Produção de café em expansão no Campo das Vertentes


Economia

José Venâncio de Resende0

fotoFlorada do café

Está em marcha um movimento de migração de produtores de café do Sul de Minas para a região do Campo das Vertentes. A revelação é do engenheiro agrônomo Carlos do Carmo Rodrigues, coordenador regional de culturas da EMATER. “A partir de 2015, mais ou menos, começou a haver essa migração de produtores do Sul de Minas.”

“A nossa região já produz café há muito tempo”, assinala Carlos Rodrigues. “Essa produção está concentrada em alguns municípios que fazem divisa com a Regional de Lavras: Nazareno, Conceição da Barra e São Tiago, além de São João del-Rei e Ritápolis”.

Na década de 2020, essa concentração de produtores aumentou muito. “Há muitos produtores vindo para municípios da região, como São João del-Rei, Nazareno, São Tiago, Ritápolis, Andrelândia e Piedade do Rio Grande”, revela Carlos Rodrigues. “Resende Costa está retomando a atividade com novos plantios”, completa.

Trata-se de “um número grande de produtores que estão enxergando na região o potencial que nós temos de produção. As condições climáticas propiciam essa produção. E nós temos também uma vantagem: a topografia, que tem atraído muita gente devido à crise da mão de obra.”

A solução da escassez de mão de obra é um dos principais objetivos de quem é atraído para o Campo das Vertentes. “Trata-se de uma região que produz um café de excelente qualidade e onde é possível nós utilizarmos a mecanização na produção do café”, observa o engenheiro agrônomo da EMATER.

 

Colheita 

A mecanização ocorre em várias fases da cultura, mas a principal delas é na época da colheita, segundo Carlos Rodrigues. “É a fase em que se demanda um número muito grande de trabalhadores; e hoje, infelizmente, essa questão da mão de obra tem sido uma dificuldade na produção agrícola.”

Assim, os produtores, para se manterem na atividade, “estão tendo que buscar esse investimento em máquinas e, assim, viabilizar a produção do café”. Quando esse produtor se transfere do Sul de Minas para as Vertentes, ele já ganha nessa variável, admite Carlos Rodrigues. “O que nós temos visto, e nas conversas que nós temos com alguns produtores, é justamente esse atrativo que tem feito com que eles venham para a nossa região.”

 

Concurso

Outro atrativo é a questão da qualidade do café. “Nós temos visto que eles estão justamente enxergando isso”, constata Carlos Rodrigues. “Hoje, nós temos cafés que estão se saindo bem em concursos. E isso motivou os produtores a olharem o café para além de uma commodity. Ou seja, eu posso produzir um café diferenciado.”

No ano passado, a Regional de São João del-Rei da EMATER-MG realizou o seu primeiro concurso de qualidade de café. “A região provou que tem esse perfil”, enfatiza Carlos Rodrigues. “Nós ficamos muito felizes com esse resultado porque estamos expandindo bastante.”

O 1º Concurso Regional de Qualidade de Café da região foi vencido pelo casal Joice e Lucas, que administram uma propriedade familiar próximo ao povoado dos Pintos, em Resende Costa. Devido ao sucesso do concurso de 2025, Carlos Rodrigues acredita que “o número de produtores que vão investir na produção de cafés especiais será maior”.

E mais: acredita que a disputa vai ser acirrada. “Nós estamos com a esperança de, no mínimo, dobrarmos o número de amostras para o concurso desse ano. No ano passado, nós tivemos perto de 50 amostras; agora, nós estamos esperando aproximadamente 100 amostras.”

Com o potencial apresentado pela região na produção de café de qualidade, muitos produtores do Sul de Minas, que já participam em concursos de café e trabalham esse diferencial, chegam com esse foco. “Eles buscam dentro da sua produção os melhores talhões, os melhores lotes para poder produzir o café especial.”

 

Mercado 

O café passa por uma mudança no perfil do mercado consumidor, constata Carlos Rodrigues. “Com o café especial em destaque, tem havido o maior aumento de demanda. Portanto, o produtor está sendo motivado a buscar essa qualidade, a ter um café especial, um café competitivo nesse mercado, devido à questão da agregação de valor. A diferença de preço na saca de um café especial é bem significativa. Sendo assim, qualquer produtor que nós acompanhamos tem essa consciência, essa noção.”

A EMATER-MG vai iniciar este ano um trabalho voltado para o processamento do café na região, revela Carlos Rodrigues. “Nós vamos capacitar os nossos técnicos para que eles possam assistir os produtores nesse segmento.” O objetivo é que o produtor vá além da produção, “também comercializando esse café na ponta; ou seja, o café torrado, embalado, com a oportunidade de estar numa gôndola de supermercado, buscando justamente esse mercado”.

 

Meio ambiente

Uma preocupação permanente é a relação da atividade cafeeira com o meio ambiente. “O café é uma cultura que sempre olha carinhosamente para a questão do meio ambiente”, observa Carlos Rodrigues. “O café é plantado em curva de nível, dificultando a formação de enxurradas. Nós tentamos mantê-lo sempre com plantas de cobertura (o solo coberto, justamente para evitar erosões, facilitar a infiltração da água e aumentar a fertilidade do solo). Essa matéria orgânica, sobre o solo, vai decompor e com certeza irá melhorar a vida microbiológica desse solo, disponibilizando mais nutrientes. E essa planta, com mais nutrientes e com o solo retendo mais água, vai ter com certeza uma saúde melhor.”

O objetivo é a redução da quantidade de defensivos, prossegue Carlos Rodrigues. “Toda a planta mais forte, mais saudável, permite que se diminua a aplicação de defensivos, dando um produto de melhor qualidade.” Além disso, reduz o custo, pois, “uma planta bem nutrida vai adoecer menos e produzirá mais, utilizando menos recursos. Esse trabalho de conservação de solo, de melhoria da fertilidade do solo com as plantas de cobertura enriquece o solo, diminuindo, assim, os gastos com a adubação. Um cafezal bem manejado, com plantas de cobertura, com os tratamentos corretos, vai ter uma diminuição muito grande de custos e o dinheiro fica no bolso do produtor”.

 

Pesquisas

A Regional da EMATER-MG pretende iniciar alguns experimentos com a Agrofloresta, conta Carlos Rodrigues. “E o café inserido na Agrofloresta vai ser um café mais sombreado. Nós vamos fazer as unidades demonstrativas para que possamos avaliar como esse café estaria saindo aqui na nossa região.”

Uma parceira importante na região é a EPAMIG, principalmente na questão do café, diz o engenheiro agrônomo da EMATER. “No ano passado, nós tivemos um experimento em uma fazenda em Nazareno, onde foram avaliadas 14 cultivares de café, para ver quais as que se sairiam melhor na nossa região.”

O resultado foi que “há cafés que se saíram melhor em regiões mais quentes e cafés que se saíram melhor em regiões mais frias. Com esse tipo de experimento, nós podemos ter aqueles cafés que se adaptam melhor na nossa região. E isso é muito importante, porque geralmente o técnico trabalha com dados cruzados. Nós pegamos um café do Sul de Minas, um café do Centro de Minas, um café da Zona da Mata. Os cafés que se deram melhor são os cafés que nós recomendamos hoje nas lavouras a serem plantadas.”

Esse trabalho está sendo desenvolvido em 15 municípios da Regional de São João del- Rei, “mas nós queremos expandir para pelo menos 25 municípios. Estamos trabalhando hoje com a meta de 25 municípios”, conclui Carlos Rodrigues.

Veja também Incentivo do café em São João del-Rei

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