Maria Fumaça de São João del-Rei a Tiradentes em nova fase sob gestão da ABPF


Cidades

José Venâncio de Resende0

Estação da antiga EFOM em São João del-Rei (foto José Venâncio)

A Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF) começa a operar, em outubro, o Complexo Ferroviário da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), que inclui a linha da Maria Fumaça - o trem turístico entre São João del-Rei e Tiradentes. O acordo foi celebrado entre a ABPF e os municípios de São João del-Rei e Tiradentes. “Não se trata apenas de colocar uma locomotiva novamente sobre os trilhos. Trata-se de preservar uma história, proteger um patrimônio e manter viva uma memória que pertence a todos nós”, resumiu a ABPF em sua página no Facebook.

No período de transição da VLI para a ABPF, a Maria Fumaça realizou cerca de 14 viagens (sete para cada lado), no trajeto entre as duas cidades, apenas no feriado prolongado de 7 de setembro. O percurso de 12 km, às margens da Serra de São José, é feito em aproximadamente 50 minutos, atraindo milhares de turistas do Brasil e do mundo.   

A ABPF assume a gestão do Complexo Ferroviário da EFOM após o encerramento da concessão à VLI, que durou 30 anos. Estima-se que a ABPF responda por cerca de 85% desse tipo de serviço no Brasil, o que lhe confere competência técnica para essa tarefa. A ABPF atua nas cidades de São Lourenço (Trem das Águas), Passa Quatro (Trem da Serra da Mantiqueira), São Paulo (Trem dos Imigrantes), Guararema (Trem de Guararema), Campinas/Jaguariúna (Viação Férrea), Antonina/Morretes (Trem Caiçara), Apiúna (Trem do Vale Europeu), Rio Negrinho (Trem da Serra do Mar) e Piratuba (Trem das Termas).

A ABPF chega à EFOM “trazendo consigo uma trajetória construída sobre princípios fundamentais: preservacionismo, valorização da memória ferroviária, conservação do patrimônio histórico, educação patrimonial e compromisso com a transmissão desse legado às próximas gerações”. A entidade considera que seu papel não é congelar o passado, mas cuidar de seus vestígios e criar condições para o presente e o futuro. “A EFOM não é apenas trilho, estação, oficina, locomotiva e vagão. É trabalho, técnica, paisagem, território, conhecimento, lembrança e identidade. É a memória de milhares de pessoas que fizeram a ferrovia existir e de tantas outras que, décadas depois, lutaram para que ela não desaparecesse.”

Sua trajetória mostra “locomotivas que voltaram a respirar, ferroviários, preservacionistas e voluntários que ajudaram a transformar a memória em patrimônio vivo”.

Compromisso. A chegada da ABPF “representa o encontro de duas histórias construídas em torno de um mesmo compromisso: manter viva a ferrovia como patrimônio, memória, conhecimento e experiência”, manifestou a associação. A entidade tem “uma trajetória de mais de quatro décadas dedicada à preservação ferroviária, à restauração e operação de equipamentos históricos, à conservação de acervos, à valorização dos saberes ferroviários e à educação patrimonial”.

Porém, “preservar uma ferrovia é muito mais do que conservar locomotivas”, acrescentou a ABPF. “É cuidar de estações, oficinas, vias, ferramentas, documentos e objetos. É reconhecer o valor dos conhecimentos e das técnicas transmitidos entre gerações. É aproximar as comunidades de seu patrimônio. É fazer da operação ferroviária uma forma de experiência, aprendizado e conexão com a história.”

É essa missão, construída ao longo de décadas, que agora se soma à história da EFOM. “Uma história que já possui identidade, memória e patrimônio próprios, que passa a contar com novos braços, novos conhecimentos e novas possibilidades para continuar viva.”

A ABPF admite que o desafio é grande e a responsabilidade maior ainda, pois “o objetivo não é simplesmente fazer os trens circularem. É fazer com que todo o sistema ferroviário continue existindo, sendo cuidado, estudado, conhecido, compartilhado e transmitido às próximas gerações”.

Expectativa. A Prefeitura Municipal de São João del-Rei espera que o Complexo Ferroviário seja transformado “em uma referência nacional, unindo preservação, turismo, artesanato, gastronomia, cultura e geração de oportunidades”, nas palavras do secretário de Cultura e Turismo, Caio Andrade.

Para o prefeito de Tiradentes, Zé Antônio do Pacu, o Complexo Ferroviário é um patrimônio não apenas de São João del-Rei e Tiradentes, mas de todos os brasileiros. Mais do que apenas duas estações, a Maria Fumaça “une histórias, famílias, tradições e o desenvolvimento de toda uma região. Ao longo dos anos, tornou-se um dos mais importantes atrativos turísticos de Minas Gerais, gerando oportunidades, movimentando a economia e levando o nome de nossas cidades para o Brasil e o mundo”.

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