De um ponto de vista

Solto a voz nas estradas

27 de Janeiro de 2026, por João Bosco Teixeira 0

Estávamos em Parati: catorze irmãos que, todo ano, gostávamos de passar juntos uns três dias.

Daquela vez, havia uma grande novidade.

Somos uma família que canta desde que nasceu. Ambiente musical, com papai que tocava bandolim, mamãe piano. Em casa, dois desse instrumento, que todos dedilhavam mais ou menos, mas com irmã mais velha, professora consagrada, e outras irmãs versáteis o suficiente para acompanhar qualquer execução musical de caráter popular. Todos os homens tocavam também algum instrumento.

Havia, então, uma novidade. No ano anterior à ida para Parati, os irmãos passamos a nos encontrar, semanalmente, para cantarmos polifonicamente, sob a regência competente do irmão, maestro de consagrado coral em BH. Pois, escolhêramos o encontro do final de ano para nossa primeira apresentação oficial. Ocorreu, numa tarde serena, em saleta singela da pousada em que estávamos. Todos vestidos a rigor, o maestro em fraque, elegantíssimo. Entrada solene na saleta da pousada. Na plateia, qualificado público composto por uma cunhada, um cunhado e uma irmã que, por morar em SP, não tinha tido a oportunidade de se compor conosco.

Apresentação solene. Aplausos a flux. Encantamento de todos pelo simples prazer de fazer boa música e cantar bem. Uma festa.

Seguiu-se o de todo dia: aquela cervejinha, caipirinha, ou outro destilado, no início da tarde e entrada da noite, sem definição de horas para o recolhimento.

Lá pelas tantas, João – que toda família grande tem um filho chamado João - o irmão do meio, tomado de certo recolhimento, deixou-se levar pelo silêncio. Cabisbaixo, contrariamente a seus hábitos, isolou-se do grupo, e até de sua esposa. José – que toda família grande tem um filho chamado José – deu-se conta, foi-lhe ao encontro e entabulou conversa. João, o que é que você tem? - Nada não, estou apenas um pouco preocupado. - Com quê? Acaso está doente? De câncer? - que essa é uma doença de família. - Não, não estou doente não. - Mas, então, que cara é essa, por que tanto silêncio? Vai se separar de sua mulher? - Não, nada disso; minha mulher até está comigo nisso. - Nisso, o quê? Fala, pô, fala logo ou então não fala; mas para com essa cara de quem precisa de algo. - Vou falar, mas por favor, me respeite, pois estou muito emocionado. - Emocionado com quê, João? Solta a franga. - Está bem, vou falar. – A essas alturas já o grupo dos irmãos tinha prestado atenção na conversa e ouviu João falar. - É o seguinte, começou João. Depois de rezar muito, de ter o de acordo de minha mulher – o que poderá lhe custar muito – de ouvir gente mais experiente, depois de pensar e ponderar bem as coisas, mais do que costumo, tomei a decisão de... (silêncio alto entre os irmãos), tomei a decisão de enterrar vocês todos... José, que tinha na mão meio copo de cerveja, não titubeou em lançá-la na cara de João. Os demais irmãos, tomados de todos os sentimentos possíveis, inclusive antagônicos, foram levados mais pela sensação de alívio que de qualquer outra coisa. Depois, é lógico, vieram disparatados comentários, proporcionais ao disparate do irmão.

Essa crônica quer relembrar a figura da irmã Teresinha, segunda na ordem cronológica dos irmãos, que faleceu no início deste ano. Entre todos nós, possuidores de ótimas vozes para o canto coral, só ela possuía voz lírica. E ficaremos eternamente saudosos de quando cantávamos Travessia e ela solava, independentemente da tonalidade em que se cantasse: “Solto a voz nas estradas já não quero parar...”

Tudo é possível

24 de Dezembro de 2025, por João Bosco Teixeira 0

Era a grande festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Padroeira maior da Ordem Terceira de São Francisco. Tudo concorria para a grandeza da Missa Solene, das nove horas e quinze minutos, conforme centenária tradição. Em São João del-Rei, mesmo quem não quer, vive até da tradição. Pela menos parte dos cidadãos, aqueles orientados e informados pelas dezenas de toques de sino.

Desde o alvorecer o dia era festivo. E quarenta minutos antes da celebração eucarística os sinos da igreja de São Francisco já convocavam os fiéis, muito embora a missa se devesse celebrar na igreja do Carmo.

