O Verso e o Controverso

A antiga poesia litúrgica católica – parte 3: “Stabat Mater”

14 de Abril de 2021, por João Magalhães 0

O Hino

Escrevo às vésperas da Semana Santa. Claro que o tema será a dor de uma mãe que presencia seu filho morrendo numa cruz: o “Stabat Mater”, considerado um dos sete maiores hinos latinos de todos os tempos.

O texto é baseado na profecia de Simeão, quando da apresentação de Jesus no templo: “E a ti, uma espada traspassará tua alma” (Lc 2,35). Trata-se, portanto, de um hino em honra a Nossa Senhora das Dores, composto no século XIII, auge da devoção franciscana a Jesus Crucificado.

 

O Autor

Embora atribuído a outros, grande parte dos pesquisadores considera Jacopone de Todi como o autor real. Jacopone nasceu em Todi, Itália, região da Úmbria. Nobre por parte paterna e materna. Vida surpreendente, com aspectos novelescos. Filho de mãe protetora e de pai severo, ele estudou direito em Bolonha. Aí, leva uma vida dissoluta, acompanheirando-se com os estudantes da Universidade. Enriquece como advogado dos abonados. Casa-se com uma rica e muito piedosa jovem de Todi, mas, em 1268, sua vida sofre uma reviravolta. Num dia de jogos públicos em Todi, o palanque de madeira dos assistentes privilegiados desmorona. Entre as vítimas mortais, sua jovem esposa.

Ao socorrê-la, tira suas vestes e percebe, na cintura dela, um cilício (cordão de crina de cavalo com farpas, amarrado no corpo para fazer penitência). Mortificação, assim interpretada, para expiar os pecados do marido Giácomo (Jacopone).

Sente-se culpado e modifica radicalmente seu comportamento. O excesso de dor praticamente o enlouquece. Vende todos os bens e distribui tudo aos mais pobres. Homem de rua, coberto de andrajos, ridicularizado pelos meninos que o chamavam pejorativamente de “o doido Jacopone”!

Dedica-se ao catolicismo popular, mas estuda profundamente a teologia. Entra para a Ordem III Franciscana e após dez anos – 1278 – foi admitido entre os Frades Menores Franciscanos.

A Ordem de São Francisco e a Igreja Católica vivem profunda crise. A Ordem, uma divisão: uns querem uma regra (leis que regem uma instituição religiosa) mais branda, outros propugnam uma vida disciplinar e práticas severas. Os primeiros eram chamados de conventuais, os segundos, Irmãos Espirituais.

A Igreja, com 27 meses de vacância do papado, elege o eremita Pedro Murrone, que adota o nome de Celestino V, mas que renuncia poucos meses depois. Sucede-o Bonifácio VIII, que governa sob intensa oposição.

Jacopone está entre os opositores ferrenhos. Preso e excomungado por críticas, só em 23/12/1303 o sucessor de Bonifácio, o Papa Bento XI, revoga sua prisão e excomunhão.

 

A Estética

O poema se organiza em 10 estrofes de 6 versos. Sextilhas rimadas no esquema AAB – CCB. AA: e CC: rimas perfeitas: B: rimas imperfeitas. Estrutura poética que agradou aos ouvidos populares. Poesia cantada não só nas igrejas, mas também nos grupos de romaria, nas rezas grupais etc.

A força poética do poema-hino é uma pedra lançada num lago, formando ciclos e interagindo com outras formas de arte: pintura, escultura, arquitetura, teatro. Sobretudo, intumesceu as veias melódicas de compositores renomados, gerando inúmeras composições sacras, ditas eruditas: Pergolesi –Vivaldi – Rossini – Dvorak – Alessandro Scarlatti – Karl Jenkins – Fedele Fenaroli – Brunetti – Rheinberger – Perosi – Zoltan Kodaly – Agostino Stefani – Boccherini – Caldara – Tartini – Juan Mathias (compositor indígena mexicano). São os que conheço. Deve haver mais.

