Inovação tecnológica em São João del-Rei


Economia

José Venâncio de Resende0

Para além de consultorias e do Guia Mania, por volta de 2017, Ronan já investia muito em inovação, sistemas etc. “Eu comecei a investir muito em startups, aprender tudo sobre as startups, e comecei a investir em algumas empresas de inovação.” Mas ele não estava satisfeito. “Eu me sentia mal nos meus negócios, eu não tinha ninguém com quem conversar de negócios, o que me deixava pra baixo; então, eu pensei: preciso mudar minha régua, meu meio, minha convivência.”

Nesta época, Ronan fazia consultoria para Antônio João Goulart, da Clínica de Implantodontia Goulart. “Então, eu disse: Goulart, eu queria montar um grupo com empresários que pensam fora da caixa, que querem empreender, investir em startups, tipo uma associação comercial. Só que temos que pôr dinheiro no investimento porque, se não doer no bolso, ninguém leva a sério. Alguma coisa que possa transformar São João de-Rei.”

Goulart puxou uma folha debaixo da mesa cheia de nomes e disse: “Eu tenho uma ideia muito parecida com essa". “E assim nós idealizamos o Rockfort”, conta Ronan. Chama um, chama outro, os convites resultaram na fundação do Rockfort, em 2017, com 13 nomes: Ronan de Melo e Antônio Goulart, Marcelo Coutinho, Alessander Pires, Bruno Souza, Wallace Ashidane, Neymar Resende, Nicole Mary, Rodrigo Braga, Gustavo Teixeira, Diogo Paiva, Flávio Vitor e Marcos Túlio.

“Então, começamos a fazer parcerias, fomentar a inovação, criar eventos, estimulando todos os empresários de São João del-Rei que queriam transformar em todas as áreas.” O grupo juntava dinheiro, investia nas startups e sempre se encontrava, num formato gourmet: “nos encontrávamos para uma boa comida e conversar sobre negócio. E aí resolvemos montar uma estrutura de coworking, para começar a atrair o pessoal das startups, porque nós capitalizamos, tínhamos dinheiro, mas não estávamos achando startup para investir em São João del-Rei”.

O coworking era o espaço físico necessário “para poder dar endereço ao grupo”. Por conta da pandemia, o espaço físico compartilhado foi inaugurado entre o final de 2021 e 2022. Esta estrutura antecedeu à lei municipal do coworking que ainda não existia São João do Rei. “Então, nós fomos à Prefeitura e hoje temos a lei municipal.”

Já são cerca de 70 endereços fiscais que as pessoas abriram no coworking, quando antigamente, para ter um CNPJ, elas tinham de alugar uma sala, pagar aluguel caro só para ter esse endereço fiscal. “Assim, nós fazemos com que as empresas de São João del-Rei fiquem recolhendo imposto em São João del Rei.” O Rockfort acaba de fechar uma parceria com a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), que conta com cerca de R$ 600 mil para incentivar a inovação. “Na verdade, o Rockfort não é o negócio principal de ninguém, nunca foi. É um negócio que é de todo mundo, todo mundo ajuda um pouquinho para poder fomentar a inovação.”

Del Rei Next

Ronan foi o coordenador do primeiro Del Rei Next, que aconteceu em 2023. Numa das reuniões semanais do Rockfort, no final da tarde de quinta-feira, com a presença de empresários e alunos da Universidade, alguém disse que São João del-Rei tinha muitos projetos, mas nada para mostrar. Ao que Ronan respondeu: “Dentro da Universidade, todo mundo fala que não tem emprego. Na rua, os empresários reclamam que não tem mão de obra. Será que nós estamos vivendo no mesmo mundo? Então, vamos criar um evento em comum, vamos melhorar a nossa comunicação. Assim, a Universidade mostra os projetos que está desenvolvendo, as patentes que têm no armário e que as empresas podem usar.”

Foi assim que um problema deu origem ao Del Rei Next, conta Ronan. “E eu me envolvi 2000% no primeiro. Eu queria fazer um evento para mais de 2.000 pessoas, montar 50 stands com feira, trazer palestrantes de renome. Então, desenhamos esse modelo e foi uma experiência muito bacana.”

Ronan lembra-se que um dia de 2018, ou 2019, estava em São Paulo fazendo treinamento quando recebeu um telefonema de João Pinto, do Sicoob Credivertentes. Ele tinha lido notícias sobre a iniciativa do Rockfort. “Ficamos mais de uma hora no telefone, foi muito bom. Então, ele me chamou para tomar um café, me entrevistou, quis entender tudo. No final, disse: ´Gostei da ideia, eu quero participar disso´.”

