PSD e UDN viraram PMDB e Democratas, em Dores de Campos


Política

José Venâncio de Resende0

Vista panorâmica de Dores de Campos, com destaque para a igreja matriz de Nossa Senhora das Dores

A disputa acirrada entre os candidatos a prefeito pelo PMDB e pelo Democratas (DEM) lembra um pouco da história política de Dores de Campos, que já foi protagonizada pelas tradicionais facções de Barbacena - os Andrada e os Bias Fortes – e o grupo aliado de Tancredo Neves. Nesta eleição, venceu o candidato da oposição Toninho do Ninico (DEM), apesar das acusações de tentativa de influir no resultado por parte da empresa Marluvas, em favor do candidato da situação Wagner Thiago de Paula Teixeira (PMDB). 

Até 1890, Dores de Campos pertenceu a Tiradentes, tornando-se então distrito de Prados. “Foi uma luta sem trégua para conseguir a emancipação”, resume Francisco Raposo Filho em Memórias Administrativas e Fatos Históricos de Dores de Campos (edição sem data). Com a emancipação em 17 de dezembro de 1938, teve como primeiro prefeito nomeado o coronel Ildefonso Augusto da Silva (1939-45). 

Outros prefeitos nomeados foram Joel Elpídio Gonçalves (1945-47), o engenheiro Waldemar Santiago (Jan/Abr 1947) e José Teixeira Malta Sobrinho (Mai/Nov 1947).
 
PSD x UDN - Inácio Silva (1948-51), do Partido Social Democrático (PSD), foi o primeiro prefeito eleito de Dores de Campos. Inácio seria escolhido para mais um mandato (1955-59), depois da administração de José Maria G. Tranqueira (1952-55), também do PSD.

O primeiro prefeito da União Democrática Nacional (UDN) foi João Batista (1959-62), conhecido por Bombola. Na verdade, ele assumiu porque o farmacêutico Francisco Maximiano da Silva (PSD), o Canela, escolhido pelo critério de idade (houve empate nas urnas) veio a falecer antes da posse, segundo relata o atual presidente do PMDB local, Adriano Lopes.

O primeiro prefeito da família Lopes Pereira, Eurico, assumiu em janeiro de 1963 eleito pelo PSD.
 
Novos partidos - Com o fim de UDN e PSD, surgiram Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Porém, na região, tanto os Andrada (UDN) quanto os Bias Fortes (PSD) aderiram ao regime militar, conta Adriano, acomodando-se na ARENA (1 e 2). A terceira corrente política entrincheirou-se no MDB, liderado por Tancredo Neves.

Hélcio Moncorvo foi empossado prefeito em janeiro de 1967, depois de eleger-se pela ARENA 2, e logo no início do mandato migrou-se para o MDB. João Ferreira Filho (MDB) foi o prefeito do mandato-tampão de 1971-72. O MDB continuou no poder com Hélio Moncorvo, que administrou o município no período de 1973-77.

A corrente udenista da ARENA finalmente chegou de fato ao poder, com a eleição do contador Afonso de Melo Mayrink, em 1976, apoiado pelos Andrada. “Fui convidado pelo partido para ser candidato a prefeito e, pela primeira vez, a oposição teve vitória na cidade”. Foi eleito para quatro anos, mas o mandato foi prorrogado por mais dois anos.

Em 1983, José Maria Reginaldo da Silva assumiu a prefeitura, eleito pelo Partido Democrático Social (PDS), substituto da ARENA, para um mandato de seis anos.  Ele foi eleito por uma das sublegendas do partido, mas logo depois da posse aderiu ao MDB, lembra Afonso. “Ele nos traiu”.    

O livro Memórias relata os feitos das administrações municipais até este período. Raposo Filho resume que, apesar das restrições financeiras, muitas obras foram realizadas (serviços de água e esgoto, abertura e calçamento de ruas e avenidas, construção de praças, estradas rurais, etc.). Também destaca a introdução de escolas primárias até a 6ª série, inclusive construção e reformas de prédios.      

Afonso Mayrink voltaria à prefeitura em 1989, já pelo Partido da Frente Liberal (PFL). “Lutamos contra a máquina e as máquinas do Newton Cardoso, inclusive”. Já Reginaldo da Silva elegeu-se de novo em 92, desta vez pelo Partido Progressista Popular (PPB,) em coligação com o PMDB. “O nosso candidato, o médico José Carneiro Moncorvo Neto, perdeu por apenas 28 votos de diferença”, recorda Afonso. Mas, em 96, o PFL retomou a administração municipal com Meire France Lopes Mayrink, esposa de Afonso.

Afonso Mayrink tentava a eleição pela terceira vez, mas no período de cadastramento de candidaturas o PMDB, por meio de seu presidente local Adriano Lopes, entrou com pedido de impugnação de sua candidatura por questões administrativas. No começo de 96, a justiça eleitoral aceitou a impugnação, referente às contas do último mandato de Afonso. “Por pressão do partido e dos eleitores, indiquei minha esposa Mary como candidata, e ela venceu a eleição”, disse Adriano.