O padre Heitor Pedrosa (“Nos Esplendores da Poesia Litúrgica”), na extensa análise de cada verso, comenta: “Jacopone, com um senso muito agudo e profundo do coração humano, alterna e combina as considerações psicológicas com intuito sensível, isto é, com contemplação direta e espontânea: análise objetiva com a prece, o presente com o futuro, a fé com o misticismo, a alma com o corpo, o tempo com a eternidade.”

Prossegue o padre Pedrosa em sua análise: “O Stabat é o poema imortal das augustas dores de Maria, o poema que todos os cristãos jovens e velhos, grandes e pequenos, sábios e ignorantes, repetem com as mais suaves emoções da alma; é o poema cujo ritmo, quando embebido na música popular, nas notas profundamente patéticas da cantilena eclesiástica, em sua simplicidade ingênua faz reverdecer a esperança em tantas almas desconsoladas e reanima a fé em tantos espíritos abatidos pelo infortúnio.”

Versão integral, em latim e português, do Stabat Mater

 

Tradução: João Magalhães

 

Stabat Mater dolorosa (Estava a mãe dolorosa))

Juxta crucem lacrimosa (Junto à cruz, lacrimosa)

Dum pendebat filius (Enquanto pendia o filho)

Cuius animam gementem (Cuja alma que gemia)

Contristatam et dolentem (Aflita e em dor)

Pertransivit gladius (A espada traspassou)

 

O quam tristis et afflicta (Oh quão triste e aflita)

Fuit illa benedicta (Esteve ela, bendita)

Mater unigeniti (Mãe do unigênito)

Quae maerebat et dolebat (Que lamentava e se afligia)

Et tremebat cum videbat (E tremia, enquanto via)

Nati poenas incliti (Os sofrimentos do ínclito nascido)

 

Quis est homo qui non fleret (Qual é o homem que não chore)

Matrem Christi se videret (Se vir a mãe de Cristo)

In tanto suplicio? (Em tanto suplício?)

Quis non posset contristari (Quem não se entristecerá)

Piam matrem contemplari (Ao contemplar a piedosa mãe)

Dolentem cum filio? (Padecendo com o filho?)

 

Pro peccatis suae gentis (Pelos pecados de seu povo)

Jesum vidit in tormentis (Viu Jesus em tormentos)

Et flagelis subditum. (E submetido aos flagelos)

Vidit suum dulcem natum (Viu seu doce nascido)

Morientem desolatum (Morrendo desolado)

Dum emisit spiritum. (Enquanto entregava o espírito)

 

Eja mater fons amoris (Oh mãe, fonte de amor)

Me sentire vim doloris (Faça-me sentir a força da dor)

Fac ut tecum lugeam, (Faça que com você eu lamente)

Fac ut ardeat cor meum (Faça que arda meu coração)

In amando Christum deum (Para amar Cristo Deus)

Ut sibi complaceam (Para que eu o agrade)

 

Sancta mater, istud agas (Santa mãe, faça isso)

Crucifixi fige plagas (Fixe as chagas do crucifixo)

Cordi meo valide! (Validamente em meu coração)

Tui nati vulnerati (De seu nascido ferido)

Tam dignati pro me pati (Tão disposto a sofrer por mim)

Poenas mecum divide! (Divida comigo os sofrimentos)

 

Fac me vere tecum flere (Faça-me chorar com você verdadeiramente)

Crucifixo condolere (Condoer-me com o crucificado)

Donec ego vixero. (Enquanto eu viver)

Juxta crucem tecum stare (Estar com você junto à cruz)

Te libenter sociare (Associar-me com você de bom grado)

In plancto desidero. (No pranto, desejo)

 

Virgo virginum praeclara (Virgem das virgens luminosa)

Mihi jam non sis amara (Agora, não se amargue comigo)

Fac me tecum plangere. (Faça-me chorar com você)

Fac ut portem Christi mortem (Faça que leve comigo a morte de Cristo)

Passionis eius consortem (Consorte de sua paixão)

Et plagas recolere (E suas chagas venerar)

 

 

 

