Crescendo depressa demais: no Mês das Crianças, especialistas alertam para os riscos da adultização precoce

Em pleno Mês das Crianças, educadores e psicólogos de Resende Costa chamam atenção para um fenômeno cada vez mais presente: a adultização infantil. Redes sociais, modas e padrões de comportamento têm levado meninos e meninas a querer “crescer” rápido demais — e isso preocupa pais e escolas


Ana Paula Ramos


Psicólogos e educadores alertam para os riscos da exposição precoce de crianças nas redes sociais (imagem GETTY IMAGES-BBC)

Outubro é o mês de celebrar a infância — tempo de brincar, imaginar e descobrir o mundo com leveza. Em meio às telas, às redes sociais e às novas influências culturais, muitas crianças têm deixado esse tempo precioso para trás. O fenômeno da adultização infantil — quando crianças passam a adotar comportamentos e preocupações típicas de adultos — tem sido percebido por pais e educadores. Especialistas alertam que, por trás da aparência de “maturidade”, pode haver uma perda de etapas essenciais do desenvolvimento. Mas a adultização não acontece apenas por vontade das crianças. Ela é influenciada por vários fatores: o marketing voltado ao público infantil, a internet, programas de TV e até o modo como os adultos ao redor se comportam.

Um grande exemplo é o crescente desejo de ganhar eletroeletrônicos no dia das crianças, cada vez mais percebemos que o brincar vem dando lugar ao espelho e ao celular. 

 

O que é a adultização infantil

Em conversa com Jéssica Letícia Resende, psicóloga e neuropsicóloga, ela nos contou um pouco sobre o assunto e exemplificou algumas situações. “A adultização infantil acontece quando a criança ou o adolescente assumem papéis e responsabilidades que pertencem ao mundo adulto. Podemos perceber sinais desse comportamento quando observamos, por exemplo: crianças preocupadas com as finanças ou problemas dos pais, tentativas de mediar brigas ou conflitos familiares, prioridade em tarefas domésticas acima do brincar ou atividades do interesse da criança, uso de roupas, danças ou maquiagens sexualizadas, inadequadas à idade delas”, disse.

 

Principais causas do fenômeno

A adultização pode estar relacionada a diversos fatores, entre eles a exposição precoce às redes sociais ou de forma inadequada, bem como a falta de orientação sobre o desenvolvimento infantil (não saber o que é adequado para cada fase). A desigualdade social, que leva a criança à necessidade de trabalhar ou assumir responsabilidades de forma precoce, é também listada como fator que impulsiona o fenômeno da adultização. O fato de a criança precisar ajudar os pais em tarefas não recomendadas para a idade e/ou apoiar emocionalmente os adultos também levam ao “amadurecimento” precoce.

 

A influência das redes sociais no aceleramento do “crescer”

“As redes sociais podem estimular a criança ou o adolescente a desejar se comportar como pessoas mais velhas. Isso aparece no uso de roupas e maquiagens adultas, danças sexualizadas e na busca por validação através de curtidas e seguidores. Esse tipo de exposição faz com que a infância se torne mais curta e gere pressão para amadurecer antes do tempo”, explica a psicóloga Jéssica. Ela alerta os pais a observar sinais de que as crianças podem estar pulando etapas necessárias para o desenvolvimento. “Busquem informações confiáveis sobre o desenvolvimento infantil, observem se o filho está agindo de acordo com sua idade, avaliem se ele está sendo exposto a conteúdos, ambientes e responsabilidades adequados à sua fase de vida. ⁠Fiquem atentos se a criança parou de brincar, se se mostra ansiosa ou muito preocupada com temas adultos.”

A psicóloga e neuropsicóloga destaca a importância do diálogo na relação entre pais e filhos. É essencial aos pais conversar abertamente com os filhos sobre o que veem e consomem na internet, acompanhando-os e orientando-os principalmente no uso das redes sociais.” Jéssica enfatiza ainda a necessidade de os pais explicarem os “limites de forma amorosa, reforçando o valor de cada fase da vida”, além de priorizar “momentos de brincadeiras, convivência, escuta ativa e acolhedora.”

 

Preservar a infância

A criança e o adolescente ainda não possuem maturidade emocional para lidar com certas responsabilidades ou pressões. De acordo com profissionais que cuidam da saúde emocional, a adultização pode gerar ansiedade, culpa, insegurança e baixa autoestima, pois há cobranças internas e comparações com padrões adultos que não são compatíveis com sua fase de vida.

