Não é à toa que São João del-Rei é conhecida como a cidade onde os sinos falam (ou conversam!). Este é um valor antigo, que foi notado (e anotado), no século XIX, pelo escritor e explorador inglês Richard Burton, que fez o primeiro registro da importância e da diferenciação do toque dos sinos na cidade.
Um salto no tempo e, em dezembro de 2018, foi inaugurado em São João del-Rei o Museu dos Sinos, “o único na América Latina que se dedica ao tema da linguagem dos sinos e da campanologia (estudo científico e artístico dos sinos), particularmente em relação ao Brasil colonial”, conta André Guilherme Dornelles Dangelo, professor da Escola de Arquitetura da UFMG. O museu está situado no corredor direito da antiga tribuna da igreja do Carmo, que pode ser acessado pela escada da torre (cerca de 20 degraus).
A ideia de uma coleção de sinos surgiu de uma série de laudos que Dangelo teve de fazer devido à trinca precoce em sinos adquiridos pelas igrejas de São Francisco (2005) e do Carmo (2007), por ocasião das comemorações dos 300 anos do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar. Nesta consultoria técnica ao Instituto Histórico e Geográfico, ele teve a oportunidade de conhecer diversos “Museus de Sinos” na Europa, daí a reflexão: “porque não fazer um museu desses em São João del-Rei, com todo o significado cultural que existia em relação aos sinos na cidade e valorização da sua linguagem?”.
Antes de pensar no espaço físico, Dangelo decidiu por um “livro acadêmico” que organizasse o material coletado desde 1985 por ele e pelo geólogo e colega de infância e juventude Fernando Gallo Frigo, fruto de “frequência nas torres em São João del-Rei para tocar sinos”. Além desse primeiro inventário, também considerou “os sinos dentro do universo da fé católica que presidiu a formação do Brasil colonial e imperial” e que “ainda seria possível valorizar o código dos sinos estruturado em São João del-Rei como a memória dos grandes sineiros da cidade, que eu havia cadastrado conversando com os sineiros antigos do meu tempo de torre”. Assim surgiu o livro Sentinelas Sonoras, publicado em 2013, que serviu de roteiro para o Museu.
Acervo
Em uma viagem em 2012 à cidade italiana de Agnone, Dangelo conheceu o Museu dos Sinos da Funderia Marinelli (a mais antiga da Europa), e percebeu que era fundamental ter um acervo. Como sinos custam caro, conseguiu comprar, lenta e diretamente, de fundidores e profissionais da área, o acervo mínimo de que precisava. “Logicamente, a preferência era para sinos entre 50kg e 100kg. Mais do que isso, eu não poderia pagar, pois era um investimento privado meu, pago em parcelas mensais.”
O acervo do museu é composto de quase 30 sinos, segundo Dangelo. “A ideia é que esse acervo priorizasse os principais fundidores de sinos do Brasil, desde o início do século XIX. A partir de um longo trabalho que durou 10 anos, garimpei esse acervo em parceria com os fundidores de sino, e também em alguns leilões, e acabei adquirindo uma pequena coleção.” Dois sinos maiores pertenciam à ordem terceira do Carmo: “são as peças mais antigas, que se uniram ao acervo para poder construir essa linha de tempo de narrativa que hoje em dia consegue delinear bem a história da fundição de sinos do Brasil, desde 1820, mais ou menos, até 1950”.
Fora do espaço do Museu, segundo Dangelo, existe também outro acervo de sinos importante e em uso diário. São os sinos pertencentes às torres das igrejas de São João del Rei, que estão devidamente Inventariados e expostos no Museu em uma " Linha do Tempo".
Desse acervo vivo, os sinos mais antigos estão ligados ao século XVIII, mas, no decorrer dos séculos, muitos foram substituídos, observa Dangelo. “Como eles nunca pararam de ter uso, houve necessidade de substituí-los quando rachavam, mas isso sempre foi feito com muita qualidade, com a preocupação de manter um som muito parecido.” A preservação do toque de sinos em São João del-Rei é muito diversa das outras cidades coloniais e imperiais. “Essa tradição, ao longo dos séculos, é muito identificada com a cultura da cidade; ela sempre foi algo muito importante, junto com a música e as tradições do catolicismo tridentino (Concílio de Trento, 1545-1563).”
