Debaixo de espessa vegetação esconde-se o que pode ser as ruínas da histórica Fazenda da Galga


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André Eustáquio0

Região da Micaela onde se encontram as ruínas que podem ser da Fazenda da Galga. Foto André Eustáquio

Paredes de pedra escondidas sob extensa e fechada vegetação, nos pés da Serra da Galga, pode ser o que sobrou da Fazenda da Galga, propriedade de Micaela Maria Gonçalves de Araújo. O terreno onde estão localizadas as ruínas pertence hoje a Claret Rodrigues da Cunha, proprietário da Fazenda Santo Antônio do Rochedo, na Micaela, zona rural de Resende Costa. “A Fazenda da Galga está situada na Serra da Galga, que é um divisor das águas das bacias do Rio Grande e do Rio São Francisco. A sede da fazenda fica na bacia do Rio Grande e o número de cursos de água é, inclusive, muito maior do que na do São Francisco. Os córregos da Taquara, Tarimba e Rio do Peixe nascem e correm nas antigas terras da fazenda”, explica Claret.

Quando Claret adquiriu a Fazenda do Rochedo, ouviu de pessoas da região sobre a existência das ruínas no meio da mata, próximo à sede da fazenda. “As ruínas são de conhecimento dos moradores da região e ao adquirir a propriedade do Cel. Jair Resende constatei a dimensão e o significado deste patrimônio histórico”, diz Claret. As largas paredes de pedra permitem caminhar sobre o que restou dos alicerces do moinho e de onde possivelmente era a senzala.

A área onde se encontram as ruínas tem aproximadamente cinco hectares e ainda abriga uma bela cachoeira. A existência desta cachoeira estava colocando em risco as ruínas, o que levou Claret a tomar algumas providências, inclusive fechar o acesso ao local com cadeado na porteira: “Os frequentadores da cachoeira colocavam em risco este legado por não entenderem a importância do mesmo”. Outros fatores também vinham colocando em risco os alicerces de pedra. Antes de Claret adquirir o terreno, era comum pessoas da região retirarem pedras dos alicerces para fazerem alguma edificação. O atual proprietário, ao suspeitar de que as ruínas pudessem ser da histórica Fazenda da Galga, coibiu a retirada das pedras e ainda restringiu o acesso ao local.

 

Senhora de escravos

A região da zona rural de Resende Costa conhecida como Micaela recebeu esse nome em homenagem à fazendeira Micaela Maria Gonçalves de Araújo, antiga proprietária da Fazenda da Galga. Não se sabe, porém, a data de nascimento de dona Micaela, apenas que era natural da Vila de São José del Rey (atual Tiradentes), filha de Manoel Gonçalves de Araújo e Theresa de Jesus e Góis. Micaela foi casada com Manoel de Araújo Sampaio. O casal não teve filhos e, com isso, não teve herdeiro direto. Micaela faleceu no dia 1º de julho de 1841, dois meses depois de ditar seu testamento, em 30 de abril de 1841, na Fazenda da Galga.

Micaela Araújo escolheu como inventariante, testamenteiro e herdeiro único o seu primo José Rufino de Araújo. No inventário, que está arquivado no escritório regional do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em São João del-Rei, há informações que podem levar à conclusão de que Micaela vendeu partes da propriedade após o falecimento de seu marido. “Declaro que as terras e ranchos do Corgo (sic) Fundo se acham vendidas ao meu compadre José Rufino de Araújo, metade do Capão Grande ao padre Dâmaso de Almeida e o total da fazenda ao capitão Antônio Pinto de Lara”.

O fato de não ter tido filhos, portanto, herdeiro direto, levou Micaela a tomar uma decisão. diga-se, no mínimo especial para uma senhora de escravos da primeira metade do século XIX. Ela deixou 50 hectares de terra para seus escravos, garantindo-lhes, inclusive, a alforria após eles servirem por determinado tempo ao seu herdeiro único, José Rufino de Araújo. A historiadora Maria Lúcia Resende Chaves Teixeira, em seu livro “Família Escrava e Riqueza na Comarca do Rio das Mortes – o Distrito da Lage e o Quarteirão do Mosquito”, utilizando como fonte o inventário de 1841, aborda a decisão de Micaela de alforriar seus escravos. “... situações especiais apresentaram ocorrência de alforria como o caso de Micaela Maria Gonçalves de Araújo. Essa senhora, viúva, não teve filhos, portanto não houve ‘herdeiro necessário’. É provável que isso justifique sua incomum atitude de dar liberdade a todos os seus escravos e demarcar uma faixa de terra para eles, embora registrasse a restrição de venda das terras pelos cativos. Em 1843, o inventário de Micaela apresentou testamento que libertou todos os seus escravos depois de servirem por determinado tempo ao seu herdeiro, quando então, ele lhes daria carta de liberdade. Por esse motivo a descrição dos bens avaliou os escravos pelo tempo em que eles deveriam prestar serviços. Passados dois anos um escravo requereu sua liberdade, através do depósito de seu valor, com dinheiro conseguido a ‘prêmio’, o que abriu uma batalha judicial. Ao final da disputa, o escravo acabou saindo com sua liberdade”.

