Casa trancada, ribanceira movediça, vento forte. No interior da caverna, luz de lamparina, pavio encharcado de óleo, lampiões descuidados. Para enfiar rastilho no bico do candeeiro, Inácio precisa remover a catarata do olho aceso. Perrengue! Diacho de vida assombrada! Trapo de pano, tecido ordinário!
Infinitos horizontes cabem na palma da mão. Precipício. Montanha do Purgatório.
- Pula, irmão!
Catarino atirou-se do lajedo do céu. Luz adormecida; caminho de pedra. Galerias estreitas, nubladas e úmidas, carregam a elegância, beleza e brandura do minério de ferro. Cova cavada por Odisseu – mundo subterrâneo, natureza divina e caprichosa, buraco do inferno. Recém-nascido, Catarino enfrentou a noitidão das pedras. Bateu asas e avoou distância. Seus olhos cavaram rochedo em nuvens de algodão. Panapaná desabou do Céu. Nas aberturas do Inferno, linhas irregulares romperam travessuras.
Casa taramelada. Barranca movediça. Ventania.
- Pula, irmão!
Inácio, por conta e risco, atirou-se ao abismo. Luz sonolenta, caminho de pedra.
Em casa baixa, de beira e bica, no Arraial da Lage – desnascimento do nascer do Sol. Capim cheiroso, frasqueira de licores, doce do padre, toucinho do céu. Nas orelhas do ventar, a poeira sobe escandalosa, dando risada, caçoando do cochilo da noite. Coruja-buraqueira crocita mau agouro, em beira de mato viçoso. Páreas, carne, banha, sangue, tutano e ossos guardam desarrimo em rochedo. Cérbero, galgo de três cabeças, protege o sítio do clarão do dia.
- Pula, irmão!
Eles dois pularam. Eles, sempre juntos, dois irmãos.
Ali, no buraco do inferno, o que fariam da vida?!
Catarino, deles dois, é o contador de causo.
“Recém-nascidos, Inácio e eu, fomos atirados nesta gruta do Arraial da Lage. Desconhecemos a luz do dia, e o aquecimento e brilho do nascer do Sol. Aqui embaixo, tudo é isolamento, sereno e orvalho, sozinhez e desarrimo. Vivemos no limbo, roídos e desfeitos, à procura de Virgílio. Micurê, Maracajá e Guará impedem nosso acesso à passagem do caminho ao Expiatório. Tudo o que vemos e sentimos do Paraíso é a sombra no lajedo do céu.
Homens não somos. Pais lageanos tivemos[1], em acidente de abandono.
Inácio e eu nascemos sombra e assombração; fomos jogados, aos molambos, no buraco do Inferno, no mesmo dia.
Habitado por criaturas assustadoras, o Inferno é um abismo escuro, mortiço e fedorento. O buraco fora escavado pelo corpo de Lúcifer; arremessado do céu, assim que se rebelou contra Deus. Lúcifer com quatro faces: Judas, Brutus, Decimus e Cassius. Meu irmão e eu, estamos no limbo; pelo amor que nos une, pelo ar imundo, e mais de mil sombras jogadas no fosso. Aqui embaixo, à borda do despenhadeiro da Matriz de Nossa Senhora da Penha, corre um rio caudaloso e fundo. Estamos cercados por sete muralhas, até o topo da montanha do purgatório. Este buraco do inferno também é cortado por rios de fogo, cães bravos, gatos agressivos e pé-de-vento infernal.
Chegamos aqui, na entrada de mil demônios, por conta de um tombo da mamãe. No canteiro de couve, picada por um cascavel, ela perdeu os sentidos; e caiu no poço do quintal de casa. Mas, nós, seus meninos, conhecemos a força e a direção dos rios. Somos granizo em cova de chuva forte. Por cá e por lá, diante da ruína, enfrentamos o tormento do exílio escutando Missa: “Isto é o meu corpo que é dado por vós...” Inácio e eu, aqui do limbo, acompanhamos o povo em homilia na Igreja Matriz. Beatas e belas são as tardes de domingo, em tecelagem de oração à Nossa Senhora da Penha. A mamãe reza por nós toda noite. Inácio e eu, rogamos a Deus por ela, de domingo a domingo.
O amor escuta prosa na boca do brejo”.
Em casa baixa, de beira e bica, no Arraial da Lage – desnascimento do nascer do Sol. Diacho de vida! Trapo de pano, tecido ordinário! Infinitos horizontes cabem na palma da mão. Mundo subterrâneo, natureza divina e caprichosa, buraco do inferno. Precipício. Princípio de toda salvação. Montanha do Purgatório.
- Pula, irmão!
Eles dois pularam. Eles, sempre juntos, dois irmãos.
*Querido leitor, estimada leitora, caso tenham ouvido alguma história sobre o buraco do inferno, me conta, que eu reconto.
[1] Do original: “Homem não sou”. Tornou-me – mas hei sido, / Pais lombardos eu tive...”. / Inferno. Canto I, da Divina Comédia, Dante Alighieri.