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A bela

11 de Junho de 2013, por José Antônio

Quanto luar desperdiçado! Quantas estrelas sem receber nomes! Quantas noites sem abraços!

Assim ela vivia. Só. Feia não era, pelo menos nunca a chamaram disso. Cabelo sempre arrumado, lábios torneados, olhos suaves, dentes alvos e certinhos... Não, não era feia. Mas por que era só? Por que não tinha namorado? Por que não compartilhava com ninguém uma sessão de cinema, um CD novo, uma tarde na pracinha?...

E as meninas que conhecia? Todas com namorado a tiracolo. Além disso – felizardas! – eram cantadas pelas ruas, recebiam assovios, bilhetinhos, telefonemas, e elas nem aí. Passavam orgulhosas pelos rapazes embasbacados. Ela não. Ninguém assoviava pra ela. Cantada, nem pensar. Telefonemas de estranhos, só do telemarketing. Jamais vira garotos passarem por ela e olharem para trás. E ela com certeza tinha o que mostrar.

Queria namorar. Passear de mãos dadas e corações abraçados... trocar presentes no dia 12 de junho (que dia triste, gente!)... sonhava com um beijo suave e prateado pelo luar cheio... Quanto luar desperdiçado, meu Deus! Quantas vezes vendo a lua cheia e o coração vazio! Quantas estrelas sem receber nomes, meu Deus! Cada estrela receberia o nome de cada beijo que ela daria e receberia. Mas não. Solidão terrível... ela apenas vagueava o olhar por entre as estrelas, e não havia ninguém por detrás delas. Quantas noites sem abraços, meu Deus! Na escuridão do quarto, um abraço apertado contra seu próprio corpo arfante e torturado por uma espera cruel.

Pensava nas meninas que conhecia. Também tinha vontade de ser cantada e passar toda, toda... humilhando o cantador, na sua superioridade de mulher.

Bela!

Foi aí que ela jurou jamais desprezar uma cantada. Que loucura essas meninas estavam fazendo! Davam um pontapé na sorte! Pois ela estava decidida: se a vida lhe oferecesse a oportunidade de um galanteio, quem sabe... a gente se surpreende tanto... quem canta é porque se encanta... e aí... talvez... quem sabe... um flerte, uma conversa, uma ficada, um namoro... um namorado! Tudo o que sonhava. E dependia dela.

Dormiu com o coração aos saltos. Era uma nova mulher. Adeus, luar solitário! Goodbye, estrelas tristonhas! Au revoir, noites sem aurora!

Na manhã seguinte, ela soltou o cabelo. Pôs o batom para dar um realce nos lábios, deixou o pescoço à mostra e usou uma blusinha curta, que permitia um pouco da visão de sua barriguinha bonita. A calça justa e a sandália davam-lhe uma silhueta magnífica. Achava-se maravilhosa frente ao espelho.

Saiu de casa toda vaporosa, exalando um perfume de garota primavera. Não andou nem dez metros, um par de olhos masculinos a flagrou. O rapaz estava na porta de um barzinho, todo cortês e entusiasmado com o desfile da musa na calçada. Ela notou que ele a olhava e bamboleou o rebolado. Ele não tirava os olhos dela, mas ela não olhava para ele.

O rapaz abriu um sorriso e o verbo... e ela ouviu uma cantada!!!

Ela deu um sorriso superior, passou as mãos pelos cabelos e... nem olhou para os lados. Passou toda, toda... humilhando o cantador, na sua superioridade de mulher.

Bela!

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