Segundo informações de que dispomos, foi o Padre Joaquim Carlos de Resende Alvim (1797-1879), primeiro pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Penha de França e neto do capitão José de Resende Costa, quem tratou de promover, junto à Irmandade do Santíssimo Sacramento, a Festa dos Passos de Nosso Senhor, em um primeiro momento no segundo domingo da Quaresma.
De acordo com o livro de inventário e despesa da Matriz e Irmandade do Santíssimo Sacramento houve “Despesa feita com a procissão do Sr. dos Passos conforme determinaram a Irm. do Santíssimo Sacramento e na conformidade de seu compromisso geral se celebrou nesta freguesia da Lage no dia 12/03/1843”. Nesse ano ocorreram pagamentos relativos à música, sermões, cera, arrumação da igreja e incenso, somando a quantia de 172.380 réis.
Desde aquela época, já se percorriam os “passinhos” que existem até hoje. Registros fotográficos indicam a existência de um sexto passinho ao lado esquerdo da igreja Matriz, que teria ficado inutilizado após a conclusão da construção da igreja do Rosário em 1857, quando se ergueu o passo do Largo do Rosário.
Com o tempo, a data foi modificada e a Comemoração dos Passos uniu-se à Semana Santa, ocupando a Segunda, Terça e Quarta-feira santas. Embora a tradição oral atribua a doação da imagem do Senhor dos Passos ao Conselheiro José de Resende Costa, não há documentação conhecida sobre isso nos inventários da paróquia. A Matriz de Resende Costa conserva, ainda, um precioso relicário contendo um fragmento da cruz de Cristo (o Santo Lenho). Segundo transcrição do Padre Joaquim Carlos de Resende Alvim, a relíquia foi doada em dezembro de 1848 pelo Arcebispo de Mariana, Dom Antônio Ferreira Viçoso — hoje em processo de beatificação —, em cerimônia ocorrida em Lagoa Dourada. O Santo Lenho é utilizado até hoje nas procissões do Senhor Bom Jesus dos Passos (exceto na rasoura).
Dentre as irmandades de Resende Costa, duas merecem destaque por sua atuação na Semana Santa: a Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento e a Venerável Confraria de Nossa Senhora do Rosário.
A Irmandade do Santíssimo realiza, historicamente, a sua “festa magna” durante a Semana Santa, sendo a responsável direta pelas celebrações e procissões que ocorrem na Igreja Matriz durante o Tríduo Pascal. Já a Confraria de Nossa Senhora do Rosário é responsável por grande parte da “Comemorações de Passos”, que acontecem de Segunda a Quarta-feira santa, com as rasouras, missas e procissões realizadas na igreja do Rosário.
Merecem ainda destaque as procissões de Depósito, tanto de Nosso Senhor dos Passos quanto de Nossa Senhora das Dores. No meio do trajeto, os irmãos do Rosário encontram-se com o andor velado e tomam posse das venerandas imagens, cobrindo-as com o pálio roxo. Este rito tão significativo é único em nossa região, sendo conservado apenas nas cidades de Resende Costa, Prados e Tiradentes.
O ano de 2026 é especialmente emblemático para ambas as associações: a Confraria de Nossa Senhora do Rosário completa 140 anos de fundação, enquanto que a Irmandade do Santíssimo Sacramento atinge a marca de 185 anos. A Irmandade do Rosário foi instalada na capela homônima em 1886, com a participação de figuras de destaque do então Arraial da Lage. Foi recuperada anos mais tarde pelo Cônego Antônio Cardoso Damasceno e elevada ao status de Confraria em 28 de maio de 1932 por Dom Helvécio Gomes de Oliveira, Arcebispo de Mariana.
Já a Irmandade do Santíssimo Sacramento foi fundada pouco depois da paróquia recém-criada, em 1840, tendo seus compromissos aprovados em 4 de outubro de 1841 pelo Cônego Miguel Noronha Peres, uma vez que a então Diocese de Mariana se encontrava em sede vacante devido ao falecimento de Dom Frei José da Santíssima Trindade, ocorrido em 1835.
A música na Semana Santa
Desde o início das celebrações da Festa de Passos e da Semana Santa no então Arraial da Lage, a música sempre esteve presente com papel importante durante os ritos. Entre as décadas de 1840 a 1870, a música era realizada por diversos grupos musicais vindos de São João del-Rei e São José del Rei, hoje Tiradentes, pagos pela Irmandade do Santíssimo Sacramento. Somente na década de 1870, com a criação do primeiro grupo musical local pelo professor Pedro Alves de Andrade Neto, possivelmente começaram a ser realizados os contratos de música com o grupo “Lageano”, hoje Coral e Orquestra Mater Dei.
Certamente, dentro de todo o repertório executado na Semana Santa, o que mais atrai e marca a memória da população de Resende Costa atualmente são os Motetos de Passos, executados pelo Coral e Orquestra Mater Dei nos Passinhos durante as procissões dos Passos, e as Marchas Fúnebres executadas pela Banda Santa Cecília nas procissões da Semana Santa. O que muitos não sabem é que nem sempre foram essas as músicas executadas. De acordo com as partituras encontradas nos arquivos de dois grandes maestros que passaram pelos grupos musicais, Christóvam Gonçalves Pinto e Joaquim Pinto Lara, houve uma mudança radical no repertório executado, que pode ser explicado. Por volta de 1918, o maestro Christóvam mudou-se para a cidade de Carandaí, levando todo o seu acervo de partituras que era utilizado em Resende Costa. O novo maestro, Joaquim Pinto Lara, teve a grande missão de copiar todo o novo repertório para que a música permanecesse na cidade.
Entre o final das décadas de 1890 e 1910, eram executados os Motetos de Passos a 8 vozes, do compositor Manoel Dias de Oliveira, copiados por Christóvam e outros músicos atuantes na época. As marchas fúnebres, em grande número, também diferem das atuais, pelo que consta nos antigos cadernos utilizados pela banda na época. Já na década de 1920, Joaquim Pinto recebeu das mãos do compositor Antônio de Pádua Alves Falcão seu conjunto de 4 Motetos de Passos, que passaram a ser executados. Desse período também existem registros de execução dos Motetos de Passos do compositor são-joanense Carlos dos Passos Andrade, porém estes não foram executados por muito tempo.
Somente os motetos de Antônio de Pádua permaneceram nas estantes dos músicos, sendo executados até hoje. Após assumir a regência do Coral e Orquestra em 2013, o maestro Wagner Barbosa acrescentou o 5° moteto de Antônio de Pádua e, em 2024, compôs outros dois motetos para que assim pudesse completar o conjunto, sendo hoje executados 7 motetos, um para cada Passinho e dois para as igrejas.
*Regente do Coral e Orquestra Mater Dei.
**Estudante de História na UFSJ, provedor da Confraria de Nossa Senhora do Rosário de Resende Costa.
A relíquia do Santo Lenho (fragmento da cruz de Cristo), presente na paróquia desde 1848 (foto Pascom)

