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Dialogando com os tempos líquidos

27 de Maio de 2026, por José Mauricio de Carvalho

Uma das dificuldades de boa parte das pessoas é entender as mudanças de nosso tempo e conseguir se posicionar frente a elas. Não é preciso acolher o que está chegando e que vemos parcialmente, mas é preciso saber o que já vemos e como estamos.

Um dos aspectos desse mundo atual é que é uma sociedade de massa, o que não é novidade. O filósofo espanhol José Ortega y Gasset já disse isso, em 1930, no clássico A rebelião das massas. Porém, nosso tempo apresenta massas distintas das que ele viu, e que vivem um hedonismo ansioso. Nem só hedonismo como na antiga Grécia, mas ansioso, o que é uma novidade histórica. E o que diz esse novo hedonismo? O clima é esse: sente a vida vazia? Consuma! Está triste? Consuma! Está frustrado? Consuma! O reflexo consumista é melancólico e identifica o desafio existencial, os medos da alma, a finitude e os reduz a sentir vazio, frio, deprimido. O remédio para tudo é o consumo e o prazer ou a necessidade de encher o íntimo de coisas quentes, ricas e prazerosas. Claro que as indicações de consumo são amplas, não se limitam a alimento (pode ser roupa, passeio, distração em geral, sexo irresponsável, relações efêmeras são ótimas, tudo o que apenas distrai, dá prazer, mas não cria vínculo). O resultado dessa vida é a depressão, o receio, a insegurança, uso de drogas, ou ainda um conservadorismo anacrônico que procura voltar a costumes e antigos padrões existenciais que não respondem mais aos novos desafios que a vida coloca. Um conservadorismo que passa uma sensação de falsa segurança num mundo em que tudo muda e nada está assegurado.

Vemos crescer os amores líquidos, relações afetivas sem consistência, vida sem compromisso e sem sentido onde prevalece a tristeza, infelicidade, nervosismo, insônia, violência, drogadicção, como descreveu o psiquiatra Viktor Frankl. O simples atendimento do desejo não resolve a questão existencial, o desejo quer gozar, apenas isso. Assim cada desejo satisfeito acende outro numa aspiral crescente e acelerada, alimentando a ansiedade e, no fundo, a insatisfação com a vida se a tanto ela se limita.

Em meio a tantas mudanças, há múltiplas tradições que também ajudam a rearticular um conservadorismo que poderia ser assim resumido (BAUMAN e MAURO, Babel, entre a incerteza e a esperança 2016, p. 140): “o sentido próprio de uma tradição implica exatamente essa qualidade institucional inerente: o reconhecimento de que não há nada que as pessoas vivas possam fazer para mudar as instituições herdadas.” Quebrar esse legado não ocorreria sem a emergência de todo tipo de desastre, resultantes da punição divina ou da natureza, mas que não combinam com o mundo das mudanças. Essa percepção difusa alimenta um discurso conservador que quer preservar a liberdade do capital e lucrar sem limite, deixando de lado qualquer preocupação social. É essa a liberdade da moda.

Quanto ao discurso político, os teóricos da ultradireita em moda rotulam como comunista qualquer proposta de sociedade menos desigual e mais fraterna, descomprometidos que estão das preocupações sociais do Estado e com o destino dos mais pobres. O assunto é complexo e envolve outras variáveis. Esses grupos baniram o humanismo do espaço cultural e deram as costas para as questões ambientais, a racionalidade, o pensamento crítico e criticam a própria ciência quando contraria seus interesses. Aqui há um conservadorismo radical e razões ideológicas sérias que alimentam esses movimentos. A ultradireita atual não tem (id., p. 55): “história, tradição, paixão, valores e ideais, que é precisamente o que faz as bandeiras triunfarem.” Porém, nesse novo mundo das redes sociais, parece não haver vento para fazer essas bandeiras tremularem, significando que viramos as costas para os mais caros valores ocidentais desenvolvidos há um milênio. Apesar do momento difícil para ideais humanitários, precisamos defender esses valores que constituem a coluna vertebral do ocidente, sem que isso signifique uma simples volta aos referentes morais de 200 anos atrás, como quer o conservadorismo religioso, pois eram outros os problemas.

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