Maternidade e carreira profissional: o poder feminino diante dos desafios da rotina de vida

A maternidade transforma rotinas, muda prioridades e exige adaptações constantes. Entre os cuidados com os filhos, o trabalho e as tarefas domésticas, mães de diferentes realidades vivem diariamente a chamada dupla jornada


Ana Paula Ramos


Josiane com a filha Adrielle na Feira Nacional de Artesanato em BH em 2025 (foto arquivo pessoal)

Maio – o mês das mães - chega para exaltar as mulheres que transformam a rotina de vida em ato de liderança e poder. Muito além do cuidado com os filhos, elas comandam profissões, lares e destinos, enfrentando a intensa jornada diária com uma força inabalável. Nesta reportagem, apresentamos trajetórias de diferentes realidades unidas pela mesma soberania feminina: histórias de coragem, superação, adaptação e um poder que move e transforma o mundo.

A tecelã Daniela do Carmo Chagas, graduada em Pedagogia e mãe da pequena Roberta, de 2 anos, começa os dias ainda de madrugada. “Acordo às 4h, preparo o café para a minha família e inicio o meu trabalho enquanto minha filha ainda dorme”, relata. Trabalhando em casa, Daniela consegue acompanhar de perto o crescimento da filha enquanto mantém sua produção. Segundo ela, a rotina exige atenção constante e adaptação diária. “Entre um trabalho e outro, há pausas cheias de significado: cuidar da alimentação, da higiene, oferecer atenção, carinho e estar presente nas descobertas dela”, conta. Enquanto a mãe trabalha, Roberta permanece por perto, em um ambiente seguro, com brincadeiras e atividades que estimulam sua criatividade.

Daniela afirma que nem todos os dias são iguais. “Há dias mais leves e dias mais desafiadores. E tudo bem, porque a maternidade é exatamente isso: um aprendizado constante, cheio de amor e descobertas”, destaca. Para ela, trabalhar em casa é essencial nessa fase da vida. “Isso me permite estar ao lado da minha filha em uma fase tão importante do seu desenvolvimento. Educar e cuidar não são tarefas simples: exigem carinho, amor, paciência e muita dedicação.”

Apesar da sobrecarga, Daniela diz encontrar sentido nos pequenos gestos da filha. “Nem sempre é fácil, o cansaço existe, mas também existe uma recompensa imensa. Cada vez que minha filha me olha e me dá um beijo, tudo faz sentido”, afirma. “Ser mãe, para mim, é intenso, verdadeiro e cheio de sentimentos que nem sempre cabem em palavras.”

Na zona rural do município de Resende Costa, no povoado dos Pintos, a quitandeira Josiane Magali Resende Silva também vive uma rotina intensa conciliando maternidade, casa e trabalho. Ela destaca as diferenças da criação dos filhos no campo em relação à cidade. “Aqui temos a oportunidade de criar nossos filhos com costumes um pouco diferentes da cidade. Eles ajudam a cuidar dos bichos, capinar uma horta, buscar uma lenha, além dos afazeres domésticos”, conta.

Segundo Josiane, a vida na roça proporciona mais liberdade às crianças. “Eles foram acostumados a andar pelas redondezas e estradas desde pequenos para brincar, então isso gera uma sensação de que aqui são um pouco mais livres”, explica. Ela também destaca que, pela dificuldade de acesso à internet durante muito tempo, foi possível limitar o uso do celular desde cedo.

A produção de biscoitos, hoje fonte de renda da família, surgiu de maneira inesperada. “Algumas amigas já tinham me pedido para vender os biscoitos, mas eu não levei a proposta a sério, achei que não tinha capacidade”, relembra. A mudança aconteceu após uma amiga publicar fotos dos quitutes nas redes sociais. “A postagem deu muito certo e comecei a vender biscoitos desde esse dia.” Hoje, Josiane produz os quitutes de segunda a quinta-feira, faz as entregas às sextas e ainda atende turistas nos finais de semana, quando há agendamento. Ela acredita que o papel da mulher no campo mudou ao longo dos anos, mas continua sendo fundamental. “Hoje ele é de suma importância para que outras mulheres enxerguem a possibilidade de uma vida digna no campo. Não há necessidade de se mudar para a cidade para ter uma vida tranquila e próspera”, afirma.

Sobre a divisão das tarefas, Josiane destaca a importância do apoio familiar. “Hoje meu marido me ajuda com os afazeres da casa e também me ajuda nos biscoitos, se preciso.”

 

Maternidade e trabalho

A empreendedora Tatiana Cristina também vive diariamente os desafios da maternidade conciliada ao trabalho. O dia começa cedo e em ritmo acelerado. “Começa bem cedo na correria, arrumando as crianças, as tarefas de casa e depois dando continuidade ao dia na loja trabalhando”, relata. De acordo com ela, a rotina exige adaptações constantes. “Conciliar maternidade, trabalho e tarefas de casa não é nada fácil. Há dias em que a rotina sai fora do planejado, mas tudo precisa de adaptação”, afirma. Tatiana conta que os filhos acompanham sua rotina profissional diariamente. “Na loja já existe o cantinho para eles brincarem e até mesmo descansarem.”

A maior dificuldade, segundo ela, é administrar o tempo. “Parece que tudo precisa ser feito ao mesmo tempo. No fim, a gente fica com aquela sensação de que não deu conta de nada direito”, diz. Ainda assim, ela acredita que é preciso aprender a diminuir a autocobrança. “O desafio mesmo é entender que não dá para fazer tudo no mesmo dia e ir priorizando o que é mais importante.” Depois da maternidade, Tatiana afirma que muitas coisas deixaram de ser prioridade. “Acaba ficando tudo em segundo plano pelos filhos”, conta. Mesmo assim, ela define a maternidade como algo transformador. “A maternidade traz uma força e um amor que fazem tudo valer a pena.”

A empreendedora Amanda Sara também enfrenta diariamente a correria da dupla rotina. Mãe do pequeno Augusto, ela descreve o dia a dia de forma espontânea. “É uma loucura”, brinca. Ela conta que o dia começa cedo. “Acordamos por volta das 6h30min. Dou tetê para o Augusto e, em seguida, já organizo as coisas para levá-lo para a casa de minha mãe.” Entre trabalho, maternidade e tarefas domésticas, Amanda tenta administrar as prioridades. “Vou me virando a cada dia, porém sempre priorizando a tarefa mais necessária do momento.”

Amanda também já precisou levar o filho para o trabalho e afirma que a sensação constante é de que faltam horas no dia. “São inúmeros afazeres para 24 horas. Por mais que tente me organizar, sempre fica algo para trás.”

Depois da maternidade, algumas atividades pessoais precisaram ser deixadas de lado, revela Amanda. “A musculação foi uma delas. Ainda não achei uma brecha na minha rotina para conseguir voltar”. Mesmo diante da correria, ela afirma que o amor pelo filho é a principal motivação. “O sorriso que me desperta todos os dias e o fato de sempre querer dar o melhor e ser melhor para ele são as razões que me motivam a continuar.”

Entre os desafios do relógio e as renúncias do cotidiano, a maternidade se revela muito além do cuidado: ela é a expressão mais pura do poder feminino. Cada cicatriz, sorriso e vitória dessas mulheres desenham o mapa do futuro de seus filhos e o alicerce de seus lares. Que o olhar de admiração dos companheiros, o abraço apertado dos filhos e o respeito de toda a sociedade ecoem além deste mês. Porque, quando uma mãe transforma amor em força, ela não muda apenas a própria rotina, ela transforma a vida de todos ao seu redor.

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