Quanto luar desperdiçado! Quantas estrelas sem receber nomes! Quantas noites sem abraços!
Assim ela vivia. Só. Feia não era, pelo menos nunca a chamaram disso. Cabelo sempre arrumado, lábios torneados, olhos suaves, dentes alvos e certinhos... Não, não era feia. Mas por que era só? Por que não tinha namorado? Por que não compartilhava com ninguém uma sessão de cinema, um CD novo, uma tarde na pracinha?...
E as meninas que conhecia? Todas com namorado a tiracolo. Além disso – felizardas! – eram cantadas pelas ruas, recebiam assovios, bilhetinhos, telefonemas, e elas nem aí. Passavam orgulhosas pelos rapazes embasbacados. Ela não. Ninguém assoviava pra ela. Cantada, nem pensar. Telefonemas de estranhos, só do telemarketing. Jamais vira garotos passarem por ela e olharem para trás. E ela com certeza tinha o que mostrar.
Queria namorar. Passear de mãos dadas e corações abraçados... trocar presentes no dia 12 de junho (que dia triste, gente!)... sonhava com um beijo suave e prateado pelo luar cheio... Quanto luar desperdiçado, meu Deus! Quantas vezes vendo a lua cheia e o coração vazio! Quantas estrelas sem receber nomes, meu Deus! Cada estrela receberia o nome de cada beijo que ela daria e receberia. Mas não. Solidão terrível... ela apenas vagueava o olhar por entre as estrelas, e não havia ninguém por detrás delas. Quantas noites sem abraços, meu Deus! Na escuridão do quarto, um abraço apertado contra seu próprio corpo arfante e torturado por uma espera cruel.
Pensava nas meninas que conhecia. Também tinha vontade de ser cantada e passar toda, toda... humilhando o cantador, na sua superioridade de mulher.
Bela!
Foi aí que ela jurou jamais desprezar uma cantada. Que loucura essas meninas estavam fazendo! Davam um pontapé na sorte! Pois ela estava decidida: se a vida lhe oferecesse a oportunidade de um galanteio, quem sabe... a gente se surpreende tanto... quem canta é porque se encanta... e aí... talvez... quem sabe... um flerte, uma conversa, uma ficada, um namoro... um namorado! Tudo o que sonhava. E dependia dela.
Dormiu com o coração aos saltos. Era uma nova mulher. Adeus, luar solitário! Goodbye, estrelas tristonhas! Au revoir, noites sem aurora!
Na manhã seguinte, ela soltou o cabelo. Pôs o batom para dar um realce nos lábios, deixou o pescoço à mostra e usou uma blusinha curta, que permitia um pouco da visão de sua barriguinha bonita. A calça justa e a sandália davam-lhe uma silhueta magnífica. Achava-se maravilhosa frente ao espelho.
Saiu de casa toda vaporosa, exalando um perfume de garota primavera. Não andou nem dez metros, um par de olhos masculinos a flagrou. O rapaz estava na porta de um barzinho, todo cortês e entusiasmado com o desfile da musa na calçada. Ela notou que ele a olhava e bamboleou o rebolado. Ele não tirava os olhos dela, mas ela não olhava para ele.
O rapaz abriu um sorriso e o verbo... e ela ouviu uma cantada!!!
Ela deu um sorriso superior, passou as mãos pelos cabelos e... nem olhou para os lados. Passou toda, toda... humilhando o cantador, na sua superioridade de mulher.
Bela!