Fac me plagis vulnerari (Faça que eu seja vulnerado por suas chagas)

Cruce hac inebriari (Inebriar-me por esta cruz)

Ob amorem filii. (Por causa do amor do filho)

Inflammatus et accensus (Inflamado e elevado)

Per te virgo sim defensus (Por ti, Virgem, seja defendido)

In die judicii. (No dia do juízo)

 

Fac me cruce custodiri (Faça-me ser guardado pela cruz)

Morte Christi praemuniri (Ser premunido pela morte de Cristo)

Confoveri gratia (Confortado pela graça)

Quando corpus morietur (Quando o corpo morrer)

Fac ut animae donetur (Faça com que seja dada à alma)

Paradisi gloria. (À glória do paraíso)

 

Amen (Amém).

 

Versão livre de João Magalhães da letra do Stabat Mater

 

Quem poderia não

Compadecer

Vendo amãe de Cristo

Condoída com o filho?

 

Quem é o homem que não choraria

Se visse a mãe de Cristo

Em tanto suplício?

 

Oh mãe, fonte de amor

Faça-me sentir a força da dor

Para que eu lamente (?) com você.

 

Faça com que meu coração arda

Ao amar Cristo Deus

Para que ele se compadeça.

 

Santa mãe, faça isso

Funde as chagas do crucifixo

No meu coração com força

 

Divida comigo os

Sofrimentos

Da ferida do seu filho tão

Gentil a sofrer

Por mim.

 

Faça com que eu chore

Piedosamente com você

Com que eu condoa com o crucifixo

Enquanto eu viver

 

Esteja com você junto a cruz

Me uma com você

No pranto pelo luto

 

Faça-me guardado pela cruz

Fortalecido pela morte de cristo

Confortado pela graça

 

Quando meu corpo morrer

Faça com que a alma seja dada

À gloria do paraíso

Amém.

 

 

 

A antiga poesia litúrgica católica – parte 2: Te Deum

17 de Marco de 2021, por João Magalhães 0

É, pelo que se vê, o hino litúrgico mais usado nos ritos católicos. Também em alguns não católicos que o celebram, como as igrejas luterana, anglicana e metodista. Sua propagação se deve muito aos monges beneditinos, que o introduziram em seu hinário no século VI. Tornou-se até uma cerimônia de agradecimento à parte. Por exemplo, cantar um Te Deum pelo fim de uma epidemia.

A origem do Te Deum é muito antiga. Aí pelo século III. Até hoje se pesquisa sobre seu autor, mas são atribuições: Santo Ambrósio? Santo Hilário de Poitiers? Nicetas de Ramesana? Sua autoria, contudo, permanece incerta.

O “Te Deum” é um hino de louvor e agradecimento de intensa qualidade poética. Muitas ideias em poucas palavras.

“Louvamos-te Deus; confessamos-te, Senhor. A ti, eterno Pai, toda Terra venera” (“Te Deum laudamus, te Dominum confitemur, te aeternum Patrem omnis terra veneratur”).

“A ti todos os anjos, a ti os céus e todos os poderes, a ti Querubins e Serafins com voz incessável proclamam: Santo, santo, santo é o Senhor Deus do Sábado. Céus e Terra estão cheios da majestade de tua glória” (“Tibi omnes Angeli, tibi coeli et universae potestatis, tibi Querubim et Seraphim incessabili voce proclamant: Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabaoth. Pleni sunt coeli et terra majestatis gloriae tuae”).

“A ti o glorioso coro dos apóstolos, a ti o louvável número dos profetas, a ti louva o exército em vestes brancas dos mártires, a ti a Santa Igreja confessa por todo orbe terrestre como pai de imensa majestade, [bem como] teu venerando filho único e também o Espírito Santo paráclito” (“Te gloriosus Apostolorum chorus, te prophetarum laudabilis numerus; te martirum candidatus laudat exercitus. Te per orbem terrarrum sancta confitetur Ecclesia. Patrem immensae majestatis: venerandum tuum verum et unicum Filium, sanctum quoque Paraclitum Spiritum”).

