Algumas considerações sobre Brasil & Noruega

(A propósito da World Cup Fifa 2026)


Artigo

José Antônio de Ávila Sacramento0

Nesta Copa do Mundo de Futebol, a torcida norueguesa reviveu a tradição dos antigos drakkars, navios de madeira movidos a vela e remos que foram fundamentais para a expansão, comércio e exploração dos vikings. Os braços dos remadores dos drakkars moviam em sintonia e desafiavam os mares gelados com disciplina, numa referência aos lendários vikings.

A “remada viking” vista nos estádios é criação recente das arquibancadas que no fundo é cheia de imprecisões históricas e culturais. A coreografia foi criada em 2026 pelo torcedor norueguês Ole Froystad. Historicamente, a prática de remar era muito mais comum entre os vikings suecos. Os vikings da atual Noruega usavam as velas para navegar em mar aberto. Mas, apesar disso, a alegoria foi usada pelos torcedores da seleção norueguesa de futebol que, das arquibancadas, incentivaram os jogadores noruegueses em campo.

Outro mito que se fez presente foi o da torcida norueguesa usando capacetes com chifres, visual que é fruto d'uma invenção artística do século XIX. Os guerreiros nórdicos não usaram este equipamento. A popularização do visual se deu em 1876, quando um figurinista criou elmos com chifres para uma ópera baseada na mitologia nórdica escrita por Richard Wagner. O visual impressionou nos palcos e tornou-se “sinônimo de guerreiros vikings”.

Polêmicas culturais e históricas à parte, o fato é que nós perdemos no futebol para os “remadores” e “chifrudos” nórdicos. Mas o nosso desafio maior não deveria ser apenas ganhar uma partida de futebol da Seleção da Noruega. O grande desafio do Brasil deveria ser o de construir um país mais justo. O Brasil “é um país grande e bobo”, como costumava dizer o saudoso amigo Eduardo Almeida Reis. Estamos perdendo muitos outros jogos: o da escola, do hospital, da segurança, das empresas, da agricultura, da cultura, da ciência... Estamos ganhando os campeonatos da corrupção, do aumento de impostos e o da criminalidade, infelizmente.

A construção d'uma nação deve manter foco na celebração das vitórias que realmente transformam para melhor a vida de um povo. As diferenças entre o Brasil e a Noruega não são poucas e transcendem o esporte. Não perdemos para a Noruega apenas dentro de campo. Estamos perdendo em todos os quesitos. Vou citar e comentar apenas uma das disparidades: enquanto um norueguês nasce com patrimônio equivalente a mais de US$ 400 mil, cada brasileiro já nasce devendo, em média, cerca de R$ 49 mil da dívida pública... É uma disparidade que reflete diretamente as escolhas de gestão macroeconômica e alocação de recursos feitas pelos dois países.

Então, não é tão importante vencer a Noruega só no futebol. O mais importante seria conseguir pelo menos chegar perto ou empatar com os noruegueses nos Índices de Desenvolvimento Humano e no PIB per capita que já ultrapassa os $100 mil dólares. Os noruegueses souberam transformar suas riquezas num formidável fundo soberano garantidor do ensino, da saúde de ponta, da segurança e de altíssimos indicadores de bem-estar social para toda a população!

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