada em São Paulo, em agosto de 2018. Nesse simpósio, acentuou-se muito que o avanço da gestão e das tecnologias no setor passam por trabalhar mais com o paciente e com as comunidades. “Os pacientes não querem ser pacientes, mas pessoas. Não querem ter um plano de saúde, mas saúde”, frisou o dr. Clay Johnston na conferência de abertura.

Inovação, sim; tecnologia, sim. São necessárias.  Mas o dr. Johnston insiste: “Estamos aqui para melhorar a vida das pessoas. Antes de pensar no paciente, temos de pensar para o paciente.” Segundo ele, “a proximidade traz resultados a curto prazo, cria uma zona de conforto e faz com que o indivíduo se sinta ‘abraçado.’”  

A coluna ouviu a opinião dos dois médicos de mais longeva atuação em Resende Costa e cercanias quanto à telemedicina.

Dr. Paulo Cezar Fortuna Dias é favorável, pois, de acordo com ele, facilita o contato com centros avançados para se discutir diagnóstico e tratamento; é importante para a atualização médica, principalmente para quem exerce a profissão no interior; o CFM exige o contato do médico especialista que atende a distância com um profissional junto ao paciente para troca de informações e definição do melhor tratamento; é um avanço fundamental no setor de imagens, uma vez que os exames realizados no interior poderão ser avaliados com emissão de laudos muito mais precisos por um especialista a distância;  dá segurança aos profissionais que trabalham em pequenas comunidades, ao fazerem contato com especialistas em casos complexos para se definir a melhor conduta.

Dr. Luiz Antônio Pinto tem sérias objeções: “Acho que descaracteriza a relação médico/paciente desejada, correta. Esse é o problema maior...” “É a desumanização da medicina. Você tem que estar frente a frente com o paciente, conversar, examinar. Na telemedicina, por exemplo, você não vai perceber as agruras dele, da família. E isso responde por uma grande maioria dos atendimentos que a gente faz hoje. Num consultório de atenção básica, hoje, há um percentual de 50 a 60 por cento que se relaciona a problemas ligados à família, à homofobia e a violências por várias razões. Coisas que na telemedicina você não vai discutir. É tudo mecanizado.”

Ainda segundo Luiz Pinto, “trata-se também de uma questão de mercado de trabalho muito clara. Neste difícil mercado de trabalho, vamos colocar tudo na internet porque facilita. Não vai ter que contratar tanta gente”. O médico alerta também para a venda de tecnologia: “A gente sabe que quem domina a tecnologia são as multinacionais. Vai passar muito dinheiro às multinacionais. Daqui a pouco, até o governo entra nisso. E quem não tem condição de acesso a essa tecnologia? E as prefeituras do interior sem recursos? Elas vão ter um computadorzinho fazendo uma consultinha ordinária”, conclui dr. Luiz.