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Eles, sempre juntos, dois irmãos

30 de Setembro de 2026, por Mário Márcio de Quadros

Casa trancada, ribanceira movediça, vento forte. No interior da caverna, luz de lamparina, pavio encharcado de óleo, lampiões descuidados. Para enfiar rastilho no bico do candeeiro, Inácio precisa remover a catarata do olho aceso. Perrengue! Diacho de vida assombrada! Trapo de pano, tecido ordinário!

Infinitos horizontes cabem na palma da mão. Precipício. Montanha do Purgatório.

- Pula, irmão!

Catarino atirou-se do lajedo do céu. Luz adormecida; caminho de pedra. Galerias estreitas, nubladas e úmidas, carregam a elegância, beleza e brandura do minério de ferro. Cova cavada por Odisseu – mundo subterrâneo, natureza divina e caprichosa, buraco do inferno. Recém-nascido, Catarino enfrentou a noitidão das pedras. Bateu asas e avoou distância. Seus olhos cavaram rochedo em nuvens de algodão. Panapaná desabou do Céu. Nas aberturas do Inferno, linhas irregulares romperam travessuras.  

Casa taramelada. Barranca movediça. Ventania.

- Pula, irmão!

Inácio, por conta e risco, atirou-se ao abismo. Luz sonolenta, caminho de pedra.

Em casa baixa, de beira e bica, no Arraial da Lage – desnascimento do nascer do Sol. Capim cheiroso, frasqueira de licores, doce do padre, toucinho do céu. Nas orelhas do ventar, a poeira sobe escandalosa, dando risada, caçoando do cochilo da noite. Coruja-buraqueira crocita mau agouro, em beira de mato viçoso. Páreas, carne, banha, sangue, tutano e ossos guardam desarrimo em rochedo. Cérbero, galgo de três cabeças, protege o sítio do clarão do dia.  

- Pula, irmão!

Eles dois pularam. Eles, sempre juntos, dois irmãos.

Ali, no buraco do inferno, o que fariam da vida?!

Catarino, deles dois, é o contador de causo.

“Recém-nascidos, Inácio e eu, fomos atirados nesta gruta do Arraial da Lage. Desconhecemos a luz do dia, e o aquecimento e brilho do nascer do Sol. Aqui embaixo, tudo é isolamento, sereno e orvalho, sozinhez e desarrimo. Vivemos no limbo, roídos e desfeitos, à procura de Virgílio. Micurê, Maracajá e Guará impedem nosso acesso à passagem do caminho ao Expiatório. Tudo o que vemos e sentimos do Paraíso é a sombra no lajedo do céu.

Homens não somos. Pais lageanos tivemos[1], em acidente de abandono.

Inácio e eu nascemos sombra e assombração; fomos jogados, aos molambos, no buraco do Inferno, no mesmo dia.  

Habitado por criaturas assustadoras, o Inferno é um abismo escuro, mortiço e fedorento. O buraco fora escavado pelo corpo de Lúcifer; arremessado do céu, assim que se rebelou contra Deus. Lúcifer com quatro faces: Judas, Brutus, Decimus e Cassius. Meu irmão e eu, estamos no limbo; pelo amor que nos une, pelo ar imundo, e mais de mil sombras jogadas no fosso. Aqui embaixo, à borda do despenhadeiro da Matriz de Nossa Senhora da Penha, corre um rio caudaloso e fundo. Estamos cercados por sete muralhas, até o topo da montanha do purgatório. Este buraco do inferno também é cortado por rios de fogo, cães bravos, gatos agressivos e pé-de-vento infernal.

Chegamos aqui, na entrada de mil demônios, por conta de um tombo da mamãe. No canteiro de couve, picada por um cascavel, ela perdeu os sentidos; e caiu no poço do quintal de casa. Mas, nós, seus meninos, conhecemos a força e a direção dos rios. Somos granizo em cova de chuva forte. Por cá e por lá, diante da ruína, enfrentamos o tormento do exílio escutando Missa: “Isto é o meu corpo que é dado por vós...” Inácio e eu, aqui do limbo, acompanhamos o povo em homilia na Igreja Matriz. Beatas e belas são as tardes de domingo, em tecelagem de oração à Nossa Senhora da Penha. A mamãe reza por nós toda noite. Inácio e eu, rogamos a Deus por ela, de domingo a domingo.

O amor escuta prosa na boca do brejo”.

Em casa baixa, de beira e bica, no Arraial da Lage – desnascimento do nascer do Sol. Diacho de vida! Trapo de pano, tecido ordinário! Infinitos horizontes cabem na palma da mão. Mundo subterrâneo, natureza divina e caprichosa, buraco do inferno. Precipício. Princípio de toda salvação. Montanha do Purgatório.  

- Pula, irmão!

Eles dois pularam. Eles, sempre juntos, dois irmãos.

 

*Querido leitor, estimada leitora, caso tenham ouvido alguma história sobre o buraco do inferno, me conta, que eu reconto.

 

[1] Do original: “Homem não sou”. Tornou-me – mas hei sido, / Pais lombardos eu tive...”. /  Inferno. Canto I, da Divina Comédia, Dante Alighieri.

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