No dia 26 de julho de 2025, o Instituto Histórico e Geográfico, em Belo Horizonte, celebrou o surgimento da Casa dos Açores de Minas Gerais, que veio se somar a outras sete do mesmo gênero sediadas em outros estados do Brasil: Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Maranhão e Espírito Santo. A nova Casa veio então reconhecer a relevância da imigração açoriana na formação da Província de Minas Gerais, a partir do século XVIII.
Naquele mesmo período, a capital mineira recebia dezenas de participantes do 25º Reszendão, que decidiram escolher Lagoa Dourada como local do próximo evento de confraternização de descendentes do casal açoriano, fundador da dinastia de milhares de portadores do sobrenome Reszende espalhados pelo Brasil: João de Resende Costa e Helena Maria de Jesus. O motivo da escolha da sede do 26º Reszendão é a comemoração, neste ano, de exatos 300 anos de casamento em Prados e a moradia de João e Helena, na icônica Fazenda do Engenho Velho do Cataguás, na zona rural de Lagoa Dourada.
Todos esses acontecimentos despertam muita curiosidade quanto à dimensão da influência açoriana na região da Comarca do Rio das Mortes. Que traços genealógicos e culturais dos ilhéus que aqui se radicaram são perceptíveis? Em Florianópolis, por exemplo, características açorianas permanecem claramente visíveis em determinados ambientes e até mesmo no sotaque da língua portuguesa.
Que vestígios da cultura dos Açores, além da vocação de tecelagem artesanal Resende Costa, evidenciam esse vínculo? E o que dizer da similaridade entre o queijo Minas artesanal e o tradicional queijo artesanal das Ilhas do Pico e de São Jorge, segundo reportagem publicada por José Venâncio, no Jornal das Lajes? Quais cidades ou distritos de Minas Gerais preservam alguma herança dos Açores, tal como o município de Andrelândia, fundada pelo açoriano da Ilha do Faial, André da Silveira?
Desbravadores
A ocupação do território brasileiro pelos portugueses teve grande contribuição de imigrantes procedentes dos Açores, a partir do século XVII. O império português, pressionado pela disputa de interesses com a coroa espanhola, precisava urgentemente se instalar em vastas áreas ainda não devidamente colonizadas. A solução encontrada foi aproveitar as dificuldades de sobrevivência de grande parte dos habitantes dos Açores para atraí-los com a promessa de melhores condições de vida, em que se ofereciam não só acesso à posse de terras como também a equipamentos e vantagens financeiras para se estabelecerem.
Foi com a tenacidade de desbravadores de fronteiras que centenas de famílias se dispuseram a enfrentar as terríveis agruras de meses de viagem para cruzar o Atlântico em busca de uma perspectiva de vida melhor. Assim se deu um intenso deslocamento destinado à ocupação de vastas extensões de terras ociosas em diferentes regiões do Brasil, promovendo formações precoces de urbanização.
Quando visitei os Açores em 2018, conheci duas Ilhas, a de São Miguel e a de Santa Maria. O objetivo de minha viagem era ver de perto o lugar de origem de alguns de meus ascendentes. Tinha um interesse particular em entrar em contato com os Resendes da Ilha de Santa Maria, aos quais se vinculava o meu sobrenome Reszende, que herdei de João de Resende Costa, meu heptavô. No início do século XVIII, João foi um dos açorianos que acreditou nas promessas do império português e, depois de uma travessia penosa, chegou ao Brasil com um destino definido: a Comarca do Rio das Mortes, no apogeu do Ciclo do Ouro.
A pedido do meu amigo José Venâncio Resende, idealizador da criação de uma rede de cidades Reszende, no Brasil, Portugal e Cabo Verde, representeio-o em um encontro com o presidente da Câmara e um vereador do município de Vila do Porto, na Ilha de Santa Maria. O assunto a tratar era a formalização de um instrumento para viabilizar que Vila do Porto e Resende Costa, terra natal de José Venâncio, se tornassem cidades irmãs, condição que logo se confirmou. Agora, a tão bem-vinda Casa dos Açores de Minas Gerais pode ser o impulso desejado para a implementação de um programa de mútua colaboração.
Um dos temas abordados naquele encontro em Vila do Porto foi o reflexo da influência exercida pelos imigrantes açorianos. Ressaltaram-se, entre outros, os casos de Florianópolis e Porto Alegre como emblemáticos da pujante presença dos Açores no Brasil. Durante a conversa, eu afirmei que um movimento intercultural similar ocorrera na antiga Comarca do Rio das Mortes, porém sem a repercussão condizente, talvez por depender de mais iniciativas para estudo, divulgação e efetiva interação entre Minas e os Açores.
