Festa do Divino Espírito Santo liga São Vicente de Minas a São João del-Rei

As duas capelas deverão tornar-se pontos de visitação na futura Rota Açoriana de Minas Gerais.


Religião

José Venâncio de Resende0

fotoFesta do Divino em São Vicente de Minas (foto cedida por Heloisa Helena). .

Há mais de 200 anos, celebra-se a Festa de Pentecostes na Capela do Divino Espírito Santo, município de São Vicente de Minas, a cerca de 100 km da cidade de São João del-Rei, na região limítrofe com Carrancas. Detalhe importante: a festa não foi interrompida, nem mesmo durante a reforma interior (altares e forro) da capela, realizada pelo restaurador Carlos Magno Araújo em 2014-2015.

Este ano, a celebração bicentenária aconteceu nos dias 23 e 24 de maio. “Durante o período festivo, moradores, famílias e visitantes reúnem-se para participar das celebrações litúrgicas, procissões, novenas, cavalgadas, caminhadas, leilões e demais atividades que homenageiam o Espírito Santo, considerado na tradição cristã a fonte de sabedoria, fortalecimento e renovação da fé”, diz Heloisa Helena Reis Junqueira, há 29 anos organizadora da festa junto com outros voluntários, como Silvana Reis Junqueira Araújo, Maria Paula Meirelles Almeida e Daniel Domingos.

Essa festa representa uma das mais importantes manifestações religiosas e culturais da comunidade local, assinala Heloisa Helena. “Mais do que uma celebração de fé, a festividade constitui um patrimônio imaterial que atravessa gerações, preservando tradições, fortalecendo laços sociais e reafirmando a identidade histórica do povo.”

Heloisa Helena destaca as “profundas raízes” e o “papel central” da Festa do Divino Espírito Santo, especialmente em cidades do interior de Minas, onde as festas religiosas sempre desempenharam função importante na organização da vida comunitária. Em São Vicente de Minas, a Capela do Divino “tornou-se um símbolo de encontro entre a espiritualidade e a convivência social”.

Além do caráter religioso, Heloisa Helena cita o aspecto cultural da festa. “Ela mantém vivas práticas transmitidas ao longo dos anos, como a ornamentação da capela e dos andores, os cantos tradicionais e a participação das famílias na organização dos eventos. Esses elementos contribuem para a preservação da memória coletiva e ajudam a transmitir aos mais jovens o conhecimento sobre os costumes e valores que moldaram a história do município.”

Outro aspecto relevante, citado por ela, é o impacto social da celebração. “A festa promove a união entre os moradores, estimula o trabalho voluntário e a colaboração entre diferentes gerações. A preparação do evento mobiliza grande parte da comunidade, fortalecendo sentimentos de pertencimento, solidariedade e responsabilidade compartilhada. Em uma época marcada pelo ritmo acelerado da vida moderna, momentos como esse tornam-se essenciais para reforçar os vínculos humanos e preservar o espírito comunitário característico das pequenas cidades mineiras.”

Dessa forma, a Festa da Capela do Divino Espírito Santo transcende o simples calendário de celebrações religiosas, enfatiza Heloisa Helena. “Ela representa um elo entre passado e presente, fé e cultura, tradição e comunidade. Sua continuidade é fundamental para a preservação da identidade da região e para a manutenção de valores que fortalecem a convivência, a memória e nosso patrimônio cultural e religioso.”

Em São João del-Rei…

Em simultâneo a São Vicente de Minas, a solenidade de Pentecostes aconteceu pelo 14º ano na Capela do Divino Espírito Santo, no centro histórico de São João del-Rei. A missa solene e a bênção do Santíssimo Sacramento foram seguidas de procissão, com o símbolo do Espírito Santo e a imagem de Nossa Senhora de Pentecostes.

A procissão solene saiu da Capela do Divino, na Rua das Flores, percorreu o centro histórico e retornou à mesma capela, ao som da marcha festiva São Pedro, executada pela Banda Theodoro de Faria. Uma particularidade na celebração deste ano foi o trabalho de confecção de um tapete especial pelo Grupo de Jovens da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar (JUNTEC), em frente à capela. A iniciativa chamou a atenção de moradores e fiéis, que foram recordar a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos.

Segundo o restaurador Carlos Magno Araújo, a cidade abraçou essa capela “de forma muito especial.” Um monumento que ia desaparecer, distribuído em pedaços nas casas de colecionadores, em vez de se tornar um museu ou memorial, virou um templo, numa cidade de grande tradição religiosa. E aquela que seria uma capela morta, foi revigorada em São Vicente de Minas. “O pessoal de lá forneceu o material e nós refizemos o cenário inspirado na capela original, utilizando MDF (chapa de fibra de madeira de média densidade), madeira recortada etc. e devolvendo dignidade ao interior do espaço.”

Açorianos Diogo e Júlia

Em meados da década de 1750, Manoel Machado de Toledo (casado com Gertrudes Velloza da Silva), proprietário das terras do Sítio Pitangueiras, encaminhou ofício ao bispo da Diocese de Mariana, dom Frei Manoel da Cruz, solicitando autorização para construir a primeira capela dedicada ao Divino Espírito Santo no sertão dos Cataguases. Dez anos depois, em 26 de fevereiro, o bispo de Mariana autorizou a edificação da capela, que ficou ligada à Paróquia de Carrancas.

