Turismo rural poderá ser alternativa de renda para o produtor rural de Resende Costa


Notícia

André Eustáquio7

Vista de Resende Costa a partir do alto do Catimbau, no Ribeirão

Começa a se tornar realidade uma ideia que há muito vem sendo discutida em Resende Costa, a implantação do turismo rural no município. No dia 14 de dezembro passado, foi realizada uma reunião, na Biblioteca Municipal, cujo objetivo fora apresentar as propostas de implantação do turismo rural e os resultados das primeiras ações realizadas durante o ano. O projeto teve início a partir da iniciativa da EMATER – MG, que agora conta com o apoio do Conselho Municipal de Turismo (COMTUR).

O extensionista agropecuário do escritório da EMATER em Resende Costa, Marcos Túlio Resende Maia, explicou como surgiu a proposta de desenvolver o projeto de turismo rural no município. “Atualmente, existem dois gargalos que precisam ser resolvidos na zona rural de Resende Costa: o êxodo rural e as festas rurais. Desde que vim trabalhar aqui, pela segunda vez, essas questões passaram a me incomodar. De 1970 pra cá, o êxodo rural no município só vem aumentando (ver tabela). Quanto às festas rurais, não podem ser mais chamadas de festas da colheita, mas encontro de carros de boi, uma vez que os carros passam vazios”.

A falta de perspectiva, sobretudo financeira, vem acelerando a migração do homem do campo para as cidades - um fenômeno que acontece em todo o território nacional e que é também evidente em Resende Costa. “Precisamos minimizar o êxodo rural, criando alternativas para segurar o homem no campo. E uma das funções da EMATER é justamente trabalhar para gerar renda ao produtor familiar que reside na zona rural”, esclareceu Túlio, que vê o turismo rural como uma atividade que poderá gerar renda para o homem do campo: “Diante dos dois problemas, êxodo rural e festas rurais, pensei no turismo como alternativa para geração de renda”.

Túlio questiona o formato atual das festas da colheita. Segundo ele, há muito elas perderam suas características: “As festas atualmente são manifestações folclóricas. Não sou contra o folclore, mas o meu trabalho enquanto extensionista da EMATER é criar alternativa de renda para o produtor rural”. Segundo informou Túlio, em 2011 a Prefeitura Municipal investiu aproximadamente 100 mil reais nas festas rurais nos povoados, “sem falar no montante que as comunidades arrecadam. Além disso, todas as barraquinhas são de gente de fora. Questiono então: o poder público investe, outras pessoas ganham e o produtor rural fica chupando dedo? Precisamos aproveitar as festas e torná-las lucrativas para o produtor. E o turismo rural poderá alavancar isso, transformando as festas em atrativos turísticos”, propõe.


Fases do projeto

Para formular o projeto, os coordenadores partiram de experiências de outros municípios nos quais a iniciativa está dando certo e assim puderam perceber o potencial de Resende Costa. “Nós nos inspiramos no interior de Santa Catarina, onde está sendo desenvolvido o projeto ‘Acolhida na Colônia’ e em Carangola (MG), que desenvolve a ‘Caminhada Ecológica’, um projeto coordenado pelos extensionistas da EMATER”, informou Luís Cláudio dos Reis, presidente do COMTUR.

A parte inicial do projeto foi dividida em duas fases. Na primeira ficou decidido que o poder público não será o gestor, função que caberá ao COMTUR e à EMATER. “O poder público será parceiro, assim como outros órgãos afins. Não queremos, em hipótese nenhuma, que o projeto adquira identidade política”, ressaltou Cláudio. Um dos objetivos desta primeira fase foi a popularização da proposta: “Apresentamos vídeos, demonstrando aos produtores rurais experiências que deram certo em outros municípios”, disse o presidente do COMTUR. Foi também estabelecida a área inicial de implantação. O projeto poderá ser desenvolvido a partir dos povoados dos Pintos, Ribeirão e Curralinho dos Paulas, pois “além da proximidade, ambos os povoados possuem histórias interligadas”. Já o distrito de Jacarandira e o povoado do Cajuru “terão uma proposta independente”.

Após a montagem da equipe de trabalho, que conta com representantes da Secretaria Municipal de Agropecuária e Meio Ambiente e da Arcosta, deu-se início à segunda fase do projeto, que consistiu no trabalho de campo. “Fizemos contato com os produtores rurais interessados, fizemos registros fotográficos e organizamos o registro escrito”, disse Cláudio, ressaltando ter sido uma etapa “trabalhosa e que demandou muito tempo”.


Atrativos e produtos

Por detrás das matas e entre vales e povoados se escondem inúmeros atrativos, mas que ainda não podem ser considerados produtos turísticos aptos para a comercialização, conforme explicou Luís Cláudio: “Vou dar um exemplo, a cachoeira dos Pintos. Para ela ser reconhecida como produto, é preciso que se crie uma estrutura bem fundamentada, ou seja, precisamos saber se o turista pode ser recebido lá, se existe acolhida, se as normas de segurança estão sendo respeitadas etc. Acesso adequado e sinalização também são exigidos, entre outras coisas”.

O trabalho de campo possibilitou aos organizadores descobrirem muitos atrativos, como trilhas, nascentes e paisagens, mas os causos e as estórias chamaram a atenção do presidente do COMTUR: “Conversamos com muita gente que nos contou estórias fascinantes e causos antigos. Descobrimos muitas coisas interessantes que poderão ser trabalhadas, como, por exemplo: ainda há nas casas muitos teares em funcionamento. Queremos, inclusive, a partir do turismo rural, resgatar técnicas antigas de bordado e artesanato”.