No acervo atual, há sinos de 1780 até 2010 (substituições mais recentes), revela. “Há sinos de várias proporções, até porque, geralmente, o trio padrão de uma igreja, seguindo as tradições portuguesas, é de ter um sino pequeno ou agudo, que aparece em documentos nos livros das Irmandades com o nome de ´garrida´, um sino médio e um sino grande. Algumas igrejas têm dois sinos grandes nas duas torres, dependendo da proporção da igreja e, quando são capelas menores, só têm dois sinos ou até um sino, geralmente menores.”
Fundições
Os sinos do acervo estão vinculados às principais fundições artesanais e industriais, segundo Dangelo. No século XIX, a Fundição Imperial do Rio de Janeiro e a Fundição Sanjoanense da Rua da Prata, dirigida pelo Alferes Francisco Bernardes de Souza; o grupo de fundidores de Mariana, que se acredita chamar José Antônio da Silva, e a família Onofre, originária de Campanha, que fundiu sinos nas cidades de Minas entre 1860 e 1909.
No século XX, há as fundições paulistas, como Arens e Cia (Jundiaí) e Liverwood e Grag e Martins (Campinas), e sinos replicados na antiga M.R.V. em Divinópolis; e ainda alguns sinos das fundições Angeli, Crespi e Belini. “Então, entre o museu e as torres, nós temos sinos que representam quase todos os grandes fundidores dos últimos 200 anos de sino no Brasil.”
O sino mais antigo de São João del-Rei em atividade encontra-se na torre da matriz catedral basílica do Pilar e pertence à Irmandade do Santíssimo Sacramento. Segundo Dangelo, os estudos históricos apontam para uma peça feita entre 1775 e 1780 por um fundidor da cidade de Mariana. “Pela análise tipológica de gravações e estudos comparativos, se conhecem alguns outros sinos desse fundidor.” Particularmente, em Ouro Preto, ele fundiu o maior sino do século XVIII para a Ordem Terceira do Carmo: o Sino Elias, com data de 1778. “No nosso sino, não há data, mas acreditamos que ele seja contemporâneo desse período. É um sino de 1,2m de diâmetro de boca e deve pesar (só o sino) perto de 700kg.”
Em São João del-Rei, não há informações sobre fabricantes de sinos do século XVIII. “Provavelmente, eram sinos muito pequenos para capelas fundidos em Ouro Preto que era a capital da província”, suspeita Dangelo. No século XIX, aparece o primeiro grande fundidor de sinos, Alferes Francisco Bernardes de Souza, que funcionava na Rua da Prata, atual Rua Padre José Maria Xavier. “Ele fundiu sinos praticamente para todas as igrejas da cidade, e há ainda alguns sinos dele em uso. A peça mais importante dele é um sino de quase 700kg da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, da matriz do Pilar, que é considerada, do ponto de vista sonoro, a melhor fundição dele.” Mas o maior sino dele, que não existe mais, foi fundido para a igreja de São Francisco e pesava na época 930kg e 1,20m de boca. Ele rachou em 1915 e foi refundido em 1916 na Fundição Angeli, de São Paulo. O novo sino, muito parecido com os atuais, pesa 1.300kg e tem 1,32m de boca.
No século XX, houve outro fundidor em São João del-Rei, ligado aos colégios salesianos. “Ele chamava Zico e, por sinal, era o pai do técnico Telê Santana”, conta Dangelo. “Era uma fundição meio artesanal, embora empregasse já métodos de tecnologia mais sofisticados. Hoje, temos em São João o fundidor Edvaldo Silva, que fabrica sinos de menor porte, mais para pequenas capelas, e que num certo sentido dá prosseguimento a esta tradição antiga da cidade.”
Linguagem
A linguagem dos sinos é um elemento da cultura brasileira, inclusive reconhecida e registrada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como bem cultural imaterial. “Particularmente em São João del-Rei, ele é um elemento marcante na paisagem sonora e profundamente ligado a uma tradição religiosa do século XVIII, vinculado também à liturgia da contrarreforma que faz parte da matriz da fundação da religião católica no Brasil, da qual particularmente em Minas as irmandades, as confrarias e as ordens terceiras tiveram um papel fundamental”, observa Dangelo. Esta tradição na vida de São João del-Rei, diferente de outras cidades, é marcada pelo peso do papel do toque de sinos e da sua identidade cultural com a cidade.
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Museu dos Sinos em São João del-Rei

