Há momentos em que procuro a crônica e ela aparece. Vem dócil e pressurosa, ágil e promissora de coisas em que nem cheguei a pensar. Porém, há momentos diferentes: caço a crônica. Eu me armo de caneta e papel, revisto-me da técnica e convoco inspirações... mas nada de crônica. Talvez ela se assuste com todo o meu aparato. Ela gosta da simplicidade espontânea dos momentos sutis.
Ontem à noite, eu entrei no restaurante de costume e me instalei na minha mesa de costume. Fiz força para a crônica aparecer: armei-me, revesti-me, convoquei... mas nada de crônica.
Havia apenas eu e mais um grupo de mulheres, um pouco à minha frente. Falavam muito e as gargalhadas eram constantes. Um jantar de confraternização.
Tentava me concentrar na ausência do meu texto, mas meu olhar e meu ouvido deslizavam para os movimentos e as vozes das donzelas alegres e barulhentas. A bem da verdade, o que elas falavam tinham algo de criativo e jovial, típico da alma feminina quando se esquece das amarras do dia a dia.
No meio da conversa, uma delas propôs:
– Vamos começar?
De repente, ao comando desta, todas puxaram bolsas e pacotes coloridos. Era um jantar de amigo oculto.
– Eu começo!
O silêncio se fez e uma plateia improvisada se colocou atenta ao redor da mesa.
– A minha amiga oculta é uma pessoa especial. É nova na turma, ainda está em evolução...
As gargalhadas pipocaram. O presente foi entregue seguido de abraço, beijo e foto. A que ganhou o presente abriu e encantou-se com o que viu no embrulho. Não consegui descobrir o que era.
– Agora, eu. Bem, a minha amiga oculta um dia me chamou para morar em cima da casa dela. Vê se eu tenho cara de rato de sótão!
Mais gargalhadas. Mais um presente entregue, mas beijos, abraços e fotos.
– Bom, a minha amiga oculta é uma pessoa muito legal...
(Já reparou que todo amigo oculto é legal, especial, bonito e trabalhador? Uma pessoa assim não pode ficar oculta.)
– … é uma pessoa bonita, inteligente, trabalhadora...
– Uai! Eu de novo? – manifestou-se uma que já havia sido contemplada.
Mais risos.
Levantou-se uma: cabelo pretinho, rosto bonito e sorriso encantador. Elencou um rol de qualidades da sua amiga oculta enquanto eu, no meu canto, olhando para ela, elencava um outro rol de qualidades de musa. Mais abraços, presente, beijos e foto.
Todas presentearam e foram presenteadas. A conversa voltou a rolar solta e ruidosa, ao som de brindes, talheres e vozes em alarido. Mesmo mastigando, as bocas ainda encontravam espaço para as palavras.
Pedi a conta e fui embora. Não fui notado. Mas a missão do cronista não é ser notado, e sim notar. Notei e anotei. E saí de lá com a minha crônica prontinha. Ela chegou até mim e dispensou o que armei, revesti e convoquei. Veio espontânea e simples, cheia de vida e encanto, grande e terna, igual noiva entrando na igreja.
É assim que a minha crônica deve ser, do jeito que elas falaram: sempre nova na turma, em constante evolução, alegre espaço de confraternização de almas... Tudo do jeito que essas minhas amigas ocultas me mostraram. Elas, sem saber, pegaram em minha mão e traçaram as minhas linhas.
As amigas ocultas
13 de Dezembro de 2011, por José Antônio