Foi então de grande valia, no momento, o rascunho do levantamento que eu apresentei sobre minha ancestralidade, em que se destacavam menções à origem, justamente em Vila do Porto, de João da Costa Resende, fundador e patriarca de uma enorme corrente genealógica no Brasil. Ele, João, dividiu esse protagonismo com sua esposa, Helena Maria de Jesus, uma das três aclamadas Ilhoas, naturais de Vila da Horta, na Ilha do Faial, que também se consagraram como ascendentes responsáveis pela consolidação de sobrenomes de destaque.
Ressaltei que em minha pesquisa identifiquei outros antepassados oriundos dos Açores nos dois ramos, materno e paterno, de minha genealogia, inclusive um casal que integrava as duas vertentes de minha ancestralidade, Diogo Garcia e outra ilhoa do Faial, Júlia Maria da Caridade. Esse casal, aliás, constitui base referencial para uma descendência incalculável que se estende de Minas Gerais a outros estados brasileiros, mediante diversos sobrenomes familiares.
Estudo de caso
Em livro que publiquei, apresento resultados de pesquisa acerca de minha ancestralidade portuguesa, substancialmente açoriana.
ASCENDENTES AÇORIANOS DE PAI E MÃE ATÉ HEXAVÓS
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ILHAS |
FREGUESIAS |
Nº Antepassados ZECA |
Nº Antepassados ANITA |
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AÇORES 50
FAIAL 31
SANTA MARIA 03
ILHA TERCEIRA 15
ILHA DO PICO 01 |
31
Vila da Horta 15 Espírito Santo 13 Pedro Miguel 01 Feteira 01 Ribeira dos 01 Flamengos Vila do Porto 03
15 Angra do Heroísmo Cabo da Praia, Praia da Vitória
Santa Madalena 01 |
17
12
10 --------------------------------- 01 01 ----------------------------------
03
01 ----------------------------------- -----------------------------------
01
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33 19 05 13 --------------------------------------------- ---------------------------- 01 ---------------------------------- ---------------------------------
14
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TOTAL 50 |
50 |
17 |
33 |
Os nomes de meus ascendentes diretos estão relacionados segundo as freguesias das correspondentes Ilhas dos Açores. Dois deles, o casal Diogo Garcia e a ilhoa Júlia Maria da Caridade, têm uma participação especial na ancestralidade de Zeca, meu pai, por atuarem simultaneamente na composição de três linhagens através de dois de seus filhos: uma através de José Garcia e outras duas mediante os dois casamentos da filha, Ana Maria do Nascimento.
ASCENDENTES DE ZECA, PAI, POR ILHAS E FREGUESIAS
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P0RTUGAL INSULAR |
ILHA (Freguesias) |
ANTEPASSADOS |
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AÇORES 17 |
ILHA TERCEIRA 01 Angra do Heroísmo 01 |
Rosa Maria de Jesus Garcia |
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ILHA DO PICO 01 Santa Madalena 01 |
José Rodrigues Goulart |
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ILHA DE SANTA MARIA 03 Vila do Porto 03 |
João Resende Costa, Manuel Resende, Ana Costa |
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ILHA DO FAIAL 12 N. Senhora das Angústias, 09 Vila da Horta
Feteira 02 N. Sra. da Ajuda, Pedro 01 Miguel |
Helena Maria de Jesus Resende Costa, Júlia Maria da Caridade (3), Diogo Garcia (3), João Garcia Luiz Pinheiro, Maria da Conceição Nunes Maria Vargas Leal, Manuel Correia Gonçalves Amaro de Mendonça Coelho |
ANTEPASSADOS AÇORIANOS DE ANITA, MÃE
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ILHA TERCEIRA
Cabo da Praia, Praia 14 da Vitória, Ilha Terceira |
Manoel Paim Pamplona Fagundes, Thomazia Mariana de Jesus, Antônio Machado Fagundes, Josefa Paim Pamplona, Manoel Vieira Diniz, Rosa Vieira Diniz, Miguel Machado Fagundes, Maria dos Anjos, Manuel Paim da Câmara, Apolônia de Merens Pamplona, João Mendes de Vasconcelos, Tomásia Souza, Lucas Fernandes Linhares, Marquesa Merens Pamplona |
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ILHA DO FAIAL 18 Freguesia do 12 Espírito Santo
Nossa Senhora das 04 Angústias, Vila da Horta Feteira 01
Ribeira dos 01 Flamengos |
Inácia Maria do Espírito Santo, Estácio da Costa, Francisco Pereira, Catarina Inácia, Estácio Dutra da Costa, Maria do Espírito Santo Costa, Silvestre Pereira, Catarina Duarte, Mateus da Silva, Catarina Dutra, Estácio Dutra da Costa, Águeda Dutra da Costa Diogo Garcia, Júlia Maria da Caridade, Ana Maria Duarte, Maria da Conceição Nunes Manoel Gonçalves Correia (Burgão)
Matheus Luís Garcia Pinheiro |
A maioria dos ascendentes de Anita, com nacionalidade portuguesa, 32 (47,1%), provinham dos Açores, 34 . Entre todos os 118 antepassados de Anita nesse período, 29,8% são açorianos, 15,3% (18) da Ilha do Faial e 11,9% (14) da Ilha Terceira.