Com receio de não obter lugar para a participação na celebração devidamente acomodado, antecipei minha hora de chegada à igreja. Sobravam muitíssimos lugares, então. Até o início da celebração, muitos espaços foram preenchidos, sem, todavia, ocupar cinquenta por cento de sua capacidade.  A festa da Imaculada não compete, popularmente, com aquelas do Carmo, Mercês e da Boa Morte de Maria.

A Orquestra tocou a ABERTURA, composição do são-joanense Geraldo Barbosa de Souza. Peça músico-operística a fazer inveja a muito compositor clássico. Era o prenúncio da Missa de Francisco Manoel da Silva, cujo ducentésimo trigésimo aniversário de morte se comemorava.

Francisco Manoel viveu trinta anos. O suficiente para compor uma missa de grande envergadura. E orquestra e coro, acompanhando o impulso e vitalidade de seu regente, interpretaram a partitura musical, colaborando para a grandeza da celebração. Só não obtiveram correspondência por parte do celebrante e mesmo por parte do proclamador do evangelho. Este, ao cantar, parecia sair de um tom menor e concluir num maior. Aquele, destituído de qualquer competência musical, sequer soube entoar o Glória e, menos ainda, o Credo.

Na assembleia, durante o longo canto do Glória, três cenas notáveis. Primeira delas desempenhada por um senhor, certamente nos seus mais de setenta nos. Entrou na igreja, já iniciada a celebração. De roupa destituída de qualquer relação com a solenidade do momento – uma bermuda branca, camisa de igual cor, trazia preso à cintura o enorme celular, fazendo lembrar as armas carregadas pelos justiceiros de tempos idos. O respeitável senhor, sem tomar conhecimento de quanto ocorria, andava pela nave central, cumprimentava aqui uma pessoa, ali outra; foi até a capela-mor de onde, em pose, fotografou o sr. Bispo e sua coorte composta de vários sacerdotes e coroinhas que circundavam o trono episcopal.

Outra figura dividia a atenção dos fiéis durante o canto do Glória que, na verdade, insistia em não terminar:  vinte e cinco, trinta minutos. Um pobre senhor, menor idade que a do anteriormente citado, subia e descia a nave central, suplicando uma esmola dos presentes. Ia e voltava, insistentemente. Seu entusiasmo competia com o da orquestra. Os resultados, no entanto, pareciam inferiores.

Ainda uma cena. Pela demora do canto do Glória, uma senhora, nada jovem sem aparentar velhice, deixou seu lugar e com gestos largos de impaciência justificava sua saída da igreja, ao se apontar para o coro da igreja.

Na paróquia de Nossa Senhora do Pilar, cujas longas celebrações lembram tempos em que o povo tinha na liturgia sua diversão, as confrarias, arquiconfrarias, ordens terceiras e quejandas, garantem público, tradicional. E tudo é possível.

Mais que recordação

25 de Novembro de 2025, por João Bosco Teixeira 0

Há certas horas, em nossas vidas, em que a gente se pega a recordar.  “Recordar é viver”, como dizia a velha marchinha carnavalesca. Mas, há recordações e recordações.

Há aquelas que surgem qual uma imposição. Uma necessidade. Para que a gente se recorde de que é preciso insistir no viver.

Há outras que emergem para que a gente se console com êxitos obtidos e, assim, não se deixe vencer por desânimos descabidos.

Há antigas que nos vêm para que a gente entenda que, por maior que seja o passado, seja nas suas alegrias seja nas suas tristezas, ele não pode determinar o presente.

Há, também, despretensiosas que trazem consigo alegrias iluminantes, que engordam emoções. Semana passada vivi uma dessas.

Impossibilitado de pegar meu carro e sair em direção de Oliveira, comprei passagem na São Cristóvão e lá fui eu. Sentado na poltrona três, era tomado de tanto desejo de usufruir da viagem que deixei o livro, em leitura, fechado dentro da bolsa. E prazerosa se tornou a viagem, com a visão solta para os campos, para as colinas verdejantes, caídas as primeiras chuvas. E gente, variada em tipo e cor, a entrar e sair do ônibus, com mais e menos sacolas, sob os braços e presas ao corpo, e até criança de colo, lindamente aconchegada pela jovem mãe, despedida já dada à avó que ficara pela calçada. Cenas de antanho, revividas em novas manifestações.

