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A garota lilás

05 de Julho de 2008, por José Antônio

Passei três carnavais em Resende Costa. No primeiro, fui Arlequim e provei os confetes de um coração em folia. Minha Colombina? Enrolou-se em mim como serpentina doida. No segundo carnaval, fui Pierrô. Meu samba cantou plangente e meu bloco desfilou num beco escuro e sem arquibancada. O primeiro carnaval, confetes e serpentinas como passistas nas estrelas; o segundo carnaval, mestre-sala transformado em purpurina soprada friamente por uma porta-bandeira sem coração. Minha Colombina? Onde está a minha Colombina?

Deixemos esses dois carnavais para aquelas madrugadas que dão vontade de chorar. Quero ver na passarela apenas o terceiro. Era 1987 e uma escola de samba do Rio homenageava Roberto Carlos: Olha, você sabe muito bem / certos detalhes de uma vida agitada...

O samba invadia a noite quando eu passei em frente a uma casa e vi, pela janela aberta de um quarto, uma garota se maquiando frente a um espelho. Acariciava seu rosto suavemente e, alheia à algazarra lá de fora, olhava-se compenetrada e silenciosa. Negros os seus cabelos, morena a pele, carnudos os lábios, lilás a blusa. E a menina, fazendo-se rainha da eternização momentânea do espelho, ensaiava bocas e poses, já adivinhando os corações sedentos e os olhos comilões ao vê-la passar.

Em torno de mim, a multidão pulava e gritava, entoava refrões e brincadeiras. Eu, no olho do furacão apenas punha a garota linda no furacão do meu olho. E rodopiava com ela numa ventania vertiginosa, levando-a aos recantos da minha fantasia sem máscara.

A festa continuou pelo resto da noite, fez raiar a manhã e caiu desfalecida perto do meio-dia. Procurei pela menina, mas ela jamais desfilaria naquela passarela silenciosa, atapetada de latas amassadas, garrafas pelas sarjetas e bêbados dormindo na calçada.

Mas tudo recomeçaria de noite. Era só o sol ir se deitar que a folia iria se levantar. Dito e feito. A luz do astro-rei se apagou, porém as luminárias das praças e avenidas de cada coração se acenderam. E como se acenderam. Corri para a frente da janela, feito menino quando vê pela primeira vez uma mulher nua. Esperei a janela se abrir para assistir no palco o espetáculo do camarote. A janela, cruel, não se abriu. Voltei sem sal para a turba, feito menino quando perde o balão.

Quarta-Feira de Cinzas. No céu, o cinzento das nuvens. Na minha lembrança, a imagem da garota que um dia descobriu o espelho, mas não viu os meus olhos. Olha, você sabe muito bem / certos detalhes de uma vida agitada... Lembrei-me do Roberto Carlos e concordei que certos detalhes pequenos são coisas muito grandes pra esquecer. Olhei de novo o céu e um arco-íris se formava em direção às lajes da Matriz.

Sim, naquele matiz de cores ilusórias, havia também uma ilusão que logo estaria transformada em gotas que desfalecem no ar: a minha garota lilás.

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