“Tu, Cristo, rei da Glória. Tu és filho sempiterno do Pai. Tu para amparar o homem não temeste o útero da virgem. Tu, vencido o aguilhão da morte, abriste aos crentes o reino dos céus. Tu sentas à direita de Deus, na glória do Pai. Crerás ser o juiz a vir” (“Tu Rex gloriae, Christe. Tu Patris sempiternus es Filius. Tu ad liberandum suscepturus hominem non horruisti Virginis uterum. Tu devicto mortis acúleo, aperuisti credentibus regna coelorum. Tu ad dexteram Dei sedes, in gloriam Patris. Judex crederis esse venturus”).

“Pedimos-te, portanto, acode os teus servos que remiste com teu precioso sangue. Faz que sejamos contados entre os santos na eterna glória” (“Te ergo, quaesumus, tuis fammulis subveni, quo spretioso sanguine redimisti. Aeterna fac cum sanctistuis in gloria numerari”).

“Salva teu povo, Senhor, e abençoa tua herança e dirige-os e levanta-os por toda eternidade” (“Salvum fac populum tuum, Domine et benedic hereditati tuae et rege eos et extolleillosusque in aeternum”).

“A cada dia te bendizemos e louvamos teu nome no século do século” (“Per singulos dies benedicimus te et laudamus nomen tuum in saeculum saeculi”)

“Digna, Senhor, este dia, nos guardar sem pecado. Tem misericórdia de nós, Senhor.  Vive conosco. Faz misericórdia, Senhor, sobre nós do mesmo modo como esperamos em ti”. (Dignare, Domine, die isto, sine peccato nos custodire”. Miserere nostri, Domine, morerere nostri. Fiat misericórdia, Domine, super nos, quemadmodum speravimus in te)

Em ti esperei, não serei confundido na eternidade (“In te, Domine, speravi, non confundar in aeternum”).

Restringindo-se ao aspecto literário, que é o propósito desta série, percebem-se: uma salmodia em nenhum momento monótona; a musicalidade dos enunciados, daí o grande número de compositores que o musicaram; a súplica plangente; a exploração de sentimentos.

O beneditino Dom Cagin, em seu estudo sobre o Te Deum, cita Hugueny: “Melhor do que a inteligência é o coração que comentará o Te Deum. O comentário do coração não se escreve sobre o papel, mas na alma em tratos de amor e na vida em atos de caridade.”

Acho que só a grande poesia consegue isso. É o que penso. E você?

A antiga poesia litúrgica católica: “Dies Irae”

18 de Fevereiro de 2021, por João Magalhães 0

Talvez possa interessar a nossos leitores, uma análise de textos poéticos, tantas vezes cantados ou declamados nas cerimônias litúrgicas mais antigas da Igreja Católica. Não vou me ater à poesia bíblica:  salmos, hinos e cantos, mas, sim, a uma poesia litúrgica criada por poetas católicos a partir do século III da era cristã, por exemplo, Santo Ambrósio e São Gregório Magno, e que floresceu copiosamente na Idade Média.

Uma poesia litúrgica como expressão estética de temas teológicos, sobretudo bíblicos. Uma poesia que se impõe por uma qualidade literária muito expressiva que reforça, poética e musicalmente, temas da devoção cristã.

Escreve o Pe. Heitor Pedrosa (“Nos Esplendores da Poesia Litúrgica” - Ed. Íntima -1928): “O acolhimento das letras cristãs na sociedade do século IV é um fato expressivo: por elas muitas almas sentiram a fascinação do Cristo Salvador e procuraram a Igreja. Nestas circunstâncias, as poesias desempenharam missão importantíssima. Por que é que a poesia somente começou no III século? Se são os grandes abalos, as fortes emoções, que fazem desabrochar a flor da poesia, nenhum período mais propício do que o tempo das perseguições. As ansiedades, as separações doloridas, o júbilo das conversões, o encanto das reuniões, a afetividade profunda aos irmãos, as agonias, os triunfos atravessados de dores, a paixão pelo martírio, as despedidas soluçantes, os espetáculos crudelíssimos no Coliseu, as lágrimas no recesso das catacumbas eram potenciais de inspirações felizes e da mais inflamada poesia”!