Ronan pediu alguns dias para apresentar uma proposta de como poderiam desenvolver juntos o ecossistema de inovação de São João del-Rei. Nesse meio tempo, Rockfort e Credivertentes começaram a realizar eventos em parceria. “Por exemplo, a cooperativa me contratou para fazer uma consultoria sobre a expansão do turismo em Resende Costa”, recorda Ronan. “E nós fechamos a parceria para eles (o Credivertentes) serem os mantenedores do ecossistema.”

A proposta era que o Credivertentes colocasse recursos “dentro da nossa estrutura para podermos contratar uma pessoa full-time para incentivar o ecossistema de inovação em São João do Rei”. Foi assim que Davidson Paulino* entrou no Rockfort, fruto da parceria com o Credivertentes, para desenvolver esse ecossistema (que abrange universidade, empresários, associações e poder público).

Assim, o Del Rei Next surgiu para aproximar a Universidade das empresas, “levar os empresários para dentro da Universidade, pegar todos os projetos, todas as startups que tem em São João do Rei e assim promover a inovação”, resume Ronan; e “para tornar o evento atrativo pegar um palestrante de renome”.

João Pinto, do Credivertentes, foi o primeiro a apoiar o projeto porque “viu que a proposta era séria”. Na sequência, surgiram outros parceiros como AMG, Café Soberano e Uai Rango, “os amigos começaram a ajudar na estruturação; foi um evento muito difícil de organizar”, relata Ronan. Foram montadas 12 tendas de 100 metros quadrados (1.200 metros quadrados de feira) onde foram colocadas 60 empresas em exposição (startups etc.); “e deu um movimento muito legal; a gente ficou com três auditórios da universidade, tendo palestras o dia inteiro”.

Uma das atrações foi a palestra do Geraldo Rufino (com auditório lotado), “que foi muito legal”. Outra atração foi o Hackathon. “Trouxemos os meninos de tecnologia e inovação para criar uma solução para alguns problemas da nossa região. Teve o Hackathon da AMG e o Hackathon do Sicoob Credivertentes (uma solução de pousada, que hoje é uma startup que os meninos estão desenvolvendo).

Também destaque para a participação das Prefeituras de Resende Costa, Coronel Xavier Chaves e Lagoa Dourada. Mas foi notada a ausência da Prefeitura Municipal de São João del-Rei, que não cumpriu a promessa de patrocínio. Também o SEBRAE, que se prontificara a ajudar com palestrantes, não contratou ninguém, ficando apenas como apoiador. Também foi notada a pouca participação dos alunos da Universidade.

Ainda assim, o evento mostrou o potencial que tem São João del-Rei, apesar de que, financeiramente, “machucou a gente”, admite Ronan, pois teve um custo de cerca de R$ 300.000 (palestra do Rufino, contratação de stands etc.). “Além do patrocínio, eu coloquei R$ 50.000 do meu bolso porque a conta não fechou, envolvi uns 15 funcionários meus e ainda patrocinei, para fazer o negócio acontecer.”

Por problemas de saúde do pai, Ronan não participou diretamente do segundo Del Rei Next, que ficou sob responsabilidade do SENAI. Já o terceiro foi assumido pela própria UFSJ.

O futuro

Considerando a experiência de três edições do Del Rei Next, Ronan de Melo, embora não tivesse participado de todos, diz acreditar no ecossistema, mas também “que todo negócio tem que ter dono. Eu acho que temos de ter pessoas que vão chamar o projeto no peito para fazer acontecer. Eu sempre bati na tecla que todo ecossistema tem que ter idealizadores, mas, se o ecossistema não abraçar, aí não é um ecossistema”.

Outra constatação é de que é preciso haver maior participação dos alunos da Universidade, além dos expositores e visitantes. “No primeiro evento eu queria levar os alunos para participar”; tinha apenas 30 alunos da Universidade. 

Também é preciso ter atrações como shows, palestrante de grande repercussão e eventos diversificados para levar empresários, alunos e outros potenciais interessados no evento. É preciso ter ciência de que não é um evento acadêmico, “é um evento para todo mundo”.

É fundamental o envolvimento da Prefeitura Municipal. Por exemplo, “começar a criar os pontos de inovação perto da Maria Fumaça, criar alguns eventos na área da rotunda; levar a inovação para dentro da rotunda. Imagine os turistas chegando e vendo, lá no meio, um monte de startups, inovação no meio das coisas antigas”.

Maior envolvimento regional, com a presença de prefeituras e de projetos e produtos locais, para fortalecer a região. “Quando você traz a prefeitura, você traz junto as atividades da comunidade.”

É preciso passar a ideia de pertencimento de todos os envolvidos. “Não é fazer uma palestra só para os alunos da universidade, tem que ser um evento para comunidade.”

*Davidson Paulino é o atual adjunto da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico

 

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