Apesar de ter deixado em seu testamento uma extensão de terras aos seus cativos, no inventário há uma declaração de Micaela que alimenta a dúvida sobre se esta decisão foi realmente uma convicção particular da inventariada, ou se ela foi persuadida por alguém. “Declaro que fui iludida a passar um papel de duação (sic) da Fazenda da Galga a 4 escravos: Sebastião cabra, Silvério crioulo, Fidência crioula e Ana crioula”. De acordo com Maria Lúcia, “a região (da Lage) não se mostrou como uma grande promotora de alforrias”. De qualquer forma, iniciativas de alforriar os escravos e, mais ainda, deixar terra a eles, como a de Micaela M. Gonçalves de Araújo foram raras na região.

No testamento de Micaela Araújo há a relação completa de seus escravos, devidamente avaliados. A idade média dos cativos da Fazenda da Galga, segundo o testamento, era entre 18 e 50 anos, embora conste na relação crianças com idade abaixo dos 12 anos, e duas que ainda não tinham sido batizadas até a data do testamento. Micaela possuía 35 escravos. “Essa quantidade não era comum nesta região; geralmente os proprietários possuíam menos de 10 escravos. Pode-se, portanto, concluir que se tratava de uma pessoa rica”, diz o historiador Eduardo Lara Coelho.

Tanto no testamento quanto no inventário de Micaela Araújo não consta nenhuma informação sobre a localização exata da Fazenda da Galga. Diante disso, ainda não se pode afirmar que os restos dos muros de pedra localizados na propriedade de Claret Cunha são de fato ruínas da histórica Fazenda da Galga. Porém, evidências claras, como o testemunho de moradores dos arredores e a localização levam a crer que se trata do que sobrou da propriedade de Micaela Araújo. Um estudo detalhado pode confirmar essas evidências.

A única parte de terra, nos bens de raízes, avaliada no testamento de Micaela Araújo é “uma parte de terra com comum de cultura e campo, com sítio distruído (sic), na Varginha, Distrito de São Tiago”. O terreno foi avaliado em três contos de réis.

 

Preservação

Mesmo ainda não tendo certeza de que se trata das ruínas da histórica fazenda, Claret faz questão de preservar a área e conta com a colaboração gratuita da natureza. “A cobertura vegetal é determinante para a preservação das ruínas e sua visitação deve ser controlada e registrada”.

 

A localidade

A Serra da Galga separa o Distrito de Jacarandira do restante do município. As águas que correm por lá se destinam ao Rio Pará, compondo o Córrego Jacarandá, posicionado no alto da Bacia Hidrográfica do Rio Pará.

Com relação à vegetação, a região caracteriza-se pela presença de espécies tanto da floresta tropical, como de cerrado, pastagens artificiais, manchas arbóreas nos topos de elevações e ciliares. A Serra da Galga possui altitude em torno de 1.200 a 1.300 metros, e é o principal ponto de relevo da região, cuja importância se dá pelo fato de ser divisor de águas. A serra impõe à região de Jacarandira e Micaela um cenário de rara beleza e singularidade por sua flora e fauna.

A região conhecida como Micaela fica a 20 quilômetros de Resende Costa e 16 de São Tiago, praticamente na divisa entre os dois municípios. Da estrada que liga Resende Costa a São Tiago até o Centro Comunitário da Micaela são apenas seis quilômetros. “O Centro Comunitário surgiu com a Escola Municipal José Ilário. A capela de Santo Antônio (padroeiro da Micaela) foi construída pelo filho e José Ilário, Geraldo Resende Maia, e ampliada com salão de festas e salão de baile, inaugurados nos últimos anos. Em 2015, consolidou-se com a inauguração da praça Padre Raimundo Inácio”, relata Claret.

A comunidade da Micaela, segundo Claret, é constituída de proprietários rurais que exploram a agropecuária. As famílias vivem na região há pelo menos três gerações. “Existem várias casas espalhadas pela vizinhança, e apesar das pessoas nascidas ali terem que ter procurado instrução ou trabalho fora, sempre comparecem na festa do padroeiro Santo Antônio, quando chegamos a receber 500 pessoas”, conclui Claret Cunha, morador da Micaela e presidente do Conselho Comunitário do Distrito de Jacarandira.

 

Atualmente, as principais e mais tradicionais fazendas da localidade são a Fazenda da Taquara, hoje dividida entre os herdeiros do proprietário original e a Fazenda do Rochedo, atual Fazenda Santo Antônio do Rochedo, propriedade de Claret Rodrigues da Cunha.

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