Alguns desses poemas sagrados cruzaram os tempos e foram e continuam sendo fonte de inspiração para os grandes compositores da assim chamada música clássica ou erudita. Caso do “Dies Irae”, “Te Deum” e “Stabat Mater”. A meu gosto, são joias da poética sagrada. É sobre eles que a coluna versará, trabalhando o verso poético. Uma edição para cada um.

A probabilidade maior é que o franciscano, Tomás Celano (1200-1255), um dos primeiros discípulos de São Francisco de Assis e um dos seus hagiógrafos, seja o autor do “Dies Irae”.

O “Dies Irae”, no entanto, formou-se lentamente. Textos e versos sobre o dia do julgamento final corriam dispersos na liturgia, na Bíblia, nos poetas, nos teólogos. Tomás Celano, bom poeta e escritor, teve a brilhante ideia de reuni-los num poema com 19 tercetos de intenso dramatismo, perfeitamente ritmados e rimados e com a métrica latina do verso troqueu (uma sílaba longa, outra breve).

Ezra Pound caracteriza uma poesia pelo seu grau de logopeia (ideias, reflexões, pensamentos, sentimentos); de fanopeia (visualizações, imagens, espaço, paisagem); de melopeia (musicalidade, ritmo, rimas, aliterações etc.).

O “Dies Irae” preenche tudo isso com excelência. O poema quase todo é uma longa logopeia, lembrando passagens das Sagradas Escrituras: o profeta Sofonias, 1,15 (Dies irae, dies illa), os Evangelhos (Qui Mariam absolvisti et latronem exaudisti..Inter oves locum presta et ab haedis me sequestra: tu que absolveste Maria Madalena e ao ladrão na Cruz ouviste...Coloca-me entre as ovelhas, retira-me para longe dos bodes) e, claro, o Apocalipse 20,12 (Liber scriptus proferetur: O livro escrito será mostrado); textos litúrgicos anteriores, por exemplo, de São Pedro Damião(o quam dira, quam horrenda voce judex intonat: Oh com que voz sinistra e horrenda o juiz pronuncia [sentença]) -  de Santo Anselmo (vix Justus salvabitur: apenas o justo se salvará) -  de São Bernardo (quid in illo die dicturi sumus?: O que diremos naquele dia?) E tantos outros.

E a fanopeia? O juiz de extrema majestade (rex tremendae maiestatis) sentando-se no trono de julgamento; a natureza e até a morte, estupefatas com o ressurgir das criaturas (Mors stupebit et natura cum ressurget creatura); o livro onde tudo está anotado (Liber scriptus proferetur in quo totum continetur).

A melopeia dispensa comentários e demonstrações. Basta observar a cadência, as rimas, o som da trombeta (Tuba mirum spargens sonum per sepulchra regionum: a trombeta espalhando um som assombroso pelos sepulcros das regiões).

 

Letra do poema religioso Dies Irae em versão integral

 

Dies irae! Dies illa (Dia da ira! Aquele dia) /Solvet saeculum in favilla (Em que os séculos se dissolverão em cinzas) / Teste David cum Sibylla! (Como testemunham Davi e a sibyla).

Quantus tremor est futurus (Quanto pavoroso será) /Quando iudex est venturus (Quando o juiz vier) /Cuncta stricte discussurus! / (Julgar tudo rigorosamente).

Tuba mirumspargenssonum (A trombeta entoando um som assombroso) / Per sepulchraregionum (Pelos sepulcros das regiões / Coget omnes ante thronum (Conduzirá todos perante o trono).

Mors stupebit et natura (A morte e a natureza se espantarão/ Cum resurget criatura (Quando ressurgir a criação) / Iudicantiresponsura (Para responder ao julgador).

Liber scriptus proferetur (O livro escrito será trazido) / in quo totum continetur (Em que tudo está contido) / Unde mundus iudicetur (De onde o mundo será julgado).

