Situação de esgoto de São João del-Rei é caótica, vinte anos depois de alerta da UFSJ


Cidades

José Venâncio de Resende0

Córrego do Lenheiros sob a Ponte do Rosário

As águas dos córregos são-joanenses estão poluídas, principalmente por material orgânico (coliformes fecais), mas foi detectada a presença de metais pesados (cádmio, chumbo e, virtualmente, mercúrio) de risco para a saúde. Esta é a conclusão do projeto“Determinação dos principais poluentes presentes na região hídrica de São João del-Rei”, desenvolvido 20 anos atrás pelos professores Honória de Fátima Gorgulho (coordenadora), Lauro Camargo Dias Junior, Wellington Garcia de Campos e Marco Túlio Raposo, além de Anderson Guimarães de Oliveira (bolsista na época).

Por volta de 1988/89, esses professores formavam o grupo de química ambiental da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Na época, o relatório desse projeto chegou a ser apresentado em Congresso da Sociedade Brasileira de Química e ficou disponível para o público.

“O município de São João del-Rei, com 72 mil habitantes, está localizado na chamada Região das Vertentes. O maior rio que atravessa essa região é o Rio das Mortes, sendo que parte deste encontra-se ameaçado pelos rejeitos de esgotos e lixo doméstico. Este rio é caudatário de vários córregos entre os quais o do Lenheiro e do Rio Acima que passam por São João del-Rei”, já diziam na época os professores da UFSJ.

Em outra passagem, os autores do estudo relatavam: “Os mananciais que são aproveitados para captação de água pelo Departamento de Água e Esgoto de São João del-Rei (DAMAE) são: Córrego do Rio Acima, Ribeirão da Água Limpa, Ribeirão São Francisco Xavier (conhecido como Ribeirão do Senhor dos Montes) e um sistema de bombeamento de mina localizado na Av. Leite de Castro. O Ribeirão da Água Limpa recebe acima de sua captação um tipo de poluição proveniente de fazendas, onde os excrementos dos animais são lançados no ribeirão principalmente em épocas de chuva. (...) O córrego do Rio Acima recebe, entre a barragem e a estação de tratamento, esgoto sanitário vindo de casas localizadas à margem desse córrego. Os esgotos contém, além dos detritos orgânicos, restos de alimentos, sabões e detergentes”.

A idéia na época foi avaliar de que maneira esses córregos recebiam esgoto in natura, sem qualquer tipo de tratamento, conta o professor Marco Túlio, atualmente no Departamento de Ciências Naturais da UFSJ. “Quando esse projeto foi feito, eu me lembro de que era um número absurdo: algo em torno de 200 litros por segundo, de acordo com o próprio DAMAE”.

Hoje, a situação é a seguinte: os córregos que cortam a cidade e desafogam no Rio das Mortes estão com volume de água bastante reduzido, diz o professor da UFSJ. Além do menor volume de água, muito provavelmente houve diminuição da zona de proteção, devido à ocupação das vertentes, principalmente por moradias.

Nesses últimos 20 anos, nada foi feito em relação à captação de esgoto, revela o professor Marco Túlio. “A realidade não se alterou praticamente nada, o esgoto in natura continua a ser lançado no canal. Foi feito um emissário ao longo da cidade, mas parte dele foi destruída por chuvas. E ele não foi recuperado. Porém, mesmo com a presença do emissário, o esgoto in natura continua sendo lançado dentro do canal. Tanto que tem pontos onde o mau cheiro é insuportável. Essa é uma realidade”.

Segundo o professor da UFSJ, o esgoto in natura acabou com a vida do córrego. O córrego foi canalizado e a velocidade da água praticamente impediu a manutenção de vida (peixes, rãs, etc.). “A abundância de material orgânico tem como consequência a hiperalimentação, superpopulação, diminuição do oxigênio disponível e fim da vida. É um ciclo. No primeiro momento, ocorre uma proliferação exagerada pela oferta de alimento e, em seguida, aumenta o consumo de oxigênio da água; não é possível prover o oxigênio além da demanda. Então, o resultado é a morte do canal. Todos os córregos estão praticamente mortos.”


DAMAE x COPASA

Diante dessa realidade, o professor Marco Túlio só vê uma saída: a transferência para a COPASA. “A razão é muito simples: eles têm a competência técnica, já estão instalados no Estado há mais de 30 anos, têm as fontes de recursos financeiros para conduzir os projetos de interesse”.

Por outro lado, o professor da UFSJ considera o DAMAE “uma autarquia deficitária e falha em termos de qualificação dos empregados. Não por culpa deles, mas porque a estrutura funciona mal já há algum tempo. E aí o serviço é muito mal prestado, é precário. Ele se limita a colocar água tratada em casa e, mesmo assim, com muito resíduo”.

“Os particulados da água são perceptíveis”, conta o professor Raposo. “Embora a água seja tratada, você vê que o nível de partículas sólidas da água é muito grande. Quando se põe filtro na entrada de caixa, em 30 ou 40 dias está completamente obstruído. As partículas são resíduos mesmo. A coleta é feita em ribeirões...”.


Coliformes fecais

A pesquisa da UFSJ detectou a presença de muito coliforme fecal. “É natural, porque o esgoto tanto de cozinha quando o sanitário é jogado in natura. Tinha que ter coliforme fecal aos bilhões...” Também foi detectada a presença de chumbo e cádmio em alguns pontos de coleta. “Tanto um quanto o outro são materiais cuja ingestão é problemática, na medida em que são metais pesados, cujas consequências são atuação no sistema nervoso. Daí tem problema sério a eventual ingestão e contato continuado com esse tipo de material”.