Desfazendo o mito

Quando se fala em turismo rural, logo se pensa num luxuoso hotel fazenda, situado numa paisagem exuberante. Num autêntico hotel cinco estrelas do campo, o hóspede tem contato com a natureza, mas ao mesmo tempo desfruta de culinária sofisticada e que nada tem a ver com as comidas típicas do interior. Existe, sim, esta modalidade de turismo – cara, diga-se de passagem. No entanto, a experiência tem demonstrado que a simplicidade da vida no campo é que tem atraído cada vez mais turistas, transformando em mito a ideia de que turismo rural é uma atividade restrita aos luxuosos hotéis fazenda. “O turista que vem das grandes cidades quer interagir com o homem do campo e com o seu cotidiano, ou seja, levantar cedo, ver uma vaca sendo ordenhada manualmente, comer alimento orgânico, ver um muro de pedra...”.

Nesta proposta de turismo rural, uma pequena e simples propriedade pode muito bem se estruturar para receber turistas, oferecendo seus produtos, como culinária típica, hospedagem, café da manhã, cavalgadas etc., sem, no entanto, ter de abrir mão da sua rotina cotidiana. Mas Cláudio faz um alerta: “tudo tem que ser muito bem organizado, observando a higiene e a qualidade dos serviços”.


Um projeto do povo de Resende Costa
 
O projeto de implantação do turismo rural em Resende Costa deve ser encarado como ação de médio a longo prazo, conforme destacou o presidente do COMTUR: “Não queremos correr o risco de iniciar esse projeto, queimar etapas importantes e depois não dar conta de continuar. Trata-se de uma ação de médio a longo prazo”. Ele ainda faz questão de reiterar a independência política do projeto: “Não admito nenhuma ligação política com esse projeto, inclusive estou participando não como vereador (Cláudio é vereador pelo PDT e presidente da Câmara Municipal de Resende Costa), mas enquanto presidente do COMTUR. Em ano eleitoral, temos de ficar atentos. Quem subir no palanque e falar desse projeto terá que prestar esclarecimentos. Trata-se de um projeto do povo de Resende Costa e para quem nos visita”.

Para o início deste ano, a equipe de trabalho pretende realizar um evento técnico, com representantes do poder público e da imprensa, além de profissionais técnicos. “Faremos uma cavalgada ou caminhada ecológica visitando os atrativos turísticos”, informou Cláudio. Ao mesmo tempo, a equipe estará empenhada no trabalho de qualificação das pessoas que irão trabalhar no setor. “Não dá pra pensar em turismo sem qualificação profissional”, destacou Cláudio, que chamou a atenção para o perfil dos profissionais: “Precisamos de pessoas que de fato estejam interessadas em receber bem os turistas, serem guias, ou seja, pessoas das próprias comunidades”.

O município de Resende Costa possui vasta extensão territorial, compreendendo cerca de 600 km2. Nesse território, a malha de estradas de terra ultrapassa os 1.400 km, que ligam os povoados da zona rural. E é justamente neste território, que ainda é pouco conhecido inclusive por resende-costenses, que se descortinam paisagens exuberantes, trilhas em matas intactas, rios, cachoeiras e nascentes preservadas, comunidades que ainda preservam suas tradições. O projeto de implantação do turismo rural, além de preencher uma grande lacuna no potencial turístico do município, se bem implantado e gerido, poderá complementar a renda do produtor rural, gerar emprego e oportunidades para quem permanecer no campo, diminuir o êxodo rural, criar alternativas para os turistas que já visitam a cidade, preservar as culturas locais, difundir ações ecologicamente corretas e incentivar a convivência harmoniosa entre o homem e a natureza.

ANOS

URBANA

RURAL

TOTAL

1970

3.086

5.600

8.686

1980

4.208

4.326

8.534

1991

6.029

3.677

9.706

2000

7.628

2.706

10.334

2010

8.776

2.137

10.913


Comentários

  • Author

    Excelente iniciativa, sai de Resende Costa em 1989 e vou a cidade pelo menos 03 ou 04 vezes ao ano e sinto falta dos passeios na àrea rural, fui muitas vezes na cachoeira dos pintos mas deixei de frequentar por falta de infra-estrutura.


  • Author

    Mapear, organizar, investir, divulgar, preparar/instruir a comunidade rural e manter as estradas em condições de acesso.
    1 bom secretário de turismo e obter informações em outros locais onde já existem projetos em andamento.


  • Author

    Quem conhece a zona rural de RC se encanta, primeiro por sua beleza natural: trilhas, matas, cachoeiras.Depois pela sua riqueza histórica e por último por uma característica que faz dela única, de vários pontos do município a sede pode vista.
    Parabéns a todos os envolvidos no projeto que com certeza tem tudo para ser um sucesso.


  • Author

    De fato é uma boa iniciativa.Sua implementação está condicionada à criação de infra-estrutura adequada. Não precisa ser obra faraônica, mas é necessário que haja condições dignas para os turistas. Apenas para exemplicar: o belvedere das lajes é muito bonito. Todavia ele é prejudicado pelo fato haver no local um verdadeiro banheiro a céu aberto.


  • Author

    Quantas pousadas existem na área urbana e rural?
    Porque não solicitar o apoio da FIEMG que ajudou a criar a Estrada Real?
    Como selecionar, instruir a comunidade rural para recebimento dos turistas?
    Existe secretaria de turismo em Resende Costa, com funcionários formados na área?


  • Author

    O SEBRAE com sede em São João del Rei, também tem condições de dar orientação a respeito do Turismo Rural.


  • Author

    Muito bom, mas, ocorrendo um bom planejamento, com bons recursos, tem tudo para dar certo. Adoro essa cidade, quando posso, vou para descansar..


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