Iudex ergo cum sedebit (Quando o juiz, portanto, tomar o seu lugar) /Quiquid latet apparebit (Tudo que está oculto aparecerá) / Nili nultumre manebit (Nada impune permanecerá).

Quid sum miser tuncdicturus? (O que eu, um miserável, direi?) /Quem patronum rogaturus(A que patrono rogarei?)/ Cum vixiustus sit securus? (Quando apenas o justo estará seguro?)

Rex tremendae majestatis (Rei de tremenda majestade) / Qui salvandos salvas grátis (Que salvas graciosamente os que devem ser salvos) / Salva me, fons pietatis (Salva-me, ó fonte de piedade)

Recordare, Iesu Pie (Recorda, piedoso Jesus) / Quod sum causa tuae viae (Que sou causa de tua vinda) /Ne me perdas illa die (Não me perca naquele dia).

Quaerens me, sedisti lassus (Buscando-me, sentaste exausto) /Redemisti crucem passus (Redimiste-me, sofrendo na cruz) /Tantus labor non sitcassus(Tanto trabalho não seja em vão!).

Iuste iudex ultionis (Justo juiz da punição) / Donum fac remissionis (Concede-me a remissão / Ante diem rationis (Antes do dia do acerto de contas)

Ingemisco tanquam réus (Gemo como um réu) / Culpa rubet vultus meus (A culpa enrubesce meu rosto) / Supplicanti parce, Deus (Poupa o suplicante, ó Deus)

Qui Mariam absolvisti (Tu que absolveste Maria [a pecadora]) / Et latronem exaudisti (E ao ladrão na cruz ouviste) / Mihi quoque spem dedisti(Também a mim deste esperança)

Preces meae non sunt dignae (Minhas preces não são dignas) / Sed tu bonus facbenigne (Mas tu, que és bom, sê benigno) / Ne perenni Cremer igne (Para que eu não seja cremado no fogo eterno)

Inter oves locum praesta (Dá-me um lugar entre as ovelhas) / Et ab haedis me sequestra (E separa-me dos bodes) / Statuens in parte dextra (Colocando-me à tua direita)

Confutatis maledictis (Condenados os malditos) / Flammis acribus addictis (Lançados nas chamas ardentes) / Voca me cum benedictis (Chama-me para os abençoados)

Oro suplex et acclinis (Rezo a ti, súplice e ajoelhado) / Cor contritum quase cinis (Coração contrito quase em cinzas) / Gere curam mei finis (Cuida do meu fim)

Lacrimosa dies illa (Lacrimoso aquele dia) / Qua resurget ex favilla (Em que ressurge das cinzas) / Iudicandus homo réus (O homem, réu a ser julgado)

Huic ergo parce, Deus (Portanto, perdoa a este) / Pie Jesu domine (Piedoso Senhor Jesus) / Dona eis réquiem (Dá-lhe o descanso).

 

2021: convocação e homenagem

20 de Janeiro de 2021, por João Magalhães 0

Tenho como caraterística, nos momentos finais do ano, fazer uma revisão do espaço onde estão vivendo o meu ser, o tempo e minhas características pessoais. Ou seja, a minha ambiência, os movimentos, portanto, as mudanças trazidas pelo passar do tempo e minhas condições individuais. Resumindo: onde, quando, como.

 

Convocação. Neste momento, em minha frente, o “Programa Nacional de Direitos Humanos” elaborado pela Secretaria Nacional dos direitos Humanos em 1998. Conjuntamente, o pensamento, carregado de emoção, está no falecido 2020. Ano de muito luto. De muito negacionismo. De surpresas vitais. Ano em que os Direitos Humanos foram muito vilipendiados. Ano discípulo dos anos de ditadura: a de Getúlio Vargas e a dos militares de 1964 a 1985!

