Em maio de 2026 o Brasil celebra os 70 anos de uma das maiores façanhas estéticas e intelectuais da história da língua portuguesa: a publicação de Grande sertão: veredas. Sete décadas após o impacto provocado pela editora José Olympio, a obra-prima de João Guimarães Rosa permanece como um monumento literário, um organismo vivo cujas ramificações continuam a serpentear pelos campos da filosofia, da antropologia e da estética contemporânea brasileira. Comemorar os 70 anos desse épico é reconhecer que o sertão, na pena de Rosa, deixou de ser meramente um espaço geográfico para se tornar uma condição existencial e uma revolução linguística indubitável, transformando o regional em universal de maneira poética.
Nascido em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908, Rosa transitou entre a medicina e a diplomacia, mas foi na palavra que encontrou sua verdadeira e definitiva morada. Poliglota e profundo conhecedor das minúcias da alma humana, possuía a sensibilidade de ouvir o silêncio das gerais e traduzi-lo em uma sintaxe eminentemente nova. Sua produção literária é o resultado de uma imersão técnica e espiritual no âmago do Brasil, transcendendo o regionalismo tradicional pela força de uma invenção que Homero Silveira, em Aspectos do romance brasileiro contemporâneo (1977), classificou como o trabalho de um “Inventor-Mestre”, alinhando-o à criteriologia de Ezra Pound. Rosa não se limitou a observar a realidade; ele a refundou por meio do ato de dizer.
A importância e a originalidade de sua obra marcam uma ruptura na literatura brasileira. Para compreender o lugar de Grande sertão: veredas na história da literatura brasileira, é fundamental evocar a distinção sociológica de Antonio Candido em Literatura e sociedade (1975). O crítico diferencia a “arte de agregação” – que utiliza sistemas simbólicos vigentes para se comunicar com a sociedade – da “arte de segregação”. Esta última, na qual Rosa se insere, preocupa-se em “renovar o sistema simbólico, criar novos recursos expressivos e, para isto, dirige-se a um número ao menos inicialmente reduzido de receptores, que se destacam, enquanto tais, da sociedade.”. Rosa promoveu essa segregação justamente para permitir uma renovação estética que, ao longo do tempo, redefiniu o que entendemos por identidade literária nacional e por escrita romanesca, elevando o patamar da nossa prosa.
Nesse jorro de imaginação criadora, Rosa rompe com o documento bruto que dominava a literatura de imaginação da época. Em vez de apenas retratar a rusticidade do homem do interior, ele a eleva ao patamar da alta epopeia clássica. O livro é, por definição, uma obra aberta. O autor não é um: são veredas múltiplas. Rosa é o grande sertão em cujas veredas nós nos perdemos ou nos encontramos. Ele assusta e esmaga justamente por ser múltiplo. Ele é como o próprio sertão, “onde o pensamento da gente se forma mais forte que o poder do lugar”. Essa força mística e psicológica é o que sustenta a narrativa de Riobaldo, o jagunço que busca a compreensão do mundo por meio da memória e da confissão.
A narrativa de Grande sertão: veredas é um longo fluxo de consciência de Riobaldo, um jagunço já afastado das lutas, quase aviltado em barranqueiro do Rio São Francisco, o qual narra sua vida de aventuras e sua luta secular entre o Bem e o Mal. O protagonista narrador, num profundo sincretismo, vive perturbado pela dúvida sobre a existência do diabo e pela ambiguidade constante quanto ao sagrado, oscilando entre a fé na benevolência divinal e o medo da “traição” de Deus. Sua decisão de enfrentar o maligno à meia-noite, na encruzilhada das Veredas Mortas, no sertão longínquo, é o ponto de mutação de sua existência, no qual busca força para o combate. Após cumprir o fado de jagunço e sair consagrado como o grande chefe Urutu Branco, ele não encontra a paz imediata, mas sim o clímax da vingança contra Hermógenes e a perda de seu grande amor, Diadorim – uma figura mítica e complexa que oscila entre a “noiva” e o “companheiro”. Recolhido a uma vida de proprietário, casando-se com Otacília, Riobaldo vive, contudo, eternamente sob a sombra dessa paixão frustrada e a incerteza angustiante sobre o pacto e a própria natureza do diabo, concluindo que o sertão é do tamanho do mundo e que “o diabo não há”, existindo apenas a travessia humana.
