No dia 13 de maio de 1975, chegara a Resende Costa Irmã Ernestina Valmorbida para integrar a comunidade religiosa das Filhas de São Camilo, administradoras do Hospital Nossa Senhora do Rosário, que, naqueles idos, ainda não havia sido repassado oficialmente à congregação camiliana, o que veio a acontecer em 1986. “A 28 de abril de 1986, tornou-se realidade um sonho que vínhamos acalentando desde 1954: a doação às irmãs da Congregação das Filhas de São Camilo de toda a Santa Casa dessa cidade com seus imóveis”, registrou no Livro de Tombo da Paróquia de Nossa Senhora da Penha de França o saudoso ex-pároco de Resende Costa, monsenhor Nelson Rodrigues Ferreira (1914-1988).
Irmã Ernestina, nascida em 23 de setembro de 1934 na cidade gaúcha de Antônio Prado e batizada com o nome de Wilma, ajudou a construir a história do Hospital Nossa Senhora do Rosário, onde exerceu sua missão religiosa durante 48 anos. “Viveu por 48 anos na comunidade de Resende Costa (MG), onde marcou profundamente a história local pelo cuidado dedicado aos recém-nascidos, servindo com muito amor, ternura e carinho, sendo sinal da presença de Deus junto às famílias”, escreveu Irmã Ângela Aparecida Schafaschek, da Secretaria Provincial das Filhas de São Camilo, no boletim que anunciou o falecimento da Irmã Ernestina no último dia 3 de março.
O trabalho na maternidade do Hospital Nossa Senhora do Rosário, de fato, marcou a trajetória da Irmã Ernestina em Resende Costa. Em entrevista ao Jornal das Lajes em 2014, Irmã Ernestina recordou-se, com aquele marcante e carismático sorriso no rosto, do primeiro parto que ela fez, sozinha e sem assistência médica, assim que chegou à cidade. “Eu fiquei esperando a noite inteira, sentada no sofá, chegar a hora daquela mãe. Fiz o parto sozinha, à luz de vela, pois não tinha luz naquela noite. Nasceu uma menina”, disse ela, lembrando-se ainda do trabalho de conscientização feito pelas camilianas junto às gestantes do município, incluindo-se a zona rural: “Fizemos uma campanha para as gestantes realizarem o parto aqui no hospital. Elas ficavam aqui até três meses, sendo acompanhadas”.
Porém, não só na maternidade do hospital Irmã Ernestina realizou a sua missão em Resende Costa, em tempos difíceis que faltava inclusive infraestrutura básica na cidade, como água tratada para as pessoas. Irmã Ernestina exerceu com afinco, junto às outras religiosas da comunidade camiliana, um verdadeiro trabalho missionário em favor dos enfermos. “Tinha muita pobreza aqui. A Irmã Paulina [religiosa camiliana que aqui trabalhou por longos anos] ia todos os domingos para as roças para aplicar vacina nas crianças. As crianças quando viam a Irmã Paulina já saíam correndo (risos)”, recordou-se Irmã Ernestina em entrevista a este repórter por ocasião das comemorações dos 60 anos da chegada das Filhas de São Camilo em Resende Costa.
Legado
A trajetória de Irmã Ernestina foi marcada pelo ensinamento evangélico de Jesus, quando disse aos seus discípulos: “Deixai vir a mim os pequeninos, pois deles é o reino dos céus” Mt 19,14. O discipulado da religiosa camiliana foi inquestionavelmente uma autêntica doação de vida, para trazer à vida e ao mundo a inocência e a pureza através de tantos pequeninos que ela amparou em seus braços.
O sorriso largo e o carisma incomparável de uma religiosa que ouviu o convite de Jesus e decidiu segui-lo fielmente inspirada no carisma de Camilo de Lellis, traduzem uma personalidade verdadeiramente especial. “Falar sobre a Irmã Ernestina em um espaço reduzido é muito difícil diante da grandeza que foi sua passagem e sua obra em Resende Costa. Irmã devota, caridosa, símbolo da credibilidade das freiras camilianas. Ela se dedicou ao nascimento e aos cuidados iniciais de centenas de crianças em Resende Costa. Extremamente carinhosa, principalmente com os recém-nascidos menos favorecidos, inclusive com doação de vestuário”, disse o médico dr. Paulo Cezar Fortuna Dias, que, desde 1977, quando chegou a Resende Costa, conviveu com a Irmã Ernestina e é testemunha da dedicação dela aos enfermos: “A todos os enfermos. Quantas noites e noites de sono perdido para desempenhar seu trabalho! Ela partiu para junto de Deus após cumprir com louvor e dedicação sua missão em Resende Costa. Deixou saudades e um vazio imenso. Quando aqui cheguei, há 48 anos, para iniciar minha carreira em Resende Costa, ali encontrei Irmã Ernestina cheia de vida e disposição para cuidar de todos. Partiu para receber de Deus a recompensa por toda a sua dedicação à vida religiosa e aos enfermos, cumprindo fielmente o compromisso com a congregação camiliana. Vai deixar saudades eternas”, completou dr. Paulo.
O advogado dr. Amadeu Coelho também conviveu durante longos anos com Irmã Ernestina, desde os tempos da Santa Casa. “Fui motorista da primeira ambulância da Santa Casa, tempo em que tive o privilégio de conviver mais de perto com a Irmã Ernestina. O seu falecimento deixou Resende Costa em luto. Ela marcou várias gerações, marcou sobretudo a história do Hospital Nossa Senhora do Rosário com seu brilhante trabalho”.
Repercussão
A notícia do falecimento da Irmã Ernestina repercutiu também nas redes sociais. Diversas pessoas de Resende Costa, de diferentes gerações, se manifestaram através do Facebook e do Instagram. “Notícia muito triste, um exemplo de ser humano”, escreveu o ex-vereador João Dias. “Um dia triste, uma perda irreparável. Mas estamos amparados na certeza de que a Irmã Ernestina assentou para sempre seu nome na história de nossa terra. Que a firme esperança da Ressureição seja nosso consolo. Descanse em paz!”, disse o estudante de História da UFSJ e provedor da Confraria de Nossa Senhora do Rosário de Resende Costa, Gustavo Pinto.
Irmã Ernestina dedicou seus 70 anos de vida religiosa ao exercício da missão que lhe fora confiada em inúmeras comunidades: Buenos Aires – Argentina (15/07/1955 a 04/02/1960), Casa Provincial – São Paulo (06/02/1960 a 24/10/1966), Cruzília-MG (25/10/1966 a 19/01/1967), Casa Provincial – São Paulo (20/01/1967 a 22/02/1972), Videira – Santa Catarina (23/02/1972 a 12/04/1975), Resende Costa-MG (13/04/1975 a 03/03/2023), Atibaia-SP (03/03/2023 a 09/11/2025), Casa Provincial – São Paulo (09/11/2025). “Em cada missão que lhe foi confiada, deixou marcas de bondade, fé inabalável e amor ao próximo. Sua vida foi testemunha de entrega generosa, simplicidade e dedicação incansável ao serviço e ao amor. A ela toda a nossa gratidão por seu testemunho de vida consagrada e por tudo que realizou em favor dos irmãos, especialmente dos mais frágeis”, disse Irmã Ângela Aparecida.
Irmã Ernestina Valmorbida faleceu no dia 3 de março de 2026, aos 91 anos, de causas naturais, na Comunidade da Casa Provincial em São Paulo, onde residia e contava com os cuidados e o carinho das irmãs camilianas.