“Direitos humanos são os direitos fundamentais de todas as pessoas, sejam elas mulheres, negros, homossexuais, índios, idosos, portadores de deficiências, populações de fronteiras, estrangeiros e imigrantes, refugiados, portadores de HIV, crianças e adolescentes, policiais, presos, despossuídos e os que têm acesso a riqueza. Todos, enquanto pessoas, devem ser respeitados, e sua integridade física protegida e assegurada.

Direitos humanos referem-se a um sem número de campos da atividade humana: o direito de ir e vir sem ser molestado; o direito de ser tratado pelos agentes do Estado com respeito e dignidade, mesmo tendo cometido uma infração; o direito de ser acusado dentro de um processo legal e legítimo, onde as provas sejam conseguidas dentro da boa técnica e do bom direito, sem estar sujeito a torturas ou maus tratos; o direito de exigir o cumprimento da lei e, ainda, de ter acesso a um Judiciário e a um Ministério Público que, ciosos de sua importância para o Estado democrático, não descansem enquanto graves violações de direitos humanos estejam impunes e seus responsáveis soltos e sem punição, como se estivessem acima das normas legais; o direito de dirigir seu carro dentro da velocidade permitida e com respeito aos sinais de trânsito e às faixas de pedestres, para não matar um ser humano ou lhe causar acidente; o direito de ser, pensar, crer, de manifestar-se ou de amar sem tornar-se alvo de humilhação, discriminação ou perseguição. São aqueles direitos que garantem a existência digna a qualquer pessoa”.

Passaram-se mais de vinte anos e estamos longe de atingir essas metas, expressas na substanciosa introdução ao Plano Nacional dos Direitos Humanos de 1998. Em alguns casos houve até recuo. Há que se convocar todo brasileiro de boa vontade a batalhar pelos direitos da pessoa. É a única maneira de sanear a poluída atuação de nossa política.

Vamos transformar estas metas num programa de luta neste alvorecente 2021?

 

Homenagem. Em 22 de novembro de 2020, fez um ano de morte do rabino Henry Sobel (1944-2019). Nasceu em Portugal. Educou-se nos EUA. No Brasil, rabino-mor da Congregação Israelita Paulista, destacou-se na luta em defesa dos direitos humanos.

Ficaram marcados para a História sua posição firme, não permitindo o sepultamento na ala dos suicidas do Cemitério Israelita do Butantã, do jornalista da Rádio/TV Cultura, Wladimir Herzog, assassinado pela ditadura (1975) e também o culto ecumênico em sua homenagem na Catedral da Sé liderado pelo trio:  Dom Paulo Evaristo Arns, ele, e o pastor presbiteriano James Wright. Momento tenso. Os arredores cercados pelas tropas do exército. Sou testemunha, pois estive presente na nave da catedral.

Ao aproximar-se a cerimônia da Haskará (cerimônia judaica em homenagem à memória de uma pessoa falecida), seu sucessor na Congregação judaica, rabino Michel Schlesinger, junto com o cardeal de São Paulo, dom Odilo Scherer, deram um testemunho de sua atuação (“Uma só casa de oração” OESP-24/11/2020 A2): “O envolvimento de Sobel em causas humanitárias se estenderia por quatro décadas. Do apoio aos despossuídos da cidade e do campo à defesa de uma solução negociada para o conflito entre Israel e palestinos, Sobel jamais se acovardou. Por isso era recebido e respeitado por todos os presidentes da República, assim como por todos os papas e mesmo pelo líder palestino Yasser Arafat.

Daí a relevância de marcar a Haskará do rabino Sobel com uma iniciativa inter-religiosa, reunindo líderes judeus, cristãos, muçulmanos, budistas, do candomblé e da fé Baha’í.

Uma conversa sobre o Natal

13 de Dezembro de 2020, por João Magalhães 0

O mês de dezembro é muito pontilhado pelos símbolos do Natal: Papai Noel, São Nicolau (em alguns países, Santa Claus, por causa de “Sinterklass”: São Nicolau em holandês), a árvore, as luzes, a estrela e sobretudo o presépio para o Catolicismo.