Em 16 de abril de 1762, o açoriano Diogo Garcia, casado com a ilhoa Júlia Maria da Caridade, ambos da ilha do Faial, declarou em seu testamento os seguintes dizeres: “...Para as obras da Capela do Divino Espírito Santo das Carrancas sita na Fazenda de Manoel Machado de Toledo outros cinquenta mil reis tudo de esmola”. Dois anos depois, o mesmo Manoel Machado de Toledo recebeu título de sesmaria de meia légua em quadra (2.178 hectares), confirmando ser o legítimo proprietário das terras (cf. Códice SC. 140, pág. 80 - A.P.M.).

Em 22 de abril de 1767, a ilhoa açoriana Júlia Maria da Caridade, viúva de Diogo Garcia, adquiriu as terras do Sítio Pitangueiras, através da carta de sesmaria da paragem “Junto da Ponte do Rio Grande” (cf. Códice SC. 156, pág. 5 - A.P.M.). Assim, Júlia Maria da Caridade deu continuidade à edificação da Capela do Divino Espírito Santo.

Com o falecimento, em 1777, de Júlia Maria da Caridade (sepultada na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em São Joao del-Rei, ao lado de Diogo Garcia), o Sítio Pitangueiras foi herdado por seus filhos, que o venderam para o Tenente Manoel Joaquim de Andrade, ampliando assim as terras da atual Fazenda do Espírito Santo (fundada nos idos de 1775).

Em 29 de julho de 1780, Manoel Joaquim de Andrade encaminhou ofício ao bispo da Diocese de Mariana, dom Frei Domingos da Encarnação Pontevel, informando sobre o término das obras de edificação da capela, com os dizeres de “finalização do telhado”. No mesmo ofício, informou ao bispo que o objetivo da edificação da capela era “por ser a mais comoda pª toda aquela vizinhança assistirem Missa, assistirem a todos os mais exercíssios espirituais”, por estar a 22 km de Carrancas onde já havia sido edificada a Igreja Nossa Senhora da Conceição das Carrancas. O ofício ainda solicitava licença para “benzer e se dizer Missa”, de acordo com o Sacramento, bem como que a celebração da bênção ocorresse no prazo de dois meses para viabilizar a preparação do “Patrimônio” e a apresentação da escritura da capela.

Em 6 de setembro de 1784, os aplicados devotos da Capela do Divino Espírito Santo encaminharam solicitação à D. Maria I, rainha de Portugal e Algarves, a “merce de lhes conceder licença para benzer a capela”. Em 12 de julho de 1785, foi atendido o pedido de licença do ofício encaminhado em 1780 à Diocese de Mariana. O documento original mencionava ainda que recorrentes celebrações de missas, batizados, casamentos e sepultamentos eram realizados, anteriormente à conclusão das obras de edificação.

Obras de ornamentação

No início do século XIX, o mestre de oficina e entalhador José Maria da Silva, nascido em Braga (Portugal), de onde se transferira para a Comarca do Rio das Mortes, executou as obras de ornamentação em talha na Capela do Divino Espírito Santo, considerado trabalho da mais pura arte sacra setecentista da América portuguesa.

Em 12 de novembro de 1803, Francisco Pereira de Oliveira encaminhou requerimento à Câmara da Comarca do Rio das Mortes, solicitando a primeira confirmação de Carta Patente do Posto de Capitão da "Companhia de Ordenança no Distrito da Aplicação da Capela do Divino Espírito Santo", da freguesia de Lavras do Funil.

Depois de 1820, o pintor Joaquim José da Natividade (1775-1840) executou a decoração interna da Capela do Divino Espírito Santo, quarenta anos após a conclusão das obras de edificação. O pintor do forro, altares, púlpito e outras peças rococós da Capela está no mesmo nível dos artistas Manuel da Costa Ataíde, João Nepomuceno Correia e Castro e Manuel Vítor de Jesus.

Transferência para São João del-Rei

Em 20 de outubro de 1987, o bispo diocesano, dom Antônio Carlos Mesquita, autorizou a transferência da decoração interna da Capela do Divino Espírito Santo, de São Vicente de Minas para São João del-Rei. A construção da Capela, no centro histórico, começou apenas em 3 de março de 2008.

Em 26 de maio de 2012, a Capela do Divino Espírito Santo foi inaugurada em São João del-Rei, contendo todos os objetos de decoração transferidos. No mesmo ano, a população de São Vicente de Minas mobilizou-se para decorar a Capela do Divino, que passaria a conter objetos de decoração e pintura similares àqueles que foram transferidos para São João del-Rei.

Certamente, as Capelas do Divino Espírito Santo de São Vicente de Minas e de São João del-Rei serão pontos de visitação na futura Rota Açoriana de Minas Gerais, em gestação.

Fonte histórica: Paróquia São Vicente Ferrer – São Vicente de Minas (22/05/2026). 

Veja aqui mais fotos da Festa do Divino de São Vicente de Minas

Veja aqui a procissão do Divino em São João del-Rei

Veja aqui mais fotos da Capela do Divino em São João del-Rei

 

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