Um paralelo entre as celebrações da Semana Santa, em Braga (Portugal), e em São João del-Rei, Minas Gerais, mostra as semelhanças, mas também algumas diferenças. A Semana Santa, enquanto suas práticas e manifestações, é uma construção iniciada no final do século XVI. Especialmente as práticas mais antigas, como as procissões, surgiram nos anos mil e quinhentos, segundo o historiador português Rui Ferreira.
Uma dessas práticas é a Procissão das Endoenças (que evoca o julgamento de Jesus e celebra a misericórdia), instituída pela Misericórdia de Braga, na qual era obrigatório fazer o acompanhamento dos penitentes às igrejas onde o Senhor estivesse no sepulcro. Talvez seja “a procissão mais antiga das que nós conhecemos”, arrisca Ferreira. Também conhecida como Procissão Ecce Homo (Eis o Homem), do Senhor da Cana Verde ou dos Fogaréus, é organizada pela Irmandade da Misericórdia.
A procissão do Senhor dos Passos é igualmente penitencial, explica Ferreira. Entre o final do século XVIII e início do século XIX, a quantidade de pessoas a disciplinar-se ao longo do percurso da procissão “tornou-se quase escandalosa para a comunidade”. Afluía gente de todo o lado para ver o espetáculo de pessoas a flagelar-se em praça pública, carregando pesados grilhões atados aos tornozelos, arrastando pesados ferros.
No seu apogeu, quando o comboio (trem) chegou a Braga, havia um excesso de participantes só para ver aquele “espetáculo de sangue”. Até que, em 1876, o arcebispo D. José Joaquim de Azevedo e Moura retirou da Procissão das Endoenças o Fogaréu, que causava muita polêmica, e proibiu as práticas de autodisciplinação.
Outra procissão concorrida é a da Senhora da Burrinha, oficialmente o cortejo bíblico “Vós sereis o meu povo”, uma das mais populares da Semana Santa, para além das procissões clássicas. Este ano, em Braga, foram cerca de 800 figurantes, com um total de 25 quadros, que apresentaram a pré-história do mistério pascal de Jesus. Um desses quadros é a fuga de José e Maria com o Menino, ela montada numa burrinha.
O maior número de participantes da Semana Santa é o dos próprios residentes; não são os turistas. Segundo os religiosos de Braga, a Semana Santa caracteriza-se pelo envolvimento profundo de quem, ano após ano, participa ativamente das procissões. Cada gesto, cada símbolo tem a força da tradição. Braga transforma-se num palco de reflexão, onde a tradição, “que é o grande depósito da fé” (expressão do arcebispo Dom José Cordeiro), se mantém viva através da dedicação de todos que a constroem e celebram.
São João del-Rei
Para além da narrativa anual semelhante à de Braga (ritos litúrgicos, procissões, paraliturgias e costumes), São João del-Rei mantém tradições que foram abandonadas praticamente em todo o mundo. De modo especial, os Ofícios de Trevas, nunca deixaram de ser celebrados, segundo o monsenhor Geraldo Magela, pároco da Catedral do Pilar. “É uma celebração da fé”, enfatiza.
São três ofícios, rezados na Quinta-feira Santa (ou na Quarta à noite), na Sexta e no Sábado, este ano na igreja do Carmo. Salmos, leituras e cânticos que refletem sobre a Paixão e Morte de Jesus Cristo. A execução de um repertório musical sacro reforça o caráter solene das celebrações. As Lamentações do profeta Jeremias são parte desse repertório litúrgico cantado pelo salmista. A Orquestra Ribeiro Bastos executa os responsórios do padre e músico José Maria Xavier (compostos em 1860 e 1871).
No candelabro, em forma triangular, são colocadas 15 velas, explica o monsenhor Geraldo Magela. Durante o Ofício, são rezados 14 salmos. Depois de cada salmo, apaga-se uma vela. Essas velas são apagadas em “memória da glória de Jesus”, que, aparentemente, vai se apagando para o mundo. A glória de “nos amar até as últimas consequências. A glória dele é a vida do ser humano; por isso, é na cruz que ele manifesta a sua glória”, sintetiza o monsenhor. A décima-quinta vela, que fica no vértice do triângulo, não é apagada “porque ela representa o Cristo ressuscitado, a luz da vida que nunca se apaga”. Ela é retirada acesa e escondida atrás do altar; “ela não se extinguiu”.
