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Malandragem

29 de Julho de 2026, por José Antônio

A malandragem não é exclusividade do brasileiro. E vou mais: não é exclusividade do ser humano. O tigre tem listras e se confunde entre as ramagens, e se aproveita disso para garantir o almoço. As girafas, quando perseguidas, correm escoiceando pedras, que atingem a cara dos famintos predadores à caça da comida pescoçuda. Bichos que se fingem de mortos, outros que se fazem de pedras... tudo isso é malandragem.

Porém, a malandragem tem lá suas regras. O malandro tem que ser sutil, estratégico, simulador e, acima de tudo, elegante. Malandro que é malandro não é lambão nem se denuncia. O silêncio e o jogo de cintura são peças valiosas.

Acho que foi isso o que aconteceu comigo e um cachorro. A cafeteria estava cheia, com todas as mesas ocupadas. Consegui um lugar apertado no canto do balcão e pedi o meu costumeiro café com leite, acompanhado do pãozinho com manteiga. Ao longo do salão, bocas ocupadas com café, leite, biscoitos e pães, mastigando confeitos e cuspindo palavras. No chão, farelos do que foi aproveitado e engolido... no ar, ecos do que foi falado e excluído... Preferi o meu silêncio ruminante, meu tímido olhar do canto da vida.

Meu olhar rodou discretamente pelas mesas e parou frente a um outro olhar, também tímido, que me olhava de baixo para cima, num misto de medo e inferioridade. Era um cachorrinho, desses do tipo linguiça. Trajava uma roupinha de lã vermelha e uma espécie de bonezinho entre as orelhas caídas. Era cachorro de classe, pois refletia a sofisticação da dona, também ela bem vestida e elegante... só não tinha as orelhas caídas, mas sim os olhos.

E a dona falava das qualidades de seu amiguinho quadrúpede, suas brincadeiras e companheirismo. As amigas, bípedes, indagaram:

– Que gracinha! E ele come de tudo?

– Só ração.

O cachorro-linguiça nem aí. Continuava com os olhos cravados em mim e em meus movimentos. As mulheres desviaram o assunto para outra coisa. Olhei constrangido para o bicho. Seu olhar se iluminou, chegando até a lamber os beiços. A questão era o meu pão. Preso a frescuras e sofisticações, talvez o pobre cãozinho nunca tivesse experimentado o que é lambuzar-se na terra, correr atrás de carro e latir para bicicletas. E o meu pão com manteiga era um passaporte para ele conhecer, mesmo num vislumbre, um pouco de um mundo mais livre e de aventuras.

A dona do animalzinho não olhava para mim, as mulheres da mesa não olhavam para mim, ninguém olhava para mim. Quem olha para um par de olhos tímidos no canto de um balcão? Tirei um naco do miolo e joguei, malandramente, para ele. O cachorrinho ainda teve o cuidado de olhar para os lados antes de comer, sutilmente, o que lhe foi dado. E fiz isso repetidas vezes, cheguei até a pedir outro pão.

Na mesa do cachorro, a conta foi paga, as mulheres se retiraram e a dona saiu puxando o pobre cãozinho sofisticado. No entanto, seu rabo abanava alegre. Na saída, o cachorrinho-linguiça empacou. A mulher puxou e ele cedeu. Mas ainda lançou um olhar em minha direção, olhar que já não era mais tímido, e latiu.

Sorri sutilmente, e disse baixinho para ele, que já sumia na esquina:

– É isso aí, malandro!

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