E lembrei-me de Vicente, o motorista que, durante trinta e mais anos, comandou aquela viagem no trecho São João-Divinópolis.

Dotado de humor inigualável, percorria ele a estrada de terra na maior alegria, divertindo seus passageiros com mil e uma estórias sobre acontecimentos nas viagens diárias que fazia. E mais, prestava enorme serviço aos moradores do trajeto, levando recados, cartas, objetos e até pequenas aves para entrega e, também, para resposta. A viagem com o Vicente, do ponto de vista da duração no tempo, não se podia prever, sobretudo sob chuva. No entanto, era fácil suportá-la pela invejável disposição e vivacidade com que ele enfeitava os feitos e desfeitos que protagonizava. Recordação muito viva.

A estrada hoje é tão diferente no seu aspecto físico. Toda asfaltada, passa por linda região montanhosa, ocupada já, em boa parte, por ricas plantações, parreirais em flor e fruto.

De particular detalhe se revestiu a passagem por Ritápolis, a antiga Santa Rita.  Abandonada a rodovia 494, em trevo ornamentado com a figura pétrea de Santa Rita, o ônibus seguiu caminho para o centro da cidade, já, então, começando a enfrentar os vinte e sete quebra-molas que ultrapassaria até chegar, lá no alto, para novamente pegar a rodovia. Esse percurso, que não sei se atinge três quilômetros, o ônibus o fazia como se fosse um ônibus urbano. Paradas e mais paradas, nove ao todo, acolhendo e deixando passageiros, agradecidos, pelas ruas que se sucediam, morro acima, ladeira abaixo, em curvas e retas.  Lentamente o ônibus percorria todo o centro da cidade; subia e subia. Nas ruas estreitas, era possível encontrar veículos estacionados nos dois lados da rua, dificultando a passagem do ônibus grandalhão. Havia esquinas que exigiam do motorista ou uma dupla manobra ou a subida na calçada para que pudesse alcançar a rua seguinte. Gente não faltava no curto e longo trajeto. As pessoas pareciam estar contemplando a vida a passar.  

São Tiago logo a seguir, Morro do Ferro um pouco depois, tudo compunha um itinerário lindo, carregado de recordações, que culminaria na simpática e cativante Oliveira.

Ritápolis, no entanto, foi mais que uma recordação.

“Pai, afasta de mim este cálice”

29 de Outubro de 2025, por João Bosco Teixeira 1

Me tem sido difícil manter esta coluna.  É que, a despeito de eu querer escrever “de um ponto de vista”, minha vista está voltada para tantos pontos que o dia a dia de nossas vidas nos tem oferecido. Não têm faltado mil insinuações de pontos de vista para uma consideração particular sobre cada um deles. E isso não me deixa esquecer: “Pai, afasta de mim este cálice...”

Tenho andado cansado, não tanto pela quase nona dezena de vida que vou levando. Não. É pela tristeza de ver e sentir vilipendiada uma dimensão da vida pela qual tantos de nós lutamos: o povo qual fonte e razão de ser de uma existência comunitária, de uma nacionalidade, isto é, o povo como única fonte e sustentáculo de um regime democrático.

Poucas datas têm sido tão lembradas como o 8 de janeiro. E com razão, pois ele estabeleceu um novo paradigma de democracia para o Brasil. Paradigma de uma democracia ensandecida, levada a efeito por um grupo que nunca teve o respaldo popular para implantá-la no país. 

Democracia ensandecida que leva a uma nova e absurda leitura da Constituição, leitura que justificou o golpe de Estado dado pelo poder supremo, que se tornou soberano, a ponto de adjudicar a si a função de investigador, de promotor, de juiz, e, então,  aplicar penas de assassinos para manifestantes; forjar certidões; orgulhar-se de, nas audiências de custódia, dar a cada um o que lhe era de direito, isto é, a prisão; soltar vendedor ambulante, comprovada sua inocência, mas, ainda assim, com a obrigação do uso de tornozeleira eletrônica; prender aposentada de 74 anos por vinte e um dias, sem qualquer motivação ajuizada; acessar documentos particulares sem autorização; manter preso cidadão necessitado de assistência médica, mesmo que recomendada por órgão pertinente; tudo isso apenas para falar de alguns absurdos jurídicos.