Ilha Terceira
Da Praia da Vitória, na Ilha Terceira dos Açores , procedem os antepassados de Anita, relacionados ao seu principal sobrenome, MENEZES. No entanto, este sobrenome, por razões não esclarecidas, não figura explicitamente a partir dos trisavós até os hexavós de Anita. Manifesta-se com evidência em nomes de antepassados associados a outros sobrenomes: PAIM, PAMPLONA, MACHADO, FAGUNDES, CÂMARA, VASCONCELOS, LINHARES, conforme representação abaixo.

Diogo e Júlia: genealogia comum
Observa-se uma situação especial na genealogia de Zeca e Anita: a existência de antepassados comuns, Diogo Garcia e Júlia Maria da Caridade. O casal, através dos filhos, participa da construção genealógica de Zeca, pelos troncos paterno e materno, conforme a seguinte descrição.
- Diogo Garcia e Júlia Maria da Caridade tiveram o filho JOSÉ GARCIA, que se casou com Maria de Nazaré, pais de Manoel Joaquim de Santana e sogros de Venância Constância de Andrade, cuja filha, Maria Emerenciana Andrade, em união com Francisco Teodoro Teixeira, gerou Antônio Teodoro de Santana Teixeira, o qual e a esposa, Margarida de Paula Guimarães Teixeira, conceberam José Venâncio Teixeira, pai de Djanira Teixeira de Rezende, mãe de José Rezende (Zeca).
- Diogo Garcia e Júlia Maria da Caridade tiveram a filha ANA MARIA DO NASCIMENTO que se casou com João Pereira de Carvalho (1º marido), pais de José Pereira de Carvalho e sogros de Theodora Maria de Mendonça, cujo filho, Francisco Teodoro de Mendonça, em união com Delfina Francisca de Andrade, gerou Manoel Teodoro de Carvalho, o qual e a esposa, Josefa Claudina Ribeiro de Resende, conceberam Antônio Teodoro de Carvalho, pai de Teófilo Teodoro de Rezende, pai de José Rezende (Zeca).
- Diogo Garcia e Júlia Maria da Caridade tiveram a filha ANA MARIA DO NASCIMENTO que se casou com Manuel Pereira do Amaral (2º marido), pais de Tereza Maria de Jesus e sogros de Pedro Custódio Guimarães, cujo filho, Francisco de Paula Guimarães, em união com Maria Venância Teixeira, gerou Margarida de Paula Guimarães Teixeira, a qual e o esposo, Antônio Teodoro de Santana Teixeira, conceberam José Venâncio Teixeira, pai de Djanira Umbelina Teixeira, mãe de José Rezende (Zeca), meu pai.

No caso da genealogia de Anita, minha mãe, a contribuição de Diogo e Júlia é menor. Diogo Garcia e Júlia Maria da Caridade tiveram o filho João Luís Gonçalves que se casou com Maria Ângela da Cruz, pais de Manoel Luís Gonçalves e sogros de Maria Justina Alves, cujo filho, Manoel Luís Gonçalves, em união com Mathilde Cândida Profetisa, gerou Marianna Cândida Félix Gonçalves, a qual e o esposo João Carlos Menezes conceberam João Carlos de Menezes, pai de Ana Ramos de Menezes (Anita), minha mãe.
*jornalista e professor aposentado da UFSJ.