O Natal deste ano será diferente por causa da pandemia? Sei lá! Nota-se, nos últimos meses, um relaxamento meio generalizado quanto aos cuidados para evitar a propagação da Covid-19.No entanto, deveria ser o contrário, pois o Natal é a comemoração do nascimento, representado pelo nascimento de Jesus. A vida que nasce e renasce. Seus símbolos mostram isso: o velho Noel acarinhando e presenteando uma criança, a árvore florindo e gerando frutos, a luz dos astros sem a qual não existe vida, o menino numa manjedoura que mais tarde, segundo a tradição, dirá: “Eu sou o caminho, a verdade e a VIDA”.

Já a Covid-19...  Apareceu e se inscreveu nos símbolos da morte. Tem sentido você comemorar o Natal, propagando esse vírus?

Há que se revitalizar os símbolos, que são sinais que mexem com o nosso interior, tanto no sentido positivo quanto no negativo, como é a suástica para um nazista e para um judeu. Todo símbolo é sinal, mas nem todo sinal é símbolo. Por exemplo, uma fumaça é sinal de algo que está queimando. Vira símbolo quando vinda de um incenso, levando uma pessoa a uma atitude de veneração, de oração etc.

É neste sentido que a revitalização é necessária. Os símbolos tendem a desgastar-se pela ação dos tempos (E vem a mania do latim: “Tempus edax rerum” – o tempo(esse) devorador das coisas!).

Ultimamente, acho eu, os símbolos do Natal pouco significam. São mais sinais que símbolos. Objetos de decoração, de enfeite, de propaganda e até de competição. Estamos esvaziando seu sentido fundamental.

Precisamos re-simbolizar os sinais de nossas festas. Atualizá-los para que reforcem as atitudes positivas. Por que não montar um presépio, de preferência com o fundo musical da “Missa dos Quilombos”, com texto do nosso “profeta” recentemente falecido, Dom Pedro Casaldáliga?

Neste presépio, o menino Jesus é um recém-nascido negro; sua mãe Maria, uma jovem negra: seu pai José, também um negro. Deu à luz em miseráveis condições (lembro ao leitor que “presépio” vem do latim: “praesepis”, que significa curral, estábulo) devidas ao preconceito racial estrutural que grassa ainda pelo mundo todo e continua matando o povo negro pelas forças policiais, fome, miséria, abandono. E o Brasil não é exceção, mesmo que alguns de nossos governantes digam o contrário!

E finalizo com o nosso genial Machado de Assis, por sinal nada religioso de frequência. Basta ver como se aproveita de um evento do Natal, baseado em lendas, que é a Missa do Galo (conto “Missa do Galo”. Curto, pode-se lê-lo pela internet), para uma reflexão sobre a educação social de sua época: machismo para o menino, subserviência para a menina.

E quanto a seu “Soneto de Natal”:

 

“Um homem – era aquela noite amiga/ Noite cristã, berço do Nazareno/ Ao relembrar os dias de pequeno/ E a viva dança, e a lépida cantiga/

Quis transportar ao verso doce e ameno/ As sensações da sua idade antiga/ Naquela mesma velha noite amiga/ Noite Cristã, berço do Nazareno/

Escolheu o soneto... A folha branca/ Pede-lhe a inspiração, mas frouxa e manca/A pena não acode ao gesto seu/

 E, em vão, lutando contra o metro adverso/ Só lhe saiu este pequeno verso: “Mudaria o Natal, ou mudei eu?”

Machado, acho que não há solução para o problema que você poetizou se os dois não mudarem. O ser humano, como você bem trata na sua obra, vive numa eterna transformação. Vida supõe movimento (“Vita est in motu immanenti”,) que, por sua vez supõe mudança.

Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ Muda-se o ser, muda-se a confiança/ Todo o mundo é composto de mudança/ Tomando sempre novas qualidades”.

Re-significar os eventos sociais e religiosos, ora extirpando suas raízes malignas, ora fortificando-as, quando vitais, é uma necessidade e faz parte da missão do ser humano...  Por enquanto, o único ente capaz de fazê-lo.  E o Natal é um deles.

É o que penso. E você, leitor?