A construção do livro opera-se em uma fascinante superposição de planos. No nível individual e subjetivo, emergem os antagonismos da alma humana. No plano coletivo, há a influência da literatura popular que faz de Riobaldo um símile de herói medieval recriado no Brasil Central. O escritor utiliza material de filiação popular para emprestar toques de epopeia medieval aos combates de jagunços. Por fim, o plano mítico e telúrico faz com que os elementos naturais – o sertão, o vento, o rio, os buritis – tornem-se personagens vivas e atuantes, o que confere à obra uma dimensão cósmica. O sertão não é apenas onde a história se passa; o sertão é o agente que molda a ética, a fé e o destino dos homens que por ele cavalgam e sofrem.
Aspectos formais de Grande sertão revelam o que Proença, citado por Homero Silveira, classifica como um estilo barroco sem ortodoxia: liberdade artística com hibridismos, neologismos como um dos processos de enriquecimento vocabular, latinismos, arcaísmos e aproximações inusitadas. Não se trata da criação de uma nova língua isolada, mas de um “esforço consciente no sentido de uma evolução da linguagem literária”. Rosa utilizou potencialidades da nossa língua, principalmente a analogia, para construir uma fala capaz de refletir a enorme carga afetiva do discurso. “O aproveitamento das peculiaridades orais, no caso, não implica reprodução documental da linguagem falada. O que existe é a utilização dos processos expressivos que a caracterizam e de suas tendências para a intensificação” poética.
A contribuição da obra para a cultura brasileira ultrapassa as estantes de livros, alcançando a teledramaturgia e o cinema de forma transformadora. A minissérie de 1985 é um marco visual que ajudou a popularizar a mística rosiana, provando que a complexidade do texto poderia ser traduzida em imagens potentes e diálogos inesquecíveis. Mais recentemente, novas adaptações cinematográficas e teatrais continuam a investigar o mistério de Diadorim e Riobaldo, demonstrando que o texto de 1956 permanece atual e necessário. A obra ensinou aos roteiristas brasileiros que o sertão pode ser um palco para tragédias gregas e dramas existenciais de fôlego universal, consolidando um estilo de narrativa que valoriza a profundidade psicológica e a plasticidade da imagem.
Percebemos, pois, que Guimarães Rosa mapeou a alma de um povo que habita um território imenso. O livro é o testamento de um Brasil que é, ao mesmo tempo, arcaico e moderno. A grandiosidade de Rosa reside em ter percebido que o sertão está em toda parte e que a travessia exige coragem. Celebrar os 70 anos dessa obra é reafirmar o compromisso com a beleza da língua e com a busca incessante pela verdade, mesmo que ela se esconda no meio do redemoinho. O sertão é o mundo, e a linguagem de Rosa é a chave que nos permite tentar decifrá-lo, transformando cada vereda em um caminho de autoconhecimento e de descoberta da nossa própria humanidade.
A leitura de Rosa em pleno século XXI continua a ser um desafio e um deleite. Em um mundo cada vez mais fragmentado e superficial, a densidade de sua prosa nos obriga a refletir e a sentir o peso de cada vocábulo. A “linguagem do sertão” tornou-se “ser tão linguagem”, porque o autor compreendeu que a construção do ser humano está ligada à forma como este nomeia o seu mundo e o narra.
Ao celebrarmos este septuagenário em 2026, brindamos ao futuro de uma obra que continuará a inspirar gerações de leitores e artistas que buscam, nas veredas rosianas, o sentido mais profundo da existência. O sertão é grande, e a arte de Rosa consegue ser também imensa, buscando abraçar o infinito dentro da palavra. Em 2026, o sertão ainda fala por nós. A travessia continua sendo a nossa maior aventura.
Capa da primeira edição de Grande Sertão - Veredas