Em 2000, Mary France Lopes Mayrink concorreu à reeleição pelo PFL, mas foi derrotada por Antonio Alves Moreira (PMDB), o Totinho. Ela voltou a disputar eleição em 2004 e perdeu novamente para Ilidio Antonio de Melo Neto, também do PMDB. O então prefeito concorreu à reeleição em 2008, derrotando o candidato Antonio Américo Ramalho (PFL), o Toninho do Ninico.  

Naquela eleição, Afonso foi eleito vereador pelo DEM “com a maior votação da história da cidade. Foram 602 votos”. O DEM, na última eleição, “tomou rumo diferente, com candidatos que não são natos da corrente política”, lamenta Afonso ao se referir à aliança com o Partido dos Trabalhadores (PT) que indicou o vice da chapa, um ex-peemedebista. “Com isso, achei melhor encerrar minha vida política”.
 
Políticos tradicionais - Os Lopes Pereira atuam na política municipal desde antes da emancipação, quando Francisco foi representante da Comarca de Prados, conta Adriano. Seus filhos, José e Adalberto, participaram ativamente da política municipal, o primeiro na luta pela emancipação e o segundo como um dos fundadores do PSD local. Ambos foram vereadores. Em época de campanha política, Tancredo Neves costumava hospedar-se na casa de Adalberto.

Francisco, José, Adalberto e Eurico foram lideranças políticas identificadas com o antigo PSD. Já Waldir Lopes foi um dos fundadores do PMDB dorense, atualmente dirigido por Adriano por duas vezes (em 1995-97 e a partir de 2009).

Afonso Mayrink é o tradicional líder da antiga UDN, mantendo até hoje o respeito dos seus seguidores e adversários. Dos 77 anos de emancipação de Dores de Campos, ele foi eleito ou influiu diretamente na eleição de prefeito por 26 anos, observa Adriano.

Astrogildo Mayrink, pai de Afonso, nasceu em Ponte Nova e foi para Dores de Campos onde passou a exercer a profissão de contador, “fazendo muitos favores para o povo”. Foi vereador, presidente da Câmara Municipal e candidato a prefeito na década de 1950. Muito ligado a José Bonifácio Lafaiete de Andrada, o Zezinho Bonifácio, e a Bonifácio Tan de Andrada, foi um dos iniciadores da UDN em Dores de Campos.

Com o escritório de contabilidade “herdado” do pai, Afonso ajudou muita gente de idade a se aposentar pela previdência rural. “Com isso, eu também me destaquei”.

Até então, a UDN nunca havia vencido uma eleição para prefeito, recorda Afonso. O melhor resultado que conseguiu foi um empate entre Bombola (UDN) e Canela (PSD). Mas Canela adoeceu e, com a morte dele, o Tribunal Regional Eleitoral deu vitória para o Bombola.
 
Obras - Entre as principais obras realizadas por administrações municipais no período pós-emancipação, Afonso Mayrink destaca a conquista da CEMIG (gestão de Bombola); o sistema de tratamento de água (primeira gestão de José Maria Reginaldo da Silva); instalação da antiga estatal TELEMIG e rede de esgoto (primeiro mandato de Afonso); nova sede da prefeitura e Hospital Astrogildo Mayrink (segundo mandato do próprio Afonso).     

Com mais ou menos intensidade, os prefeitos em geral investiram na melhoria do abastecimento de água e da rede de esgoto (não tratado). Mas o serviço continua municipal, uma vez que até hoje Dores de Campos não aderiu à COPASA.
  
Indústria de selas - Os irmãos Antonio da Silva Sena e Manoel Justino da Silva foram os pioneiros da indústria de arreios em Dores de Campos, segundo relato de Raposo Filho no livro Memórias.

As selarias são importante fonte de geração de empregos e base da economia local, observa a historiadora e diretora do Departamento de Patrimônio Cultural/Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Tereza Raquel Assis O. Pugliese. Desde o início do povoado do Patusca, diversas famílias beneficiam-se direta ou indiretamente desta atividade, que teve seu início na cidade por volta de 1835 e 1840. Os irmãos Silva, que aprenderam o ofício em Barbacena, aperfeiçoaram a atividade e transmitiram seus conhecimentos aos descendentes e moradores, tornando Dores de Campos referência nacional e internacional na fabricação de selas, resume Tereza. “A cidade ainda possui grande número de indústrias de arreios, bolsas, elásticos. O comércio é intenso e variado”.

A indústria desenvolveu tanto que o município de Dores de Campos já é considerado o maior polo produtor e distribuidor de selas e acessórios da América Latina, de acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio à Micro, Pequena e Média Empresa (SEBRAE-SP), citado por Gilmar Aparecida Tarcísio, presidente da Associação Comercial, Industrial, Agropecuária e de Serviços de Dores de Campos (ACIDEC).

Também é importante para a economia do município a empresa Marluvas, que produz calçados de segurança. Esses dois setores são representados pela ACIDEC. Um dos problemas do município, que deve ser enfrentado por meio de parceria entre o poder público e o setor produtivo, é a falta de mão de obra especializada, diz Gilmar.

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