Em tempos de tecnologias digitais, acessos rápidos à internet e leituras que se restringem às pequenas e viciantes telas dos smartphones, incentivar os adolescentes a abrirem um livro e debruçarem-se sobre ele para uma boa leitura tornou-se um desafio. Maior ainda é o desafio de motivá-los a escrever, produzir seus próprios textos tendo como inspiração o pensamento criativo, sem IA.
Foi a partir do propósito educacional e pedagógico de estimular os alunos a desenvolverem o conhecimento por meio da criação artística que surgiu o “Projeto Integrador Produção Cultural e Comunicação”, desenvolvido junto aos alunos do 2º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Assis Resende, sob a orientação da professora de Português Flávia Barros. “O projeto tem como propósito articular a criação artística, a expressão comunicativa e a vivência prática para desenvolver a autonomia, a criticidade e o protagonismo juvenil dos estudantes, em especial resgatando suas origens, sua identidade”, explica a professora Flávia.
De acordo com a professora, os alunos produziram belas narrativas de memória, e o Vítor Gabriel obteve destaque na turma.
Vitor Gabriel Silva tem 17 anos, é filho de Cláudio José da Silva e Meirilane Aparecida Santana Silva. Ele se define como “alguém que busca aproveitar as oportunidades de aprendizado para desenvolver conhecimentos importantes em sua formação acadêmica e profissional.”
O JL publica a íntegra do texto escrito pelo aluno Vítor Gabriel e o parabeniza pela dedicação aos estudos e à busca pelo conhecimento.
Minha Infância
Vítor Gabriel Silva
É engraçado como a gente cresce e algumas lembranças ficam ali, do mesmo tamanho, sem diminuir nem um pouco com o tempo. Quando fecho os olhos, ainda vejo aquela rua onde eu passei minha infância. Era uma rua sem saída, toda de pedra, que acabava na pousada Brejo das Flores. Para quem passava ali, era só uma rua qualquer. Mas para mim, era onde tudo acontecia.
Não tinha hora de brincar. Bastava ouvir uma bicicleta passando lá fora ou alguém me chamando no portão que eu já estava correndo para fora, nem pensava duas vezes. Quase sempre tinham as duas Luísas. Como as duas tinham o mesmo nome, eu resolvi do meu jeito, uma era a Luísa Grande e a outra, a Luísa Pequena. Nunca achei nada estranho. Na verdade, pra gente, fazia todo o sentido do mundo.
As bicicletas eram a nossa liberdade. A gente ia de um lado pro outro da rua, milhares de vezes, e inventava histórias que só existiam na nossa cabeça. Cada viagem era uma aventura diferente, e a rua virava o cenário de tudo que a gente imaginava. Quando escurecia e alguém gritava que era hora de entrar, ficava aquela sensação ruim no peito de que a brincadeira tinha acabado cedo demais. Ficava aquele silêncio junto com uma tristeza, porque a melhor parte do dia tinha ido embora.
Dentro de casa, outra coisa ocupava um lugar enorme no meu coração, que era a minha coleção de bichinhos de borracha. Eu era apaixonado por aquilo. Não eram só brinquedos jogados em qualquer lugar. Cada bichinho tinha uma história, um nome e um cantinho certo para ficar. Eu passava horas inventando aventuras que só faziam sentido para mim, mas que na hora pareciam mais reais que qualquer filme.
Sempre ouvi que a infância passa rápido. Quando eu era criança, não acreditava nisso de jeito nenhum. Parecia que aqueles dias nunca iam acabar. Mas acabaram. Cada um foi para um lado, as brincadeiras ficaram pra trás e a rua já não é a mesma. E às vezes eu penso que o que dói não é ela ter ido embora, mas saber que nada vai ser igual. Ainda assim, sempre que penso nela, sinto aquela mesma paz de quem não tinha nenhuma preocupação no mundo. É engraçado como a memória escolhe guardar justamente as coisas que pareciam pequenas.
Acho que é isso que a infância deixa na gente. Ela vai embora sem avisar, mas leva um pedacinho do coração junto. E por mais que o tempo passe, basta lembrar daquela rua de pedra e das tardes com as duas Luísas para eu perceber que um pedaço de mim ainda mora ali, esperando eu voltar.
Vítor Gabriel, aluno do 2º ano do ensino médio da E. E. Assis Resende, autor da redação (foto arquivo pessoal)