Jéssica finaliza dando dicas importantes aos pais para a prevenção dos perigos que a adultização pode causar a crianças e adolescentes: “Estar sempre conversando com seus filhos e estando atentos no que eles estão consumindo na internet, principalmente nas suas conversas. Importante falar sobre o assunto com os filhos. Exemplos cotidianos que servem de alerta: separar brigas dos pais, trabalhar para ajudar nas contas de casa, deixar de brincar ou estudar para realizar tarefas adultas, usar roupas ou maquiagens que sexualizam, frequentar lugares inapropriados para a idade, produzir e postar vídeos imitando comportamentos adultos.”

 

A visão dos educadores

“Identificamos no dia a dia crianças que são tratadas como ‘miniadultas’", observa a diretora do CMEI Aquarela de Resende Costa, Sandra Reis Vale. Na vida estudantil, muitas vezes as crianças usam expressões, falas ou comportamentos que imitam os adultos. Isso traz impactos negativos, como ansiedade, estresse, dificuldades emocionais e problemas de identidade. “Os adultos cobram comportamentos perfeitos e autocontrole constantes dessas crianças, assim sendo, possuem pouco tempo para atividades lúdicas, brincadeiras e lazer.”

De acordo com a educadora, a criança precisa ser protegida dos excessos de informações ou de comportamentos adultos, “pois está perdendo a essência da infância e isso gera inúmeros problemas futuros.” Para Sandra, é de suma importância “que a criança tenha responsabilidades compatíveis com a sua idade, como por exemplo, ajudar a guardar seus brinquedos.”

No processo educacional, os pais devem participar ativamente evitando, por exemplo, expor a criança a problemas do casal. “É imprescindível supervisionar os conteúdos que a criança consome na internet. Temos que trabalhar a valorização da espontaneidade, da magia do brincar, estimulando o brincar livre e a imaginação”, diz Sandra Reis.

 “Na Educação Infantil, nosso objetivo é preservar a infância. O brincar é essencial para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social. A escola deve garantir tempo diário livre para o brincar, não apenas com brinquedos, mas com materiais não estruturados e naturais. O brincar é muito importante para o pleno desenvolvimento infantil.”

 

A pedagoga do CMEI Aquarela, Cleide Cristina Oliveira, fala sobre metodologias pedagógicas utilizadas na escola a fim de tornar o ambiente escolar acolhedor. “Utilizamos metodologias lúdicas, sensoriais e interativas. Promovemos um ambiente seguro, acolhedor e afetivo, desenvolvendo projetos de educação socioemocional como rodas de conversas ou contação de histórias. Construímos uma cultura de escuta e respeito, permitindo que a criança se expresse livremente, ouça e seja ouvida. Promovemos o diálogo com pais e responsáveis sobre a importância do brincar, do afeto e da proteção da infância”. De acordo com a pedagoga, a escola procura investir no ser humano de forma integral, “permitindo que a criança viva plenamente sua etapa de desenvolvimento com tempo para brincar, sonhar, se expressar e aprender no seu ritmo.”

“A infância é um período breve, mas de extrema importância. Por isso, acreditamos que deve ser vivida intensamente e com alegria. Nossas atividades são cuidadosamente planejadas para valorizar o mundo lúdico da infância — um espaço onde ser criança é explorar, brincar e aprender de forma prazerosa. Trabalhamos com clássicos infantis, músicas adequadas à faixa etária e brincadeiras que estimulam o desenvolvimento e a imaginação”, diz Cleide.

No universo do CMEI Aquarela, cada momento dessa fase mágica é celebrado. “Em nossas reuniões com as famílias, reforçamos a importância de respeitar o tempo da infância, evitando pular etapas essenciais para um crescimento saudável e feliz”, enfatiza a pedagoga Cleide Oliveira.

Apesar das preocupações, o assunto também pode ser encarado como uma oportunidade de diálogo. Pais e responsáveis podem ajudar muito ao estabelecerem limites e conversar com seus filhos sobre o que é adequado para cada idade. Neste Mês das Crianças, o convite é para resgatar o valor da infância — o tempo de brincar, de imaginar e sonhar sem pressa.

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