Para o dia oito, e com o dia oito, uma força tarefa se instalou dentro do órgão superior, que passou a praticar verdadeiro golpe à democracia, com a abolição do direito e do processo penal, substituído pela “ordem dada, ordem cumprida”, máxima absolutista, característica da mentalidade fascista. No órgão superior, tudo tem ocorrido conforme previsto e planejado.

 

Verdadeira selvageria e tirania

Uma nota particular. Anistia para quem matou, para quem sequestrou, para quem assaltou banco e, sobretudo, PARA QUEM TENCIONAVA IMPLANTAR NO PAÍS UMA DITADURA DO PROLETARIADO. Para esses a anistia foi possível, pois tratou-se de um golpe frustrado. Agora, dizem tantos “superiores”, também tratou-se de um golpe frustrado. Portanto, anistia. Não, agora não, mesmo sabendo-se que a maioria absoluta dos participantes dos atos do dia 8 não cometeu crime algum. Entendam lá os deuses do Olimpo.  

Tudo isso me traz à memória: “Pai, afasta de mim este cálice de vinho tinto de sangue... Tanta mentira, tanta força bruta”.

Já não há quem fale, escreva ou cante versos tão candentes... Seus autores, sabe lá Deus, o que pensam daqueles dias em que comprometeram a própria vida. Hoje, não se sabe que compromissos têm. Parece, tornaram-se crianças...

Intrepidez

01 de Outubro de 2025, por João Bosco Teixeira 0

Minha mulher, Maria Helena,  e suas irmãs estão fazendo uma limpeza na casa de seus pais, onde cresceram e se multiplicaram. Há tanta coisa lá dentro, pois a moradia acolheu autêntica família mineira, conservadora dos bons costumes e das boas lembranças.  

No tocante a papéis, há deles numerosos que dariam farto material para a composição de rica e significativa narrativa familiar. De minha sogra, pessedista convicta, numa terra em que a UDN era forte, encontrei um bilhete que agora transcrevo literalmente.

 

            Paris, 9-8-64.

            Meu caro Tancredo

            Devia-lhe uma palavra de agradecimento desde o dia de meu embarque no Rio. Lembro-me bem que a sua foi a última mão que apertei antes de me dirigir ao avião.

            Naquele instante de brutalidade a sua presença confortou-me. Aliás o que caracteriza bem a sua personalidade é a intrepidez com que enfrenta as suas e as adversidades dos amigos. Muito obrigado a você.

            Creio, porém, que a democracia não é apenas aquela flor tenra a que se referia o Mangabeira. Ela terá forças para se levantar sobretudo porque sobraram homens como você que a poderão irrigar mantendo-lhe o vigor para novas arrancadas.

            Um grande abraço a Risoleta e aceite o meu mais afetuoso agradecimento.

                                                Juscelino

 

Fico encantado com o texto. Pessoas da grandeza de seus atores que não se envergonham de se apresentar carinhosamente, sensivelmente. Hoje, na hora da brutalidade, não há espaço para delicadezas do jaez manifestado por Juscelino. A “brutalidade” tomou lugar da sensatez. Esta se fez insensatez.

OH! Insensatez que você fez “coração mais sem cuidado”.

É isso: “coração mais sem cuidado”. Total insensibilidade é o que vem caracterizando as atitudes de quem assume o poder supremo de julgar, e, então, o faz de maneira absolutista e, pleonasticamente, fascista.

 Tancredo “INTRÉPIDO”. Desde sempre. O único a ficar com Getúlio, com Goulart, com Juscelino. Tancredo “intrépido” até no renunciar à saúde e, assim, garantir a passagem democrática.

Intrepidez, filha da sensatez.

Sensatez para não deixar que a democracia seja caracterizada por ideologias que visam a favorecer uma minoria de insensatos, desocupados, ou ocupados apenas com os próprios indecorosos objetivos.

“Intrepidez” para falar, para afrontar, para arriscar até a própria liberdade, “maior dom que dos deuses os homens receberam, e pelo qual vale a pena perder a honra e até a vida”, segundo o Quixote.

Ah! intrépidos Tancredo, Ulisses, Covas, Maciel, Teotônio, e, então, um país cheio de esperança, fundado nos ideais de uma democracia nascente e vigorosa “para novas arrancadas”.  

Ah! insensatos...  e, então, um país desesperançado, com sua Constituição rasgada e a democracia vilipendiada, sem futuro próximo.

Com os insensatos, a covardia, a suprema desfaçatez.

Com os intrépidos, a sensatez.