No final do Ofício, ocorre o batimento das trevas. Há o cântico de Zacarias, “que fala do Salvador como luz que veio para iluminar todos os povos”. Durante esse cântico, as luzes da igreja vão sendo apagadas quando, então, há o batimento das trevas. “Na escuridão da igreja, as pessoas batem com os pés nos assoalhos, as mãos nos livros porque, na hora da morte de Jesus, houve trevas em toda a terra, segundo São Mateus.” Para reviver esse momento, há as trevas e o batimento. Ao terminar o batimento, acendem-se todas as luzes e a vela volta acesa para o topo do candelabro.
Tríduo Pascal
Ofícios de Trevas e a procissão do Fogaréu são tradições integradas ao Tríduo Pascal, ponto alto do ano litúrgico católico, que celebra a paixão, morte e ressurreição de Jesus. As celebrações da Semana Santa ganham outra dinâmica a partir da Quinta-feira Santa, com a Missa Crismal e a Bênção dos Santos Óleos, a Ceia do Senhor, que instituiu o sacramento da Eucaristia, e o ritual do Lava-pés, que renova anualmente a lição de Jesus.
Em Braga, a procissão “Ecce Homo”, ou dos Fogaréus ou do Senhor da Cana Verde, atraiu neste ano cerca de 500 participantes, que ocuparam as principais ruas da cidade. Em São João del-Rei, os “farricocos”, à luz de tochas e ao som de tambores, tomaram as ruas do centro histórico na encenação que representa a busca e a prisão de Jesus Cristo antes da crucificação. A procissão remonta ao século XVIII, mantendo vivas a história, a cultura e a tradição.
Outro ponto alto é a celebração do secular Descendimento da Cruz, na Sexta-feira Santa, o qual em São João del-Rei acontece tradicionalmente na escadaria da igreja das Mercês, e em seguida a Procissão do Enterro, “acompanhada por imensa multidão que a cada ano acreditamos que cresce mais”, disse 30 anos atrás monsenhor Paiva, então pároco da Catedral do Pilar.
O auge das celebrações foi a procissão do Enterro do Senhor, presidida em Braga pelo Núncio Apostólico em Portugal, numa verdadeira “pregação silenciosa” pelas ruas apinhadas de gente. Silêncio quebrado, no interior da catedral, por Dom Andrés Carrascosa Coso ao exortar os cristãos a integrarem o perdão nas suas vidas, alertando para o perigo de seguirem caminhos de ódio, ira ou vingança.
Em São João del-Rei, nem a chuva forte impediu que milhares de fiéis participassem de um dos eventos mais importantes da Semana Santa, que é o Descendimento da Cruz. Personagens bíblicos e soldados romanos usavam vestes da época. Apesar dos transtornos, os presentes acompanharam a Procissão do Enterro, com o tradicional canto da Verônica, entoado pela soprano solista Lucilene Silvério, da Orquestra Ribeiro Bastos.
Os ritos da Semana Santa chegaram nos primeiros anos do século XVIII a São João del-Rei, cidade colonial mineira e então capital da Comarca do Rio das Mortes. Portugueses e espanhóis trouxeram o modelo festivo ibérico, ortodoxo e barroco, segundo a antropóloga Suely Campos. Modelo adaptado à nossa cultura que valoriza a música sacra de compositores locais, o papel dinâmico das irmandades, a linguagem dos sinos ainda induzida manualmente (em Braga já é eletrônico) e a “encenação” da liturgia numa interação entre o celebrante e os músicos das orquestras.
Fontes: Diário do Minho (Braga) e Mapa do Patrimônio (São João del-Rei)
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Candelabro usado no rito do Ofício de Trevas em São João del-Rei (foto ACI Digital)

